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Resenha literária com Guarnier: Ratoeirismo

Ratoeirismo: É pelos olhos do Rato que o poeta marginal enxerga – Estação Ratos Di Versos

Sinta SIm Ratos Di Versos

Quem tem medo da poesia? Tenho abordado muito a palavra e o ato de “desapendrer” nas minhas conversas sobre escrita e poesia. Tenho insistido na ideia de que para se escrever não necessita aprender nada além do que já se sabe, na verdade, a desaprendizagem é a grande chave para abrir esse cadeado que trancou conceitos limitados sobre “o que é poesia?”, ou “como se escrever poesia?”, ou sobre “o que é ser poeta?” e quem é este ser. Esse cara é o Gonçalves dias cantando seu exílio – ou do eu lírico – com a Norma Culta na ponta da pena chorosamente lacrimejando tinta deslizante sobre o papel num momento de rica inspiração e idealização de sua terra? Ou esse poeta é o rato que habita os cantos mais sujos e promíscuos do centro da cidade, bebendo cachaça e dividindo irmãmente umas palavras de baixo calão entre seus companheiros de compartilhamento de realidades? Um e outro! Nem um, nem outro! O poeta não é isso e nem aquilo! O poeta é poeta quando se assume como tal, tanto faz se veste bermuda e camiseta, ou se veste aquelas fardas de péssimo gosto da Academia Brasileira de Letras, convenhamos que aquilo ali é um convite a manter-se no seu lugarzinho e não se atrever a escrever poesia – eu nunca escondi minha passionalidade na construção dessas colunas e assim continuarei.  Mas vá lá que não é que achei uma semelhança entre o poeta rato e o poeta clássico? Vamos retomar o Movimento Literário intitulado Romantismo, mais precisamente em sua terceira fase, A Poesia Social, para conversarmos sobre Castro Alves, o poeta abolicionista que criou o “Condoreirismo”, onde o poeta toma emprestados os olhos do condor, a águia dos Andes, que atinge as maiores altitudes entre todas as aves oriundas da América do Sul, para, lá de cima, conseguir enxergar todas as atrocidades que os mercadores de escravos submetiam os homens e mulheres contrabandeados da África para cá, nos Navios Negreiros. A partir deste conceito, Castro Alves escreveu – ou descreveu – por exemplo, o poema “Navio Negreiro”. Agora vamos a uma simples equação: Se o poeta tomava os olhos do Condor emprestados para descrever o sofrimento dos escravos nos navios negreiros, logo o poeta pode tomar os olhos do rato emprestados para descrever tudo que a realidade perto do chão, da vida, dos bueiros, dos bares, das calçadas, das praças, da marginalidade revelam, e é aí que desembarcamos na nossa segunda Estação Marginal: Estação Ratos Di Versos!

Ratos

Uma breve [des]apresentação

uma carta de desapresentação: a pergunta “quem somos?” nos exige… Um rótulo? Certo: não temos. Não temos “atrações” nem poetas convidados: aos amigos fazemos convites, e as atrações acontecem… naturalmente. (…)  Atualmente o núcleo duríssimo são os poetas: Dalberto Gomes, Tiça Matta, Marcelo Nietzsche, Atile Muniz, Louis Alien, Esperando Leitor, Poeta Xandu, Dan Juan Nissan Cohen, Shaina Marine, Gabriela Tavares, Tom Sideral, Karla Sabah, Carluxo, Viviane RAC, Daniel Anzol, Fabrício Fortes, Ana Paula Neves, Sebastião José, Marine Folha, Gabriel Barros… Alguns outros, que já não sabemos se ficam ou se vão. Sem citar todxs, mas temos uma história sendo contada por essa nuvem de poetas no tempo. (…)”

(…)Vemos essa gangue-poema, Ratos Di Versos, e ela possui uma história: desde antes, quando já existiam poetas como Chacal, Maurição Antoun, Marcelo Nietzsche, Carluxo… E são pessoas que já vinham dos 70, dos 80, circulando a cidade e… O empurrão não basta, desequilibrar-se também é importante: Dan Magrão e Dudu Pererê são dessas pessoas-labirinto que esbarraram com esses poetas do CEP20MiL e dali partiram para criar o Planeta Letra (no Planetário da Gávea), já que naquele momento a leitura das poesias do Carluxo se fazia urgente!! (…)”

 

Chacal poeta Brasileiro representante da geração do mimeógrafo

Chacal poeta Brasileiro representante da geração do mimeógrafo

Sarau ratos

Sarau ratos

 

