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Resenha literária com Guarnier: Greta Garbo

O Moralismo Que Salvou A Greta Garbo de Fernando Melo

Greta

    Em 2004, eu estava no início da minha carreira no Teatro e fui convidado pelo ator e lenda do Teatro de Revista no Brasil, Luiz Valentim, a interpretar Renato, um jovem rapaz que saído de Campos, desembarca no Rio de Janeiro para conhecer Mary, uma prostituta cleptomaníaca da Cinelândia e Pedro, enfermeiro, gay, morador de Irajá e fã da grande estrela Greta Garbo. O nome do texto? Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá, de Fernando Melo. Assim como Renato, eu também ainda engatinhava na malandragem dos palcos e fazer um “personagem escada” daqueles, parecia tarefa muitíssimo difícil para mim, de fato foi, mas consegui me virar por três anos. Na mesma época eu também cursava a faculdade de Letras e assim que chegou a temida escolha do tema para a monografia, eu pensei em quem? Em Greta Garbo, lógico! Queria enquadrá-la no período literário da Literatura Brasileira Contemporânea, por se encaixar em vários aspectos além da época em que foi escrita, pois falava de um gigolô viciado, uma prostituta ladra e um gay que trabalhava num hospital e sustentava o vício de seu marido na base dos calmantes que roubava no emprego. Era um tema perfeito para mim, então comecei minhas investigações.

    No início dos anos setenta, época em que Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá foi escrito, o Brasil vivia um dos piores períodos de sua história, uma ditadura sufocante e sangrenta que censurava e prendia artistas à mínima suspeita de subversão contra o Regime, pois ainda estávamos sob o chicote do Ato Institucional nº 5, a Luta Armada era a forma que as organizações tinham para libertarem os presos políticos, os meios de comunicação eram completamente manipulados – isso mudou pouco – e tinha que se tomar bastante cuidado com o que se falava, enfim, diante disso tudo, fui eu procurar registros de censura ao texto de Fernando Melo. Vasculhei tudo onde podia e, incrivelmente não achei nenhum. “Mas como isso é possível?”, perguntava eu à minha orientadora, Professora de Literatura Brasileira  Márcia Veiga. Ela também, num primeiro momento não entendeu muito bem, pois além de não haver censura sobre o texto, ele ainda foi montado e estreou no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro em 3 de julho de 1973, primeiramente com Nestor Montemar como Pedro, Mário Gomes como Renato e Arlete Sales como Mary, com direção de Léo Jusi e em 19 de março de 1974 no Teatro Itália, em São Paulo, com Raul Cortez interpretando Pedro, Nuno Leal Maia como Renato e Pepita Rodrigues como Mary com a mesma direção de Léo Jusi.
Depois de muito pensar e eu sem conseguir nenhum registro de censura sofrida pelo texto, passei a suspeitar justamente do elenco, pois eram figuras já conhecidas do meio artístico da época e não envolvidas com os artistas de esquerda, aqueles que frequentavam as manifestações, faziam músicas de protestos, eram perseguidos… Passei a achar que o elenco, justamente por transparecer apoio ao regime militar, tinha conseguido livrar o texto da censura, mas depois vi que isso seria improvável e abandonei a ideia. Retomei as leituras de Greta, mas agora não como ator, como investigador e lia e relia. Caramba, tem um momento no terceiro ato em que Renato, muito chapado, diz para Pedro tomar cuidado ao abrir a porta, pois a repressão entrava atirando, nem isso foi cortado, nada foi cortado. Isso me afligia demais e já queria saber quais ligações que Fernando Melo tinha com a Ditadura. Só tendo muita costas quentes para evitar uma censura sob a aba do quepe do AI-5.

O Moralismo e a Moral da História

    Na ditadura havia duas formas de se escapar da censura, a primeira era ser metafórico nível: “PAI, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE!” ou seja, desdobrando substantivos escritos em verbos escutados como Chico fez: Cálice = Cale-se. Logo seria “Pai, afasta de mim este cale-se!” ou sendo um reprodutor da moral e dos bons costumes naquilo que se escrevia, falava, cantava… e Fernando Melo se utilizou da segunda opção. Para demonstrar o que estou tentando dizer, vou ter que contar o final dessa estória, que também poderia ser escrita com “h”, não se chateiem comigo, por favor!

    Ao final de Greta Garbo, Quem Diria Acabou no Irajá, Após Mary aparecer na casa de Pedro atrás de Renato e fazer um puta dramalhão dizendo que tem um cara da Polícia trás dela, pois a mesma roubou a carteira de um meganha depois de um programa, a menina recebe um estrondoso esculacho de Pedro que a enxota do seu cafofo mesmo após ela dizer que vai se matar. Um barraco só! Assim que a prostituta sai pela porta, Renato, ainda muito doidão, diz que vai voltar para Campos abandonando Pedro que fica arrasada. Então o rapaz pega suas coisas, sai e deixa o velho sozinho fechando o texto com um jargão dramático repetido ao final de todos os três atos:

“Será que Greta Garbo teve uma vida tão desgraçada quanto a minha? Se teve, coitada dela, coitadinha!”


Entenderam? Ah, e o porquê de eu estar escrevendo sobre isso onze anos depois? Porque eu desisti de fazer a monografia sobre o texto de Fernando Melo achando que não teria tanto impacto quanto um texto que pudesse ter sido censurado, ou mesmo que tinha uma crítica mais explícita à Ditadura Militar, daí mudei o autor, fui falar de Vianinha que virou meu amigo e ídolo póstumo após eu ler, me emocionar e me deliciar com Rasga Coração. Tem mais um motivo pelo qual escrevo sobre Greta hoje, daqui a uma semana farei uma leitura dramatizada rememorando essa época de muito aprendizado nas “negras esquinas da badalação” que frequentei com todos os personagens escada que interpretei no Teatro de Revista. Hoje eu entendo que Fernando Melo não foi um covarde não deixando que Renato, Pedro e Mary vivessem um ménage a trois regado a whisky barato, pequenos furtos e calmantes, ele foi um astuto autor que não esmurrou a ponta da faca, deixou os três personagens acabarem na merda e assim narrou esplendidamente as vidas dos Pedros, Renatos e Marys da Cinelâncida dos anos setenta.

Estou num momento nostálgico, mas quem vive de Teatro é mesmo assim, vive um passado que não passa mais e que nega dizendo querer distância, anda em círculos eternos, mas em cima do palco, reclama do mesmo cheiro delicioso do mofo, toma umas cagadas de morcegos na cabeça, junta trocados pra cerveja após os ensaios – e antes também. Vida de Teatro é uma deliciosa lamentação, por vezes comemos sardinha e arrotamos o caviar, mas é essa a graça da coisa a gente gosta mesmo é do estrago! Merda para nós!

A quem se interessar pelo texto, pelo espetáculo e quiser assistir um pouquinho, aqui vai um trecho do primeiro ato. Abração e até próxima!

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Poesia

Você Gosta de Poesia?

