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Lançamento camiseta T. S. Eliot

    Junho, esse mês tão festivo, já trouxe inúmeras novidades para quem é apaixonado por literatura. A primeira delas foi a coleção de almofadas literárias (veja aqui). Uma coleção que conta com 20 estampas exclusivas para quem adora decorar com poesia.

    No que se refere a camiseta literária, nosso grande lançamento do mês fica por conta de T. S. Eliot. Agora, o ensaísta britânico, um dos maiores nomes da poesia do século XX, pode ser vestido, na Poeme-se.

 

“Só os que se arriscam a ir longe demais são capazes de descobrir o quão longe se pode ir.”

 

T-Shirt T.S.Eliot

T-Shirt T.S.Eliot

Babylook T.S.Eliot

Babylook T.S.Eliot

Bata T.S.Eliot

Bata T.S.Eliot

Resenha literária com Guarnier: Caldo de Cultura

Caldo de cultura

Caldo, Música, Poesia e Outras Delícias: Estação Marginal VI – Caldo de Cultura

 

Desde que chegamos à Baixada Fluminense, já falamos do Sarau RUA e do Sarau do M.E.R.D.A., ambos de Nilópolis e, seguindo a veia que corta nossa BF, vamos pela linha do trem até a cidade vizinha para apresentá-los nossa sexta Estação Marginal, então chega mais porque vem coisa boa. Aí vem um caldo delicioso com ingredientes muito especiais.

 

    O que vocês acham de chegar num sarau onde rola música, Teatro, Poesia, Performance, Debates e ainda por cima saborear um delicioso caldo de graça assistindo a isso tudo? Pois é, este é o Sarau Caldo de Cultura que rola na praça Praça João Luiz do Nascimento, mas conhecida como “Praça da Telemar”, no centro de Mesquita, na estação ferroviária da cidade. Já lancei livro lá, mais precisamente o meu segundo, o Paiol e fui muitíssimo bem recebido, participei de debate e falei do processo de criação. Fui “entrevistado” pelo Ewerson Cláudio, figura icônica na militância artística e política de Mesquita e na Baixada e lembro que recebi um cachê delicioso: Dois litros de um vinho que, àquela altura com o tamanho do carinho que recebi, desceu uma maravilha acompanhado do caldo que é servido no sarau. Fundado em 2014, num ano que considero icônico para a cultura baixadense, pois foi de fato um período em que grande parte dos artistas pararam de migrar para capital e passaram divulgar seus trabalhos na sua região de origem. Durante muitos anos a Baixada exportou artistas para fora dela por não ter espaços onde os mesmos pudessem se apresentar, ganhar um cachê, vender seus cds, livros, passar seus chapéus, venderem seus artesanatos… enfim, a efervescência cultural da Baixada finalmente acontecia na própria Baixada. Um marco, como disse, mas retomando sobre o Caldo, sua primeira edição aconteceu no dia 14 de fevereiro deste belo ano. Rolando sempre na segunda sexta-feira de cada mês desde então.

“O objetivo é possibilitar o intercâmbio de diversas linguagens artísticas e da cultura em geral presente no caldeirão da Baixada Fluminense. A atividade conta com a presença de artistas plásticos, poetas, músicos, autores de livros etc.”

 

Nesta descrição do objetivo do evento, fica clara a vontade de oferecer um espaço onde os artistas possam se conectar com seu público, bem como ampliá-lo.

A Arte e a Praça Públicas

 

“Realizar o evento em praça pública foi proposital para interagir com o público que frequenta o local: jovens, crianças, adultos, a galera que organiza eventos na rampa de skate, hip hop, funk etc., além de vendedores das inúmeras barracas de alimentação (o que já é uma mostra da cultura da região)…”

 

A Praça em que o Caldo acontece é palco em que a vida se mostra de forma espontânea. Imaginem aquelas praças de 1980, em que as pessoas andam de bicicletas duplas, o pipoqueiro tem fila grande, a molecada joga um futebol e a criançada come algodão doce enquanto espera a vez nos brinquedos do parquinho. Os casais circulam e tem um clima de azaração típico da adolescência, mais as barraquinhas de cachorro-quente com super molho verde misterioso num clima bem amistoso e convidativo, pois então, além de tudo isso, numa sexta-feira por mês, ainda tem o Sarau rolando, quadros expostos, fanzines, varais, brechó, música, poesia, Teatro, Dança…

Diversidade e Pluralidade

“A pluralidade é um dos elementos conceituais do Caldo: misturar linguagens, ritmos, estilos, gerações, patrimônio imaterial – a mistura de elementos criando um meio propício, um caldo de cultura, para o surgimento de ideias e ações.”

