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Camiseta Manoel Herculano para o Poesia 2.0

Estamos muito felizes em anunciar o novo lançamento da Poeme-se: a Camiseta Manoel Herculano, que estampa a frase do poeta homônimo, o oitavo autor que participa do nosso projeto Poesia 2.0. Com essa iniciativa, transformamos em estampa os versos de escritores da nova cena poética. Não imaginávamos o sucesso que seria, quando lançamos a primeira camiseta, com Zuza Zapata, em 2015. De lá para cá, quanta coisa boa surgiu por aqui!

E hoje orgulhosamente apresentamos um pouquinho mais do novo poeta a integrar nosso time, o maranhense Manoel Herculano. Nascido em Santa Isabel, município de Nina Rodrigues, o poeta, ator e dramaturgo é radicado há 29 anos no Rio de Janeiro. Abaixo, você acompanha o nosso bate-papo:

Poeta favorito? Não tenho um poeta favorito, mas entre os favoritos, pelo pouco que conheço de suas obras, hoje vou citar Manoel de Barros. Porque ele fala das coisas simples, do menino, da natureza e eu nasci na roça. Me encanta saber que, mesmo ser ter consciência e apesar de tudo, passei minha infância cercado de poesia. O poema “Versos sem métrica”, que fecha o meu primeiro livro, “Ô de Casa – Rio Maranhão”, que será lançado no próximo dia 5 de abril, fala disso. ” (leia o poema na íntegra ao final da matéria)

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia e literatura? Com quantos anos você percebeu que gostava dessa arte? E como você definiria seu estilo de escrita? 
Manoel Herculano: Descobri a poesia tarde, somente há dez anos, sou autodidata e, antes, tentei fazer teatro, escrevi várias peças e alguns textos mais poéticos também, só que eu não os chamava de poemas. Sendo autodidata e querendo escrever, senti a necessidade de ler mais, e a leitura é apaixonante, revolucionária, quem embarca dificilmente tem volta. Não fiz esta descoberta durante a minha precária vida escolar, nem os livros escolares eu tinha grana para comprar, então copiava as matérias o ano todo e isso acho que me ajudou na escrita. O gosto pela arte sempre existiu, mesmo antes de sabê-la, hoje vejo isso claramente, quando volto no tempo. E eu não saberia definir meu estilo, não exatamente por considerá-lo próprio, tem muita rima no meu trabalho e às vezes me perguntam se sou cordelista, repentista… Devo ser também, porque é tão espontâneo e, portanto, tão eu, que só posso dizer que é a minha vivência vestida de poesia, amor e humor.

“A cena poética/artística no Maranhão é riquíssima, isso eu já sabia e tenho constatado cada vez mais. Com grandes referências e representantes, desde Gonçalves Dias, Sousândrade, Artur e Aluísio Azevedo, Josué Montello, Odylo Costa Filho, Bandeira Tribuzzi João do Vale, Ferreira Gullar, Alcione, Zeca Baleiro, Bumba-meu-boi, Tambor de crioula, e tantos(as) outros(as).”

Poeme-se: O que está por trás dos versos ”E se a vida é uma escola então vai ter que ter recreio”? Em cima de quais temas você mais gosta de produzir? 
Manoel Herculano: Os temas são diversos. Praticamente tudo o que ouço, leio, vivo, pede para virar poesia, teatro, música. Não dou conta. Quanto ao verso, desde sempre escuto que “a vida é uma Escola”. Só que usam esta expressão para dizer que a vida ensina mas, geralmente, na base da porrada. E de fato é. Então, sendo um nordestino que veio tentar a vida no Rio de Janeiro (não como artista) e autodidata, quase tudo que sei hoje realmente foi a vida quem me ensinou, e muitas vezes à base de palmatória mesmo. Quando estava escrevendo este poema, que seria uma apresentação minha, cantada, pensei: tudo bem, se a vida é uma Escola, então vai ter que ter recreio. A poesia é meu recreio. E para minha surpresa o poema e este verso tomaram uma dimensão que só tenho a agradecer à poesia. Veja a camiseta aqui!

