Todos os dias quando acordo tenho que escolher o que vestir. É sempre um desafio e tanto, já que depende do humor, do clima, da pressa ou até mesmo do que chamam de “dress code”, uma espécie de censor que lhe diz: use isto ou aquilo para esta ou aquela situação.

Hoje, optei em sair com a minha camiseta do Bukowski. Sei lá, estou meio nem aí para ninguém. Malha cinza e texto desesperançoso. Ao entrar no elevador, cruzo com um casal de vizinhos: ele, de tênis de corrida, fone de ouvido e uma camiseta customizada “no pain, no gain”; ela, de calça mega colada e meia lá em cima. Deduzo rapidamente que são fitness. Olhando para minha barriga penso que preciso da ajuda deles. Mas, ao final, apenas dou o bom dia protocolar e sigo em silêncio olhando para o chão, teto ou qualquer lugar que se olha quando estamos em um elevador. Sigo pelos corredores e, na saída do portão, cumprimento o porteiro, que por sua vez usa uma calça social preta e uma camisa de botão branca com a logo do condomínio.

Aguardo no ponto de ônibus e observo as pessoas. À espera pelo ônibus me percebo um bicho fofoqueiro. Ali, naquela calçada, a partir das suas roupas e trejeitos, descubro várias tribos, diversos grupos de pessoas. Como Oscar Wilde diz: “Definir é limitar”, mas é inevitável não nos encaixarmos em algum lugar. Mesmo que seja o de não se encaixar em lugar algum, entende?

Bom, voltando ao ponto de ônibus, na sequência, um homem de terno e um livro com capa de couro preta, ao meu ver seria uma bíblia. É como se ele me dissesse: estou indo cumprir a minha fé. À frente, uma mulher de short jeans e blusa soltinha do tipo sou-rata-de-praia e o verão é nosso. À esquerda, um rapaz com calça de um material que não sei o nome, camiseta xadrez, barba grande e ar de lenhador dos tempos modernos ou, talvez, Hispter mesmo. Por fim, uma menina aparentando uns 17 anos, com mochila, all star e jeans, segue seu sonho em passar para o Enem.

À 30 metros do ponto tem um sinal de trânsito. Uma fila de pelo menos 10 carros se forma e o meu ônibus vem na sequência. Eu espero ansioso a abertura do sinal para poder adentrar ao ar condicionado mais esperado da manhã.  Troco olhares com um jovem dentro de um HB20, óculos escuros da Tommy Hilfiger e camisa polo da Ralph Lauren dão o tom. Sinto ele me dizendo: corre lá, que eu tô com a vida ganha.

E, assim, começo mais um dia de trabalho. Com vários novos amigos que não me conhecem. Ou conhecem?

cronicas

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