Poesia

    Eu tenho certeza que todo professor de Literatura, todo poeta, escritor… enfim, todos que trabalham com a poesia ou são entusiastas dela já fizeram esta pergunta já sabendo da resposta. Pois é, o NÃO é quase certo por vários motivos ou desculpas esfarrapadas. Também tenho certeza que diante de tantas negativas, muitos já desenvolveram estratégias para convencer as pessoas de que SIM, elas gostam de poesia, talvez só não saibam disso. Então:

O Que É Poesia?

poesiasubstantivo feminino

  1. 1.
    lit arte de compor ou escrever versos.
  2. 2.
    lit composição em versos (livres e/ou providos de rima), ger. com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens.
  3. 3.
    lit composição poética de pequena extensão.
  4. 4.
    lit arte dos versos característica de um poeta, de um povo, de uma época.
    “p. romântica brasileira”
  5. 5.
    poder criativo; inspiração.
  6. 6.
    o que desperta emoção, enlevo, sentimento de beleza, apreciação estética.
    “a p. de uma pintura” 

Fonte  da pesquisa


    Pois é, conceitos são fáceis de encontrar. Definições acerca do nome. Respostas simples e etc. Tudo isso é necessário para que tenhamos respostas rápidas, porém não serão estas respostas que despertarão o interesse, nem tampouco convencerão pessoas de que elas gostam de poesia. Tenho um companheiro poeta chamado Ni Brisant, inclusive foi tema da nossa segunda coluna aqui no Marginália que compôs um poema curto sobre o que é poesia:

Poesia é o que a gente sente

o resto é Literatura

-Ni Brisant


Quem lê, ou escreve poesia sabe a verdade tamanha que este poema carrega dentro de si.

-Mas, Guarnier, a Poesia não é Literatura?

É sim, respondo eu! Porém, nem toda Literatura é poesia. Vou além, Já li muitos poemas que me tocaram menos que um bilhete carinhoso ou um manifesto de luta. Talvez isso se deva às regras e técnicas impressas naquela composição que, de tão erudita tornou-se estéril sentimentalmente. Portanto, numa definição bem pessoal, poesia na minha visão é sentimento. É transbordo. É o que não cabe mais e que precisa ser exposto. Muito piegas minha opinião? Óbvio que sim! Agora, quem nunca foi piegas que atire o primeiro verso! Não canso de dizer: O professor de Literatura é da sala de aula pra dentro, a céu aberto, eu sou poeta. Mas… continuando, como poeta e professor, adotei uma boa estratégia quando me devolvem: esse negócio de poesia é muito chato! Sempre que ouço isso volto a perguntar, mas de forma diferente:  Você gosta de música? A resposta é sempre sim, pois só uma alma bem deteriorada não gostaria de ouvir música, inclusive, sempre circula um meme na internet com a célebre frase de Niet que diz: Sem a música a vida seria um erro! Sim, caro Friedrich Nietzsche. Então, se alguém gosta de música por conta de sua letra, obviamente gosta de música! Mas…

Letra de Música é Poesia?


“(…) De tanto ouvi-la acabo sempre pensando sobre ela. Se me perguntassem eu diria que não existe nenhuma diferença essencial; letra de música é poesia e poesia é letra de música. Rigorosamente, qualquer poema e mesmo qualquer texto em prosa pode ser colocado numa melodia (…) Mas se pensarmos dentro de critérios mais tradicionais, podemos pensar que existe algum grau de diferença entre poesia e letra de música, não o bastante para colocá-las em categorias distintas(…) Ninguém duvida que um soneto de Shakespeare e um poema concreto de Augusto de Campos sejam ambos poesia, porém cada um exige maneiras diferentes de leitura. (…) Fica claro, portanto, que diferentes categorias de poesia sobrevivem em diferentes suportes, mas nem por isso deixam de ser essencialmente a mesma matéria: poesia; e a letra de música é apenas mais um tipo de poesia cujo suporte é a melodia.”

    Encontrei o texto de onde fiz este recorte num site chamado Obvious, embora o assunto pareça uma obviedade, como sugere o nome do site, tomando as explicações que ele próprio apresenta, nem todos podem achar tão óbvio assim, pois aborda os Sonetos de Shakespeare e a Poesia Concreta de Augusto de Campos, traçando suas diferenças na estrutura e forma de leitura, apesar de ambas serem, essencialmente poesia, porém deixa claro que a estrutura diferente somente exige uma forma de leitura diferente e que, portanto, Poesia Concreta, Soneto, Letra de Música e outras estruturas são sim poesia. Então quem gosta de letra de música, gosta de poesia, porém a forma de absorção é diferente, tornando, agora sim, obviamente, a leitura diferente.
    Pronto! Digamos que você já convenceu alguém de que gosta sim de poesia e aí emendo uma outra pergunta para reflexão: Por que será que precisaríamos de tanto esforço para convencermos alguém de que poesia é uma das coisas essenciais para a vida e que ela está em tudo? Para isso tenho outra teoria e essa responsabiliza a escola e seu currículo engessado para o ensino da Literatura, e quando digo escola e currículo, não limito esta culpa somente às Escolas Públicas, este engessamento pode chegar à Universidade, em muitos casos.

A Didática no Ensino da Literatura

    Na maioria das unidades escolares o ensino da Literatura acompanha o mesmo currículo abordando os Movimentos Literários no Brasil pela ordem cronológica da História Mundial pouco antes de 1500, ou o chamado e superestimado “Ano do Descobrimento”. Então entregam aos alunos as Cartas de Caminha, a chamada Literatura de Viagem que não apresenta poesia neste período e após isso vem uma pedrada atrás da outra com os Sonetos do fantástico Gregório de Matos no Barroco, Gonçalves Dias na primeira fase do Romantismo e sua tentativa de reconstrução da Identidade Nacional com o Indianismo, ali a Canção do Exílio e seus versos melodiosos cantam nossa terra e natureza exuberantes. Na segunda fase conhecemos Álvares de Azevedo e seu pessimismo característico do Mal do Século, período apelidado assim por conta da tuberculose que assolava a época e que matou inclusive o referido autor. A terceira fase trás Castro Alves, caracterizando a poesia do período como Social tendo a temática abolicionista como protagonista. Estes são somente quatro poetas entre dois movimentos literários e seus desdobramentos, que em menos de um ano, são apresentados sem nenhuma prévia preparação. Convenhamos que, para um leitor estudante iniciante na Literatura Brasileira, a poesia apresentada nada tem de prazerosa e sedutora e sim de pesada e rebuscada. Prestem bem atenção, não estou aqui, absolutamente, dizendo que esses autores, bem como seus movimentos não devem ser estudados, mas questiono o modo, a forma e momento em que são apresentados. Por qual motivo questiono? Bem simples e são basicamente dois:
O primeiro é:: Fazemos o caminho inversamente didático, pois primeiro apresentam-se as pedras exacerbadamente rebuscadas e depois apresentam as plumas divertidas e deliciosamente irônicas da poesia brasileira. Por que temos que conhecer Gregório, Gonçalves, Álvarez, Alves, Anjos, Souza, Alphonsus e toda essa riqueza da nossa Literatura, antes de conhecer o Leminski, por exemplo? É como ensinar uma Equação do Segundo Grau, antes de ensinar as quatro operações básicas da Matemática. Não estou aqui minimizando a qualidade da poesia de Leminski, estou salientando seu poder de sedução através da extroversão e leveza. Querem ver na prática? Então vamos lá!
Imaginem-se adentrando à sala de aula e se deparando com o texto abaixo escrito no quadro:

ameixas
ame-as
ou deixe-as

Paulo Leminski
Você riu? Pois é, é bom abrir um sorriso, não é? Há referências Históricas nestas poucas palavras e aquele famigerado bigode só precisou de três versos para isso. Sensacional!
Vejam bem, não defendo aqui uma reviravolta completa da ementa, mas defendo uma melhor preparação para a introdução de autores tão importantes, para que estes não sejam os vilões que desencorajam pessoas a gostarem de poesia por conta da dificuldade de lê-los e entendê-los.
O segundo ponto é o seguinte: Por que a Literatura é posta como uma disciplina, muitas vezes somente utilizada como instrumento para o ensino da Gramática e não como o que verdadeiramente é: uma Arte? Basicamente, a primeira linguagem artística, na maioria das vezes a única, que ensinam na escola é a Literatura e não nos damos conta disso. A Arte narrada e influenciada pela História. O tempo real de cada época. Então há de se pensar e desenvolver estratégias mais eficazes e humanas para o Ensino da Literatura, por consequência, da Poesia, nosso assunto nesta coluna.

