No dia 25 de julho comemoramos o dia do escritor e vamos dedicar o mês a essa persona que é força motriz de toda literatura. Buscando entender a vida de escritor, selecionamos 9 autores – exemplos de resistência e reinvenção – que nos contaram o que é ser escritor no Brasil.

 

1. Ana Paula Lisboa

Eu só percebi que estava “vivendo de escrever” quando eu já estava. Vá lá, ainda não paga todas as minhas contas, mas 60% no Brasil é tanta coisa… Para mim ser escritora no Brasil é depender de fatores externos e internos. Eu só posso falar mesmo por mim e falar de mim é dizer que sou uma mulher negra que escreve. Isso quer dizer também que na maioria das vezes o que escrevo é colocado para avaliação, o meu conhecimento sobre o tema é questionado antes mesmo das pessoas lerem o que escrevi. Outro ponto comum é o de muitas pessoas acharem que só sei – ou posso – falar sobre temas que tenham a ver com negritude, feminismo, favela… Todos esses são sim assuntos que perpassam a minha existência, mas que não me resumem. Por isso, apesar de estar nessa fase de escrever no jornal, eu prefiro a ficção, ainda que ela até pareça real. A ficção nos leva além.

Ana Paula Lisboa é autora de Olhos de azeviche, da editora Malê e colunista do jornal O globo.

2. Thiago Kuerques

É ser abraçado e levar um tapa, quase ao mesmo tempo. “Nossa, você é escritor!” – falam com admiração. Na sequência soltam “Tá, mas você trabalha com o quê?” Pesquisas recentes mostram que o brasileiro lê, em média, 4 livros por ano. É fácil entender por que não há valor, entender não ser visto como trabalho. O escritor pode desistir. Escolhi seguir em frente. Portanto, escrever no Brasil é plantar sementes e ficar contente com as poucas árvores que já estão dando frutos. Um dia seremos mais leitores. Enquanto isso, escrever no Brasil é, afinal, uma espécie de teimosia consciente.

 

Thiago Kuerques é autor de Território (Editora Chiado) e A Balada do Esquecido da Luva Editora.

3. Ana Cristina Mello

Viver num país de dimensões continentais deveria ser o bastante para suprir a imensa oferta de livros que editoras comerciais produzem, mas a realidade é bem diferente. Uma realidade que se divide em escritores popstars e escritores que comemoram cada leitor conquistado. De um lado, os escritores youtubers, escritores atores, escritores padres ou pastores, escritores autoajuda, entre outros. De outro lado, repousam os autores que buscam oferecer aos seus leitores textos que foram exaustivamente pensados e lapidados, que se propõem a oferecer uma obra na qual o leitor não saia do ponto final da mesma forma como era quando abriu a primeira página. Repousam autores que se envolvem com sua produção como se fosse um pedaço do próprio corpo, que ofertam o melhor que podem para seus leitores.

Hoje, ser escritor de literatura de ficção é produzir para os seus pares, para prêmios literários, ou seja, para reconhecimentos que não deixam de ser importantes, mas não deveriam ser o foco principal. Façam um teste. Entrevistem alguém que esteja lendo um desses livros da primeira categoria de escritores e questione se conhecem algum dos mais renomados autores contemporâneos de literatura infantil, juvenil e adulta. Não vale citar os cânones, vivos ou não. Cânones que algumas escolas ainda escolhem de forma exclusiva, preterindo toda a produção do século atual. Provavelmente responderão que nunca ouviram falar, independente da quantidade de prêmios que algum destes nomes tenham recebido.

Ser escritor hoje é resistir. É continuar plantando sementes em cada livro, cada palestra. É comemorar cada leitor que chega ao ponto final do seu texto e te escreve dizendo o quanto o livro fez diferença na vida dele. É resistir, sem perder o ideal de continuar acreditando no poder da literatura. Acreditando no poder que o leitor tem em mãos e, talvez, ainda não tenha descoberto.

 

Ana Cristina Melo é autora dos livros Dandi e a árvore palavreira e Delta: um comando para o tempo, além de liderar a editora Bambolê.