(…)Além de grandes fazedores de amigos, somos apaixonados por poesia de buteco, se tornando um clássico sarau das noites sob os Arcos da Lapa – surge: !!__Ratos Di Versos__!! [17/MAI/2006] nome emprestado por meio ambiente, com sarau no bar que levou o nome do local !!__Beco dos Ratos__!! Ali tinha um cineclubismo de parede e junto esses _nascemos ali !!! Mas foi no Bar do Jô, na viela trash chamada Travessa dos Carmelitas [2007-2009], ponto de travestis e prostitutas, ali sim: foi o batismo de fogo! Então o !!__Ratos Di Versos__!! possui essa rebeldia como marca, o que significa: somos poetas não institucionalizados.(…)”

Expulsos de vários locais onde já fizeram, ou tentaram estabelecer seu sarau, o “Ratos” faz jus ao criminalizado animal das ruas, assim como a versão marginalizada da poesia fora do laboratório do grande mercado editorial do país… do mundo! Essa galera não é o “Hamster” fofinho da gaiola que corre no mesmo lugar, eles correm o a cidade inteira. Não são camungonguinhos brancos e fofos que habitam ambientes literários cheirosos, ondem servem champanhe e canapés de frutos do mar, a cerveja e a sardinha frita salvam tranquilamente e é daí que muita coisa boa brota num guardanapo – mesmo que hoje seja “ super fofo e revolucionariamente bacaninha” escrever e desenhar em guardanapos pra uma galera aí, isso já é feito pela Poesia Marginal desde o tempo em que Dondom jogava no Andaraí… está claro?

A Ratazana e o Eguinho Pocotó

Vamos falar da ratazana mais ratazana da poesia, o “Xandu do Ratos”, uma das figuras mais icônicas do cenário poético atual, tanto pela escrita, quanto pela performance. Sempre portando seu frasco de adoçante cheio de cachaça, sua máscara e seu expositor de Zines, batizado carinhosamente de “Eguinho Pocotó”:

“(…)Uma ação bacana que encampei para o Ratos foi o estandarte chamado Éguinho Pocotó, que é rechado de fanzines, mas atualmente está perdendo espaço para varal e/ou esteira de poesias _em ambos os casos a missão maior é divulgar nossos poetas amigos dipista..”

Xandu com seu expositor “Eguinho Pocotó"

Xandu com seu expositor “Eguinho Pocotó”

<p style=”text-align: justify;”>“se eu vou daqui prali, nunquinha que eu ando só! vou de rolézinho em Antares com meu Éguinho Pocotó! – Pocotó! Pocotó! Pocotó! Pocotó! – o meu Éguinho Pocotó!” [by Dudu Pererê em versão Neo-Concreta ReMix](…)”

Xandu, além de ser o cara dos zines do Ratos Di Versos, também é um dos poucos caras que atravessam a cidade para brotar nos saraus da Baixada Fluminense, Cidade de Deus e onde mais solicitarem – ou não – sua presença marcante. Então se vir um cara baixinho, de bigode, com trancinha na barba, chapeuzinho de Seu Madruga e óculos escuros perambulando pela Lapa, ou chegando no seu sarau, Já sabe quem é. Ele conta como se responsabilizou por esse, digamos, dever em disseminar poesias através do zine:

“(…)desde sempre escrevi alguma coisa, vi surgi CEP 20MiL, peguei em mic qnd fui atuante da UERJ, mas só passei a me considerar POETA em 2013(…)” “(…)a cidade fervia e o Ratos tava rachado, então resolvi trazer pro Ratos minha perspectiva de “comunidade poética”, e nesse pacote: promover o nosso sarau, visitar as rodas, divulgar uma agenda de saraus periféricos, fazer viagens, criar fanzines, aderir a campanhas, ocupas, etc. A partir de 2013 meti a mão: fiz vários micro-fanzines e tb alguns livretos _que é minha onda atual.(…)”

Eu preciso expressar algumas coisas sobre esse cara que conheci na Rua e que vi pela primeira vez no Sarau do Escritório que será nossa próxima Estação, Xandu não é só um acontecimento poético, é um acontecimento de humanidade, um cara que tem clara missão do que é ser artista, não o que é ser um profissional da arte, há uma profunda diferença entre um, e outro que tem a ver com o amor por ela, então eu clamo: Preservem este rato e toda sua família e pelo bem da poesia, menos Mickey Mouses e Mais Xandu e Ratos Di Versos!