Antes Que Eu Me Perca

    Antes que eu extrapole os limites de coerência e coesão do tema e da coluna, vou finalizar com um pedido de reflexão e, se possível, uma resposta de vocês nos comentários. A proposta é refletir sobre como seria diferente a relação de cada um com a poesia, caso essa fosse apresentada como um prazer e não como um dever. Arte é leveza e um convite ao pensar, não uma opção entre certo e errado. Então, se você tem uma estratégia para a difusão da poesia, dentro ou fora da escola, pode mandar que eu quero ler e aprender. E como a gente sempre termina com uns versos, vamos de Leminski! Até a próxima!

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

 

Paulo Leminski

 

 

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Caldo de Cultura

Caldo de cultura

Caldo, Música, Poesia e Outras Delícias: Estação Marginal VI – Caldo de Cultura

 

Desde que chegamos à Baixada Fluminense, já falamos do Sarau RUA e do Sarau do M.E.R.D.A., ambos de Nilópolis e, seguindo a veia que corta nossa BF, vamos pela linha do trem até a cidade vizinha para apresentá-los nossa sexta Estação Marginal, então chega mais porque vem coisa boa. Aí vem um caldo delicioso com ingredientes muito especiais.

 

    O que vocês acham de chegar num sarau onde rola música, Teatro, Poesia, Performance, Debates e ainda por cima saborear um delicioso caldo de graça assistindo a isso tudo? Pois é, este é o Sarau Caldo de Cultura que rola na praça Praça João Luiz do Nascimento, mas conhecida como “Praça da Telemar”, no centro de Mesquita, na estação ferroviária da cidade. Já lancei livro lá, mais precisamente o meu segundo, o Paiol e fui muitíssimo bem recebido, participei de debate e falei do processo de criação. Fui “entrevistado” pelo Ewerson Cláudio, figura icônica na militância artística e política de Mesquita e na Baixada e lembro que recebi um cachê delicioso: Dois litros de um vinho que, àquela altura com o tamanho do carinho que recebi, desceu uma maravilha acompanhado do caldo que é servido no sarau. Fundado em 2014, num ano que considero icônico para a cultura baixadense, pois foi de fato um período em que grande parte dos artistas pararam de migrar para capital e passaram divulgar seus trabalhos na sua região de origem. Durante muitos anos a Baixada exportou artistas para fora dela por não ter espaços onde os mesmos pudessem se apresentar, ganhar um cachê, vender seus cds, livros, passar seus chapéus, venderem seus artesanatos… enfim, a efervescência cultural da Baixada finalmente acontecia na própria Baixada. Um marco, como disse, mas retomando sobre o Caldo, sua primeira edição aconteceu no dia 14 de fevereiro deste belo ano. Rolando sempre na segunda sexta-feira de cada mês desde então.

“O objetivo é possibilitar o intercâmbio de diversas linguagens artísticas e da cultura em geral presente no caldeirão da Baixada Fluminense. A atividade conta com a presença de artistas plásticos, poetas, músicos, autores de livros etc.”

 

Nesta descrição do objetivo do evento, fica clara a vontade de oferecer um espaço onde os artistas possam se conectar com seu público, bem como ampliá-lo.

A Arte e a Praça Públicas

 

“Realizar o evento em praça pública foi proposital para interagir com o público que frequenta o local: jovens, crianças, adultos, a galera que organiza eventos na rampa de skate, hip hop, funk etc., além de vendedores das inúmeras barracas de alimentação (o que já é uma mostra da cultura da região)…”

 

A Praça em que o Caldo acontece é palco em que a vida se mostra de forma espontânea. Imaginem aquelas praças de 1980, em que as pessoas andam de bicicletas duplas, o pipoqueiro tem fila grande, a molecada joga um futebol e a criançada come algodão doce enquanto espera a vez nos brinquedos do parquinho. Os casais circulam e tem um clima de azaração típico da adolescência, mais as barraquinhas de cachorro-quente com super molho verde misterioso num clima bem amistoso e convidativo, pois então, além de tudo isso, numa sexta-feira por mês, ainda tem o Sarau rolando, quadros expostos, fanzines, varais, brechó, música, poesia, Teatro, Dança…

Diversidade e Pluralidade

“A pluralidade é um dos elementos conceituais do Caldo: misturar linguagens, ritmos, estilos, gerações, patrimônio imaterial – a mistura de elementos criando um meio propício, um caldo de cultura, para o surgimento de ideias e ações.”

 

    Neste trecho eu me identifico bastante, pois quando escrevi um projeto sobre o Sarau RUA e estava tratando sobre o que é a Baixada Fluminense, lembro que a denominei como “Um grande caldeirão com tudo dentro” para ilustrar sua diversidade, o Caldo é uma dessas maquetes que os saraus são para a BF: Um caldeirão com tudo dentro!

Quem mexe esse caldo?

“Durante dois anos e meio o Caldo realizou 25 edições na praça e parcerias com a Biblioteca Comunitária Oscar Romero, a Escola de Artes Técnicas Luiz Carlos Ripper e o IFRJ.

 

O Caldo de Cultura é independente e autônomo, fruto da miltância cidadã e coletiva pela resistência cultural na Baixada Fluminense, interagindo com várias iniciativas culturais da região. A equipe organizadora conta com a participação de Ane Alves, Cleia Cunha, Meire Oliveira, Eduardo França, Ewerson Cláudio, Genário de Moura, Hélida Mascarenhas, Irany Miranda e Ivan Machado.”

 

    Essa foi a nossa sexta Estação Marginal e décima coluna aqui no Marginália e também no blog dos nossos parceiros da Poeme-se. Como sempre terminamos com poesia, selecionei duas entre muitas de poetas que presenciei lá no caldo. Até a próxima!

Se por amor… Vago, valso, verso…
Se por amor… Invento, intento, imenso…
Se por amor… Ensaio, estréio, estrelo…
Se for amor… Repagino, respiro, renasço,…
Se for amor… Esbravo, escarno, esvaio…
Se não … nem Sou! A.A

-Ane Alves

Mudas As palavras mudas lhe diziam:
Bora com essa poesia!
Desfaz a cara, engole o choro
O grito calado constrói a mágoa.
Vai pra onde o céu possa alcançar,
E quando ninguém mais te esperar, chegue sorrateira,
Surpreenda a farsa,
Deixe se ir com o poema!
Seu universo lotado de si
Te aguarda pra brincar no seu jardim!

-Ane Alves

 

Enquanto isso…

Enquanto te espero…
Curo antigas feridas
Espanto grilos falantes
Dou faxinas constantes

Enquanto te espero…
Me encaro de frente
Me faço forte
Me dou um Norte

Enquanto te espero…
Percorro teus cantos
Ouço teus cânticos
Vejo teus encantos
Enquanto te espero…
Me guardo
Me trato
Me amo
Me basto!

-Ane Alves

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Trupe do M.E.R.D.A

Trupo do M.E.R.D.A

A Arte do Encontro: V Estação Marginal – Sarau do M.E.R.D.A.

