As mulheres marcaram sempre de forma bastante especial a literatura brasileira. Autoras, poetisas, protagonistas nos romances… Elas imprimem sua força, personalidades únicas e beleza através da arte escrita. No mês da mulher a Poeme-se trouxe uma lista com as 6 personagens femininas da literatura nacional que marcaram época e inspiram gerações. Aprecie:

1) Capitu, “Dom Casmurro”

É inegável a força de Capitu para o mais célebre romance de Machado de Assis. Muito além da questão da traição, Maria Capitolina Santiago é talvez a personagem mais importante de “Dom Casmurro” por ser o ponto chave da narração, tanto na origem da obsessão amorosa de Bentinho por ela, quanto nos momentos em que Capitu se impõe como uma figura sensual, avassaladora, algo bem marcante e moderno para os textos da época (1899). Curioso ver que Capitu ganha ainda mais força nas palavras de Bento, que em alguns momentos parece se fazer (ou realmente ser) ingênuo, inocente, enquanto é engolido pelos olhos e pela personalidade de sua amada:

Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem”.

personagens femininas da literaturaDesde pequena é retratada a sua feminilidade com a marcante frase: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Essa descrição ajuda-nos a construir sua personalidade, sem esquecer que qualquer traço que tenhamos de Capitu vem sempre das memórias de Bento. Tal fato pode nos levar a uma reflexão de que talvez Capitu tenha sido apenas mal compreendida e tudo o que ele próprio narra esteja embaçado diante do ciúme que o domina. São esses sentimentos que criam um dos maiores mistérios da literatura nacional: Capitu traiu Bentinho com Escobar? E essa dúvida, deixada no ar é o motivo desse romance fascinar tantas gerações. Que tal ler Dom Casmurro e deixar-se afogar nos olhos verdes da cigana Capitu?

2) Macabéa, “A hora da Estrela”

Clarice Lispector, nossa grande escritora brasileira, nos presenteou com a obra “A hora da estrela”. No livro, ela dá vida a Macabéa. A personagem nordestina, datilógrafa, orfã, criada pela tia no Rio de Janeiro poderia ser qualquer um. E é nessa simplicidade de ser, na vida sem acontecimentos extraordinários, que tantas vezes nos vemos em Macabéa. Existe algo em sua apatia que serve para nos despertar para nosso profundo eu: devemos apenas viver os dias ou buscar uma vida mais intensa, plena?

“… quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico”

Podemos elencar alguns aspectos marcantes de sua personalidade: sua falta de ambição, sua ingenuidade, seu amor inocente por Olímpico de Jesus – que a troca facilmente por uma colega de seu trabalho -, seu desejo de acreditar que uma cartomante poderá ajudar a melhorar sua vida. A cartomante lhe oferece doses de esperança em um futuro no qual Macabéa verá seu ex-namorado pedir para voltar com o romance, ficará rica e, depois, se casará com um lindo estrangeiro. Porém, somos despertados para a realidade, nua e crua, quando a jovem andando pela rua é atropelada e morre. A banalidade da história de Macabéa grita: “já que sou, o jeito é ser”!

3) Iracema, obra homônima

A índia dos lábios de mel, protagonista do romance de José de Alencar: Iracema que dá nome ao livro publicado em 1865 é um marco na literatura brasileira. Sua personagem imprime o tom nesse clássico da trilogia indianista de Alencar que completa-se com “O Guarani” e “Ubirajara”.

Iracema é uma índia da tribo dos tabajaras, a filha do pajé Araquém. Logo no início do romance há o encontro do casal principal de forma curiosa: enquanto descansava, Iracema é surpreendida pelo guerreiro Martim e lhe dá uma flechada para se proteger. Porém, em seguida, vai socorrê-lo ao perceber que este homem não lhe oferece nenhum perigo. Logo se apaixonam e dão início a um romance no qual índia assume o papel de típica heroína romântica que se entrega ao amado, espera por ele, sente saudades e até mesmo morre de amores e de saudade por Martim.

