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Eu leio diversidade: 5 livros para além de uma temática LGBT

Eu leio diversidade: 5 livros para além de uma temática LGBT

Ser consumidor é também ser um agente de transformação e fazer com que a representatividade ganhe força e vez é sim papel de quem consome. É necessário disseminar, espalhar, conscientizar. Pensando em como representantes de minorias são calados por serem o que são, selecionamos 5 livros que vão muito além da temática LGBT e que vai te ajudar a refletir e te dar força para acreditar que sim, você pode ajudar a construir um mundo mais legal e mais tolerante. Dia 25 de março é dia de relembrar que todas as formas de amor importam, dia de relembrar que causas existem para que você também seja livre e possa falar o que pensa e que acima de tudo, é necessário resistir. Em tempos sombrios é fundamental não desistir e resistir. Sempre. #mariellepresente

1. A história de Júlia e sua sombra de menino – Christian Bruel

Questões sobre produção de gênero, identidade e o “ser diferente” tratado de forma sensível e divertida é o trunfo dessa obra. Refletir sobre imposições feitas pela sociedade e abrir espaço para que as pessoas sejam o que são é uma prática de cidadania que deve ser ensinada e discutida entre o cidadão em formação. Clássico de 1973, o livro traz um texto poético e considerações sobre o crescer, preconceitos e respeito entre pessoas.
Sinopse: Os pais de Júlia a criticam muito, sempre dizendo que ela se parece com um menino, no jeito, nas roupas etc. Numa manhã, a garota percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto, repetindo todos os seus gestos. Júlia se sente triste e acaba questionando sua própria identidade.

2. Olívia tem dois papais – Marcia Leite

Como não falar de diversidade sexual entre crianças? Que tabu é esse em pleno século XXI? Sim, devemos responder perguntas sobre sexualidade, trazer para pauta famílias homoafetivas, produzir livros onde não essas famílias não seja vistas apenas como “diferentes” e sim como mais uma possibilidade de construção familiar. Crianças não viram adultos intolerantes do nada, elas repetem comportamentos e pensamentos. Responder uma pergunta direta é matar o dragão direto no coração, é acabar com monstros debaixo da cama e dormir em tranquilidade. Acredite, criança não precisa de teorias mirabolantes para entender coisas simples. Esse livro é também uma possibilidade de se discutir gênero dentro de nossa sociedade.
Sinopse: Olívia é uma menina esperta, que sabe bem o que quer e tem plena noção de como usar algumas palavras para conseguir o que deseja. Quando tem de ficar sozinha enquanto os pais trabalham, ela diz que está muito “entediada”. Como não gosta de ver a filha “entediada”, papai Raul para imediatamente de trabalhar e, quando percebe, já está deitado no chão ao lado dela, brincando de filhinho e mamãe, ou cercado por um monte de bonecas.

3. Viagem solitária – João W. Nery

É necessário desmistificar o universo trans. João W. Nery, o primeiro homem transexual que realizou a cirurgia de redesignação sexual no Brasil em plena ditadura militar (1977) é um relato sobre a luta de viver 30 anos sem expor sua identidade trans. A obra narra as dores e coragem de uma pessoa que precisa se reinventar para encontrar seu lugar no mundo, uma ressignificação em busca de uma vida menos solitária. Leitura obrigatória.
Sinopse: ‘Viagem solitária’ conta a história de João W. Nery, transexual masculino. Na obra, ele narra a infância triste e confusa do menino tratado como menina, a adolescência transtornada, iniciada com a ‘monstruação’ e o crescimento dos seios, o processo de autoafirmação e a paternidade.

4. Azul é a cor mais quente – Julie Maroh

Uma história de amor e descoberta. A simples linguagem universal do amor. Apenas o desabrochar e toda poesia envolvida nisso.
Sinopse: Clementine é uma jovem de 15 anos que descobre o amor ao conhecer Emma, uma garota de cabelos azuis. Através de textos do diário de Clementine, o leitor acompanha o primeiro encontro das duas e caminha entre as descobertas, tristezas e maravilhas que essa relação pode trazer.

