A ação Poesia 2.0 já é um sucesso! Depois de Zuza Zapata,  Ni Brisant, Victor Rodrigues e David Cohen, dois novos poetas acabam de chegar para fazer parte de nossa coleção poética. E o melhor? As camisetas de Guarnier e Lucas Limberti serão lançadas agora na Bienal do Livro, que acontece de 3 a 13 de setembro, no espaço que a Poeme-se preparou por lá.

Vem conhecer um pouco mais do trabalho deles:

guarnier baixada fluminenseLuiz Alberto Guarnier Silva, o Guarnier, tem 35 anos e é nascido e criado em Nilópolis, na Baixada Fluminense. O nosso poeta é graduado em Letras, ator de Teatro e, além disso, atua ministrando oficinas de Teatro em Nova Iguaçu e Nilópolis para todas as faixas etárias.

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava de poesia? E como você definiria seu estilo de escrita?

Guarnier: Não tenho uma paixão somente pela poesia, tenho fascínio por todas as linguagens artísticas que interferem diretamente na vida das pessoas. A Arte é o elemento que oferece cura para o corpo e alma. Dela se retira o alimento, a diversão, a elevação da auto-estima… o amor próprio e ao próximo. Se a poesia, hoje, me proporciona esse retorno, é a ela que me dedicarei e, se uma hora isso acabar em mim e eu ver amor em fazer pães, serei padeiro. Na verdade o retorno das pessoas e o sentido do trabalho nas vidas delas é o que me move a escrever. Escrevo desde novo, mas tive que desaprender algumas coisas para aprender a deixar as citações de lado e ser meu próprio autor, aprendi a dar espaço à vida. Observá-la. Perceber seu fluxo. Dar mais ouvido às Ruas e deixar que estas transitassem em mim, em vez de somente eu nelas. Quanto a me definir num estilo, eu agradeço por ainda não ser enquadrado num, estilos são cercas, não quero ser autor de cabeceira. Há os que escrevem para serem imortais, que só quero mostrar que morro de amor, ou de dor, ou de raiva, ou de indignação. Quero escrever poesias de um verso agora, e sonetos rebuscados no minuto seguinte. Quero escrever sobre a luta, sobre amor, sobre um inseto, sobre dor, sobre sonhos que se sonham dormindo, sonhos que se sonham acordado e sonhos de padaria transbordantes de doce de leite. Quero escrever tudo! Sem cercas!

Poeme-se: O que está por trás dos versos “O amor que a Rua dá, só quem vive a Rua sente!”? A inspiração, sua visão sobre a poesia… O que está achando do lançamento da camiseta acontecer na Bienal do Livro? 

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guarnierGuarnier: Os versos são o lema do Sarau RUA, que acontece todas as últimas sextas-feiras e cada mês na Praça dos Estudantes, em Nilópolis, Baixada Fluminense, de forma totalmente independente. Eles vieram de um texto longo, mais propriamente sobre um morador de Rua que dormia num banco de praça e teve sua “casa” invadida por caixas de som, microfones, poetas, músicos… por um sarau inteiro. Sarau V, mais precisamente. E este morador tinha motivos de sobra para reclamar, mas preferiu entrar na fila do microfone aberto e cantar “O Menino da Porteira” pra todos nós. Ele, um homem discriminado, sem casa, sem teto, com quase nenhum bem material, que tinha tudo para sentir ódio da vida e de nós naquele momento, preferiu dar seu amor. Cantou com a alma e nos presenteou. Esse amor não é qualquer um que sente. Não é qualquer um que olha um graffite nos muros da cidade e sorri. Não é qualquer um que vê um Clown arremessando suas claves, numa perna de pau ou monociclo, e percebe a dificuldade e o quão valioso é aquele trabalho. Não é qualquer um que vê valor nos fanzines que nós produzimos e olhe aquelas folhas xerocadas como sendo o primeiro livro de um poeta corajoso. Não é qualquer um que sabe sentir esse amor, mas quem sabe sentir, é um felizardo, porque enxerga amor onde ele existe, mas quase sempre é ignorado.