Bora ler poesia? Com vocês, Ratos Di Versos!

menos não é mais
o quase não se faz
mas o homem é condenado
na culpa de ser acusado…

(marcelo Nietzsche)

A poesia chega e vêm
Reverberando e todos os
Poros espalhando energia
Revigorante onde a voz
Que há dentro da sinfonia de tudo que há…
Amor segue o seu destino traçando o poema
Que não precisa de microfone para falar
Pois tenho a voz potente na vida

A poesia que vem chega sem avisar
Pois ela provoca atividade
Em todos os cantos da cidade
Invadindo todos os becos onde a rua seja a casa
Para todos os versos
Que seja ….
Rato……
Di Versos!

(Dan Juan Nissan Cohen)

a poesia da rataria é monstra!
…às vezes mestra,
às vezes tonta…
a poesia da rataria enseta!
…tantas vezes erra, …
tantas vezes tomba…
mas poesia, de repente,
rata que é: abunda!
chega ereta e por trás
– e retumba!
chega torta, rôta
– e sonsa: já descabela!
sóbria: só faz trocar pernas
bêbada: mita!
indômita nas cavernas
às vezes fraca
mas de outras:
tantas vezes bomba
e como sempre:
a posia só zomba!
– a poesia da rataria afronta!
Voa na jugular de quem julga!
Joga na valvular de quem vulva!
Arde no gogó de quem galga!
!!__Ratos Di Versos__!!
somente para quem demostra
ter sex-appeal
_e não descarta ver nu frontal

(Alexandre Durratos – Xandu)

Link para a página do Ratos Di Versos no facebook: https://www.facebook.com/ratos.versos/

Guarnier

 

 

Resenha literária com Guarnier: Poesia Marginal

O que você anda lendo? Gosta de Poesia? Vou além… você sabe o que é Poesia Marginal? Sabia que o grande cenário poético atual não figura nas grandes editoras, não está nas prateleiras das grandes livrarias e você pode ter acesso a esse material riquíssimo nos perfis e páginas das mídias sociais, saraus, bares, esquinas e que o Fanzine, ou, mais precisamente o Zine, na maioria das vezes, é a primeira publicação desses poetas e poetisas? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Calma! Se você já sabe de tudo isso, sei que tem lido muita coisa boa, já você que não sabe, agora vai ficar sabendo e te garanto que vai curtir a coluna, pois um dos meus propósitos aqui no Beco Literário é tratar sobre a Literatura Marginal e seus agentes mais contemporâneos e atuantes, portanto já que vamos tratar de poesias e zines, adianto que esta publicação artesanal perde o prefixo “fan” quando não há objetivo de homenagear um determinado “ídolo” e passa a ser uma publicação autoral, ou que trate de um tema que não tem a ver com homenagem a uma determinada figura pública, por isso, aqui trataremos dos Zines.

A Literatura Marginal foi assim conceituada na década de 70 e tem como principais autores dessa época, Leminski, Torquato Neto, Chacal entre outros. Óbvio que muitos não chegaram sequer a serem conhecidos publicamente, digamos que para cada poeta que tem seu trabalho reconhecido, dez moleques saem da várzea para o Futebol profissional, uma estatística exagerada que criei aqui para dar a dimensão da enrascada que era/é se meter a escrever objetivando algum lucro nisso, por menor que seja. No meu caso de maior sucesso, já recebi umas cervejas em troca de um, ou outro livro meu e não há demérito nisso, que fique claro, e voltando ao nosso assunto, a Literatura Marginal influenciou toda uma geração de artistas no Brasil, não só na própria Literatura, mas também na Música, Dança, Artes Plásticas e demais linguagens artísticas, porém como nosso enfoque aqui são os zines de poesia, vamos dizer que estes são netos dos livretos produzidos artesanalmente pela “Geração do Mimeógrafo”, que ficou assim conhecida por conta dos livros produzidos e reproduzidos naquele trambolho em que na década de 70, 80 e 90 rodavam as provas escolares da galera da minha geração e gerações anteriores. No média – metragem “A Lira Pau – Brasília: A Geração do Mimeógrafo e os Poetas Marginais de Brasília na Ditadura Militar”, Nicolas Behr diz que “ A Geração do Mimeógrafo tirou o terno e a gravata da poesia”, talvez eu não tenha ouvido, ou sequer imaginado uma definição melhor para a poesia marginal, e para você que não sabe do que é,  pergunte aos seus pais o que era esse tal “mimeógrafo” que eles, certamente, vão dar uma risadinha dizendo: “É… na minha época blá… blá… blá.” Eu confesso que quando tive contato com um, cheirei tanto álcool que rolou uma onda, sem exagero.

Como são feitos e o que são os Zines?