5. Onde andará Dulce Veiga? – Caio Fernando Abreu

Intimista, o texto desse livro passa por várias ambiguidades sexuais e revoluções comportamentais, uma busca por si. Poético e intenso, Caio Fernando Abreu é uma voz que se debate sobre a efemeridade da vida e este livro é um clássico para se entender como a homossexualidade/bissexualidade era vista e sentida em período de ditadura no Brasil.
Sinopse: Essa obra é a segunda incursão do autor pelo gênero romance. Tendo como coadjuvantes os universos da redação jornalística e da música popular dos anos 1980, esta ficção-verdade desvenda o desejo reprimido e o tesão liberado, a convivência com um mundo opressivo e a maneira de fugir dele.

 

Livros podem sim ser sua  melhor defesa para conversas não desejadas. Toda vez que você cruzar com alguém cheio de ódio contra minorias, com ranço para os pequenos holofotes que estamos conseguindo sobre a diversidade sexual ou com frases prontas e cheias de clichês/desconhecimento sobre o assunto você pode:
  1. citar uma frase de algum livro de nosso top 5;
  2. virar para o lado e colocar um desses livros sobre o rosto;
  3. dar um golpe ninja na cara dessa pessoa com o livro (brincadeira, somos contra violência);
  4. levantar e ir embora porque perder tempo com haters não leva a lugar algum;
  5. com paciência, debater abertamente sobre o assunto, tentando trazer à tona reflexões e consciência sobre tolerância, amor e cidadania.

Qual estratégia você mais usa? Tem alguma outra dica? Conta pra gente nos comentários! =)


Hanny Saraiva

A Metafísica de John Donne

A Metafísica de John Donne

John Donne foi um poeta jacobita inglês e pregador que viveu entre 1572 e 1631. É um dos maiores representantes dos poetas metafísicos de sua época. Em 1624 ele escreveu uma série de reflexões as quais foram publicadas em formato de livro com o título Devotions upon Emergent Occasions. E foi nesse livro que ele publicou um dos seus mais famosos textos: Meditação 17 que ficou conhecido por frases como “nenhum homem é uma ilha isolada” e “por quem os sinos dobram”. Tomei conhecimento dessa última frase anos atrás, sem saber quem era autoria, através do Raul Seixas que batizou o 9º álbum da carreira e uma das músicas com esse título. Antes do Raul, o escritor Ernest Heming­way, em 1940, publicou sua obra “Por quem os sinos dobram”. Assim que pude ler o texto que inspirou o disco do Raul e o livro de Hemingway fiquei encantado. Principalmente por John Donne ser um individuo que viveu num tempo tão distante do nosso. Sempre que leio esse texto fico fascinado com essa atemporalidade da arte, da poesia. Um homem que viveu entre o século 16 e 17 escreve um texto que vai tocar profundamente um homem do século 21. E isso faz com que eu pense em um outro texto de um outro escritor, Eduardo Galeano, publicado no seu O Livro dos Abraços, mas isso fica para uma outra hora. Por ora, fiquem com esse episódio de L.Í.R.I.C.O dedicado a John Donne:

Desconstruindo Maca-béa – quem?

Desconstruindo Maca-béa – quem?

Imigrante. Subalterna. Invisível. Quem é mesmo Macabéa?
Ela é a representação de uma sociedade de imigrantes. Em um mundo contemporâneo onde Trump afirma livremente que a fronteira utilizada pelos mexicanos é “um aspirador, levando as drogas e a morte diretamente aos EUA”, tocar na questão de imigrantes parece atemporal. Escrita em 1977, A hora da estrela, de Clarice Lispector nos presenteia com Macabéa, uma personagem jovem que passa pelo processo de invisibilidade e emudecimento. Sua vida é narrada através do fictício Rodrigo S.M. Órfã, ela vai para o Rio de Janeiro morar em uma pensão – após a morte de uma tia que a humilhava – e trabalhar como datilógrafa e continuar submissa – agora em relação ao chefe e às relações sociais/amorosas que se envolve.
Parece a história da sua vizinha? Pois bem…
Para os imigrantes têm-se os piores trabalhos e perseguições que podem causar riscos até de perda de vida. No documentário de Denise Garcia Bergt sobre refugiados na Alemanha, vemos por exemplo que o país abriga sim refugiados, mas os deixa confinados em espaços que não são públicos, limitando a liberdade de ir e vir. Macabéa é livre? Está integrada à sociedade?
Afinal, Macabéa é quem?