4. Tiago Germano

A perspectiva pode variar um pouco conforme a posição que o seu livro e a editora que o publicou ocupam no mercado, mas para a grande maioria de nós, ser escritor no Brasil, hoje, é ser constantemente subestimado por uma cultura pouco digna desse nome, em que qualquer atividade de pretensão artística atua sob o perpétuo estigma da mendicância ou da falta de responsabilidade. Não falo apenas do tratamento dispensado ao escritor por editoras, agentes, livrarias, revistas, prêmios conferidos por instituições literárias, críticos e resenhistas, ou até pelos próprios colegas escritores… Falo também do comportamento dos leitores, num país em que ler 55 páginas por dia parece uma excrescência até para um cidadão literalmente encarcerado, sem nada à sua volta além das grades de uma prisão e uma parede preenchida por meia dúzia de livros. Talvez fosse uma resposta desejável e bem mais agradável de se dar aquela que tentasse afastar a profissão de escritor dos mitos que costumam rondá-la, aproximando-a de outras profissões, com suas virtudes e desvirtudes, as contingências pontuais de qualquer atividade que envolva criação ou um capital intelectual cujo valor simbólico vai, inadvertidamente, transformar-se em capital monetário. Mas a grande verdade é que falar em profissão quando se trata de escrever é – e por muito tempo será, ainda – uma utopia contextual. Felizmente para nós, escritores, ainda não se conhece uma grande obra literária que não tenha brotado de uma mente que não se permite sonhar.

Tiago Germano é autor do livro Demônios Domésticos, publicado pela editora Le Chien e indicado ao Prêmio Açorianos de Literatura 2017.

5. Glau Kemp

Pra mim significa receber muito calor humano, o leitor brasileiro é apaixonado e adoro ter contato com eles seja em redes sociais ou pessoalmente. Mas ser escritor no Brasil é uma luta diária também. Todo o processo que acontece até o livro chegar nas mãos leitores é lento. Ser escritor é uma profissão e exige muito estudo e dedicação, mas é difícil um escritor conseguir se sustentar apenas escrevendo. Duas características são fundamentais para os novos escritores: persistência e paciência, é assim que se escreve livros no Brasil.

Glau Kemp é autora do livro Quando o mal tem um nome, sucesso na Amazon e que será publicado pela Verus Editora.

6. Lucas de Sousa

Ser escritor no Brasil é construir junto com outros parceiros de profissão um elo forte de incentivo à literatura brasileira. Não somente trabalhar a sensibilização para o gosto mágico da leitura, mas mostrar que há qualidade literária no Brasil. É desmistificar que o melhor sempre vem de fora, desmistificar que o Brasil é sim um país de leitores. Ser escritor no Brasil é lutar pelo seu espaço, ser acessível ao chamado dos leitores.

Lucas de Sousa é autor do livro O Encantador de Livros, publicado pela Ler Editorial.

7. Vivi Maurey

Acho que é tão difícil ser escritor no Brasil que eu tenho até medo de ser muito sincera e permitir que a resposta encontre lugares na minha mente que até agora tinham permanecido escondidos e alheios a esse fato. =P

Se a gente perguntar pros colegas autores de outros países, eles também vão dizer que é muito difícil, apesar de terem mais espaço, mais leitores, mais investimento e procura. Mas é um consenso: viver de arte é muito difícil onde quer que você esteja. Muitos ainda nem consideram profissão.

No Brasil, quando você fala que é escritor, as pessoas ficam esperando você terminar a frase e dizer sua verdadeira profissão, aquela que leva pão à mesa, como se a escrita fosse apenas um passatempo. Não à toa, já que as pesquisas nos dizem o quanto o brasileiro lê pouco e realmente parece que não existe muito mercado para nós. No entanto, esse quadro vem mudando. Com o aumento das vendas de livros focados na vida jovem adulta, o escritor, não apenas o que vende pra esse público, pode ter bem mais esperanças.

Por outro lado, por ser um mercado restrito e difícil, não basta apenas escrever um bom livro. O mercado está cada vez mais exigente. Você tem que ter redes sociais e engajamento, seguidores além de leitores, n talentos como gravar e editar vídeos, palestrar, dançar, cantar, nossa, daqui a pouco as editoras vão querer certificado de que já pisamos na Lua antes de aceitar publicar nosso livro.

