O Moralismo Que Salvou A Greta Garbo de Fernando Melo

Greta

    Em 2004, eu estava no início da minha carreira no Teatro e fui convidado pelo ator e lenda do Teatro de Revista no Brasil, Luiz Valentim, a interpretar Renato, um jovem rapaz que saído de Campos, desembarca no Rio de Janeiro para conhecer Mary, uma prostituta cleptomaníaca da Cinelândia e Pedro, enfermeiro, gay, morador de Irajá e fã da grande estrela Greta Garbo. O nome do texto? Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá, de Fernando Melo. Assim como Renato, eu também ainda engatinhava na malandragem dos palcos e fazer um “personagem escada” daqueles, parecia tarefa muitíssimo difícil para mim, de fato foi, mas consegui me virar por três anos. Na mesma época eu também cursava a faculdade de Letras e assim que chegou a temida escolha do tema para a monografia, eu pensei em quem? Em Greta Garbo, lógico! Queria enquadrá-la no período literário da Literatura Brasileira Contemporânea, por se encaixar em vários aspectos além da época em que foi escrita, pois falava de um gigolô viciado, uma prostituta ladra e um gay que trabalhava num hospital e sustentava o vício de seu marido na base dos calmantes que roubava no emprego. Era um tema perfeito para mim, então comecei minhas investigações.

    No início dos anos setenta, época em que Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá foi escrito, o Brasil vivia um dos piores períodos de sua história, uma ditadura sufocante e sangrenta que censurava e prendia artistas à mínima suspeita de subversão contra o Regime, pois ainda estávamos sob o chicote do Ato Institucional nº 5, a Luta Armada era a forma que as organizações tinham para libertarem os presos políticos, os meios de comunicação eram completamente manipulados – isso mudou pouco – e tinha que se tomar bastante cuidado com o que se falava, enfim, diante disso tudo, fui eu procurar registros de censura ao texto de Fernando Melo. Vasculhei tudo onde podia e, incrivelmente não achei nenhum. “Mas como isso é possível?”, perguntava eu à minha orientadora, Professora de Literatura Brasileira  Márcia Veiga. Ela também, num primeiro momento não entendeu muito bem, pois além de não haver censura sobre o texto, ele ainda foi montado e estreou no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro em 3 de julho de 1973, primeiramente com Nestor Montemar como Pedro, Mário Gomes como Renato e Arlete Sales como Mary, com direção de Léo Jusi e em 19 de março de 1974 no Teatro Itália, em São Paulo, com Raul Cortez interpretando Pedro, Nuno Leal Maia como Renato e Pepita Rodrigues como Mary com a mesma direção de Léo Jusi.
Depois de muito pensar e eu sem conseguir nenhum registro de censura sofrida pelo texto, passei a suspeitar justamente do elenco, pois eram figuras já conhecidas do meio artístico da época e não envolvidas com os artistas de esquerda, aqueles que frequentavam as manifestações, faziam músicas de protestos, eram perseguidos… Passei a achar que o elenco, justamente por transparecer apoio ao regime militar, tinha conseguido livrar o texto da censura, mas depois vi que isso seria improvável e abandonei a ideia. Retomei as leituras de Greta, mas agora não como ator, como investigador e lia e relia. Caramba, tem um momento no terceiro ato em que Renato, muito chapado, diz para Pedro tomar cuidado ao abrir a porta, pois a repressão entrava atirando, nem isso foi cortado, nada foi cortado. Isso me afligia demais e já queria saber quais ligações que Fernando Melo tinha com a Ditadura. Só tendo muita costas quentes para evitar uma censura sob a aba do quepe do AI-5.

O Moralismo e a Moral da História

    Na ditadura havia duas formas de se escapar da censura, a primeira era ser metafórico nível: “PAI, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE!” ou seja, desdobrando substantivos escritos em verbos escutados como Chico fez: Cálice = Cale-se. Logo seria “Pai, afasta de mim este cale-se!” ou sendo um reprodutor da moral e dos bons costumes naquilo que se escrevia, falava, cantava… e Fernando Melo se utilizou da segunda opção. Para demonstrar o que estou tentando dizer, vou ter que contar o final dessa estória, que também poderia ser escrita com “h”, não se chateiem comigo, por favor!

    Ao final de Greta Garbo, Quem Diria Acabou no Irajá, Após Mary aparecer na casa de Pedro atrás de Renato e fazer um puta dramalhão dizendo que tem um cara da Polícia trás dela, pois a mesma roubou a carteira de um meganha depois de um programa, a menina recebe um estrondoso esculacho de Pedro que a enxota do seu cafofo mesmo após ela dizer que vai se matar. Um barraco só! Assim que a prostituta sai pela porta, Renato, ainda muito doidão, diz que vai voltar para Campos abandonando Pedro que fica arrasada. Então o rapaz pega suas coisas, sai e deixa o velho sozinho fechando o texto com um jargão dramático repetido ao final de todos os três atos:

“Será que Greta Garbo teve uma vida tão desgraçada quanto a minha? Se teve, coitada dela, coitadinha!”


Entenderam? Ah, e o porquê de eu estar escrevendo sobre isso onze anos depois? Porque eu desisti de fazer a monografia sobre o texto de Fernando Melo achando que não teria tanto impacto quanto um texto que pudesse ter sido censurado, ou mesmo que tinha uma crítica mais explícita à Ditadura Militar, daí mudei o autor, fui falar de Vianinha que virou meu amigo e ídolo póstumo após eu ler, me emocionar e me deliciar com Rasga Coração. Tem mais um motivo pelo qual escrevo sobre Greta hoje, daqui a uma semana farei uma leitura dramatizada rememorando essa época de muito aprendizado nas “negras esquinas da badalação” que frequentei com todos os personagens escada que interpretei no Teatro de Revista. Hoje eu entendo que Fernando Melo não foi um covarde não deixando que Renato, Pedro e Mary vivessem um ménage a trois regado a whisky barato, pequenos furtos e calmantes, ele foi um astuto autor que não esmurrou a ponta da faca, deixou os três personagens acabarem na merda e assim narrou esplendidamente as vidas dos Pedros, Renatos e Marys da Cinelâncida dos anos setenta.

Estou num momento nostálgico, mas quem vive de Teatro é mesmo assim, vive um passado que não passa mais e que nega dizendo querer distância, anda em círculos eternos, mas em cima do palco, reclama do mesmo cheiro delicioso do mofo, toma umas cagadas de morcegos na cabeça, junta trocados pra cerveja após os ensaios – e antes também. Vida de Teatro é uma deliciosa lamentação, por vezes comemos sardinha e arrotamos o caviar, mas é essa a graça da coisa a gente gosta mesmo é do estrago! Merda para nós!

A quem se interessar pelo texto, pelo espetáculo e quiser assistir um pouquinho, aqui vai um trecho do primeiro ato. Abração e até próxima!

Guarnier

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