Ela é “inocência pisada, de uma miséria anônima.”

Macabéa apenas existia, sem desejos, sonhos, perspectivas de mudança. Excluída como muitos brasileiros que saem de suas cidades para outras, ela é fruto de uma desigualdade social que a aliena. Vai de um estado à outro, se locomove, mas continua invisível e ingênua, sem poder falar, sem saber como se expressar. Carrega junto de si sua miséria, que não tem rosto, mas está presente em seu corpo e coloca em questão a situação de vários brasileiros que andam conforme a massa, perdidos.

Ela é aquela que “Precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos redondos vácuos que havia nela”.

Macabéa é símbolo de uma sociedade que copia a moda do Instagram, que compartilha correntes porque um grupo a enviou, que repete movimentos, gestos e selfies do outro para tentar fazer parte de um todo. Ela é uma tentativa de desabrochar, tentando a todo custo se inserir para que não tenha que ser diferente.  Mais de quarenta anos se passaram e ainda cruzamos com muitas Macabéas por aí.
Ela é aquela que sabia que “Pois que vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”.
Macabéa é uma peça no maquinário, onde o patrão é Deus e o funcionário um reles contribuidor funcional, descartável. Esse botão só será aceso quando ela descobrir sua identidade. Quando a construir. Como está excluída e marginal, só através do encontro com o EU SOU é que encontrará o botão de acender. Você já se perguntou quem é você hoje? Como anda a construção de sua identidade? Ao revelar o abandono e a violência vivenciada por Macabéa, Clarice Lispector nos mostra a sensação de desajuste e nos faz pensar sobre os direitos básicos individuais, no valor da cidadania, na importância de cada um, em como se constrói identidades.

Ela é aquela que não percebe que “Porque há direito ao grito.Então eu grito” mas que nos deixa, como leitores, com vontade de gritar por ela.

Gritamos.

gif de frito


Pensando na importância da personagem dentro da literatura brasileira, a camiseta “Maca-béa” é uma homenagem a todas as Macabéas que resistem à dureza da vida e que esperamos que possam gritar bem alto sua Hora da estrela.


Hanny Saraiva

Seguindo os passos de Rosa Luxemburgo: o que uma escritora deve fazer para batalhar por seu ideal

Seguindo os passos de Rosa Luxemburgo: o que uma escritora deve fazer para batalhar por seu ideal

Ousada. Revolucionária. À frente de seu tempo. Rosa Luxemburgo não apenas trouxe luz e polêmica sobre a teoria econômica marxista como também lecionou sobre o assunto e através de suas obras nos mostrou uma mulher sensível e inspiradora. Seus pensamentos podem também ser usados como dicas para você, moça que deseja ser escritora e que vive a encontrar um mundo opressor que te empurra para trás. Escute Rosa, leia mais, aqui vão algumas reflexões que podem te ajudar a batalhar por seu ideal:

“Só a vida sem obstáculos, efervescente, leva a milhares de novas formas e improvisações, traz à luz a força criadora, corrige os caminhos equivocados. A vida pública em países com liberdade limitada está sempre tão golpeada pela pobreza, é tão miserável, tão rígida, tão estéril, precisamente porque, ao excluir-se a democracia, fecham-se as fontes vivas de toda riqueza e progresso espirituais.”

Como trazer à luz a força criadora tendo boletos para pagar, com um governo corrupto que te deixa cada dia mais pobre e infértil de ideias? Primeiramente: lute pela democracia, traga à consciência de quem está ao seu redor que é só através dela que podemos ter algum progresso, use-a em seu dia-a-dia, não permita ser controlada porque disseram que é assim e pronto. Uma vez tendo isso dentro de si, esqueça tudo isso e sente-se em frente a um papel branco: escreva sobre o mundo que você deseja viver, um mundo onde a democracia é respeitada, onde não há golpes nem jeitinho brasileiro para tudo. Permita-se imaginar e acreditar no que está imaginando. Improvise. Deixe novas formas surgirem. No mundo do papel à sua frente não há pobreza nem miséria, muito menos formas rígidas. Depois que as palavras saírem de você, levante-se e dê uma volta, ou saia para encontrar amigos. Esqueça essas palavras por dois dias. Depois desse tempo, volte e edite suas palavras. Isso é um ótimo exercício para desbloqueios e uma ótima forma para não desistir de seu ideal quando aquele período de “deu um branco” surgir.