 

    Neste trecho eu me identifico bastante, pois quando escrevi um projeto sobre o Sarau RUA e estava tratando sobre o que é a Baixada Fluminense, lembro que a denominei como “Um grande caldeirão com tudo dentro” para ilustrar sua diversidade, o Caldo é uma dessas maquetes que os saraus são para a BF: Um caldeirão com tudo dentro!

Quem mexe esse caldo?

“Durante dois anos e meio o Caldo realizou 25 edições na praça e parcerias com a Biblioteca Comunitária Oscar Romero, a Escola de Artes Técnicas Luiz Carlos Ripper e o IFRJ.

 

O Caldo de Cultura é independente e autônomo, fruto da miltância cidadã e coletiva pela resistência cultural na Baixada Fluminense, interagindo com várias iniciativas culturais da região. A equipe organizadora conta com a participação de Ane Alves, Cleia Cunha, Meire Oliveira, Eduardo França, Ewerson Cláudio, Genário de Moura, Hélida Mascarenhas, Irany Miranda e Ivan Machado.”

 

    Essa foi a nossa sexta Estação Marginal e décima coluna aqui no Marginália e também no blog dos nossos parceiros da Poeme-se. Como sempre terminamos com poesia, selecionei duas entre muitas de poetas que presenciei lá no caldo. Até a próxima!

Se por amor… Vago, valso, verso…
Se por amor… Invento, intento, imenso…
Se por amor… Ensaio, estréio, estrelo…
Se for amor… Repagino, respiro, renasço,…
Se for amor… Esbravo, escarno, esvaio…
Se não … nem Sou! A.A

-Ane Alves

Mudas As palavras mudas lhe diziam:
Bora com essa poesia!
Desfaz a cara, engole o choro
O grito calado constrói a mágoa.
Vai pra onde o céu possa alcançar,
E quando ninguém mais te esperar, chegue sorrateira,
Surpreenda a farsa,
Deixe se ir com o poema!
Seu universo lotado de si
Te aguarda pra brincar no seu jardim!

-Ane Alves

 

Enquanto isso…

Enquanto te espero…
Curo antigas feridas
Espanto grilos falantes
Dou faxinas constantes

Enquanto te espero…
Me encaro de frente
Me faço forte
Me dou um Norte

Enquanto te espero…
Percorro teus cantos
Ouço teus cânticos
Vejo teus encantos
Enquanto te espero…
Me guardo
Me trato
Me amo
Me basto!

-Ane Alves

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Sarau Rua

 