Embora Iracema cumpra um papel submisso após unir-se a Martim, representando aqui o indígena idealizado pelo homem branco da época, ela é marcante por ser figura central de um dos momentos históricos de nosso país: o romance tem como metáfora a criação do estado do Ceará. José de Alencar criou em seu livro a lenda de que no local em que a índia fora enterrada, à beira de um coqueiro, havia sempre um som de lamento cantado por sua ave de estimação, uma jandaia – segundo a tradição, Ceará significa canto da jandaia.

4) Gabriela, “Gabriela, cravo e canela”

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Sônia Braga como a icônica Gabriela de Jorge Amado, em adaptação para TV.

Talvez a mais icônica personagem de Jorge Amado. E aqui vale uma recordação de outras duas personagens brilhantes na obra do autor baiano: Tieta, em “Tieta do Agreste” e Dona Flor, de “Dona Flor e seus dois maridos”. Impossível pensar na personagem sem remeter também à figura de Sônia Braga, na adaptação para a televisão em 1975.

Gabriela vem do agreste em busca de trabalho em Ilhéus. Levada ao mercado de escravos, é descoberta pelo comerciante árabe Nacib, que logo se encanta por sua cor de canela e seu cheiro de cravo. Com Nacib enfeitiçado pela moça, eles se casam, mas Gabriela é de um espírito mais livre – ela não se deixa subjulgar e também se envolve com outros homens da cidade. A sua presença na obra, de cunho histórico que retrata uma Bahia patriarcal, os coronéis e o patriarcado, é vista como um frescor, novos tempos que estão para chegar de mais liberdade.

5) Lucíola, obra homônima

Lucíola é como fica conhecida Maria da Glória, a personagem que dá nome ao romance de José de Alencar. A jovem moça tem uma virada logo no início da trama: é seduzida por um homem e cai em uma vida de desgraças, sendo expulsa de casa pelo pai. Ela então se vê obrigada a se prostituir para sobreviver e muda seu nome para Lúcia. Lucíola vira uma cortesã fria e poderosa, explora seus amantes ricos, a quem sempre olha com desprezo.

Mais uma vez ela tem uma nova virada ao se apaixonar por um jovem recém chegado de Pernambuco, Paulo da Silva. Essa nova fase é uma revelação da antiga Maria da Glória, que representa o despertar de doces sentimentos e a regeneração da cortesã através de um amor puro. Porém, o triste desfecho é que mesmo encontrando a paz com seu amado, Lúcia é vítima de uma doença fatal e vem a falecer.

6) Emília, “Sítio do Pica Pau Amarelo”

 

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Dirce Migliaccio, interpreta Emília no programa exibido pela Rede Globo

Sim! A boneca de pano mais falante dessas bandas merece menção honrosa aqui! Ela talvez seja a primeira lembrança de uma personagem feminina forte e marcante de muitos leitores do gênero infantil. E graças a série de Monteiro Lobato que encantou gerações.

Emília é a boneca da menina Narizinho, confeccionada por Tia Nastácia com pano e marcela, ganha vida após tomar as pílulas de Dr. Caramujo. Junto com Narizinho e Pedrinho, vive inúmeras aventuras no sítio de sua avó Dona Benta. Emília é reconhecida por ser extremamente falante e, na maioria das vezes, soltar muitas asneiras. De gênio forte e bem crítica, a boneca sabe se impor e foge dos esteriótipos de uma boneca (delicada, frágil).

-Espere – disse Emília. O escrevedor de memórias vai escrevendo, até sentir que o dia da morte vem vindo. Então pára; deixa o finalzinho sem acabar. Morre sossegado.
-E as suas memórias vão ser assim?
-Não, porque não pretendo morrer. Finjo que morro só. As últimas palavras têm de ser estas: “E então morri…” com reticências.

Queremos aumentar nossa lista: conte pra gente quais personagens femininas da literatura você mais gosta? Quem não pode faltar aqui?

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