“No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguez, como que caminhando por um prado cheio de cores.”

Uma escritora precisa observar, se desligar, se embriagar como Rosa. É preciso que seu coração bata “com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se sob um sol radiante estivesse atravessando um prado em flor”. É necessário uma serenidade interior para que o externo seja capturado, mas que não te derrote nem te abale. Uma escritora é uma catadora de emoções. É preciso coletar, mas não se vestir de emoções. Como fazer isso? Treinando. Treine seu olhar e também treine formas de como se proteger da emoção alheia. Beber a emoção do outro, mas não engoli-la é como ter uma peneira na alma. Isso te trará gás para escrever, mas também não te afundará na emoção alheia. Como fazer isso? Treinando. Ouça histórias do outro de como conseguiu sair da situação X. Converse com outras escritoras. Aprenda com elas formas de ataque e de proteção. Sim, no mundo da escrita muitas vezes precisamos nos defender. Estude sobre trabalho de equipe e faça trocas. Troque com o outro. Troque livros. Troque histórias. Divida momentos. Sororidade. Moças escritoras precisam se unir. Mas acima de tudo, observe de coração aberto.

 “Final do outono, cinco e meia da manhã. A casa ainda dorme – apenas um segundo a mais de sossego, antes do raivoso barulho metálico, estalado, chocalhado das chaves de 500 seres humanos, tal qual uma onda impaciente que arrebenta a represa da calma noturna e invade todos os cantos dessa enorme construção. Só mais um segundo. Nesses últimos sinais da noite moribunda, a senhora consegue enxergar a minúscula silhueta de um pássaro a cintilar lá em cima da cumeeira do prédio, e escutar o seu doce chilrear? É o estorninho que espera comigo o grandioso espetáculo de todas as manhãs. Vamos, está começando! Vê, cara senhora, como além da fábrica de vinagre o céu cinza escuro se tinge de róseo? De repente, um clarão rosa é arremessado para o alto, incendiando toda uma família de nuvenzinhas, cada vez mais forte, até um fulgor abrasador. Metade do céu já está inflamada, espalhando tochas de fogo. E no meio, exatamente sobre a chaminé da fábrica de vinagre, o primeiro raio dourado irrompe fulgurante através da maré rubra.”

Aprenda a descrever. Na passagem acima Rosa estava em uma prisão e mesmo assim ela se permitiu experimentar a vida. Saboreie detalhes, perca tempo vendo nuances do céu, do mar, da montanha, do senhor que passa, da mulher que corre. Imagine. Parece bobeira, mas muitas escritoras não se permitem experimentar. Abrace seu fluxo de ideias. Acredite no que você está escrevendo. Acreditar quer dizer vivenciar aquilo. Um dos principais ingredientes para lutar por seu ideal é a crença de que o material que você produziu tem relevância, pergunte-se Por que escrevo isso? É importante para quem? Mostre seu material para quem acredita em suas palavras. Se você acredita em fantasmas, mostre para quem acredita em fantasmas. Se você acredita em revoluções, mostre para quem está no meio dessa revolução. Dê as caras no mundo. Encontre seu mundo. Basta Googlear.
E por fim, para aqueles momentos de desânimo, ouça a voz de Rosa te sussurrando:
De todos os pontos de vista não faz nenhum sentido, não há nenhum motivo para que você, na incerteza, se aflija, cheia de medo e inquietação. Tenha coragem, minha menina, mantenha a cabeça erguida, fique firme e tranquila. Tudo vai melhorar, é só não ficar sempre à espera do pior!”

Hanny Saraiva

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Uma autora brasileira ficou em primeiro lugar no ranking de livros de suspense sobrenatural na Amazon? Sim, é verdade! A moça ultrapassou – na semana de lançamento de seu ebook – nada mais nada menos que Stephen King e desde que seu livro foi lançado vive voltando para o top 5. Talento e sorte? Não, talento e determinação. Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome” nos deu uma pequena palha de como é ser uma escritora nacional, dicas muito bacanas sobre outras escritoras e curiosidades sobre sua jornada.

