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Resenha literária com Guarnier: Sarau Rua

 

   Nas páginas policiais, quem nunca ouviu falar da Baixada Fluminense? Uma periferia estigmatizada por sua histórica violência recorrentemente explorada pelo sensacionalismo jornalístico, tornando-a uma das mais temíveis regiões do estado, a Baixada iniciava seu histórico de violência e depreciação lá no início da colonização, quando era habitada pelos índios tamoios que receberam apoio dos franceses contra a invasão portuguesa, mas que foram derrotados nas aldeias das terras baixadenses, terras que, após isso, foram chamadas pelo padre José de Anchieta de “a nação dos derrotados. Todo esse histórico corroborou, logicamente, para a discriminação dos habitantes daqui, pois aquele que é morador da região sabe, que quando se fala “Moro na Baixada”, quem não a conhece, já lança olhares que denotam expressões como: “ai meu Deus, é bandido!” à “Coitadinho, mora muito mal!”. Como morador, afirmo: a violência e a infra-estrutura não são nem piores e nem melhores do que a da maioria das demais cidades do estado, inclusive de grande parte da capital. Que fique claro e, para que essa coluna não vire um “tratado sobre tudo de ruim na Baixada Fluminense”, falaremos sobre a grande efervescência cultural e artística baixadense.
   Não seria exagero afirmar que a baixada foi habitada por pessoas vindas de muitas partes do mundo, porém, para andar num terreno mais seguro, podemos certificar que aqui tem gente nascida desde o Oiapoque até o Chuí. A bem da verdade, a Baixada é um caldeirão. Sim, um caldeirão com um emaranhado de tudo e todos dentro, e essa mistura de culturas, consequentemente, beneficia a produção das Artes, por exemplo, pois acaba se tornando um processo antropofágico de produção de Arte que nos proporciona variadíssimas e originais manifestações artísticas em todas as suas linguagens existentes. Do Funk à erudição dos concertos clássicos. Do Passinho ao ballet. Dos Sonetos de Camões, aos versos mais rasteiros dos poetas que brotam a cada dia mais afiados nos saraus dos bares, praças e Ruas baixadenses. O início e o fim se encontram aqui. Somos “O coração que bate fora do peito-capital…”. Somos a Baixada Fluminense. Como artista baixadense há 15 anos, sempre a percebi como uma “mola encolhida” em relação ao seu potencial total artístico. Subjugada pela capital e exportadora de seus artistas pouco valorizados aqui dentro, a Baixada conhecia uma pequena parte do que produzia artisticamente, a representação artística ficava limitada às “escolas” de Samba e alguns medalhões regionais que, esporadicamente, ocupavam páginas de jornais, pequenas participações na TV e reality shows. Essa pouca valorização também é uma conseqüência do que se entende e se reconhece por Arte dentre os moradores da BF, pois o “artista” não é posto como um trabalhador comum – especialmente comum – e sim uma celebridade, ou até mesmo divindade, que obrigatoriamente deve aparecer na televisão e tocar no rádio. Às vezes, diante de algumas falas que ouço, penso que a figura do que é ser artista aqui, para a grande maioria, ainda é um quadro do Tarcísio Meira com a Glória Menezes na estante da sala, e um vinil do Roberto Carlos à lá Jhon Travolta num canto, porque o toca discos não funciona mais. Um exagero? Talvez!
   Porém, após as grandes manifestações de 2013, comecei a ter notícias de um sarau em Nova Iguaçu, e até por ignorância eu chamava de “Sarau Cinco”, pois não entendia o porquê do “V” e interpretava como um algarismo romano, posteriormente soube que significava “Viral”. Ainda sim só fui ter contato com o “V” em agosto de 2014 e uma necessidade se instalou: “Nilópolis precisa de um espaço artístico independente.” Eu balbuciava pensamentos e reclamações altas e conversava com Elizabeth Gomes sobre a falta de apoio aos movimentos artísticos, pois nessa edição do Sarau V o tema foi “Ação no Território”, e houve muitas reclamações de coletivos sobre perseguição policial, política e falta de apoio público, então num dado momento, um senhor morador de Rua pediu a vez no microfone aberto e cantou a música “O Menino da Porteira”. Resumo: O cara teve sua casa invadida, sua sala desarrumada e ainda recebeu a todos com o melhor que poderia dar. Ali nasceu o verso lema do Sarau RUA “O Amor que a RUA dá, só quem vive a RUA sente” e com ele, também nascia o Sarau RUA.

Sarau RUA, o nascimento. 

   Após dias de conversas com o poeta Victor Escobar, falando da necessidade de um movimento artístico independente em Nilópolis, e sobre os moldes de como fazer isso, apresentei a ele, via whatsapp, um nome: RUA. Simples, direto e que contemplasse tanto as dificuldades, quanto as benesses de uma ressignificação do espaço público. Em princípio achamos que já haveria algum movimento artístico com o mesmo nome, mas na época só existia o “Coletivo RUA” dos militantes do PSOL, uma proposta político-partidária e isso não nos limitava. Foi então que sugeri nos reunirmos com mais lideranças em busca de apoio e criei um grupo no whatsapp que contava com o Cineclube Buraco do Getúlio (Diego Bion e Luana Pinheiro), Coletivo Poesia Segunda Pele (Camila Senna), Pó de Poesia, Sarau de Gênero Fulanas de Tal e Centro Cultural Donana (estes três representados na figura da poeta Ivone Landim), Sarau do Escritório (Alex Teixeira e Rebeca Brandão) e Sarau V (Mateus Carvalho e Janaína Tavares), mais a poeta Elizabeth Gomes, produtora da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu e o poeta Victor Escobar. Já nas conversas virtuais apresentei a logomarca e recolhi alguns poemas para a composição do primeiro fanzine do RUA que seria feito à mão, com caneta e papel – o Rua foi pensado para ser produzido com os mínimos recursos disponíveis, por isso o fanzine feito à mão com caneta e papel e a utilização do megafone para a amplificação das vozes. O encontro aconteceu no Bar Amarelinho de Nilópolis e ali, Elizabeth Gomes e Victor Escobar se juntaram a mim para formarmos o núcleo duro do Sarau Rua que já aconteceria dali a dez dias, dia 20 de dezembro de 2014, às 19 horas, sob as câmeras da Central de Monitoramento da “Cidade mais monitorada do Brasil” – título ostentado com orgulho pela gestão municipal- na Praça dos Estudantes, Centro de Nilópolis.

