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Para além dos livros, a literatura

Em 2015 fizemos a nossa primeira Bienal do Livro.  Para começar com o pé direito e com todas as facilidades de logística optamos em estrear em nossa querida cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Estande todo montadinho, todos os detalhes checados e preparadíssimos para falar de literatura marginal, tradicional e poesia. O evento abre as portas e, de repente, entra uma molecada ao melhor estilo Tsunami. Nosso estande não foi poupado. Entraram em grupo já colocando as cartas na mesa: – Ei moço! É aqui que tá vendendo o bóton da Kéfera?

Soltei um espontâneo: – Ahn? Seguida de um rápido: Não.

Saquei o telefone do bolso e apelei ao tio Google que, rapidamente, respondeu que era uma youtuber famosa entre os adolescentes. Possuía alguns milhões de seguidores e era estrela mais esperada daquele evento.

Tirei duas conclusões rápidas: Uma que eu não tinha estudado tão bem a programação do evento; outra,  que para uma youtuber ser a estrela de um evento literário daquele porte estávamos tratando, naquele momento, de uma possível quebra de paradigmas da ”tradicional família literária brasileira” (não me perdoem o sarcasmo).

Neste mesmo ano, o livro mais vendido no ranking geral se chamava “Jardim Secreto” com mais de 700 mil exemplares vendidos. Se você não sabe que livro é esse, eu te respondo. É um livro de colorir. Ué, mas isto éliteratura? Ao meu ver não, mas estou longe de ser aquele crítico literário pé-no-saco-de-pulôver-no-pescoço (sem perdão de novo) que deseja impor suas sacralidades. Fato é que o livro vendeu absurdamente e mostrou que o mercado literário precisa se reinventar.

Bom, colocando um pouco mais de questionamentos no jogo, você já percebeu que por mais óbvio que seja, o mercado literário é praticamente todo editorial e impresso? Noto uma movimentação dos e-books mas em algumas pesquisas recentes apontam que não há crescimento considerável e ainda falta tração. Os áudio livros também correm por fora. E tantos outros livros apoiam suas vendas em grandes produções hollywoodianas:  afinal, livro que tem filme vende muito mais.

Na vanguarda da economia criativa da literatura vem a Poeme-se. Natural que eu puxe uma sardinha para nós, afinal a coluna é minha (risos). De toda forma, estamos propondo diante de um cenário de crise, uma reinvenção da forma de se fazer literatura. É trazê-la para o dia a dia. Cruzar com uma pessoa na rua com uma camiseta do Manoel de Barros e se identificar com o seu ”lifestyle”. A partir de agora, tá liberado tomar banho de chuva com Clarice, jantar com Neruda e beber com Bukowski.

Mas, Leo, você quer dizer que usando uma camiseta eu irei substituir o livro? Não. A Poeme-se tem a pretensão de disputar o imaginário popular e entrar na vida das pessoas sem elas perceberem (ou não). E, assim, retroalimentar o sistema. Se eu não fui claro, posso finalizar lembrando que um dia você pode ter usado uma camiseta de surfe e comemorado o título do Medina, sem ao menos ter surfado uma única vez ou até mesmo saber o que significa WTC.

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A Roupa Fala! Crônica de uma Quinta-feira Carioca

Todos os dias quando acordo tenho que escolher o que vestir. É sempre um desafio e tanto, já que depende do humor, do clima, da pressa ou até mesmo do que chamam de “dress code”, uma espécie de censor que lhe diz: use isto ou aquilo para esta ou aquela situação.

Hoje, optei em sair com a minha camiseta do Bukowski. Sei lá, estou meio nem aí para ninguém. Malha cinza e texto desesperançoso. Ao entrar no elevador, cruzo com um casal de vizinhos: ele, de tênis de corrida, fone de ouvido e uma camiseta customizada “no pain, no gain”; ela, de calça mega colada e meia lá em cima. Deduzo rapidamente que são fitness. Olhando para minha barriga penso que preciso da ajuda deles. Mas, ao final, apenas dou o bom dia protocolar e sigo em silêncio olhando para o chão, teto ou qualquer lugar que se olha quando estamos em um elevador. Sigo pelos corredores e, na saída do portão, cumprimento o porteiro, que por sua vez usa uma calça social preta e uma camisa de botão branca com a logo do condomínio.

Aguardo no ponto de ônibus e observo as pessoas. À espera pelo ônibus me percebo um bicho fofoqueiro. Ali, naquela calçada, a partir das suas roupas e trejeitos, descubro várias tribos, diversos grupos de pessoas. Como Oscar Wilde diz: “Definir é limitar”, mas é inevitável não nos encaixarmos em algum lugar. Mesmo que seja o de não se encaixar em lugar algum, entende?

Bom, voltando ao ponto de ônibus, na sequência, um homem de terno e um livro com capa de couro preta, ao meu ver seria uma bíblia. É como se ele me dissesse: estou indo cumprir a minha fé. À frente, uma mulher de short jeans e blusa soltinha do tipo sou-rata-de-praia e o verão é nosso. À esquerda, um rapaz com calça de um material que não sei o nome, camiseta xadrez, barba grande e ar de lenhador dos tempos modernos ou, talvez, Hispter mesmo. Por fim, uma menina aparentando uns 17 anos, com mochila, all star e jeans, segue seu sonho em passar para o Enem.

À 30 metros do ponto tem um sinal de trânsito. Uma fila de pelo menos 10 carros se forma e o meu ônibus vem na sequência. Eu espero ansioso a abertura do sinal para poder adentrar ao ar condicionado mais esperado da manhã.  Troco olhares com um jovem dentro de um HB20, óculos escuros da Tommy Hilfiger e camisa polo da Ralph Lauren dão o tom. Sinto ele me dizendo: corre lá, que eu tô com a vida ganha.

E, assim, começo mais um dia de trabalho. Com vários novos amigos que não me conhecem. Ou conhecem?

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