A paixão pela escrita surgiu quando ela ainda estava estudando e queria cursar Medicina Veterinária. Para se distrair e sair um pouco da pressão dos estudos técnicos, ela escrevia. E começou a escrever tanto que entrou para o curso, largou a faculdade e hoje se dedica integralmente à arte da escrita. Quando decidiu abraçar a carreira de escritora, a moça foi em eventos para autores e editoras para descobrir como é que se trilhava o caminho. Cursos, perguntas, um contrato com a agência Increasy e muitas horas de treino para aprimorar suas técnicas até surgir “Quando o mal tem um nome”, uma história que acontece na Aparecida dos anos 70, uma cidade erguida no centro de um milagre e entrelaçada com a vida de Marta e sua filha Clara. Dentro desta terra de fé, a “malignidade cresce no coração de uma mãe devota. As orações que a padroeira não atende são feitas agora para anjos caídos. Um demônio atende a prece da mãe e a abominação despertada é tão grande que todos vão pagar pelo seu pecado. O mal só precisava que alguém o chamasse pelo nome e agora está entre nós.” Preparado para entender um pouco mais sobre o que se passa na mente de Glau Kemp?

1.Como foi chegar ao primeiro lugar na Amazon?

Assim que “Quando o mal tem um nome” foi lançado eu tava muito “Cara, esse livro tem que acontecer”. Meu livro é uma mistura de dois livros “Carrie, a estranha” e “O bebê de Rosemary”, aí minha tática foi “Vou lá no Skoob ver quem leu esse livro e  gostou e vou mandar pelo menos 10 mensagens por dia e falar com essas pessoas sobre meu livro. Fiz isso uns 20 dias, mais ou menos 200 pessoas. Pensei: “Se pelo menos 10% disso for ler e comentar na Amazon já tô feita.” Bastante gente foi lá e respondeu e foi isso que colocou o livro em evidência logo no lançamento.

2.Por que escrever literatura de terror/suspense? O que te encanta?

Acho que terror, em especial, não precisa explicar muito as coisas: se você tem poderes, você tem poderes. Eu acho mais fácil fazer a pessoa sentir medo do que ser engraçada. É mais fácil provocar medo. É um lugar comum para mim porque já tive muitas experiências. O terror me deixa mais confortável.

3.O gênero terror pode ser considerado uma literatura de resistência?

Pode ser. Talvez tenham escritores que sejam assim. Mas eu só escrevo para contar uma história.

4.No início desse ano nasceu a Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst), quais suas expectativas em relação à associação?

Vai ser muito importante porque será um grande meio de comunicação, com blogs sérios, maiores, outras mídias, referências para outros escritores, organização de eventos. Uma forma de ter acesso a outros profissionais, importante para essa união.
Estávamos muito soltos e achávamos que éramos menores. A associação te dá essa oportunidade de estar ligado ao que está acontecendo.

5.O que mudou na sua vida depois que escreveu “Quando o mal tem um nome”?

Eu me sinto com mais medo. Eu era mais corajosa. Não medo de coisas sobrenaturais, mas medo de coisas mais reais. Por exemplo, eu sempre fiquei muito tempo sozinha em casa, mas hoje eu tenho mais medo de ficar sozinha em casa. Minha audição aumentou e fiquei mais atenta às coisas que me rodeiam.

6.Que tipo de livro de escrita criativa você considera um ótimo caminho para quem está começando?

Olha, tem um livro bem curtinho do Felipe Colbert, escritor também, e editor da Novo Conceito: “Escreva seu livro agora!” Ele é bem direto, dá a formulazinha de como fazer uma escaleta igual se faz em um roteiro, separando tudo. Eu não sou uma pessoa organizada, não consigo trabalhar assim. Mas as dicas que ele dá são certeiras. A maioria desses livros sobre escrita são de autores de língua inglesa que já dominam a técnica, que vêm da escola já sabendo escrever profissionalmente, já o Felipe dá as dicas para quem escreve em português. Normalmente eu pego também dicas de livros com novos escritores. O último que eu li foi o da própria Cláudia Lemes “Santa Adrenalina”, lançado pela editora Lendary, um manual de como escrever um thriller, dá dicas bem diretas, livro bem fininho.

7.Qual a maior dificuldade em escrever e divulgar esse gênero sendo mulher?

