A Poeme-se tem o orgulho de apresentar dois caras que viraram paceiros nossos em uma ação muito especial: o Poesia 2.0. Conheça Ni Brisant e Victor Rodrigues da nova cena poética.

Um vem de Acajutiba, na Bahia e o outro de São Paulo, capital. Um teve o amor pelas letras nascendo dos livros, o outro, da música. Em comum, a paixão pela poesia que guiou seus caminhos profissionais e fizeram a dupla lançar camisetas próprias aqui na Poeme-se, através do projeto Poesia 2.0. Hoje é dia de conhecer o perfil de dois caras que despontam na nova cena poética: Ni Brisant, poeta e professor e Victor Rodrigues, escritor, slammer, produtor cultural e educador.

ni brisant nova cena poetica

O Foto: João Marcos.

O baiano Nivaldo Brito dos Santos define seu estilo de criação poética como “trair; livrar-me”. A gente bateu um papo com o fã de George Orwell e Drummond e Graciliano Ramos e Biagio Pecorelli, que na opinião de Ni Brisant são imprescindíveis. Veja como foi:

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava dessa arte? E como você definiria seu estilo de escrita?

Ni Brisant: Creio que me apaixonei pelas palavras observando-as saltarem das bocas alheias. Depois amei-as ainda mais nos livros. Essa consciência veio aos 17, mais ou menos, quando comecei a ler e escrever com mais dedicação. Meu estilo é trair; livrar-me.

Poeme-se: O que está por trás dos versos “poesia é o que a gente sente / o resto é literatura” (versos presentes em sua camiseta)? A inspiração, sua visão sobre a poesia…

Ni Brisant: É, antes de tudo, sobre ser honesto com o que se passa dentro de si. A meu ver, poesia é o que fica quando o verso acaba. E ao contrário do que dizem nas academias, não é poesia se as palavras não nos tiram do lugar. 

ni-brisant camisetas de poesia

Camiseta Ni Brisant

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido? E trabalhos na área de educação, são sua paixão?

Ni Brisant: Vixi! (risos) Faço parte do sarau “Sobrenome Liberdade” e do clube de leitura divergente “Ninguém Lê”. Além de participar de diversos saraus, atuo com o time de performance “Clube Atlético Passarinheiros” ao lado dos lindos Victor Rodrigues e Luiza Romão, escrevo nas páginas facebukianas “Sessão de fatos” e “Piriguismo“. Trabalho em uma ONG com jovens na periferia da Zona Sul de São Paulo e, esporadicamente, tambem ministro oficinas de criação literária.  Acho que é isso.

Poeme-se:Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui. 

mais vale alguém perdido
e em busca de si
do que uma multidão
que se acha

artistas de plástico
constroem consolos sob encomenda
para carrapatos crocodilos cavalos do cão
vírus
que rimam, mas não vivem

a estética da miséria

se usam a arte como alavanca
eu gangorra

eles: lança-chamas
eu: livros

eles: best-sellers
eu: besta fera

eles passarão
eu: caminho

era uma vez um homem
e seu tempo
era uma vez

Ni Brisant

victor rodrigues nova cena poeticaO paulista de 25 anos, Victor Rodrigues, contou pra gente que tem Marcelino Freire e Manoel de Barros como um norte para a maioria das coisas que cria. E da poesia da música, ele destaca Parteum, Lenine, Zeca Baleiro e Skank. E o cara ainda se inspira na galera dos saraus e slams que participa, como Daniel Minchoni, Beto Bellinati, Luiza Romão, Emerson Alcalde, Isabela Penov, Samuel Borges, Bobby Baq, Roberta Estrela D’alva, Ni Brisant. Vem ver a conversa que tivemos com ele:

Poeme-se: De onde surgiu a paixão por poesia? Com quantos anos você percebeu que gostava de poesia? E como você definiria seu estilo de escrita?

Victor: Eu flerto com a poesia desde os meus 7 anos, quando ganhei meus primeiros CD’s e um microsystem. Desde então passei a comprar e pedir de presente vários outros CD’s e sempre ouvia as músicas prestando atenção nas letras e lendo os encartes. Foi nessa idade também que escrevi meu primeiro texto em verso. Meu pai me dava dinheiro pra fazer redações a partir dos temas que sugeria e teve uma vez que eu precisava de dinheiro e não tinha mais tema, então escrevi um poema sobre minha “cabeça em branco” pra ver se ele caía e me pagava mesmo assim. E ele caiu. Porém esse tempo todo nunca chamei direito essas coisas de poesia. Eu percebi que era poesia mesmo quando comecei a ouvir Teatro Mágico, lá pros 17 ou 18 anos. E tinha um cara chamado Ricardo Gondim que eu acompanhava pela internet e escutava na rádio também umas palestras, ele sempre lia uns poemas do Fernando Pessoa. Daí tudo isso foi me aproximando mais da linguagem até que cheguei onde estou.

Sobre o estilo, eu não sei dizer. Eu só escrevo, não vejo a necessidade de definir. Deixo pra quem lê ou gosta dessas coisas de academia e teses, essas pessoas que definam se acharem necessário. Agora se for pensar em similaridades, tem muita coisa próxima dessa minha geração de saraus, slams e poesia de rua, principalmente daqui de São Paulo. A gente tem uma pegada parecida na questão de ritmo, oralidade e até mesmo temáticas, com coisas cotidianas, no intuito de uma poesia que esteja perto da gente. Tem gente que chama isso de poesia periférica ou marginal, eu não gosto muito do termo. Definir é limitar, como já se diz por aí. Mas se fosse pra apontar algo, digo que escrevo a partir da indignação, escrevo o que falta e pra me vingar. Ou enganar.