 

    A quinta nossa quinta Estação Marginal fica em no bairro de Olinda, em Nilópolis, porque vamos passar uns bons meses na poderosa BF. Já escrevi na descrição deste blog, entre outras coisas, que esta é uma coluna passional e parcial. Colocar-se a parte para fingir não ter sentimento sobre aquilo que se escreve soa bem “acadêmico-leite com pera” a meu ver e, não escondo a aversão que tenho sobre esse ser. Como vou alimentar meu ideal de transformação social pela Arte, se não enxergar o primordial ingrediente que move essa minha utopia nos movimentos que pesquiso, escrevo e divulgo aqui? Pois bem, então vou falar de poesia, luta e afeto. Pois é isso que sinto quando vou no Sarau do M.E.R.D.A., sigla que significa: “Movimento Em Razão Da Arte” e essa galera toda vem do Teatro, onde desejar “Muita Merda” ao seu colega de trabalho, é o mesmo que lhe dizer: Muito Sucesso! Querem saber o porquê? Vamos à Wikipédia:
” (…) A expressão nasceu da língua francesa, merde, provavelmente no século XIX ou século XX, pelo fato de o público ter acesso à casa teatral por meio de carruagens a cavalos que, muitas vezes, amontoavam fezes em suas entradas; com ironia, a expressão correlacionava o fato de haver “muita merda” na entrada do teatro ao desejo de se ter também “muita sorte” em cena.

 

Entenderam? Ah! E outro dado importante é que “merda” não se agradece, portanto se alguém lhe desejar “merda”, ou “Muita Merda”, deseje de volta, mas não agradeça. Óbvio que numa sociedade puritana e pudica como a nossa, há quem se incomode com a sonoridade do termo, antes mesmo de procurar saber do motivo dele, como indica o relato feito pelo grupo:

 

“(…)É engraçada a reação das pessoas ao nome do evento e do coletivo. Inclusive, sermos impedidos de pronunciar a sigla em eventos ou de usar a camisa do coletivo ocasionalmente acontece.”

 

Dá pra acreditar nisso? Pois é!

 

Como surgiu o Sarau

Trupo do M.E.R.D.A

“O M.E.R.D.A. (Movimento Em Razão Da Arte) nasceu em uma barraquinha de batata frita, logo depois daquela passada de chapéu ao fim de um espetáculo. Quase todos os integrantes da formação inicial estavam presentes. Entre comer, zoar e já compartilhar certa nostalgia porque a temporada estava chegando ao fim, falávamos sobre a possibilidade de dividir o futuro. E concordamos que arriscar seria não só corajoso, mas uma loucura daquelas bem gostosas, que nos fazem acreditar que falar em utopia é um termo usado para esconder a preguiça do que está logo ali. Ignorando as hipérboles do primeiro estágio do sonho, este foi o primeiro passo. Era dia 28 de março de 2015. Daí até o primeiro sarau demorou apenas quatro meses.”

As referências

“Tínhamos como referência o “fazer cultural” que vinha do nosso quintal, e que sabíamos, teríamos que trabalhar muito para chegar perto do que eles haviam construído até então e representam, pois eram e/ou são bons para caralho! (perdão pela expressão, mas não consigo uma definição melhor). À época, os integrantes da trupe(Abigail Cristina, Camila Kasmin, Higor Maxado, Jessica Sodré, Joyce Fernandes, Maiana Santos, Rita Valentim e Yuri Monteiro)moravam todos entre cidades da Baixada e Anchieta. Além disso, quando anunciamos o grupo, fomos convidados pelas produções de saraus e eventos semelhantes para apresentarmos. Assim, percorremos o sarau RUA, o sarau Donana, o sarau de gênero Fulanas de Tal, o Caldo de Cultura, o sarau Jardim Poético. Ir a um evento promovido na rua, em uma ocupação de um aparelho cultural público ou em um espaço independente não era só ir para atender o convite de um amigo ou para levar um número, mas porque cada um, com sua especificidade, cativa, provoca, agita, dá esperança, faz reverberar, chacoalhar. E era a essa inquietação sentida que queríamos dar continuidade. Para somar, para ajudar a construir juntos. Um episódio que recordo é que, assim que surgiu a ideia de montar o sarau, a querida Ivone Landim  nos procurou para conversamos sobre as possibilidades de datas para não coincidir com outros eventos. Pessoas dos diversos coletivos nos orientavam, falavam sobre as dificuldades, alertavam. São pequenos gestos que constroem e que nos fez perceber como a galera da Baixada se abraça e se mobiliza.”
    Importante grifar que, chegando à Baixada Fluminense, no que diz respeito aos saraus e movimentos poéticos, alguns personagens vão se repetir frequentemente nas histórias desses coletivos e suas formações, quem leu a última coluna sobre o Sarau RUA, já identificou o nome da Poeta – chamo poeta mesmo, substantivo de dois gêneros para mim: Ele poeta. Ela poeta – professora, fanzineira e ativista cultural da Baixada Fluminense, Ivone Landim, que ainda terá seu nome citado inúmeras vezes neste canal. sigamos.

 

Os objetivos

Trupo do M.E.R.D.A

 

“(…) Sabíamos que queríamos não só que as pessoas fossem para prestigiar os artistas, mas para se jogarem mesmo. Queríamos debates em forma de bate-papo, sem aquela pressão de estar em um meio acadêmico, mas para que todos contribuíssem com algum conhecimento ou opinião sobre o tema proposto; queríamos aquela sensação de ser criança e brincar junto com a gente, se jogar sem receio de estar pagando um mico; promover encontros, conversas, parcerias; abrir a porta de todos os armários em que a rotineiramente somos trancados, sem qualquer repressão; deixar a galera à vontade para subir ao palco e mostrar a sua arte – principalmente àqueles que não compartilhavam seus talentos por vergonha; oferecer um ambiente acolhedor e de qualidade para quem se dispusesse a doar o seu tempo e o seu trabalho para fazer o sarau acontecer. Queríamos mobilização política e social, representatividade, e, sobretudo, ajudar a Baixada a sair do limbo da região dormitório e berço da violência.”

 

A primeira edição do Sarau do M.E.R.D.A.

 

“A primeira edição lotou. Uma das nossas preocupações era a duração do sarau. Sabemos que, depois de certo horário, se deslocar pela Baixada fica ainda mais complicado, já que não há mais transporte público disponível e, como qualquer outro lugar, a possibilidade de ser assaltado, entre outros perigos, é maior. A previsão era acabar às 23h30. Passamos da 1h da madruga. No final, cansados, felizes e imensamente gratos, limpávamos o galpão e conversávamos sobre cada momento da noite, cada pessoa que havia nos abraçado, incrédulos de que havia sido real. No outro dia, o “boom” na página confirmava. E já perguntavam pelo próximo, que loucura!”

 

O que move o coletivo

 

“Não poderia deixar de ser confessado aqui que, por vezes, muitas vezes, um de cada vez ou todos ao mesmo tempo, cansados, abatidos, esgotados, quase abandonamos o barco, porém, a cada edição, somos contagiados, reenergizados e imersos em carinho. É aquele momento em que alguém está tocando e sobem outros artistas no palco e começam a tocar juntos e uma banda se forma, instantaneamente; o preciso instante em que alguém expressa sua dor em um poema, se declara com uma música; o dia em que uma pessoa resolve finalmente cantar, tirar do bloco de notas do celular os seus escritos; é o curto espaço de tempo de uma roda de conversa que se percebe o quanto os jovens estão empoderados e engajados; o átimo em que você se dá conta que alguém saiu de casa para curtir sem precisar sair da Baixada e que aquela pessoa sente que está aproveitando um sábado à noite. E tudo isso parece ser maximizado em nós que, observando tudo aquilo, ainda parecemos não entender como essa “mágica” acontece. E somos gratos, porque não cabemos em nós com tanto que recebemos. É a pulsação que encontramos em tantos outros movimentos e que tem nos movido até aqui. Em junho, antecipando-nos um pouco, faremos a edição de aniversário de 2 anos do sarau, sentindo que muitos encontros ainda estão por vir.”