Acho que a maior dificuldade é na hora que você está nos eventos: você vai divulgar seu trabalho e sua aparência é muito mais importante do que seu trabalho. Se eu for postar uma foto com o livro as pessoas vão falar de mim. Eu entendo que são elogios e recebo de coração aberto, é claro, mas é sempre “Linda”, “Você é uma fofa”. Não estão falando sobre o livro, eu estou falando sobre o livro, mas as pessoas estão falando sobre mim. Uma das coisas que mais me fez colocar o livro na Amazon foi isso: as pessoas me conheciam, mas não conheciam o que eu escrevo. Então eu falei: “Cara, eu preciso colocar um livro para as pessoas lerem, porque elas estão falando sobre mim.” O escritor é um tipo de artista que não quer aparecer, eu não quero aparecer, eu quero que meu livro apareça, quero que as pessoas comentem sobre o livro. É impressionante: eu vou num evento e as pessoas vão comentar sobre minha roupa. Sei que é uma forma de carinho dos leitores se interessar sobre outras coisas do meu universo, mas como quero ser uma escritora profissional eu preciso que eles se interessem pelo livro em primeiro lugar. E sendo mulher isso é muito difícil. A primeira coisa que eles percebem é você como figura. E não é só comigo que isso acontece, mas com todas as escritoras. É um desafio que vai continuar para sempre.

8.O que podemos fazer para que mais pessoas possam ler mulheres?

Divulgar. Eu acho que é um pouco também missão de quem já tá aí um tempinho. É você dar oportunidade de ir lá e falar quando gosta, às vezes você não tem noção do poder que tem em atingir pessoas. Às vezes fazendo um comentário, uma foto, você pode dar 50 leitores para aquela escritora. Tenho como preceito falar sobre autoras que li. Acho que faz parte. Você deve isso. Porque alguém já fez isso por você. Acho que todo tipo de ajuda é bem-vinda.

9.Como estamos falando de mulheres na literatura, quem você destacaria nesse universo?

A primeira mulher que vem à minha mente é a Karen Alvarez. Quando decidi escrever um livro de terror eu entrei na Amazon e pensei “Quem é que tá fazendo sucesso?” A primeira pessoa que apareceu foi ela,  que produziu bastante coisa de terror. Tem outras escritoras que admiro muito como a Claudia Lemes, li recentemente “Cartas no corredor da morte”, que é um livro que fiquei embasbacada,  fiquei assim: “Como esse livro não é conhecido?” Tem também a Juliana Dagle, além de ser muito talentosa, ela produz em velocidade inacreditável, boas histórias, livros densos e em pouco tempo. Tem muita mulher trabalhando para o lado do suspense, terror. Acho que 2018 vem muita coisa boa aí.

10.Se você pudesse ser um livro, qual seria?

Eu seria um livro que tá na moda agora, eu seria IT – a coisa, que é um livro grande e foi meu concorrente direto durante um bom tempo, pelo menos nesse início de lançamento, porque sucesso é muito passageiro. IT – a coisa é um dos livros preferidos, é uma história tão completa e complexa, fico imaginando o que estava passando na cabeça de Stephen King quando estava escrevendo. Talvez seja um clássico daqui a algumas décadas, sempre vai dividir opiniões. Eu gosto dos detalhes nesse livro, nos outros não.

11.Qual sua maior referência literária? Se pudesse um dia sentar com essa pessoa numa noite sombria, o que perguntaria?

Eu demorei muito tempo para ler Frankenstein de Mary Shelley. Ele é muito atual e fico pensando como foi para essa mulher escrever esse livro naquela época. Eu perguntaria se o livro mudou a vida dela de alguma forma, a forma como ela pensa, sabe? Porque em todo livro que eu escrevo, sinto que aconteceu alguma coisa diferente comigo quando ele termina.

12.Como costuma ser um dia típico de trabalho – como escritora – para você?

Eu escrevo diariamente e mensalmente escrevo muitos contos. Acordo umas 8h, tomo café, assisto jornal, vou para redes sociais, checo meu livro, se tem comentário novo, é um vício. 9h já tô escrevendo, se estiver muito intenso vou embora, às vezes nem almoço. Não sou uma pessoa organizada, mas eu tenho esse sonho de ser uma pessoa organizada, ter um horário certinho.

 

Apesar de trilhar seu caminho pelo terror, Glau Kemp está trabalhando em uma nova obra voltada para o público de chick lit: “O clube dos amigos imaginários”. Guarda esse nome. Mulheres na literatura que adoram desafios, quem não curte?