É um problema isso porque tem muita gente talentosa que tá começando agora, que não tem privilégios básicos para conseguir trabalhar bem uma plataforma de leitores e não vive essa oportunidade de ter seu projeto publicado e divulgado. Além do mais, o mercado está exigindo uma maturidade e um desenvolvimento artístico de jovens iniciantes que não faz nem sentido. As editoras querem um produto pronto, pra não ter trabalho porque o tempo é escasso, mas ao mesmo tempo querem autores cada vez mais jovens para vender melhor para esse público que tá comprando. Isso, além de irreal, é uma pressão absurda em cima dessa galera que mal saiu da adolescência, e pode gerar frustração e depressão. Ter multitalentos e multitarefas pode vir naturalmente para alguns ou a custo de grande esforço para outros e funcionar, mas para muitos é uma grande barreira. Às vezes, a escrita, que devia ter o maior peso na hora de dar oportunidade para alguém ser publicado, não está nem na lista dos pré-requisitos das editoras, afinal, livro é produto, ele precisa ser vendido pra fazer o mercado acontecer e escrita nem sempre é uma exigência do público.

Eu escrevo porque preciso da escrita pra me entender e viver melhor, então fiz a escolha num belo dia de tentar viver disso, fazer da escrita minha profissão, mas não foi uma decisão tranquila. Não me arrependo e não quero mudar de profissão, mas confesso que ultimamente tem sido difícil convencer alguém novo de que é um bom caminho a se seguir. Hoje, quando me perguntam sobre ser autor no Brasil eu costumo dizer “Tem certeza mesmo de que é isso que você quer?”

Dito isso, acho que toda profissão tem suas dificuldades e quem realmente quer seguir a profissão, não existe outra forma sem ser passando pelo olho do furacão.

Vivi Maurey é autora de #Fui, publicado pela Globo Alt.

8. Moduan Matus

Ser escritor no Brasil é se encontrar em diversidades de objetivos e em tendências; ainda procurando um veio, tênue, de luz, de nobreza, rumo à eternidade universal.

O difícil é conseguir destaque estando em lugar-comum ou em constante ensimesmamento; ainda, alguns que conseguem tal projeção têm que passar pelo funil do mercado editorial e/ou adequar a(s) sua(s) obra(s) à realidade de massificação constante ou ao modismo de época, causando uma falsa originalidade.

Existem obras literárias fabricadas por midiatizações, para poderem cair no gosto comum ou viralizar, até porque as editoras visam o mercado promissor. Existem escritores marqueteiros que, de olho nos nichos, agem pela crista, criando uma literatura de fachada, de conteúdo duvidoso, servindo apenas à febre consumista dos leitores de superfície e ao entretenimento. E existe uma literatura objetiva, calcada no segmento cognitivo do cosmo literário e é neste veio que talvez se encontre o maior poder de criatividade, tornando a leitura viva, em movimento, ligando o maior número de possibilidades em absorções, desvendando fio a fio das meadas.

Ser escritor no Brasil não deve ser apenas modismo ou passatempo; é atrelar-se (ou engajar-se?) e se saber miscigenado de culturas, artes, dotado de ideias participativas, disposto às contextualizações e pertencimentos; escrevendo coisas consistentes que livrem do marasmo e da especulação literária e que atinem o raciocínio ao estranhamento; e que conduza a interpretação ao cerne da questão e promova mais e mais a libertação.

Moduan Matus é experimentalista em poética, escritor e historiador. Autor de As margaridas estão cada vez mais raras e História de Nova Iguaçu: recortes de uma cronologia ilustrada de 510 anos.

9. Juliana Daglio

Ser escritor no Brasil, antes de tudo, é um desafio. Não temos formação para isso em nossa educação, nem somos muito incentivados à leitura ou a escrita. Escrever é desafiar esse sistema. Procurar recursos para construir uma carreira, para aprender o ofício, divulgar, subindo degrau por degrau para chegar à realização desse sonho. E entender que não estamos sozinhos, que há muita gente que também está subindo esses degraus e que, juntos, podemos mudar o cenário para a melhor.

Juliana Daglio é autora de Uma Canção para a Libélula e seu livro de terror Lacrymosa será publicado pela Bertrand Brasil.

Gostaria de fazer alguma pergunta para nossos escritores de julho? Te aguardamos nos comentários =)

Hanny Saraiva

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