 

Alerta de alto grau de ironia e sarcasmo:

    Coisa de desocupado esse negócio de fazer sarau. Vejam só esse monte de jovens, reunidos para tratarem de temas delicados, ouvindo lados de moedas que muitas vezes nem são do seu contexto social, só atingem outros. Fico imaginando quais foram as referências e os meios sociais que foram inseridos para, em vez de estarem em casa, ou estudando, ou trabalhando, ficarem arrumando ideia de promover eventos onde as pessoas se divertem, falam de sua região, desinibem-se e vão até o palco para falarem seus poemas, pegam no microfone para cantarem suas músicas, mostrarem sua Arte. Fico matutando qual motivo leva pessoas promissoras a organizarem encontros onde as demais pessoas podem se abraçar livremente, onde elas se amam sem limites, sorriem sem vergonha. Eu sei que, com esse meu pensamento infestado de opiniões que eu não formulei, mas que adoro reproduzir, jamais vou entender o porquê dessa gente agir assim, então melhor ficar aqui no meu canto, assistir o Jornal Nacional e deixar o Willian Bonner pensar por mim. Bem menos cansativo.
    O Sarau do M.E.R.D.A. rola no Galpão 252 em Olinda – Nilópolis, pertinho da estação ferroviária e como sempre terminamos com poesia, aí vão poemas de alguns dos integrantes da Trupe do M.E.R.D.A. e como sou de Teatro, desejo muita merda pra essa gente linda que venho acompanhando desde que surgiram no imaginário nilopolitano e baixadense. Viva a Arte do Encontro! Vida longa ao M.E.R.D.A.!

Amigo tempo

O tempo é um menino levado
Que está sempre à contra gosto
Passa depressa ao querermos desfrutá-lo
E simplesmente para ao desejarmos que ele se apresse.

Colocam-no como senhor da verdade
Curandeiro de corações
Empecilho de amores
Mas ele é somente o tempo
Que nos dá o ar da graça
Com sua correria ou sua calma.

É engraçado vê-lo fluir
Brincar com seu passar
Aproveitá-lo com um sorriso
E ver como parece não ter fim
Como um amigo com quem
Vivemos a nos divertir.

Ah tempo, é bom sentir o teu início.
Mas é ruim percebermos
O fim de algo por falta de ti
Por isso meu bom amigo tempo
Assim como eu te observo
Observa-me
E avisa-me quando for partir
E deixar-me a sentir a tua falta.

-Maiana Santos

Maiana Santos trupe do merda– Das minhas vontade essa tarde

Me dá um beijo?
Mas tem que ser um daqueles!
Que embaçam meus óculos,…
Me tremem as pernas
E me fazem suar.
Daqueles que alteram a respiração
E fazem você pedir pra eu me acalmar.
Um beijo daqueles, que pelo tempo que dura
Podia ser três, ou cinco, ou mais.
Vem e me dá
Um beijo
E mais.
Eu quero sempre mais.
Mas quem pode me culpar?

-Jéssica Sodré

Jéssica Sodré trupe do merda

 

 

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Sarau Rua

 

   Nas páginas policiais, quem nunca ouviu falar da Baixada Fluminense? Uma periferia estigmatizada por sua histórica violência recorrentemente explorada pelo sensacionalismo jornalístico, tornando-a uma das mais temíveis regiões do estado, a Baixada iniciava seu histórico de violência e depreciação lá no início da colonização, quando era habitada pelos índios tamoios que receberam apoio dos franceses contra a invasão portuguesa, mas que foram derrotados nas aldeias das terras baixadenses, terras que, após isso, foram chamadas pelo padre José de Anchieta de “a nação dos derrotados. Todo esse histórico corroborou, logicamente, para a discriminação dos habitantes daqui, pois aquele que é morador da região sabe, que quando se fala “Moro na Baixada”, quem não a conhece, já lança olhares que denotam expressões como: “ai meu Deus, é bandido!” à “Coitadinho, mora muito mal!”. Como morador, afirmo: a violência e a infra-estrutura não são nem piores e nem melhores do que a da maioria das demais cidades do estado, inclusive de grande parte da capital. Que fique claro e, para que essa coluna não vire um “tratado sobre tudo de ruim na Baixada Fluminense”, falaremos sobre a grande efervescência cultural e artística baixadense.
   Não seria exagero afirmar que a baixada foi habitada por pessoas vindas de muitas partes do mundo, porém, para andar num terreno mais seguro, podemos certificar que aqui tem gente nascida desde o Oiapoque até o Chuí. A bem da verdade, a Baixada é um caldeirão. Sim, um caldeirão com um emaranhado de tudo e todos dentro, e essa mistura de culturas, consequentemente, beneficia a produção das Artes, por exemplo, pois acaba se tornando um processo antropofágico de produção de Arte que nos proporciona variadíssimas e originais manifestações artísticas em todas as suas linguagens existentes. Do Funk à erudição dos concertos clássicos. Do Passinho ao ballet. Dos Sonetos de Camões, aos versos mais rasteiros dos poetas que brotam a cada dia mais afiados nos saraus dos bares, praças e Ruas baixadenses. O início e o fim se encontram aqui. Somos “O coração que bate fora do peito-capital…”. Somos a Baixada Fluminense. Como artista baixadense há 15 anos, sempre a percebi como uma “mola encolhida” em relação ao seu potencial total artístico. Subjugada pela capital e exportadora de seus artistas pouco valorizados aqui dentro, a Baixada conhecia uma pequena parte do que produzia artisticamente, a representação artística ficava limitada às “escolas” de Samba e alguns medalhões regionais que, esporadicamente, ocupavam páginas de jornais, pequenas participações na TV e reality shows. Essa pouca valorização também é uma conseqüência do que se entende e se reconhece por Arte dentre os moradores da BF, pois o “artista” não é posto como um trabalhador comum – especialmente comum – e sim uma celebridade, ou até mesmo divindade, que obrigatoriamente deve aparecer na televisão e tocar no rádio. Às vezes, diante de algumas falas que ouço, penso que a figura do que é ser artista aqui, para a grande maioria, ainda é um quadro do Tarcísio Meira com a Glória Menezes na estante da sala, e um vinil do Roberto Carlos à lá Jhon Travolta num canto, porque o toca discos não funciona mais. Um exagero? Talvez!
   Porém, após as grandes manifestações de 2013, comecei a ter notícias de um sarau em Nova Iguaçu, e até por ignorância eu chamava de “Sarau Cinco”, pois não entendia o porquê do “V” e interpretava como um algarismo romano, posteriormente soube que significava “Viral”. Ainda sim só fui ter contato com o “V” em agosto de 2014 e uma necessidade se instalou: “Nilópolis precisa de um espaço artístico independente.” Eu balbuciava pensamentos e reclamações altas e conversava com Elizabeth Gomes sobre a falta de apoio aos movimentos artísticos, pois nessa edição do Sarau V o tema foi “Ação no Território”, e houve muitas reclamações de coletivos sobre perseguição policial, política e falta de apoio público, então num dado momento, um senhor morador de Rua pediu a vez no microfone aberto e cantou a música “O Menino da Porteira”. Resumo: O cara teve sua casa invadida, sua sala desarrumada e ainda recebeu a todos com o melhor que poderia dar. Ali nasceu o verso lema do Sarau RUA “O Amor que a RUA dá, só quem vive a RUA sente” e com ele, também nascia o Sarau RUA.

Sarau RUA, o nascimento. 

