Na poesia tudo pode virar inspiração. E o que dizer do Carnaval, com sua profusão de cores, com as delícias de se poder brincar fantasiado, ser livre, tudo junto e misturado? Com a folia chegando, trouxemos histórias de carnaval e poesia, época que rendeu versos que vamos contar aqui: a melancolia do fim de festa, com a Quarta-feira de cinzas no texto de Manuel Bandeira e a visão sobre o festejo popular de Drummond. 

Drummond e o Carnaval
“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho.”

Carlos Drummond de Andrade era um grande fã da temática do cotidiano e era nisso que se situava a sua genialidade: encantar com o que é simples aos olhos da maioria. Em sua frase acima sobre o futebol e o Carnaval, explicitou como ninguém o sentimento do homem que sai de si para se permitir sonhar.

Um dos maiores poetas do Brasil, Drummond foi homenageado com um samba-enredo em 1987 (mesmo ano de sua morte), feito pela Estação Primeira de Mangueira. O tema foi “O Reino das Palavras”, veja um trechinho do samba:

De mãos dadas com a poesia / Traz para os braços do povo / Este poeta genial
Carlos Drumond de Andrade / Suas obras são palavras / De um reino de verdade
Itabira / Em seus versos ele tanto exaltou / Com amor/ Eis aí a verde e rosa
Cantando em verso e prosa/ O que ao poeta inspirou

O poema “Um Homem e seu Carnaval” é mais um dos presentes que o poeta nos deixou e queremos registrar aqui para você se deleitar com cada palavra:

“Um Homem e o seu Carnaval”, de Carlos Drummond de Andrade (do livro Brejo das Almas, 1934)
“Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.”

 

Manuel Bandeira e o Carnaval
poesia e carnavalO poeta lançou no ano 1919 a obra “Carnaval”, que marca seu rompimento com o parnasianismo e o simbolismo. O livro veio exatamente após um forte surto de gripe espanhola assolar o Rio de Janeiro em 1918, o que fez com que a folia de momo em 1919 servisse para lavar a alma da população. Bandeira se inspirava fortemente nessa manifestação cultural tão rica, pois o sentimento de liberdade do carnaval o influenciaria em suas temáticas como a musicalidade, a humildade e a sexualidade.

No livro encontramos um de seus clássicos, “Os sapos”, poema que para muitos críticos foi considerado o seu primeiro texto modernista, pois nele Manuel Bandeira rompia definitivamente com o parnasianismo ao iniciar em sua escrita os traços pelos quais ficaria conhecido: simples, coloquial, com oralidade, versos livres e musicalidade.

Em trabalhos futuros, Bandeira também escreveria “Pierrot místico” e “Rondó de Colombina” (em imagem ao lado, referente à publicação no Jornal Correio da Manhã, em 1930).

“Poema de uma quarta feira de cinzas”, de Manuel Bandeira (do livro Carnaval, 1919)
“Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…
o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,
Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça…”

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