camiseta-poetica

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido? Se quiser, pode utilizar o espaço para falar de projetos futuros e o que já fez também.
Manoel Herculano: Bem, nesses 10 anos já frequentei muitos saraus, comecei no Castelinho do Flamengo em 2007, e quando cheguei no Corujão da Poesia, meus poemas alcançaram um público muito grande, sou muito agradecido. Mas para profissionalizar o meu trabalho (hoje vivo dele) e ser respeitado como poeta, tenho focado mais nos meus projetos. Além da maravilhosa parceria com a Poeme-Se, que lançará minha camiseta agora na “Semana da Poesia”, vou lançar meu primeiro livro, “Ô de Casa – Rio Maranhão”, dia 5 de abril no Centro Cultural da Justiça Federal. Gravei os poemas para fazer 3 CDs, um já está pronto. Continuo me apresentando, quando contratado, com o espetáculo “Espelho de Palavras”, fazendo performances ou intervenções poéticas, e também com o Coletivo Farol de Poesia, ao lado de Marisa Vieira e Mariana Imbelloni. É só chamar/contratar que a poesia responde: presente!

Poeme-se: Quem e o que são suas maiores influências no trabalho poético?
Manoel Herculano: Sem querer parecer arrogante, mas a verdade é que não tive grandes influências no meu trabalho poético. Como eu comecei a escrever antes de começar a ler poesia, quando me disseram que eu era poeta, realmente eu fui procurar saber, mas não quis me aprofundar na obra de nenhum grande poeta exatamente para não correr o risco de, naquele momento, iniciando e sem nenhuma técnica, me encantar a ponto de querer escrever igual. Às vezes observo essas tentativas e não fica legal, preferi arriscar com minha personalidade. Hoje leio e me identifico com alguns. Mas eles são mestres, o próprio Ferreira Gullar, é muito conhecimento… Enfim, a maior influência vem do Maranhão, do Nordeste. Pessoas e lugares sempre provocam minhas ideias.

Pretendo ainda ter um canal no Youtube, estou conversando com um amigo. E gostaria de deixar a estrofe que contém o verso da camiseta, e o poema “Versos sem métrica”, que citei no início, que fecha o livro e que é muito eu.

Veja mais do trabalho de Herculano no blog: www.manoelherculano.blogspot.com

Ô de casa – Rio Maranhão / recorte
O Nordeste é bom, mas não é bombom com recheio
Mas tudo que me custa caro eu dou um jeito e barateio
Na escuridão viro luz e o caminho eu clareio
E antes que a casa caia, eu me transformo em esteio
Tô na área e não aceito ser jogado pra escanteio
Dou a cara às palmas e as vaias à tapa eu floreio
Lá na Ilha do Amor a maré vai e vem com galanteio
E se a vida é uma escola, então vai ter que ter recreio
Ô de casa, dá licença / Sou do Rio Maranhão
Faz parte da minha crença / Chegar ao som de uma canção
***
            Versos sem métrica
Lá onde nasci, quando lá eu nasci, lá não existia luz elétrica
Eu só fazia ligação através da oração ou com meus versos sem métrica
Mas no céu passava avião, e pássaros, e nuvens em forma de algodão
No mais, era aquela angustiante paz, dura realidade ou pura imaginação
Lugar longe demais da cidade, os sonhos não chegavam pela televisão
Diziam: aqui só cresce quem teima, e sem guloseima, sem reverso
E para aquele menino, franzino, o tal destino parecia muito perverso
Não existia estrada nem de barro, muito menos carro, bicicleta
Não existia shopping, supermercado, nem refeição completa
Nem cinema, teatro com palco, pódio com lugar mais alto para o atleta
Mas tinha fruta no pé. tinha banho na água corrente do igarapé
Tantos caminhos para nenhum lugar, e a certeza que eu iria chegar
Tinha a família que nos ama, nos sufoca, nos chama, nos traz de volta
Tinha o sonho, embaixo da árvore ou na rede, no meu castelo sem parede
Vendo as estrelas, querendo ser estrela, tendo a lua como minha lady
Tinha a cigarra, a coruja, fazendo farra, lavando a roupa suja
E muitas palmeiras de babaçu, onde nem sempre cantava o sabiá
O cotidiano sempre nu e cru, apesar das plantas, das santas e das… sei lá
Mas tinha também o tempo da colheita na roça
E a receita de uma alegria reeleita que era só nossa
Tinha a esperança, a própria teimosia e a perseverança da poesia

Tinha toda uma vida, cada instante com sua pobreza, sua beleza

Além de todo o restante que em si nos completa

E por tudo isso é que eu tenho quase certeza que já nasci poeta

Camiseta Tokinho Carvalho para o Poesia 2.0

Mendelson Juliano de Carvalho, o Tokinho, é a inspiração da nossa mais nova camiseta do projeto Poesia 2.0. O músico e editor é natural de Poços de Caldas, Minas Gerais e empresta seus versos “Em terra de egos quem vê o outro é rei” para essa estampa poética.