O lançamento da camiseta ser na Bienal do Livro foi uma surpresa grande e um prêmio. Não irei sozinho, estarei com meus irmãos de Rua e vamos tentar levar um pouco desse amor que a Rua dá para o público de lá. É um ano mais que especial para a Baixada Fluminense pelo tanto de representantes que estarão na Bienal com seus movimentos e se é especial para a Baixada, é para mim. Será fantástico! Estou ansioso!

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido. 

Guarnier: Estou envolvido em muitos projetos poéticos. Fora o Sarau RUA, tenho minha página  – Guarnier-  que me dá um feedback importantíssimo sobre meu trabalho. Tenho meus livros ainda não publicados, entre eles um infantil que pretendo editar em 2016, portanto, editoras interessadas… No mais, os movimentos dos amigos também são projetos que eu tento participar ajudando e prestigiando da melhor forma e quantas vezes puder.

Quem é seu poeta/autor favorito e por quê?

Guarnier: Hoje não tenho um autor favorito, tenho muitos. Não quero falar de gente legitimada e, com todo o respeito aos “graúdos”, meus poetas favoritos são pessoas que sangram e lutam como eu. Gente que tenta melhorar a realidade através da poesia. Posso citar dezenas de nomes aqui, mas ainda sim esqueceria de alguém, então vou falar de um cara que é ainda pouco conhecido por suas poesias, mas que foi um poeta lindo, brilhante, que se inspirou no desejo de Liberdade para escrever, e que mesmo com sua importância para a democracia brasileira, burramente ainda é tachado como terrorista, essa opinião faz parte de uma série de boçalidades que ainda são faladas e reproduzidas. Falo de Carlos Marighela. Quem ainda não leu suas poesias, leia!

Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui:

Guarnier: Vou deixar um poema curto que gosto muito, que fala sobre saudade, ou tenta explicá-la.

Saudade
É quando o mesmo corpo
Ocupa dois lugares
Diferentes no espaço.
-Mariposa em mim

-guarnier

lucas limbertLucas Limberti tem 32 anos e nasceu em São Paulo. O escritor, professor, ator e jornalista. Nesse bate-papo ele falou de seus projetos, como o primeiro lançado: “Ventania do Infinito”, que dele extraiu os versos da camiseta que veio parar em nossa coleção poética.

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava de poesia? E como você definiria seu estilo de escrita?

Lucas: Sem a infância não há poesia. Me lembro de conviver com o mundo fantasioso da leitura sem o filtro adulto que organiza e o imaginário. Quando criança, a força da poesia se dá num hipnótico jogo rítmico entre o que se vê e a fábula. E é isso que move minha poesia, o olhar revolucionário e desmedido da criança que descobre o mundo em gerúndio. Sempre despejei no papel minha realidade, traspondo esse conceito que se une à emoção criadora. Eu era e sou por meio do verbo desde as primeiras redações do colégio, me lembro de um professor que elogiou um poema acróstico intitulado “Conclusões” que escrevi com as letras do Brasil: “Encare a realidade / LUTE! / Brasil / Bromélias, / razões, / anistia,/ Soluções, /  incoerências,/ Limite (ções)”.

Hoje, além de escritor, sou professor e faço o mesmo, incentivo os versos dos jovens entusiasmados com a força da poesia. Obviamente os versos vinham acompanhando da força do olhar consciente do menino, que na adolescência brinca de ser homem, mas já reflete um pouco da força transformadora que meu verso se propõe. Aliás, por falar em estilo de escrita, a ideia da poesia é colocar o homem em raro encontro com sua humanidade, transformar o mundo por meio da busca pelo sublime apoiado na máxima expressão do verbo. Minha poesia é o meu grito bom contra o mundo caduco, poemas que trazem uma sensação de começo e fim sob a lógica do sensorial, como se fossem sopros em que o leitor se mistura em sua existência, normalmente rápida, mas intensa em sua perspectiva reflexiva, no sentido do pensar espelho. O Homem que se reencontra em meus versos, lembra de sua condição e não aceita os arroubos do mundo que o ignora, o maquiniza e o aliena. E para isso, uso todas as sensações humanas, as mais belas, os amores, saudades e as mais tenebrosas que sacodem nossas veias.

lucasPoeme-se: O que está por trás dos versos “O amor não existe, mas não há quem faça meu coração acreditar”. A inspiração, sua visão sobre a poesia… O que está achando do lançamento da camiseta acontecer na Bienal do Livro?