   Nas páginas policiais, quem nunca ouviu falar da Baixada Fluminense? Uma periferia estigmatizada por sua histórica violência recorrentemente explorada pelo sensacionalismo jornalístico, tornando-a uma das mais temíveis regiões do estado, a Baixada iniciava seu histórico de violência e depreciação lá no início da colonização, quando era habitada pelos índios tamoios que receberam apoio dos franceses contra a invasão portuguesa, mas que foram derrotados nas aldeias das terras baixadenses, terras que, após isso, foram chamadas pelo padre José de Anchieta de “a nação dos derrotados. Todo esse histórico corroborou, logicamente, para a discriminação dos habitantes daqui, pois aquele que é morador da região sabe, que quando se fala “Moro na Baixada”, quem não a conhece, já lança olhares que denotam expressões como: “ai meu Deus, é bandido!” à “Coitadinho, mora muito mal!”. Como morador, afirmo: a violência e a infra-estrutura não são nem piores e nem melhores do que a da maioria das demais cidades do estado, inclusive de grande parte da capital. Que fique claro e, para que essa coluna não vire um “tratado sobre tudo de ruim na Baixada Fluminense”, falaremos sobre a grande efervescência cultural e artística baixadense.
   Não seria exagero afirmar que a baixada foi habitada por pessoas vindas de muitas partes do mundo, porém, para andar num terreno mais seguro, podemos certificar que aqui tem gente nascida desde o Oiapoque até o Chuí. A bem da verdade, a Baixada é um caldeirão. Sim, um caldeirão com um emaranhado de tudo e todos dentro, e essa mistura de culturas, consequentemente, beneficia a produção das Artes, por exemplo, pois acaba se tornando um processo antropofágico de produção de Arte que nos proporciona variadíssimas e originais manifestações artísticas em todas as suas linguagens existentes. Do Funk à erudição dos concertos clássicos. Do Passinho ao ballet. Dos Sonetos de Camões, aos versos mais rasteiros dos poetas que brotam a cada dia mais afiados nos saraus dos bares, praças e Ruas baixadenses. O início e o fim se encontram aqui. Somos “O coração que bate fora do peito-capital…”. Somos a Baixada Fluminense. Como artista baixadense há 15 anos, sempre a percebi como uma “mola encolhida” em relação ao seu potencial total artístico. Subjugada pela capital e exportadora de seus artistas pouco valorizados aqui dentro, a Baixada conhecia uma pequena parte do que produzia artisticamente, a representação artística ficava limitada às “escolas” de Samba e alguns medalhões regionais que, esporadicamente, ocupavam páginas de jornais, pequenas participações na TV e reality shows. Essa pouca valorização também é uma conseqüência do que se entende e se reconhece por Arte dentre os moradores da BF, pois o “artista” não é posto como um trabalhador comum – especialmente comum – e sim uma celebridade, ou até mesmo divindade, que obrigatoriamente deve aparecer na televisão e tocar no rádio. Às vezes, diante de algumas falas que ouço, penso que a figura do que é ser artista aqui, para a grande maioria, ainda é um quadro do Tarcísio Meira com a Glória Menezes na estante da sala, e um vinil do Roberto Carlos à lá Jhon Travolta num canto, porque o toca discos não funciona mais. Um exagero? Talvez!
   Porém, após as grandes manifestações de 2013, comecei a ter notícias de um sarau em Nova Iguaçu, e até por ignorância eu chamava de “Sarau Cinco”, pois não entendia o porquê do “V” e interpretava como um algarismo romano, posteriormente soube que significava “Viral”. Ainda sim só fui ter contato com o “V” em agosto de 2014 e uma necessidade se instalou: “Nilópolis precisa de um espaço artístico independente.” Eu balbuciava pensamentos e reclamações altas e conversava com Elizabeth Gomes sobre a falta de apoio aos movimentos artísticos, pois nessa edição do Sarau V o tema foi “Ação no Território”, e houve muitas reclamações de coletivos sobre perseguição policial, política e falta de apoio público, então num dado momento, um senhor morador de Rua pediu a vez no microfone aberto e cantou a música “O Menino da Porteira”. Resumo: O cara teve sua casa invadida, sua sala desarrumada e ainda recebeu a todos com o melhor que poderia dar. Ali nasceu o verso lema do Sarau RUA “O Amor que a RUA dá, só quem vive a RUA sente” e com ele, também nascia o Sarau RUA.

Sarau RUA, o nascimento. 