Fã de Leminski “Me indentifico com a forma que ele escrevia: coisas curtas e diretas” e de Augusto dos Anjos “ele é é meio sombrio e tenebroso nas palavras”, batemos um papo com Toquinho para você conhecer um pouco mais de suas inspirações e influências:

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava dessa arte? E como você definiria seu estilo de escrita?
Tokinho Carvalho: Sou muito influenciado pelo meu pai. Ele gostava de poesia e falava disso comigo de vez em quando! Mas a minha paixão se consolidou de fato depois que ele partiu, porque dois dias antes estávamos sentados na cozinha e ele tava lendo umas poesias que eu ia expor em um varal de um sarau. E ele disse: “Cê tá escrevendo bem hein, Toko? Precisa publicar isso aqui!”. O fato do meu pai ter demonstrado orgulho de mim despertou a paixão de fato. Isso tem uns 5 anos. Mas a primeira vez que eu vi que “escrever é legal” foi na oitava série. Rolou um concurso na escola onde cada aluno deveria escrever uma carta para o Frei Betto. A carta escolhida seria enviada pra ele e ele mesmo responderia. A minha foi escolhida. E a minha família sentiu orgulho de mim quando viram uma cartinha assinada pelo Frei Betto em casa. Sobre definir meu estilo de escrita, eu não sei. Só escrevo, rs. Tem uma frase de alguém que não lembro quem é que diz que “quem se rotula, se limita”. Então prefiro somente escrever, as definições deixo por conta de quem me lê. Mas dizem que escrevo poesia, rs.

Poeme-se: O que está por trás dos versos ”Em terra de egos quem vê o outro é rei”? E como você vê a poesia como instrumento para despertar a empatia nos outros?
Tokinho: Vivemos numa sociedade muito egocêntrica, né? O próprio umbigo é sempre mais importante que o do outro. É um querendo pisar no outro, um querendo ser mais que o outro. A frase vem no sentido de exaltar quem vai na contramão do egocentrismo e para pra olhar o outro, pra se preocupar com o outro sente, vive e sonha. Acho que o ego é importante, mas ele não deve ser maior do que a consciência de que não estamos sozinhos no mundo. Quis brincar com um dito popular, e acabei remixando ele. Sinceramente não esperava que ela fosse viralizar tanto na rede. Quando vi que eu tinha perdido o controle, senti o poder que essa frase tem. Fiquei sabendo que ela foi usada em congressos, trabalhos de conclusão de curso, várias páginas enormes compartilharam, artistas, enfim.

camiseta-poesia

Sobre a poesia como instrumento para despertar a empatia, acho que a poesia é instrumento pra despertar tudo em todos. Ela é a arma que fere e o carinho que afaga, sabe? Rola essa ambiguidade, essa possibilidade de causar infinitas sensações em quem lê. No caso dessa frase, ela de fato é sobre empatia. E fico feliz que ela tenha despertado e feito as pessoas refletirem sobre isso. Porque ela [a frase] se encaixa em vários contextos e situações, né?

Poeme-se: Quem são suas referências?
Tokinho: [Além de Leminski e Augusto dos Anjos já citados] Em geral, me interesso mais em ler poetas e poetisas que eu posso encontrar qualquer hora dessas num sarau, bater um papo pelo Facebook e ser amigo. Então são vários nomes: Alice Ruiz, Victor Rodrigues, Jefferson Santana, Michele Santos, Carlos La Terza, Michele Santos, Eduardo Dias, Mel Duarte, Mariana Felix, Mano Ril, enfim, ficaria aqui horas citando nomes de poetas e poetisas que me influenciam. Mas em geral é isso, prefiro ler os meus amigos e meus contemporâneos.