   Após dias de conversas com o poeta Victor Escobar, falando da necessidade de um movimento artístico independente em Nilópolis, e sobre os moldes de como fazer isso, apresentei a ele, via whatsapp, um nome: RUA. Simples, direto e que contemplasse tanto as dificuldades, quanto as benesses de uma ressignificação do espaço público. Em princípio achamos que já haveria algum movimento artístico com o mesmo nome, mas na época só existia o “Coletivo RUA” dos militantes do PSOL, uma proposta político-partidária e isso não nos limitava. Foi então que sugeri nos reunirmos com mais lideranças em busca de apoio e criei um grupo no whatsapp que contava com o Cineclube Buraco do Getúlio (Diego Bion e Luana Pinheiro), Coletivo Poesia Segunda Pele (Camila Senna), Pó de Poesia, Sarau de Gênero Fulanas de Tal e Centro Cultural Donana (estes três representados na figura da poeta Ivone Landim), Sarau do Escritório (Alex Teixeira e Rebeca Brandão) e Sarau V (Mateus Carvalho e Janaína Tavares), mais a poeta Elizabeth Gomes, produtora da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu e o poeta Victor Escobar. Já nas conversas virtuais apresentei a logomarca e recolhi alguns poemas para a composição do primeiro fanzine do RUA que seria feito à mão, com caneta e papel – o Rua foi pensado para ser produzido com os mínimos recursos disponíveis, por isso o fanzine feito à mão com caneta e papel e a utilização do megafone para a amplificação das vozes. O encontro aconteceu no Bar Amarelinho de Nilópolis e ali, Elizabeth Gomes e Victor Escobar se juntaram a mim para formarmos o núcleo duro do Sarau Rua que já aconteceria dali a dez dias, dia 20 de dezembro de 2014, às 19 horas, sob as câmeras da Central de Monitoramento da “Cidade mais monitorada do Brasil” – título ostentado com orgulho pela gestão municipal- na Praça dos Estudantes, Centro de Nilópolis.

   Desde então o Sarau RUA ocupou a 18 vezes a Praça dos Estudantes e agora migrou para a Praça Antônio Flores em Nova Iguaçu e continua impactando o imaginário e o espaço público da nossa riquíssima Baixada Fluminense.

   Além da Elizabeth Gomes, Victor Escobar e eu que somos fundadores, além de todos os artistas que se reuniram no bar Amarelinho há mais de dois anos atrás, o RUA também contou em sua produção com outros artistas e produtores da BF que foram, e são, parte da História do Sarau. São eles: Luiza Bastos, Rennan Cantuária, João Léllis, Catu Gabriela Rizo, Ivone Landim e Mariana Belize.

Agora vamos de Poesia!?

Ganga Zumba
chora sozinho
lágrimas salgadas
nas madrugadas
de lua cheia
em frente à praia
de Cruz das Almas

Virgulino
o paladino
botava medo
até mesmo
sem cabeça
na república
açucareira

a esperança
vem e vai embora
mais depressa
que o sol
de Massayó

será que a
antropofagia
conseguiria
salvar a alma
de alguém
hoje em dia?

-Victor Escobar

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Eu poderia largar o cigarro
e em passos largos
me largar de cabeça
no teu peito

Eu poderia
em vilas gaivotas
acidentadas
ou portos brancos,
velhos
a(r)mados
fodidos
e usados
Abrir a janela ao lado
pro vidro corrente de ar
e quebrar com um só impulso
no pulso-coração
o cunho da estrada
voando baixo
nas linhas brancas
ou me arrastando
pelas sujas de bordô e carmim

Eu poderia até mesmo
te cobrir
com meu já empoeirado
manto carmesim

Poderia
em toda via
secar o viável viés
de naufragar o desejo
de morar aos teus pés

Poderia quiçá
no todo do ódio
que te corrompe o sutil codinome
Morrer de desejo
de pavor
de terror
na ira da angústia
de suprir tua fome

Quebrar os limites
e também a gaiola
sufocar com as correntes quebradas
o todo do mal que te apetece

Eu poderia tudo isso

Se com sorte
algum dia
com teu andar-vôo
nas minhas linhas-letras-tortas-poesia

Você também me pudesse.

– três (1/36)
– Elizabeth Gomes

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Quero passear
Quero num domingo de outono, passear pela cidade
andar pelos becos sujos do centro
e descrever em poesias suas igrejas lotadas de fiéis do aos domingos
quero pular as pernas do mendigos …
e negar-lhes esmola
Quero fechar o vidro do carro
com medo de ser roubado pela criança negra do sinal,
mas fazer uma oração semi-sincera pedindo que alguém tenha mais coragem que eu e compre suas balas
quero chutar as garrafas com restos de cola de sapateiro
com meu sapato de trezentos reais e agradecer a Deus por tudo que tenho
Quero exibir minha carteira Louise vitton
quero que faça frio para estrear minha jaqueta Levis
eu quero pisar na lama com minha bota cara
e quero sentar na calçada do CCBB
para ler desdenhoso alguns poemas Nelson
vou arrancar dos bolsos uns trocados e comprar um folhetim
oferecer um cigarro caro do meu e fumar junto fingindo rir pensando:
“Queria ser poeta, mas não igual a esses daqui.”
Depois me despedir com um aperto de mão semi-sincero
entrar para ver uma exposição que não entendo,
mas fazer cara de semi-inteligente
olhar em volta atrás de uma universitária semi-bonita
fingir um interesse, me sentir semi-centro das atenções por uns minutos
e tomar um café semi-tranquilo
pensando que eu queria ser isso, mas sou aquilo
ir embora sozinho, porque é chique ser introspectivo
andar a pé por uns metros para ser visto
esvaziar os bolsos cheios de papéis de bala e de bobo
entrar no meu carro
esperando que minha arrogância saia num arroto
acelerar sem sair do lugar
só para me olharem
sair em disparada na contramão para de mim falarem:
“viu aquele sujeito num carrão?”
dirigir semi-satisfeito
me sentindo o próprio presidente semi-eleito
“Temer, eu sei o que é ser semi-querido, quer me ligar, amigo?”
Homem de bem este senhor!
no caminho, num muro pichado
fotografo no meu Iphone
“Mais amor por favor”
ponho na minha foto de capa e
assisto completamente satisfeito um bombardeio na Síria certo de que a justiça está sendo feita por homens de bem como Temer, Trump e eu
Semi-honestos
Semi-bons
Semi-deus
#guarnier

Guarnier

página do Sarau RUA no facebook: https://www.facebook.com/SarauRUA/

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: A Arte Pública

 

Saraus Como Alfabetizadores Artísticos: A Arte Pública

Sarau Rua

Sarau Rua

 

   Desde as manifestações de 2013,meros movimentos artísticos, coletivos, organizações que promovem a arte pública colocaram o bloco na rua, tudo como forma de continuidade e resistência para dar vazão ao sentimento de indignação coletiva por conta do cenário político que se apresentava.

   A ressignificação dos espaços públicos pela Arte fez surgir um Sarau em cada canto e o território foi discutido. De quem é a cidade? De quem são as Ruas? Do estado ou da poesia, da Dança, da Música, do pensamento? Desde então começou-se a ter notícia de nomes como “Sarau V” (NI), “Sarau do Escritório” (RJ), “Corra que a Polícia Vem Aí” (Campo Grande – RJ), “Poetas Compulsivos” (Morro Agudo-NI), “Poesia de Esquina” (CDD-RJ), “Caldo de Cultura” (Mesquita), “Sarau RUA” (Nilópolis), “Fulanas de Tal” (NI), “Sarau do M.E.R.D.A.” (Nilópolis), dentre outros… muitos outros. Observe-se que todos estes em periferias, mesmo o Escritório que é no Centro da Capital do RJ, acontece na Lapa, berço da marginalidade e boemia cariocas. Esses espaços deram oportunidade e visibilidade a muitos artistas entregando-lhes microfones, palcos e público como se falassem: É a sua voz que queremos ouvir e é a sua Arte que queremos comprar. Com isso muito poeta esvaziou sua gaveta, muito músico resgatou seu instrumento, muito cantor soltou sua voz e, inspirados por estes anônimos, todos aqueles que tinham vontade de tocar um instrumento começaram a tocar, muitos que tinham vontade de escrever, arriscaram seus versos e assim estas simplórias, e na maioria das vezes, até precárias estruturas, tornaram-se as centelhas que faltavam para muitos novos artistas, por isso, podemos chamar estes espaços de “Alfabetizadores Artísticos”.