Poeme-se: Qual foi a inspiração para os versos que fizeram nascer a camiseta da Poeme-se “quero estar ao lado de pessoas / que abraçam causas / que abraçam pessoas” (camiseta que está na loja da Poeme-se)?

Victor: Como eu disse, a partir da indignação e pra me vingar, como quase tudo que escrevo. Eu convivo muito com a militância em todos os sentidos e vertentes, tô no meio da luta com várias pessoas ao redor. No Facebook então, vejo isso diariamente, a todo momento alguém posta alguma coisa defendendo alguma causa. Isso é muito bom, porque temos muitas causas em pauta que são fundamentais pra evolução da nossa sociedade. O que acontece é que, ainda que algumas delas sejam boas, tem muita gente que confunde as coisas. Tá nelas por vaidade, por vingança (como eu na poesia, caso ela seja uma causa) ou pra provar que está certa, encarando de um jeito meio “torcida de futebol” e banalizando a questão. E aí acaba gerando uma segregação, uma opressão desnecessária, criando os famosos caga-regras. Esses ideais todos vêm sendo defendidos de uma maneira muito religiosa e fundamentalista, empacotando tudo e simplificando demais algo tão complexo que é o mundo. Eu sempre penso nisso e me entristeço muito quando vejo que a maioria das pessoas envolvidas age assim. Foi a partir dessa frustração que me vieram esses versos. Seja na causa que for, eu tô pela vida e pelo respeito à opção de vida do próximo. Quero algo libertário, que humanize a gente. A ideologia não pode ser maior que o ser humano. Então venho cada vez mais selecionando as pessoas que estão num círculo mais próximo, que é com quem quero construir mesmo a caminhada. Daí o poema surgiu como um grito, mostrando esse meu desejo. Se a causa não abraça pessoas, não me interessa. E não é papo de pacifismo não. É questão de respeitar a humanidade e a particularidade de cada um. Se houver revolução, a revolução do afeto, do olhar e tentar compreender o que se passa com o outro pode ser um caminho. E daí se for, é nele que quero estar.

victor rodrigues poesia camiseta

Camiseta Victor Rodrigues

 

Poeme-se: Conta pra gente em quais projetos poéticos você está envolvido? Vimos por aí o Projeto Praga. Como surgiu?

Victor: Vixe, eu faço muita coisa. Querer sobreviver de arte sem apadrinhamento não é fácil, então tem que ter uma pontinha em cada canto pra pagar as contas no fim do mês. Além disso as ideias andam sempre a milhão, daí a gente sempre quer começar alguma coisa nova. Atualmente estou envolvido no meu projeto pessoal de publicação, que engloba os três volumes de livro (Praga de Poeta, Sinceros Insultos e Aprender Menino) e o livro de textos curtos “Versos para aumentar o mundo”, que é de onde saiu o texto da camiseta. A intenção do projeto é trabalhar a poesia além do papel, então eu tô sempre fazendo intervenções, participando de sarau, falando os textos por aí. As camisetas fazem parte disso também, além de videoclipes que venho gravando (o primeiro já lançado). Tenho ainda a intenção de transformar os textos em performances teatrais, então tô envolvido em alguns processos nesse sentido (com o Clube Atlético Passarinheiro, por exemplo). Fora isso, tem os saraus e intervenções que participo e organizo. Idealizei o Projeto Praga, que é uma iniciativa de ocupação de espaços e propagação da poesia, pra espalhar o que tem sido feito atualmente mesmo. A gente conta com várias ações, entre elas o Sarau da Praga (cada mês num lugar diferente, geralmente em espaços públicos) e o Ninguém Lê (ação de distribuição de livros pra discussão em roda posteriormente, sendo cada mês um autor contemporâneo diferente também). Participo ainda do coletivo Mesquiteiros (oficinas e saraus em escolas públicas) e Poesia Maloqueirista e colo bastante com o Sarau do Burro, Sobrenome Liberdade e Poetas Ambulantes, sem contar os Slams, que tô sempre marcando presença quando posso, principalmente no Slam da Guilhermina, Rachão Poético e Menor Slam do Mundo.

Poeme-se: Para terminar, deixe mais um pouquinho do seu trabalho, compartilhando uma poesia/texto aqui. 

Como foi um papo meio biográfico, vou deixar um desses textos que falam sobre escrever, do segundo volume do meu livro, o Sinceros Insultos: 

para Marcelino Freire

escrevo porque sou covarde
se não fosse sairia às ruas
faria o que tenho vontade
se não fosse
organizaria motins e rebeliões
explodiria shoppings e bancos
martelaria carros
pararia o trânsito a cidade
daria escândalo em rede nacional
tomaria rádio jornal e televisão
gritaria em praça pública
com toda minha rebeldia
cuspiria no chão
se não escrevesse
incendiaria mansões
invadiria o senado
mas escrevo
e covarde como eu não há
escrever ainda está dentro da lei
e como sou um bundão
é o que faço de melhor
escrevo porque não tenho um fuzil
porque a caneta é barata
isso é o mais revolucionário que posso ser
sozinho sou pouco
meus inimigos têm mais armas
e com todo o medo desse lado
é o que me resta fazer
desejar estopins
sem compromisso
escrever revanches
pra reaquecer
enquanto a chama ainda está acesa
mas já perdeu o poder de queimar
alguém vai ler
e pode ser que não seja covarde
e comece a se mexer
pode ser que um dia eu leia
veja o quanto isso tudo é patético
e comece a me mexer

 

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