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido? 
Tokinho: Sou organizador do Sarau de Ninguém, que rola aqui em Poços de Caldas. Sou criador do #SarÁudio, que é um grupo de WhatsApp que funciona como um sarau virtual e une poetas de vários cantos do país. O foco, como o próprio nome já diz, é o compartilhamento de poesias – autorais ou não – em mensagens de áudio.
Faço também o “Memória In-Verso”, que é um projeto onde eu ouço histórias das pessoas e as transformo em poesia em tempo real, tudo datilografado pra que ela possa levar uma lembrança diferente pra casa. Esse projeto não foi uma ideia minha, é inspirado em alguns poetas conhecidos meus e outros que pesquisei pela internet e fazem isso nos Estados Unidos. Também sou editor independente, lancei o selo Zinelândia, por onde lanço meus livretos e de outros autores e autoras.

Poeme-se: Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui

O abraço
é um beijo
entre dois
corações
——————–
Tire
a roupa
e vista-se
de mim.

———————

O sonho
do seu sonho
é ser real.

———————

Para quem quiser seguir o artista nas redes sociais, segue a dica:

Facebook: www.facebook.com/datilografiapoetica

Instagram: https://www.instagram.com/datilografiapoetica/
https://www.instagram.com/tokinhocarvalho/

Ver camiseta 

camiseta-poesia-tokinho

Camiseta Carla Neto para o Poesia 2.0

O projeto Poesia 2.0 tem nos proporcionado conhecer pessoas incríveis que dividem com a gente a mesma paixão pela arte poética. Até o momento, a gente tinha lançado 6 camisetas de novos artistas que embarcaram nessa proposta de desenvolverem uma estampa com seus versos em parceria com a gente.

Carla Neto para o Poesia 2 (4)Hoje, comemoramos nossa sétima camiseta lançada. A novidade da coleção dessa vez foi desenvolvida com a professora de Língua Portuguesa e Literaturas, além de poetisa, Carla Neto. Apaixonada por ensinar aos seus alunos as mil possibilidades das letras e empolgada agora com o lançamento de seu livro “Vestida-de-mim”, ela bateu um papo com a gente sobre sua entrada no mundo da escrita e inspirações para os versos que estampam a Camiseta Carla Neto.

Poeme-se: como conheceu a Poeme-se?
Carla: Uma vez procurei sobre Fernando Pessoa, que para mim é muito importante, e quando vieram vários links sobre ele, veio um que se referia a camiseta deles que vocês produziram, quando vi sem pensar…. Comprei e aí fui me deliciando em tantas outras camisetas, porta copos, pôster, remédios poéticos e faço a maior propaganda, pois confio no que vocês comercializam.

Poeme-se: O que foi o projeto poesia 2.0 para você?
Carla: Foi uma grande sacada! Porque deu oportunidade de crescimento aos novos poetas, cantores, escritores nesse mundo que de tão eclético restringe esses novos talentos… 

Carla Neto para o Poesia 2 (3)Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava dessa arte? E como você definiria seu estilo de escrita? 
Carla Neto: Quando criança eu era muito levada e sempre que aprontava ficava de castigo lendo clássicos literários ou poesias. À medida que fui crescendo, fui tomando gosto pela leitura e não mais precisava ficar de castigo para ler, pois já era prazeroso e em sequência veio também o gosto pela música carregada de poesia! Não sei de um estilo, mas me vejo escritora de palavras que libertam pássaros e homens…

Poeme-se: O que está por trás dos versos ”é ser eu mesma bruta como rocha, frágil como flor.” (versos presentes em sua camiseta)? qual a inspiração? 
Carla: O que não, quem… Essa poesia é sobre mim. Me descreve, me definindo… E me inspirei quando passei a me olhar: grande e bruta, muitas vezes e por outro lado, frágil… Que preferi comparar com as flores.

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvida?
Carla: É, esse ano está sendo bem produtivo!  Estou além da camiseta, lançando meu livro: Vestida-de-mim, com poesias dessas minhas palavras que libertam pássaros e homens…

Poeme-se: Em março desse ano, a Poeme-se lançou a ação #MulheresQueVersam, que divulgava um poema escrito por uma mulher por dia. A intenção era justamente valorizar as escritoras e chamar atenção para o papel da mulher como produtora de conteúdo. O que você pensa sobre o cenário para mulheres escritoras?
Carla: Acredito muito na força que as mulheres têm! Sou oitava de nove filhos e dentre eles: somos oito mulheres… Isso quer dizer que ganhamos campo naquilo que acreditamos e escrever, declamar, encenar, mostra para toda uma sociedade que nós podemos conquistar sempre mais, pois somos fortes! e podemos cada vez mais expandir nessa arte, uma vez que temos habilidades e criatividades para cada vez mais marcar esse tempo com nossa marca na escrita. 