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Lucas: Estou muito empolgado em fazer parte da trupe Poeme-se, conheci o projeto quando fui palestrar na Flipoços – A Feira Nacional de Literatura de Poços de Caldas em 2014 e já me encantei. No ano seguinte, na mesma feira já adquiri minha camiseta, bolsa e imãs de geladeira, de alguma maneira me envolvendo afetivamente com este universo poético. E daí surgiu a parceria de fazermos a camiseta e lançá-la na Bienal do Rio de Janeiro de 2015. Estamos preparando ações bem bacanas que carregam a poesia como estandarte máximo, a ideia é sacodir a Bienal.

A frase escolhida entre as várias propostas é uma das que chamam atenção no meu primeiro livro, o “Ventania do Infinito”, que é “”O amor não existe, mas não há quem faça meu coração acreditar”. Não por acaso, é uma frase que as pessoas sempre comentam comigo, compartilham nas redes sociais e que acabou se tornando um dos emblemas do livro. Ela representa a mistura da razão e da emoção, forças contrárias, porém complementares que são a base de minha poesia. Todo mundo já teve alguma desilusão amorosa e racionalmente decidiu nunca mais se apaixonar, mas o coração é um cavalo selvagem sem amarras, que quando decide, não há quem segure e novamente nos apaixonamos, mesmo correndo o risco de mergulhar no abismo do outro e das possibilidades de sofrimento. Esse abismo existencial do homem que se equilibra entre cabeça e coração é que se organiza a força da poesia. Minha lógica poética se apoia muito no que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche analisou a partir das mudanças do homem no desenrolar dos tempos, concluindo que a resultante do equilíbrio histórico, se dá por exigência de forças contrárias na humanidade, que ora é mais racional (lógica apolínea), ora mais emocional (lógica dionisíaca).

Portanto, a poesia se diverte em artisticamente desfilar essa eterna contradição que estrutura o nosso ser. A expectativa é que as camisetas, em forma de corações, conquistem e representem os vários corações que a usarem.


Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido.

Lucas: Além da camiseta em parceria com a Poeme-se, recebi o convite para lançar meu novo livro, o “Ritmia – O ritmo da vida” por meio do crowdfunding, uma plataforma de financiamento coletivo relativamente novo no mercado editorial brasileiro, uma aposta vitoriosa, pois batemos 112% da meta estabelecida e o livro foi publicado e será apresentado na Bienal do Rio de Janeiro. O modelo serviu para aproximar minha obra dos meus leitores e também para mensurar, de alguma maneira, o patamar que se encontra minha carreira como escritor, no que diz respeito a essa venda rápida que o meio da web dispõe. O fazer coletivo sempre foi uma causa em minha vida e o escritor que não considerar a internet como um meio fundamental de aproximar o leitor de sua obra, está fadado a conquistar menos corações com suas palavras.

Além disso, venho participando de feiras e eventos literários com uma palestra sobre o fazer poético intitulada “O Fazer poético e os mecanismos do fingimento” que mesclam conhecimentos técnicos sobre a crítica literária, o significado de arte como uma bonita militância para fazer com que a poesia sobreviva cada vez mais e tenha adeptos como leitores e escritores. A arte poética que extrapola as páginas se faz presente de várias maneiras, no ano passado encerrei uma turnê com o espetáculo “A Cidade das máquinas – Um tributo à John Lennon” em que interpretava um poeta que tentava sobreviver de poesia na época do assassinato de Lennon. Participo de vários saraus, vale ressaltar que em São Paulo o movimento dos saraus da periferia é crescente.

Acabo de participar do júri de uma antologia de poetas chamada “Poetas Vermelhos” lançada em agosto do presente ano. Termino dizendo que, além de ser professor de Literatura, estou num projeto de vídeo-aulas bem interessante que promete ressignificar as aulas tradicionais da internet, trazendo a Literatura e a poesia como consequências de um ambiente próximo à realidade.