Sarau V

Sarau V

O que é um sarau?


Segundo a Wikipédia: um sarau pode envolver dança, poesia, leitura de livros, música acústica e também outras formas de arte como pintura, teatro e comidas típicas. Evento bastante comum no século XIX que vem sendo redescoberto por seu caráter de inovação, descontração e satisfação.


   Quem já esteve presente num sarau, sabe da multiplicidade de linguagens que ele abriga. Sem falar no ineditismo e originalidade sempre presentes em cada edição de cada sarau. Já na programação você se depara com um nome que nunca ouviu falar como poeta convidado, e que na parte musical outro desconhecido se apresentará lançando seu último trabalho. Então a moça que trabalha no sinal da avenida principal todos os dias fazendo malabares, também está relacionada entre as atrações. Ali mesmo, durante o período do “microfone aberto”, dois ou três poetas leem seus poemas e te encantam. Eles não têm livros lançados, nem se sabe se almejam um dia publicarem um. Então você descobre que uma folha de papel A4 dobrada, ou não, tem muitas poesias daquele autor que você acabou de conhecer e ele está oferecendo aquele papel por dois reais, daí você descobre que o nome daquela folha com poesias e ilustrações é Zine. Tudo isso na esquina, ou na praça, ou no calçadão da sua cidade, de graça. Você compra um artesanato, come um lanche, toma uma cerveja a preços honestíssimos. Senta-se no chão e troca uma ideia com alguém bem bacana. Sai dali satisfeito e promete-se retornar na próxima data. Digamos que você nunca se interessou muito por Arte porque sempre achou que Arte só ficava nas galerias caras, que poesia era só Fernando Pessoa e Drummond. Que só Clarice Lispector era capaz daqueles interlúdios mágicos que teus amigos compartilham no facebook e agora você acaba de ler, ouvir e ver coisas incríveis de pessoas completamente desconhecidas e então lembra que lá na adolescência aprendeu uns acordes no violão, que escrevia umas cartas, era louco para fazer parte do Teatro da escola e nunca teve coragem, mas diz para si, despretensiosamente: Um dia… um dia.

Multiplique seu exemplo pelo número de pessoas que ali passaram e pararam por dez minutos para ver o que estava acontecendo e se sentiram bem, ficaram mais dez minutos para ouvir a música bacana do cantor desconhecido e depois adiaram mais um pouco a partida para assistirem o grupo do Teatro e a performance de Dança. Aprenderam o que é um sarau, aprenderam que poeta na maioria das vezes não tem livro lançado, aprenderam que Dança e Teatro não precisam de palco para se apresentarem e aprenderam que tem infinitamente mais artistas fora da televisão, dos livros e do rádio do que dentro deles, portanto, aprenderam uma série de coisas que não sabiam. Foram alfabetizados!

mosaico

   Nossa cultura nos disse a vida inteira que estudo e aprendizado só são ensinados nos ambientes vernaculares das escolas. Somente dentro dos domínios daquela estrutura engessada por métodos e estratégias óbvias é capaz de se aprender, por isso, qualquer aula que aconteça num ambiente que não seja a sala de aula não é considerada aula pela maioria dos alunos.

-Filho, como foi a aula hoje?

-hoje não teve aula, assistimos um filme no pátio!

Esse comportamento arraigado em nós, faz com que desconsideremos os ensinamentos que recebemos no cotidiano e acabamos reproduzindo esse discurso, desconsiderando todas as demais inúmeras salas de aula e professores que vão muito além dos muros das escolas e universidades, são ações e lições num campo a céu aberto chamado Rua.

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Multi-sensorial

A poesia ativa o sétimo sentido: Leitura Multi-sensorial


“Cara, parece aquelas escrituras antigas… uma outra língua, sei lá”


Fiz um vídeo para explicar o processo de composição desse zine que gosto muito e que fiz há dois anos e distribuí por onde passei e para quem comprava o “Pacotão Poético” que reunia o livro Paiol-Ninho e outros livretos e zines meus. A intenção era fazer com que as poesias se modificassem e fossem se formando em outras a partir das dobras que o leitor fizesse no papel e para isso tive que compô-las no momento da criação do zine, tornando-o então, parte da própria poesia e estrutura.

Geralmente, na leitura de um zine, carta, livro, literatura num geral, dizemos que somente o sentido da visão é explorado, assim como somente a competência da leitura, digamos, tradicional, aquela que usamos para interpretar os sinais gráficos e a união dos mesmos para formar palavras, frases, textos e etc, porém não há como ler um rótulo de desinfetante e uma poesia igualmente. Um envolve a informação somente, outro envolve, além da informação, se for o caso, também a interpretação, o estado emocional, sentimentos. Para isso nossos sentidos são ativados além do que achamos. na maioria das vezes um leitor quer “entender” o que o autor quis dizer naqueles versos, pior erro de um leitor, a menos que seja um aspirante à vidência.
Se um poema já é lido de forma diferente de um rótulo por envolver além do sentido da visão, também tato, audição, olfato e paladar, um poema concreto, ou que envolva uma estruturação não convencional quando pensamos num poema, ou seja, versos lineares e estrofes, também é lido de forma diferente de um soneto, por exemplo, que é formado de dois quartetos e dois tercetos e rimas. Tudo oferece um gosto, um jeito, um elemento diferenciado para que a experiência seja diversa e é a própria experiência que marcará o leitor, pro bem ou pro mal, porém marcará. Vamos à leitura do zine:

 

A imagem de cima é a parte de trás do zine e a imagem da parte de baixo é a frente. a palavra “Meditar” faz parte da parte interna, mas cumpre seu papel também na poesia da frente que é:

“não é que eu demore pra falar

eu só espero

o coração meditar”


Agora vamos visualizar o interior do zine:

Eis esse emaranhado de letras grandes e pequenas, de formatos variados, onde se lê algumas palavras, mas nenhuma tem conexão com a outra e não têm coerência se postas num mesmo verso e, em tempo, não digo com isso que poesia tenha que ter coerência, mas acredito que me fiz entender. Agora vamos ver as dobraduras que formam as poesias presentes nesta folha:

lado esquerdo:

O QUE ME/LEVOU A TI/FORAM/OS/PASSOS/QUE/NÃO/MEDI

Lado direito:

VEJO/MEU VERSO/E FALO/NA TUA BOCA/QUE NÃO PARA/DE ME CITAR

Agora o lado esquerdo desdobrado totalmente:

O QUE ME/LEVOU A TI/FORAM/OS/JATOS/DE/REBELDIA/NA SUA/POESIA

Lado direito totalmente desdobrado:

VEJO/MEU VERSO/E FALO/NA TUA BOCA/QUE NÃO PARA/MAIS/DE/CLAMAR/DIA/E NOITE/ESSE AÇOITE.