Poeme-se: para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui.

flores…..
10/05/2016 09:26
num dia
têm beleza
e cor
que a todos encanta
mas com o passar
ligeiro das horas
te transformam
ganham experiências
que de tão
importantes
te tornam envelhecidas
desgastadas
sorridentes
mas
cansadas
e as rugas
aparecem
como marcas
dos seus dias
que nos encantaram
e mesmo com toda transformação
do tempo
das rugas
sua essência
permanece…

Carla Neto.

Leia mais: http://www.vestida-de-mim.com/blog/

Guarnier e Lucas Limberti para o Poesia 2.0

A ação Poesia 2.0 já é um sucesso! Depois de Zuza Zapata,  Ni Brisant, Victor Rodrigues e David Cohen, dois novos poetas acabam de chegar para fazer parte de nossa coleção poética. E o melhor? As camisetas de Guarnier e Lucas Limberti serão lançadas agora na Bienal do Livro, que acontece de 3 a 13 de setembro, no espaço que a Poeme-se preparou por lá.

Vem conhecer um pouco mais do trabalho deles:

guarnier baixada fluminenseLuiz Alberto Guarnier Silva, o Guarnier, tem 35 anos e é nascido e criado em Nilópolis, na Baixada Fluminense. O nosso poeta é graduado em Letras, ator de Teatro e, além disso, atua ministrando oficinas de Teatro em Nova Iguaçu e Nilópolis para todas as faixas etárias.

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava de poesia? E como você definiria seu estilo de escrita?

Guarnier: Não tenho uma paixão somente pela poesia, tenho fascínio por todas as linguagens artísticas que interferem diretamente na vida das pessoas. A Arte é o elemento que oferece cura para o corpo e alma. Dela se retira o alimento, a diversão, a elevação da auto-estima… o amor próprio e ao próximo. Se a poesia, hoje, me proporciona esse retorno, é a ela que me dedicarei e, se uma hora isso acabar em mim e eu ver amor em fazer pães, serei padeiro. Na verdade o retorno das pessoas e o sentido do trabalho nas vidas delas é o que me move a escrever. Escrevo desde novo, mas tive que desaprender algumas coisas para aprender a deixar as citações de lado e ser meu próprio autor, aprendi a dar espaço à vida. Observá-la. Perceber seu fluxo. Dar mais ouvido às Ruas e deixar que estas transitassem em mim, em vez de somente eu nelas. Quanto a me definir num estilo, eu agradeço por ainda não ser enquadrado num, estilos são cercas, não quero ser autor de cabeceira. Há os que escrevem para serem imortais, que só quero mostrar que morro de amor, ou de dor, ou de raiva, ou de indignação. Quero escrever poesias de um verso agora, e sonetos rebuscados no minuto seguinte. Quero escrever sobre a luta, sobre amor, sobre um inseto, sobre dor, sobre sonhos que se sonham dormindo, sonhos que se sonham acordado e sonhos de padaria transbordantes de doce de leite. Quero escrever tudo! Sem cercas!

Poeme-se: O que está por trás dos versos “O amor que a Rua dá, só quem vive a Rua sente!”? A inspiração, sua visão sobre a poesia… O que está achando do lançamento da camiseta acontecer na Bienal do Livro? 

Compre a camiseta aqui!

guarnierGuarnier: Os versos são o lema do Sarau RUA, que acontece todas as últimas sextas-feiras e cada mês na Praça dos Estudantes, em Nilópolis, Baixada Fluminense, de forma totalmente independente. Eles vieram de um texto longo, mais propriamente sobre um morador de Rua que dormia num banco de praça e teve sua “casa” invadida por caixas de som, microfones, poetas, músicos… por um sarau inteiro. Sarau V, mais precisamente. E este morador tinha motivos de sobra para reclamar, mas preferiu entrar na fila do microfone aberto e cantar “O Menino da Porteira” pra todos nós. Ele, um homem discriminado, sem casa, sem teto, com quase nenhum bem material, que tinha tudo para sentir ódio da vida e de nós naquele momento, preferiu dar seu amor. Cantou com a alma e nos presenteou. Esse amor não é qualquer um que sente. Não é qualquer um que olha um graffite nos muros da cidade e sorri. Não é qualquer um que vê um Clown arremessando suas claves, numa perna de pau ou monociclo, e percebe a dificuldade e o quão valioso é aquele trabalho. Não é qualquer um que vê valor nos fanzines que nós produzimos e olhe aquelas folhas xerocadas como sendo o primeiro livro de um poeta corajoso. Não é qualquer um que sabe sentir esse amor, mas quem sabe sentir, é um felizardo, porque enxerga amor onde ele existe, mas quase sempre é ignorado.

