Estamos muito felizes em anunciar o novo lançamento da Poeme-se: a Camiseta Manoel Herculano, que estampa a frase do poeta homônimo, o oitavo autor que participa do nosso projeto Poesia 2.0. Com essa iniciativa, transformamos em estampa os versos de escritores da nova cena poética. Não imaginávamos o sucesso que seria, quando lançamos a primeira camiseta, com Zuza Zapata, em 2015. De lá para cá, quanta coisa boa surgiu por aqui!

E hoje orgulhosamente apresentamos um pouquinho mais do novo poeta a integrar nosso time, o maranhense Manoel Herculano. Nascido em Santa Isabel, município de Nina Rodrigues, o poeta, ator e dramaturgo é radicado há 29 anos no Rio de Janeiro. Abaixo, você acompanha o nosso bate-papo:

Poeta favorito? Não tenho um poeta favorito, mas entre os favoritos, pelo pouco que conheço de suas obras, hoje vou citar Manoel de Barros. Porque ele fala das coisas simples, do menino, da natureza e eu nasci na roça. Me encanta saber que, mesmo ser ter consciência e apesar de tudo, passei minha infância cercado de poesia. O poema “Versos sem métrica”, que fecha o meu primeiro livro, “Ô de Casa – Rio Maranhão”, que será lançado no próximo dia 5 de abril, fala disso. ” (leia o poema na íntegra ao final da matéria)

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia e literatura? Com quantos anos você percebeu que gostava dessa arte? E como você definiria seu estilo de escrita? 
Manoel Herculano: Descobri a poesia tarde, somente há dez anos, sou autodidata e, antes, tentei fazer teatro, escrevi várias peças e alguns textos mais poéticos também, só que eu não os chamava de poemas. Sendo autodidata e querendo escrever, senti a necessidade de ler mais, e a leitura é apaixonante, revolucionária, quem embarca dificilmente tem volta. Não fiz esta descoberta durante a minha precária vida escolar, nem os livros escolares eu tinha grana para comprar, então copiava as matérias o ano todo e isso acho que me ajudou na escrita. O gosto pela arte sempre existiu, mesmo antes de sabê-la, hoje vejo isso claramente, quando volto no tempo. E eu não saberia definir meu estilo, não exatamente por considerá-lo próprio, tem muita rima no meu trabalho e às vezes me perguntam se sou cordelista, repentista… Devo ser também, porque é tão espontâneo e, portanto, tão eu, que só posso dizer que é a minha vivência vestida de poesia, amor e humor.

“A cena poética/artística no Maranhão é riquíssima, isso eu já sabia e tenho constatado cada vez mais. Com grandes referências e representantes, desde Gonçalves Dias, Sousândrade, Artur e Aluísio Azevedo, Josué Montello, Odylo Costa Filho, Bandeira Tribuzzi João do Vale, Ferreira Gullar, Alcione, Zeca Baleiro, Bumba-meu-boi, Tambor de crioula, e tantos(as) outros(as).”

Poeme-se: O que está por trás dos versos ”E se a vida é uma escola então vai ter que ter recreio”? Em cima de quais temas você mais gosta de produzir? 
Manoel Herculano: Os temas são diversos. Praticamente tudo o que ouço, leio, vivo, pede para virar poesia, teatro, música. Não dou conta. Quanto ao verso, desde sempre escuto que “a vida é uma Escola”. Só que usam esta expressão para dizer que a vida ensina mas, geralmente, na base da porrada. E de fato é. Então, sendo um nordestino que veio tentar a vida no Rio de Janeiro (não como artista) e autodidata, quase tudo que sei hoje realmente foi a vida quem me ensinou, e muitas vezes à base de palmatória mesmo. Quando estava escrevendo este poema, que seria uma apresentação minha, cantada, pensei: tudo bem, se a vida é uma Escola, então vai ter que ter recreio. A poesia é meu recreio. E para minha surpresa o poema e este verso tomaram uma dimensão que só tenho a agradecer à poesia. Veja a camiseta aqui!