Para conhecer mais sobre o livro de terror da autora é só clicar aqui.

Hanny Saraiva

Que tiro foi esse? 5 livros que moldaram nosso olhar sobre o Rio de Janeiro

Que tiro foi esse? 5 livros que moldaram nosso olhar sobre o Rio de Janeiro

Uma bela cidade, um povo caloroso, uma história repleta de marcos literários. O Rio de Janeiro comemora hoje, 1º de março, 453 anos em meio a caos, poesia e encantos. Nesta data tão especial, separamos 5 livros que moldaram nosso olhar sobre o Rio de Janeiro e deixamos no ar a pergunta: o que é o Rio de Janeiro para você?

1. Cidade de Deus, Paulo Lins

O livro escrito por Paulo Lins, mostra as tumultuosas mudanças que aconteceram no espaço da Cidade de Deus em meio ao tráfico de drogas e violência. Apesar da beleza natural da cidade ser tombada pela Unesco como patrimônio histórico, a obra é de vital importância por mostrar um Rio de Janeiro repleto de problemas, com o foco pela luta por poder.

2. O cortiço, Aluísio Azevedo

No fim do século XIX a cidade possuía inúmeros cortiços e isso inspirou o autor a retratar a precariedade dessas moradias, se tornando uma das maiores obras naturalistas, descrevendo os conflitos, costumes e as relações sociais dos cariocas. Uma profunda denúncia sobre a exploração do homem pelo homem e seus preconceitos raciais.

3. A hipótese humana, Alberto Mussa

Baseada num caso real, A hipótese humana “parte de um assassinato numa casa de correção no bairro do Catumbi, onde mais tarde foi erguido um presídio no Rio” em 1854. Quarto romance do “Compêndio mítico do Rio de Janeiro” que pretende fazer um “estudo amplo da cidade”, a obra destaca o universo da capoeira e as hierarquias. Uma investigação sobre o crime que também mapeia o Rio que se construiu nas ruas em meio a crimes.

4. Dom Casmurro, Machado de Assis

Muitos consideram esta a obra-prima do autor. O livro narra as lembranças de Bento Santiago no bairro de Engenho Novo e foi imortalizado pela desconfiança de Bentinho em relação à traição de sua amada Capitu – afinal ela traiu ou não? – tendo como pano de fundo o Rio de Janeiro do século XIX e toda sua peculiaridade.

5. A alma encantadora das ruas, João do Rio

As 37 crônicas e reportagens de João do Rio mapeia o que pode ser considerado o símbolo do Rio de Janeiro: os personagens que vivem a rua. As ruas da cidade são compostas por seus personagens que andam pela cidade e que muitas vezes são invisíveis, como moradores de rua, meninos, trabalhadores que exploram o meio. Um retrato construído em meio à poesia e resistência.


Conhece algum outro livro que é fundamental para construir nossa visão sobre o Rio? Conta pra gente nos comentários! =)


Hanny Saraiva

 

Arroz, feijão e cinema: Três anúncios para um crime e suas 7 indicações ao Oscar

Arroz, feijão e cinema: Três anúncios para um crime e suas 7 indicações ao Oscar

Nem só de feijão e arroz um cinéfilo brasileiro vive, sua alma necessita encontrar aquele filme que traga arrepios no cinema, que o faça vibrar na cadeira e que seja motivo de reflexão. Premiado com 4 Globos de Ouro (filme, ator coadjuvante, atriz e roteiro), será que Três anúncios para um crime é um forte candidato na corrida pela estatueta do Oscar?

 

Sinopse: inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby, responsável pela investigação.

 

Sim, o terceiro maior líder de indicações (sete indicações: melhor filme, melhor roteiro original, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor edição) nos chamou atenção por dois elementos que se destacam de forma espetacular: o roteiro e a atuação dos atores. Se não fossem por eles, a trama seria clichê e batida, mas como tudo se reinventa, o que nos fascina é a forma como o diretor nos apresenta à história e isso se deve:

1. Ao roteiro

Os diálogos de Três anúncios para um crime tem um quê de Beleza Americana: está acontecendo uma tragédia em cena e o narrador está lá fazendo piadas, nos deixando perplexos, um mix de sentimentos entre o que se vê e o que se ouve. Sarcasmo, aquele riso nervoso e toda uma construção que nos leva a uma montanha-russa de emoções: ora temos empatia por um personagem, ora o odiamos, ora o entendemos, ora o repugnamos. A estrutura narrativa é construída através de um humor surrealista que aborda como o radicalismo não tem fundamento algum, palpado em um rancor que está sempre no outro.