O lançamento da camiseta ser na Bienal do Livro foi uma surpresa grande e um prêmio. Não irei sozinho, estarei com meus irmãos de Rua e vamos tentar levar um pouco desse amor que a Rua dá para o público de lá. É um ano mais que especial para a Baixada Fluminense pelo tanto de representantes que estarão na Bienal com seus movimentos e se é especial para a Baixada, é para mim. Será fantástico! Estou ansioso!

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido. 

Guarnier: Estou envolvido em muitos projetos poéticos. Fora o Sarau RUA, tenho minha página  – Guarnier-  que me dá um feedback importantíssimo sobre meu trabalho. Tenho meus livros ainda não publicados, entre eles um infantil que pretendo editar em 2016, portanto, editoras interessadas… No mais, os movimentos dos amigos também são projetos que eu tento participar ajudando e prestigiando da melhor forma e quantas vezes puder.

Quem é seu poeta/autor favorito e por quê?

Guarnier: Hoje não tenho um autor favorito, tenho muitos. Não quero falar de gente legitimada e, com todo o respeito aos “graúdos”, meus poetas favoritos são pessoas que sangram e lutam como eu. Gente que tenta melhorar a realidade através da poesia. Posso citar dezenas de nomes aqui, mas ainda sim esqueceria de alguém, então vou falar de um cara que é ainda pouco conhecido por suas poesias, mas que foi um poeta lindo, brilhante, que se inspirou no desejo de Liberdade para escrever, e que mesmo com sua importância para a democracia brasileira, burramente ainda é tachado como terrorista, essa opinião faz parte de uma série de boçalidades que ainda são faladas e reproduzidas. Falo de Carlos Marighela. Quem ainda não leu suas poesias, leia!

Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui:

Guarnier: Vou deixar um poema curto que gosto muito, que fala sobre saudade, ou tenta explicá-la.

Saudade
É quando o mesmo corpo
Ocupa dois lugares
Diferentes no espaço.
-Mariposa em mim

-guarnier

lucas limbertLucas Limberti tem 32 anos e nasceu em São Paulo. O escritor, professor, ator e jornalista. Nesse bate-papo ele falou de seus projetos, como o primeiro lançado: “Ventania do Infinito”, que dele extraiu os versos da camiseta que veio parar em nossa coleção poética.

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava de poesia? E como você definiria seu estilo de escrita?

Lucas: Sem a infância não há poesia. Me lembro de conviver com o mundo fantasioso da leitura sem o filtro adulto que organiza e o imaginário. Quando criança, a força da poesia se dá num hipnótico jogo rítmico entre o que se vê e a fábula. E é isso que move minha poesia, o olhar revolucionário e desmedido da criança que descobre o mundo em gerúndio. Sempre despejei no papel minha realidade, traspondo esse conceito que se une à emoção criadora. Eu era e sou por meio do verbo desde as primeiras redações do colégio, me lembro de um professor que elogiou um poema acróstico intitulado “Conclusões” que escrevi com as letras do Brasil: “Encare a realidade / LUTE! / Brasil / Bromélias, / razões, / anistia,/ Soluções, /  incoerências,/ Limite (ções)”.