Todas as partes reveladas, espero que a experiência seja provocadora e que desperte uma leitura multisensorial em quem tem posse do zine. Vou deixar o vídeo que fiz falando do processo de criação e espero que gostem da proposta de diversificar nas possibilidades que a tecnologia nos oferece e introduzir estes recursos aqui na coluna. No entanto não esqueçamos que a criatividade é nossa maior tecnologia, somos sofisticados a ponto de nem queremos sê-lo. Quem quiser o zine, pode entrar em contato comigo por aqui, ou pela minha páginafacebook.com/poetaguarnier. Que a arte seja provocadora e instigante sempre. Grande abraço!

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Qualidade literária

A qualidade está nos olhos de quem lê

Livro e oculos

   Dia desses estava assistindo, por pura obra do destino, um programa esportivo cheio daqueles papagaios de pirata futebolísticos comentando uma partida de futebol, obviamente, e mais obviamente ainda, eram pessoas que nunca tinham chutado uma bola na vida, mas que baseado no livro do fulano de tal, que jogou no ano tal, do time tal em milenovecentosepouco, sentiam  propriedade em criticar a forma que o Betinho Tranca-Rosca chutava a bola. E falaram tanto, que um entre eles que havia sido jogador de futebol, viu-se na obrigação de defender o companheiro que estava sendo execrado e falou: Mas vocês por acaso já bateram uma falta num jogo profissional? O silêncio e o constrangimento tomou conta do estúdio até o apresentador tirar seus panos quentes da sacola e chamar o intervalo para por ordem na casa. Então eu lembrei que há bem pouco tempo eu me (re)voltei contra a academia e com toda sua cuspição de termos presentes em livros que eu nunca li, mas que eram pronunciados gratuitamente por simples egocentrismo acadêmico, com hálito artificialmente perfumado na base do “drops da arrogância”, ou seja, café e cigarro, por causa de gente que se veste de crítico e lê de cara torta a literatura alheia, gente que erradamente acorrenta o que escreve nas gavetas de casa porque tudo o que escreveu não passou pelo próprio crivo de qualidade, como se, para a Literatura, esse crivo existisse.

Eu escrevo bem?Papeis

   Criei um parágrafo de última hora para dizer, nesta manhã de domingo, a você querido autor, querida autora, você que sempre se vê diante de reflexões existenciais sobre a sua literatura. você que não tem coragem de mostrá-la nem para a pessoa que mais confia no mundo. Saiba que essa pessoa que você mais confia no mundo tem todo o direito de dizer que não gosta do que você escreve e isso te detonar, mas com certeza absoluta alguém, em algum lugar vai ler sua literatura e gostar. Portanto, se você gosta, mostre-se! Você pode não ser um Machado de Assis, mas isso não é mal, afinal, nunca mais haverá um escritor como Machado de Assis, correto? Então escreva, vá à luta, tome coragem, esvazie as gavetas e mostre-se! Mas não esqueça, não seja um bobão que fala: Se fulaninho de tal, que nem estudou, pode escrever, eu que tenho pós doutorado em arrogância, também posso. Isso é tremendamente errado, joga o drops fora e tira a casaca da ABL desse pensamento. Sigamos!

O que é qualidade literária?

Pensador

   A qualidade baseia-se no parâmetro de alguma coisa que eu desrespeito muito: regras! Se a regra diz que a Literatura tem que ser escrita a partir da norma culta da Língua, desconsideremos tudo que não respeita a norma? Será que todos os autores que não se mostram, desejam vestir as casacas das Academias de Letras? Eu digo aqui que me interessa muito mais ler o que está nas gavetas do que a obra do imortal José Sarney. Entretanto, ainda não é este o cerne da questão que me trouxe a escrever esta coluna, pois ainda existe algo mais triste que papagaios de pirata futebolísticos e críticos na base do café e cigarro (somente): Autor não legitimado depreciando autor não legitimado! Essa modalidade de mesquinharia anda sendo praticada mais que o desnecessário, principalmente quando alguns se valem do argumento de que são melhores que os autores da sua geração, ou que não se aceitam como marginais, que esse é um rótulo que eles não vestem por produzirem uma literatura diferente, mais polida, numa linguagem mais cuidadosa, que tomam cuidado com o que o seu leitor vai ter em mãos e que têm poetas/escritores clássicos como referência e eu, ouvindo isso tudo, revejo meus conceitos quanto aos preconceitos que tinha em relação aos acadêmicos. Queridos poetas, escritores, autores, dramaturgos, uni-vos! Se vocês não concordam que são marginais, mesmo estando fora do grande mercado editorial, isso é um problema de vocês, mas o que é feio é um coleguinha detonando o outro, até porque não será dessa forma que as editoras grandes vão notá-los. O interesse delas está numa outra questão que abordaremos numa outra oportunidade: uma literatura pasteurizada! Estamos entendidos? voltando à questão anterior, é bom esclarecer que também já fui um acadêmico, portanto já usei o tal drops e joguei esse futebol e posso falar dele, em outras palavras, manjo dos paranauês e sei que para a academia a necessidade de se basear em conceitos é a mesma que pisar em solo firme, porém concordemos que não pode existir solo firme quando se trata de gosto e interpretação pessoal. Vamos dramatizar:
(Cena I: Guarnier e autor tomando um café e fumando um cigarro – o tal drops acadêmico – num boteco qualquer lendo um Zine, ou livro artesanal, ou de editora pequena e discutindo “qualidade Literária” a partir da origem humilde da  publicação.)

Autor – Mas, Guarnier, meu caro, o fulano de tal, que já escreveu dez livros sobre crítica literária e os cambaus, diz que existe qualidade litarária e eu não vou contradizê-lo!

Guarnier – O Autor dos dez livros sobre crítica literária não emitiu sua interpretação, ou baseou a mesma interpretação em outros autores que também emitiram suas interpretações? Grosseiramente falando, tudo não é o ponto de vista pessoal repassado para outros pontos de vistas, como os nossos, por exemplo?

Autor – Sim, Guarnier, mas se eu fizer isso levo pau nos meus trabalhos acadêmicos!

Guarnier – Claro que leva! Mas deixe os teóricos para seus trabalhos acadêmicos na academia e traga o “você” para a sua literatura e seu gosto a cerca dela.

(Black Out. Cena II blá blá blá…)

   Portanto digo a vocês, com absoluta certeza, que vamos ficar aqui patinando sobre o conceito do que é qualidade literária justamente porque ela só acontece no momento em que a fronteira que separa a não leitura da leitura é ultrapassada, ou seja, quando aquilo que ainda não foi lido passa a ser conhecido (isso seria um prenúncio de conceituação e eu estaria caindo na contradição de dizer que não, falando que sim? Espero estar errado!).
Já ouviram a expressão “não julgue o livro pela capa”? Ela não serve só para a capa, serve para o todo. Para o gosto – tanto no sentido de preferência, quando no sentido de sabor que a Literatura lhe trás.  A qualidade literária deixa de ser um conceito quando passa a ser parte de um sentimento, por isso, no momento da leitura, é importante se despir e deixar-se acariciar por outras mãos. Experimentar outros sabores. Descobrir outros prazeres. Pensar nas obras como se pensa em outros corpos ou outras comidas. Feito isso, aí sim se descobre a qualidade literária daquela obra para si, mas dar-se o direito de ler e falar com propriedade sobre o que se leu, a partir da ótica dos sentidos, é primordial. Leitura não é ato que envolva somente visão, você não é um scanner, é mais moderno que ele, que fique claro.
Ficamos hoje por aqui, sei que estou devendo a quarta Estação Marginal” que deveria sair esta semana, mas ainda não levantei material suficiente para escrevê-la e nem recebi o que pedi do responsável, é a correria, minha gente, mas antes de finalizar, vou confessar uma coisa: Não estou preparado para ler Kéfera! Beijos!

 

Guarnier