Poeme-se: Quem é seu poeta/autor favorito e por quê?

Lucas: Escolher um nome em nossa Literatura é muito difícil, uma vez que a Literatura em Língua Portuguesa é muito rica e sem dúvida deve ser sempre exaltada. Porém, há sempre aquele escritor que nos influencia de maneira inusitada e transformadora. Certamente, se falasse em Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa estaria muito bem representado o meu favoritismo. Porém, os versos do mineiro de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, sempre foram especiais e ganharam um espaço maior em minhas preferências. Drummond consegue ser simples e profundo, nos regala chaves contra o “mundo caduco” que ele enxerga sob a luz de um triste farol de uma ilha rasa, imagem com que ele termina seu terceiro livro, o Sentimento do Mundo.

Seu olhar intimista para o “vasto” mundo transforma sua figura física franzina, “gauche” como ele dizia, em um tanque de guerra verbal contra os medos e problemas do mundo que viveu nos idos da metade para o final do século XX e que fazem todo o sentido nos dias de hoje. Um exemplo disso, é o poema “Elegia 1938”, publicado em 1940, que de alguma maneira faz uma previsão dos ataques de 11 de setembro à Torres Gêmeas, nos estados Unidos, simplesmente analisando poeticamente os caminhos que tomam os achaques da opressão de um sistema em que o rico oprime o pobre.

Lendo meus poemas, certamente o leitor encontrará influências desta genética drummondiana, bem como a sagacidade de Mário Quintana e a legítima fábrica de sonhos de Manoel de Barros.

Poeme-se: Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui. 

Lucas: A Literatura é mais do que um emprego, um ofício ou uma militância, é uma entrega por completo, uma religião que acalma os dias por meio de palavras que escorrem dos dedos carregadas de fé, afeto, gritos, acalentos e revoluções. É um limar dos dias que busca o bem viver em ritmo de esperança.

É a Literatura, que vê na expressão artística da poesia a força transformadora dos males do mundo. É o ritmo que encanta e enche os corações de esperança do homem, em busca de si mesmo. Neste sentido, o poeta extrapola a seu aspecto humano e se coloca como um ser dotado de mágicas feituras e só quem descobre este segredo é capaz de transformar seu próprio mundo, obviamente para melhor.

Lá vai um poema do meu novo livro, o  “Ritmia – O Ritmo da vida”, uma obra de palavras em estado de música. O subtítulo, O ritmo da vida, vai se apresentar em dois momentos equilibrados. De início, temos a seriedade do vir a ser, enquanto o artista está no Ensaio (chamado de Lado B); nele, a seriedade, abdicação e dedicação são fundamentais e se constituem como caminho. Da metade para o final, se esta for a lógica adotada pelo leitor, surgirá o Show (chamado de Lado A), em que toda a seriedade da preparação ganha contornos de desfile e de palco. São dois momentos que, embora diferentes, são frequentes na vida do artista e sobretudo de qualquer ser humano, onde a apresentação pressupões ensaio, a respiração pressupõe expiração. Nascemos para poder morrer. Caminha-se para chegar, canta-se para encantar. Poesia para se compor e Música para amar.

“Ritmia – O ritmo da vida” é a poesia que pulsa do encontro do verbo com seu desfile sonoro. É a ideia de que, desde o primeiro segundo de vida, pulsa no peito o ritmo do coração, ora acelerado, ora lento, como o ensaio e o show, opostos necessários para o equilíbrio do homem que se descobre a cada tom de existência em poesia e canção:

Música de paz e de guerra

Trovão da terra

Espasmos do mundo

Raio profundo tubérculo

Chuva, enxurrada, chuá

Murmúrios das ondas

Ventos, suspiros, suores

Barulhinhos excêntricos

 

Bombas, buracos, buzinas.

Chaves, chinelos e choros.

Trovões da boca do chefe.

Sirenes, sinos e altiva surdez.

Apito agudo da fábrica.

Estampido seco da bala.

Barulhinho da música não quista.

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