Hoje, além de escritor, sou professor e faço o mesmo, incentivo os versos dos jovens entusiasmados com a força da poesia. Obviamente os versos vinham acompanhando da força do olhar consciente do menino, que na adolescência brinca de ser homem, mas já reflete um pouco da força transformadora que meu verso se propõe. Aliás, por falar em estilo de escrita, a ideia da poesia é colocar o homem em raro encontro com sua humanidade, transformar o mundo por meio da busca pelo sublime apoiado na máxima expressão do verbo. Minha poesia é o meu grito bom contra o mundo caduco, poemas que trazem uma sensação de começo e fim sob a lógica do sensorial, como se fossem sopros em que o leitor se mistura em sua existência, normalmente rápida, mas intensa em sua perspectiva reflexiva, no sentido do pensar espelho. O Homem que se reencontra em meus versos, lembra de sua condição e não aceita os arroubos do mundo que o ignora, o maquiniza e o aliena. E para isso, uso todas as sensações humanas, as mais belas, os amores, saudades e as mais tenebrosas que sacodem nossas veias.

lucasPoeme-se: O que está por trás dos versos “O amor não existe, mas não há quem faça meu coração acreditar”. A inspiração, sua visão sobre a poesia… O que está achando do lançamento da camiseta acontecer na Bienal do Livro?

Compre a camiseta aqui!

Lucas: Estou muito empolgado em fazer parte da trupe Poeme-se, conheci o projeto quando fui palestrar na Flipoços – A Feira Nacional de Literatura de Poços de Caldas em 2014 e já me encantei. No ano seguinte, na mesma feira já adquiri minha camiseta, bolsa e imãs de geladeira, de alguma maneira me envolvendo afetivamente com este universo poético. E daí surgiu a parceria de fazermos a camiseta e lançá-la na Bienal do Rio de Janeiro de 2015. Estamos preparando ações bem bacanas que carregam a poesia como estandarte máximo, a ideia é sacodir a Bienal.

A frase escolhida entre as várias propostas é uma das que chamam atenção no meu primeiro livro, o “Ventania do Infinito”, que é “”O amor não existe, mas não há quem faça meu coração acreditar”. Não por acaso, é uma frase que as pessoas sempre comentam comigo, compartilham nas redes sociais e que acabou se tornando um dos emblemas do livro. Ela representa a mistura da razão e da emoção, forças contrárias, porém complementares que são a base de minha poesia. Todo mundo já teve alguma desilusão amorosa e racionalmente decidiu nunca mais se apaixonar, mas o coração é um cavalo selvagem sem amarras, que quando decide, não há quem segure e novamente nos apaixonamos, mesmo correndo o risco de mergulhar no abismo do outro e das possibilidades de sofrimento. Esse abismo existencial do homem que se equilibra entre cabeça e coração é que se organiza a força da poesia. Minha lógica poética se apoia muito no que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche analisou a partir das mudanças do homem no desenrolar dos tempos, concluindo que a resultante do equilíbrio histórico, se dá por exigência de forças contrárias na humanidade, que ora é mais racional (lógica apolínea), ora mais emocional (lógica dionisíaca).

Portanto, a poesia se diverte em artisticamente desfilar essa eterna contradição que estrutura o nosso ser. A expectativa é que as camisetas, em forma de corações, conquistem e representem os vários corações que a usarem.


Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido.

Lucas: Além da camiseta em parceria com a Poeme-se, recebi o convite para lançar meu novo livro, o “Ritmia – O ritmo da vida” por meio do crowdfunding, uma plataforma de financiamento coletivo relativamente novo no mercado editorial brasileiro, uma aposta vitoriosa, pois batemos 112% da meta estabelecida e o livro foi publicado e será apresentado na Bienal do Rio de Janeiro. O modelo serviu para aproximar minha obra dos meus leitores e também para mensurar, de alguma maneira, o patamar que se encontra minha carreira como escritor, no que diz respeito a essa venda rápida que o meio da web dispõe. O fazer coletivo sempre foi uma causa em minha vida e o escritor que não considerar a internet como um meio fundamental de aproximar o leitor de sua obra, está fadado a conquistar menos corações com suas palavras.

Além disso, venho participando de feiras e eventos literários com uma palestra sobre o fazer poético intitulada “O Fazer poético e os mecanismos do fingimento” que mesclam conhecimentos técnicos sobre a crítica literária, o significado de arte como uma bonita militância para fazer com que a poesia sobreviva cada vez mais e tenha adeptos como leitores e escritores. A arte poética que extrapola as páginas se faz presente de várias maneiras, no ano passado encerrei uma turnê com o espetáculo “A Cidade das máquinas – Um tributo à John Lennon” em que interpretava um poeta que tentava sobreviver de poesia na época do assassinato de Lennon. Participo de vários saraus, vale ressaltar que em São Paulo o movimento dos saraus da periferia é crescente.