São diversas as possibilidades de confeccionar Zines. Podem ser manuscritos, digitados, impressos e xerocados. Há uma série de técnicas para estilizar cada livreto, ou folheto, o autor “zineiro”, escolhe como prefere, enfim. Eu conheci o Zine e fiz o meu primeiro no ano de 2007, quando estudava no Centro do Rio de Janeiro e lá mesmo dobrava uma folha de papel A4, escrevia uns poemas e xerocava para vender, ou mesmo trocar pelo que rolasse, geralmente aceitava uma contribuição espontânea só para pagar a xerox mesmo. Hoje, dez anos depois, as coisas mudaram um pouco, porém a essência continua a mesma e cada vez mais os zines vão ganhando modelos, materiais e formatos diferentes, os mais comuns são de poesias, mas também se encontra com contos, quadrinhos e outros gêneros literários e uma das galeras mais resistentes desse cenário é o pessoal do “AmeopoemA”, que tem ponto entre a porta do Centro Cultural Banco do Brasil  e Cinelândia. Nelson Neto, Shaina, Dy Eiterer, David, Paulinho, Rômulo Ferreira, Luiz Silva e outras figurinhas fáceis por ali já ofereceram suas poesias para milhares de pessoas naquele local. Segundo Rômulo Ferreira, o AmeopoemA é:

Grupo de leitura e proliferação poética e artística!

Criado em junho de 2010, a partir de uma forma física que era o  ZINE AMEOPOEMA, veioa vida  este grupo que tem a intenção de facilitar a proposta de ser lido e divulgar os trabalhos de amigos e desafetos!

Temos três formas de espalhar poesia pela cidade:

1-    Zine mensal impresso AMEOPOEMA, que está em sua 47 edição.

2-    Sarau AMEOPOEMA, rede de leitura e troca de ideias em praças públicas de todo o território nacional.

3-    Página em rede social, onde todo autor e leitor podem interagir de forma mais direta.

Criado por Rômulo Ferreira e Bárbara Barroso. O AMEOPOEMA, vem atuando de forma independente e sem ajuda de custos de lei alguma, vivemos basicamente da colaboração de amigos e alguns passantes de onde os eventos acontecem.”

Eu, Guarnier, este humilde poeta, já considero parte do imaginário poético daquele canto da cidade e um dos patrimônios do Centro do Rio e você que vier dar uns roles por aqui, tem que passar lá, comprar seu zine e beber dessa poesia, para você que nem pretende pisar estas terras, mas que gostaria de conhecer o trampo, é só dar uma conferida na página do Facebook deles que deixarei no final da coluna. E pra deixar um gostinho do tempero desses poetas nada melhor que  Poesia! Então: “Gosta de poesia, Senhor? Gosta de poesia, Senhora?” Com vocês: AmeopoemA!

 

(Rômulo Ferreira)

Hoje o sol nasceu vermelho
escondido nas ideias que tive
sobre inventar verdades
sobre a esperança

sobra a sorte
de ter
ou não ter fe na vida

vem cá,
olha em meus olhos
diga que veio pra sempre.

diga que estávamos errados.

estou aqui

me avermelhando nesse sol
esperando
e fumando o resto do cigarro
que a gente arrumou
naquela transação dos infernos…

maldito dia aquele
maldito sono

acordamos cedo

e ainda nem acabou a noite

–Rômulo Ferreira

(Dy Eiterer)

Naufrágio II

Abandonando o cais,

Lanço-me no sem fim azul

Como um navio que escorrega no mar.

Ele percebe a beleza, a força,

Mas não pode prever a profundidade.

Por isso só segue nas horizontais.

Porque não saberia lidar

Com o que desconhece.

Talvez seja medo.

Talvez despreparo.

Um quê de insegurança.

Um muito de vontades aplacadas

Pelo sussurro do vento

Que dá calmaria, mas alerta:

Seu naufrágio é necessário

-Dy Eiterer

(Nelson Neto)

ACHO QUE ESTAREI SALVO

ENQUANTO TIVER DIAS DE MÁXIMA EUFORIA

POR QUALQUER COISA QUE ME ABSTRAIA!

ACHO QUE GANHO TEMPO

AO ME ENFRENTAR NO ESPELHO

SEM NEM AO MENOS SABER QUAL FOI À PERGUNTA DE UM MILHÃO!

ACHO QUE DESESPERO ATOA

QUANDO NÃO CONSIGO TER ESPERANÇA APARENTE OU MEDO QUE O VALHA!

FUJO MAS NÃO COM TEMOR,

SÓ POR NÃO TER NADA PRA FAZER POR LÁ.

-Nelson Neto

Link da página do AmeopoemA: https://www.facebook.com/ameopoema/?fref=ts