   Desde então o Sarau RUA ocupou a 18 vezes a Praça dos Estudantes e agora migrou para a Praça Antônio Flores em Nova Iguaçu e continua impactando o imaginário e o espaço público da nossa riquíssima Baixada Fluminense.

   Além da Elizabeth Gomes, Victor Escobar e eu que somos fundadores, além de todos os artistas que se reuniram no bar Amarelinho há mais de dois anos atrás, o RUA também contou em sua produção com outros artistas e produtores da BF que foram, e são, parte da História do Sarau. São eles: Luiza Bastos, Rennan Cantuária, João Léllis, Catu Gabriela Rizo, Ivone Landim e Mariana Belize.

Agora vamos de Poesia!?

Ganga Zumba
chora sozinho
lágrimas salgadas
nas madrugadas
de lua cheia
em frente à praia
de Cruz das Almas

Virgulino
o paladino
botava medo
até mesmo
sem cabeça
na república
açucareira

a esperança
vem e vai embora
mais depressa
que o sol
de Massayó

será que a
antropofagia
conseguiria
salvar a alma
de alguém
hoje em dia?

-Victor Escobar

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Eu poderia largar o cigarro
e em passos largos
me largar de cabeça
no teu peito

Eu poderia
em vilas gaivotas
acidentadas
ou portos brancos,
velhos
a(r)mados
fodidos
e usados
Abrir a janela ao lado
pro vidro corrente de ar
e quebrar com um só impulso
no pulso-coração
o cunho da estrada
voando baixo
nas linhas brancas
ou me arrastando
pelas sujas de bordô e carmim

Eu poderia até mesmo
te cobrir
com meu já empoeirado
manto carmesim

Poderia
em toda via
secar o viável viés
de naufragar o desejo
de morar aos teus pés

Poderia quiçá
no todo do ódio
que te corrompe o sutil codinome
Morrer de desejo
de pavor
de terror
na ira da angústia
de suprir tua fome

Quebrar os limites
e também a gaiola
sufocar com as correntes quebradas
o todo do mal que te apetece

Eu poderia tudo isso

Se com sorte
algum dia
com teu andar-vôo
nas minhas linhas-letras-tortas-poesia

Você também me pudesse.

– três (1/36)
– Elizabeth Gomes

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Quero passear
Quero num domingo de outono, passear pela cidade
andar pelos becos sujos do centro
e descrever em poesias suas igrejas lotadas de fiéis do aos domingos
quero pular as pernas do mendigos …
e negar-lhes esmola
Quero fechar o vidro do carro
com medo de ser roubado pela criança negra do sinal,
mas fazer uma oração semi-sincera pedindo que alguém tenha mais coragem que eu e compre suas balas
quero chutar as garrafas com restos de cola de sapateiro
com meu sapato de trezentos reais e agradecer a Deus por tudo que tenho
Quero exibir minha carteira Louise vitton
quero que faça frio para estrear minha jaqueta Levis
eu quero pisar na lama com minha bota cara
e quero sentar na calçada do CCBB
para ler desdenhoso alguns poemas Nelson
vou arrancar dos bolsos uns trocados e comprar um folhetim
oferecer um cigarro caro do meu e fumar junto fingindo rir pensando:
“Queria ser poeta, mas não igual a esses daqui.”
Depois me despedir com um aperto de mão semi-sincero
entrar para ver uma exposição que não entendo,
mas fazer cara de semi-inteligente
olhar em volta atrás de uma universitária semi-bonita
fingir um interesse, me sentir semi-centro das atenções por uns minutos
e tomar um café semi-tranquilo
pensando que eu queria ser isso, mas sou aquilo
ir embora sozinho, porque é chique ser introspectivo
andar a pé por uns metros para ser visto
esvaziar os bolsos cheios de papéis de bala e de bobo
entrar no meu carro
esperando que minha arrogância saia num arroto
acelerar sem sair do lugar
só para me olharem
sair em disparada na contramão para de mim falarem:
“viu aquele sujeito num carrão?”
dirigir semi-satisfeito
me sentindo o próprio presidente semi-eleito
“Temer, eu sei o que é ser semi-querido, quer me ligar, amigo?”
Homem de bem este senhor!
no caminho, num muro pichado
fotografo no meu Iphone
“Mais amor por favor”
ponho na minha foto de capa e
assisto completamente satisfeito um bombardeio na Síria certo de que a justiça está sendo feita por homens de bem como Temer, Trump e eu
Semi-honestos
Semi-bons
Semi-deus
#guarnier

Guarnier

página do Sarau RUA no facebook: https://www.facebook.com/SarauRUA/

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“Você tem fome de quê?

Você tem sede de quê?

A gente não quer só comida!”

 

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