2. À força das atuações

Frances McDormand está perfeita em sua dureza de mãe que perdeu tragicamente a filha, cheia de teor áspero e ao mesmo tempo tão maternal. A frustração potencializa raiva e isso é um assunto muito explorado dentro do universo dos personagens. Aqui os personagens não são bons ou maus, mas possuem camadas intensas e ativas que os levam ora para o lado negro da força ora para o lado da luz. Ação e reação é o que rege as relações construídas e através do mergulho dos atores em seus personagens que acreditamos na trama. Destaque também para atuação de Sam Rockwell e Woody Harrelson.

 

Além disso, o enredo, repleto de caos e violência, tem feito muito burburinho desde que inspirou outdoors de protestos ao redor do mundo: a mesma tática usada pela personagem de Mildred – usar outdoors como forma de protesto visual – está sendo usada por ativistas mundo afora. Veja mais aqui. Se a vida imita à arte? Fica aqui a reflexão para quando você terminar o filme: “Pelo amor vem a calma e pela calma vem a razão. Você vai precisar de razão para achar as coisas.” Espalhe outdoors pela sua cidade, não se contamine com ódio e seja gentil com o próximo. Em um mundo conturbado, cheio de medo e fatalidades como o nosso, filmes assim nos mostram que se optarmos por outro caminho a vida dá o troco.

P.S. E para quem deseja estar bem vestido para o Oscar >> Clique Aqui.

Hanny Saraiva

Promoção Livro Me Faz Feliz! Responda e ganhe prêmios. (ENCERRADA)

ENCERRADA

Promoção Livro Me Faz Feliz!

Quer ganhar a camiseta “Books Make Me Happy”, lançamento da Poeme-se?

– É FÁCIL, basta clicar no banner abaixo e responder: Por que livro te faz feliz?

A melhor resposta ganhará uma camiseta literária “Books make me Happy” e um livro surpresa!

* A Promoção vai até o dia 27/02/2018 e o resultado será apresentado dia 28/02/2018.
* A escolha da melhor resposta será feita pela equipe da Poeme-se

Válido para todo o território nacional.

 

GANHADOR(A):

– Luiz Felipe

”E por que me faria feliz? Um bocado de páginas juntas, que só de olhar o número me dá preguiça. Preços absurdos! Posso conseguir de graça na internet! Acabei e vou deixar jogado numa estante? Para que? Provavelmente nunca vou ler de novo. Mas por que suportar tudo isso? Ah sim! Aquele cheiro. Me conquista! Páginas novas me deixam extasiado, hipnotizado! Da mesma forma me sinto ao olhar um livro velho e pensar em todo o trajeto que ele pode ter percorrido. Sem falar dos lugares que já visitei. Lugares maravilhosos, posso até mesmo descrever o aroma do local. Quantas pessoas incríveis já conheci. Consegui criar um elo de amizade com pessoas que nunca me conheceram! Todos os tipos possíveis. Eles conseguiam fazer coisas fantásticas e sempre me surpreendiam. Impressionante como em dias tristes eu simplesmente abria um livro e ia a um lugar bonito, ou como ficava aflito ou refletia. Ah… quantas reflexões. Aprendi a dar valor a todas as coisas e pessoas.
“Bobagem, é só uma história!”
Não, senhor! É uma lição. Uma mera história não traria esse misto de sentimentos para mim. Vale cada centavo. E, após ter visitado essa fabulosa narrativa, posso olhar para minha estante e relembrar os valores que adquiri, os sentimentos que tive e como moldaram o ser humano que me tornei. “Por que livro me faz feliz?”, vocês perguntam. E como não poderia? Ele faz parte de quem eu sou! E eu amo a mim mesmo e tudo o que me moldou.
Um sentimento assim é fonte de vida! E, olha só, quem diria, posso expressar tudo isso através de um livro! É possível repassar aos outros essas maravilhas!”