camiseta-poetica

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido? Se quiser, pode utilizar o espaço para falar de projetos futuros e o que já fez também.
Manoel Herculano: Bem, nesses 10 anos já frequentei muitos saraus, comecei no Castelinho do Flamengo em 2007, e quando cheguei no Corujão da Poesia, meus poemas alcançaram um público muito grande, sou muito agradecido. Mas para profissionalizar o meu trabalho (hoje vivo dele) e ser respeitado como poeta, tenho focado mais nos meus projetos. Além da maravilhosa parceria com a Poeme-Se, que lançará minha camiseta agora na “Semana da Poesia”, vou lançar meu primeiro livro, “Ô de Casa – Rio Maranhão”, dia 5 de abril no Centro Cultural da Justiça Federal. Gravei os poemas para fazer 3 CDs, um já está pronto. Continuo me apresentando, quando contratado, com o espetáculo “Espelho de Palavras”, fazendo performances ou intervenções poéticas, e também com o Coletivo Farol de Poesia, ao lado de Marisa Vieira e Mariana Imbelloni. É só chamar/contratar que a poesia responde: presente!

Poeme-se: Quem e o que são suas maiores influências no trabalho poético?
Manoel Herculano: Sem querer parecer arrogante, mas a verdade é que não tive grandes influências no meu trabalho poético. Como eu comecei a escrever antes de começar a ler poesia, quando me disseram que eu era poeta, realmente eu fui procurar saber, mas não quis me aprofundar na obra de nenhum grande poeta exatamente para não correr o risco de, naquele momento, iniciando e sem nenhuma técnica, me encantar a ponto de querer escrever igual. Às vezes observo essas tentativas e não fica legal, preferi arriscar com minha personalidade. Hoje leio e me identifico com alguns. Mas eles são mestres, o próprio Ferreira Gullar, é muito conhecimento… Enfim, a maior influência vem do Maranhão, do Nordeste. Pessoas e lugares sempre provocam minhas ideias.

Pretendo ainda ter um canal no Youtube, estou conversando com um amigo. E gostaria de deixar a estrofe que contém o verso da camiseta, e o poema “Versos sem métrica”, que citei no início, que fecha o livro e que é muito eu.

Veja mais do trabalho de Herculano no blog: www.manoelherculano.blogspot.com

Ô de casa – Rio Maranhão / recorte
O Nordeste é bom, mas não é bombom com recheio
Mas tudo que me custa caro eu dou um jeito e barateio
Na escuridão viro luz e o caminho eu clareio
E antes que a casa caia, eu me transformo em esteio
Tô na área e não aceito ser jogado pra escanteio
Dou a cara às palmas e as vaias à tapa eu floreio
Lá na Ilha do Amor a maré vai e vem com galanteio
E se a vida é uma escola, então vai ter que ter recreio
Ô de casa, dá licença / Sou do Rio Maranhão
Faz parte da minha crença / Chegar ao som de uma canção
***
            Versos sem métrica
Lá onde nasci, quando lá eu nasci, lá não existia luz elétrica
Eu só fazia ligação através da oração ou com meus versos sem métrica
Mas no céu passava avião, e pássaros, e nuvens em forma de algodão
No mais, era aquela angustiante paz, dura realidade ou pura imaginação
Lugar longe demais da cidade, os sonhos não chegavam pela televisão
Diziam: aqui só cresce quem teima, e sem guloseima, sem reverso
E para aquele menino, franzino, o tal destino parecia muito perverso
Não existia estrada nem de barro, muito menos carro, bicicleta
Não existia shopping, supermercado, nem refeição completa
Nem cinema, teatro com palco, pódio com lugar mais alto para o atleta
Mas tinha fruta no pé. tinha banho na água corrente do igarapé
Tantos caminhos para nenhum lugar, e a certeza que eu iria chegar
Tinha a família que nos ama, nos sufoca, nos chama, nos traz de volta
Tinha o sonho, embaixo da árvore ou na rede, no meu castelo sem parede
Vendo as estrelas, querendo ser estrela, tendo a lua como minha lady
Tinha a cigarra, a coruja, fazendo farra, lavando a roupa suja
E muitas palmeiras de babaçu, onde nem sempre cantava o sabiá
O cotidiano sempre nu e cru, apesar das plantas, das santas e das… sei lá
Mas tinha também o tempo da colheita na roça
E a receita de uma alegria reeleita que era só nossa
Tinha a esperança, a própria teimosia e a perseverança da poesia

Tinha toda uma vida, cada instante com sua pobreza, sua beleza

Além de todo o restante que em si nos completa

E por tudo isso é que eu tenho quase certeza que já nasci poeta

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