Acabo de participar do júri de uma antologia de poetas chamada “Poetas Vermelhos” lançada em agosto do presente ano. Termino dizendo que, além de ser professor de Literatura, estou num projeto de vídeo-aulas bem interessante que promete ressignificar as aulas tradicionais da internet, trazendo a Literatura e a poesia como consequências de um ambiente próximo à realidade.

Poeme-se: Quem é seu poeta/autor favorito e por quê?

Lucas: Escolher um nome em nossa Literatura é muito difícil, uma vez que a Literatura em Língua Portuguesa é muito rica e sem dúvida deve ser sempre exaltada. Porém, há sempre aquele escritor que nos influencia de maneira inusitada e transformadora. Certamente, se falasse em Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa estaria muito bem representado o meu favoritismo. Porém, os versos do mineiro de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, sempre foram especiais e ganharam um espaço maior em minhas preferências. Drummond consegue ser simples e profundo, nos regala chaves contra o “mundo caduco” que ele enxerga sob a luz de um triste farol de uma ilha rasa, imagem com que ele termina seu terceiro livro, o Sentimento do Mundo.

Seu olhar intimista para o “vasto” mundo transforma sua figura física franzina, “gauche” como ele dizia, em um tanque de guerra verbal contra os medos e problemas do mundo que viveu nos idos da metade para o final do século XX e que fazem todo o sentido nos dias de hoje. Um exemplo disso, é o poema “Elegia 1938”, publicado em 1940, que de alguma maneira faz uma previsão dos ataques de 11 de setembro à Torres Gêmeas, nos estados Unidos, simplesmente analisando poeticamente os caminhos que tomam os achaques da opressão de um sistema em que o rico oprime o pobre.

Lendo meus poemas, certamente o leitor encontrará influências desta genética drummondiana, bem como a sagacidade de Mário Quintana e a legítima fábrica de sonhos de Manoel de Barros.

Poeme-se: Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui. 

Lucas: A Literatura é mais do que um emprego, um ofício ou uma militância, é uma entrega por completo, uma religião que acalma os dias por meio de palavras que escorrem dos dedos carregadas de fé, afeto, gritos, acalentos e revoluções. É um limar dos dias que busca o bem viver em ritmo de esperança.

É a Literatura, que vê na expressão artística da poesia a força transformadora dos males do mundo. É o ritmo que encanta e enche os corações de esperança do homem, em busca de si mesmo. Neste sentido, o poeta extrapola a seu aspecto humano e se coloca como um ser dotado de mágicas feituras e só quem descobre este segredo é capaz de transformar seu próprio mundo, obviamente para melhor.

Lá vai um poema do meu novo livro, o  “Ritmia – O Ritmo da vida”, uma obra de palavras em estado de música. O subtítulo, O ritmo da vida, vai se apresentar em dois momentos equilibrados. De início, temos a seriedade do vir a ser, enquanto o artista está no Ensaio (chamado de Lado B); nele, a seriedade, abdicação e dedicação são fundamentais e se constituem como caminho. Da metade para o final, se esta for a lógica adotada pelo leitor, surgirá o Show (chamado de Lado A), em que toda a seriedade da preparação ganha contornos de desfile e de palco. São dois momentos que, embora diferentes, são frequentes na vida do artista e sobretudo de qualquer ser humano, onde a apresentação pressupões ensaio, a respiração pressupõe expiração. Nascemos para poder morrer. Caminha-se para chegar, canta-se para encantar. Poesia para se compor e Música para amar.

“Ritmia – O ritmo da vida” é a poesia que pulsa do encontro do verbo com seu desfile sonoro. É a ideia de que, desde o primeiro segundo de vida, pulsa no peito o ritmo do coração, ora acelerado, ora lento, como o ensaio e o show, opostos necessários para o equilíbrio do homem que se descobre a cada tom de existência em poesia e canção:

Música de paz e de guerra

Trovão da terra

Espasmos do mundo

Raio profundo tubérculo

Chuva, enxurrada, chuá

Murmúrios das ondas

Ventos, suspiros, suores

Barulhinhos excêntricos

 

Bombas, buracos, buzinas.

Chaves, chinelos e choros.

Trovões da boca do chefe.

Sirenes, sinos e altiva surdez.

Apito agudo da fábrica.

Estampido seco da bala.

Barulhinho da música não quista.