Em julho passado tive a oportunidade de participar de uma oficina relâmpago com o escritor pernambucano Marcelino Freire. Passado o momento fomos com mais dois amigos almoçar e bater papo sobre a vida e, inevitavelmente, literatura. Uma das perguntas que fiz era sobre como ser escritor em um Brasil cada vez arisco à cultura. Ele pediu que olhasse ao redor, que buscasse caminhos. Aconselhou que aprendesse com os que chegaram antes e que percebesse a criatividade que temos que aprontar hoje.

Marcelino foi tutor de Aline Bei, escritora de Ribeirão Preto, sensação com o livro profundo e experimental, O peso do pássaro morto. Curti duas publicações no Instagram da escritora que logo me enviou mensagem doce perguntando se eu gostaria de comprar o livro. Em três dias trocamos nossos livros pelos Correios. Em março, Aline esteve na Primavera Literária Brasileira na França, em Portugal e não sei mais onde, já que não fico investigando as andanças da menina. O importante disso tudo é que ela demonstrou um caminho de divulgação do seu livro e como é importante participar de oficinas de escrita, tão disseminadas pelo Brasil.

O outono, como bem diz a canção, “é sempre igual, as folhas caem no final”. No ciclo, as folhas renascem na primavera. Principalmente em regiões de climas temperados, onde as estações do ano são bem definidas, primavera significa o alvorecer de novos tempos. É a vida renascendo após um rigoroso inverno. A literatura, não muito distante, também tem suas estações. Eu mesmo tenho meus rigorosos invernos sucedidos pelas primaveras. Estive desgostoso com a literatura até encontrar Marcelino e sua energia.

Particularmente, meu inverno conversa com os acontecimentos. Não é possível ignorar as crises, ideológicas e econômicas, e o quanto influenciam nas rotinas. Os livros mais vendidos são, no meu ponto de vista, questionáveis. E nem sou o mala que aponta o que é ou não livro de qualidade. Também até levo em consideração que um livro de celebridade de internet com linguagem fácil pode servir de estímulo à leitura em uma população que não tem esse costume. Minha crítica é a insistência nisso. Um, dois, cinco livros assim. Anos assim. Em paralelo à luta por um lugar ao sol, por disseminação dos próprios livros, por alcance de debates sobre conteúdos e não sobre capas. Cheguei à conclusão, com o amigo escritor Jonatan Magella, que um dos problemas contemporâneos da literatura é que, além de editores e livrarias, autores andam tratando os livros como se fossem objetos de decoração. Os mais importantes devem ser sempre o texto e o leitor e não o livro como um sapato a ser vendido.

Primavera é a perfeita analogia da renovação. Há cerca de dez anos o consumo de arte, isso incluindo a literatura, era feito de forma linear. As grandes mídias abraçavam, os grandes prêmios cercavam, livros em livrarias e em listas de mais vendidos, críticas em jornais com indicação de leitura, escritor em um bom caminho. Músicas tocavam nas rádios e nos programas de tv e aí caminhavam para o sucesso. Hoje muita coisa já mudou. O consumo musical, por exemplo, é realizado atualmente por iniciativa do ouvinte. Busco o que quero ouvir, inclusive o tipo de novidade que desejo experimentar. Antes era apenas um receptor. É importante a literatura entender este conceito porque como leitor também tenho o mesmo comportamento.

Outro dia me indicaram uma escritora iguaçuana chamada Ana Paula Maia. Comecei a ler o livro Carvão Animal e estou gostando bastante. Não sei se a encontraria entre os livros de uma livraria tradicional. Ao terminar o livro posso encontrá-la nas redes e falar sobre a cena do velório, por exemplo. Assim como conversei com Aline Bei sobre a solidão da sua personagem ou como Marcelino me convidou para participar de sua oficina por saber que estava visitando a cidade onde eu moro. Essas novas dinâmicas proporcionam coisas antes inimagináveis. Conheci um autor uruguaio experimentalista chamado Dani Impi através do Instagram. Fui conhecido e convidado para palestras em escolas através do Facebook. Viram meu livro, souberam que se tratava de contos na Baixada Fluminense e iniciaram contato por ali.

O contexto pode ser visto sob diversas óticas. Com pessimismo, visto que o mercado editorial anda em crise, com diversas livrarias tradicionais atrasando pagamentos às editoras. Com otimismo, ao se perceber que as redes, agregando às novas tecnologias, se apresentam como grandes potencializadoras da literatura. Mesmo que as livrarias acabem, o livro perdura. As tirinhas, por exemplo, antes restritas às folhas de jornais para um público reduzido hoje são difundidas com um alcance muito maior através do Instagram e do Facebook. Novos artistas surgem com essa visibilidade. Isso sem falar de ferramentas como Skoob, Wattpad, Amazon, entre outras, que renovaram a dinâmica entre escritor, texto e leitor.

Mesmo que museus sejam tomados por fogo, não tem como impedir que a primavera chegue. Mesmo que ser escritor continue sendo tão arriscado, não tem como impedir que a primavera chegue. Essa primavera tem demonstrado o que parece óbvio: não é sobre vender livros, é sobre ler livros. Como na França de 1848, a Primavera dos Povos de trabalhadores parisienses que derrubaram a Monarquia de Julho e instauraram a Segunda República. Ou como na Primavera Árabe, uma revolução popular ocorrida em países como Tunísia e Egito. A revolução vem assim, após um rigoroso inverno. Se bem que é no inverno que a gente parece ler mais. Mas é na primavera que a gente recomeça. Já que esse jardim está em cinzas que os livros sejam de novo sementes, adubo e flores.

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