   Após dias de conversas com o poeta Victor Escobar, falando da necessidade de um movimento artístico independente em Nilópolis, e sobre os moldes de como fazer isso, apresentei a ele, via whatsapp, um nome: RUA. Simples, direto e que contemplasse tanto as dificuldades, quanto as benesses de uma ressignificação do espaço público. Em princípio achamos que já haveria algum movimento artístico com o mesmo nome, mas na época só existia o “Coletivo RUA” dos militantes do PSOL, uma proposta político-partidária e isso não nos limitava. Foi então que sugeri nos reunirmos com mais lideranças em busca de apoio e criei um grupo no whatsapp que contava com o Cineclube Buraco do Getúlio (Diego Bion e Luana Pinheiro), Coletivo Poesia Segunda Pele (Camila Senna), Pó de Poesia, Sarau de Gênero Fulanas de Tal e Centro Cultural Donana (estes três representados na figura da poeta Ivone Landim), Sarau do Escritório (Alex Teixeira e Rebeca Brandão) e Sarau V (Mateus Carvalho e Janaína Tavares), mais a poeta Elizabeth Gomes, produtora da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu e o poeta Victor Escobar. Já nas conversas virtuais apresentei a logomarca e recolhi alguns poemas para a composição do primeiro fanzine do RUA que seria feito à mão, com caneta e papel – o Rua foi pensado para ser produzido com os mínimos recursos disponíveis, por isso o fanzine feito à mão com caneta e papel e a utilização do megafone para a amplificação das vozes. O encontro aconteceu no Bar Amarelinho de Nilópolis e ali, Elizabeth Gomes e Victor Escobar se juntaram a mim para formarmos o núcleo duro do Sarau Rua que já aconteceria dali a dez dias, dia 20 de dezembro de 2014, às 19 horas, sob as câmeras da Central de Monitoramento da “Cidade mais monitorada do Brasil” – título ostentado com orgulho pela gestão municipal- na Praça dos Estudantes, Centro de Nilópolis.

   Desde então o Sarau RUA ocupou a 18 vezes a Praça dos Estudantes e agora migrou para a Praça Antônio Flores em Nova Iguaçu e continua impactando o imaginário e o espaço público da nossa riquíssima Baixada Fluminense.

   Além da Elizabeth Gomes, Victor Escobar e eu que somos fundadores, além de todos os artistas que se reuniram no bar Amarelinho há mais de dois anos atrás, o RUA também contou em sua produção com outros artistas e produtores da BF que foram, e são, parte da História do Sarau. São eles: Luiza Bastos, Rennan Cantuária, João Léllis, Catu Gabriela Rizo, Ivone Landim e Mariana Belize.

Agora vamos de Poesia!?

Ganga Zumba
chora sozinho
lágrimas salgadas
nas madrugadas
de lua cheia
em frente à praia
de Cruz das Almas

Virgulino
o paladino
botava medo
até mesmo
sem cabeça
na república
açucareira

a esperança
vem e vai embora
mais depressa
que o sol
de Massayó

será que a
antropofagia
conseguiria
salvar a alma
de alguém
hoje em dia?

-Victor Escobar

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Eu poderia largar o cigarro
e em passos largos
me largar de cabeça
no teu peito

Eu poderia
em vilas gaivotas
acidentadas
ou portos brancos,
velhos
a(r)mados
fodidos
e usados
Abrir a janela ao lado
pro vidro corrente de ar
e quebrar com um só impulso
no pulso-coração
o cunho da estrada
voando baixo
nas linhas brancas
ou me arrastando
pelas sujas de bordô e carmim

Eu poderia até mesmo
te cobrir
com meu já empoeirado
manto carmesim

Poderia
em toda via
secar o viável viés
de naufragar o desejo
de morar aos teus pés

Poderia quiçá
no todo do ódio
que te corrompe o sutil codinome
Morrer de desejo
de pavor
de terror
na ira da angústia
de suprir tua fome

Quebrar os limites
e também a gaiola
sufocar com as correntes quebradas
o todo do mal que te apetece

Eu poderia tudo isso

Se com sorte
algum dia
com teu andar-vôo
nas minhas linhas-letras-tortas-poesia

Você também me pudesse.

– três (1/36)
– Elizabeth Gomes

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Quero passear
Quero num domingo de outono, passear pela cidade
andar pelos becos sujos do centro
e descrever em poesias suas igrejas lotadas de fiéis do aos domingos
quero pular as pernas do mendigos …
e negar-lhes esmola
Quero fechar o vidro do carro
com medo de ser roubado pela criança negra do sinal,
mas fazer uma oração semi-sincera pedindo que alguém tenha mais coragem que eu e compre suas balas
quero chutar as garrafas com restos de cola de sapateiro
com meu sapato de trezentos reais e agradecer a Deus por tudo que tenho
Quero exibir minha carteira Louise vitton
quero que faça frio para estrear minha jaqueta Levis
eu quero pisar na lama com minha bota cara
e quero sentar na calçada do CCBB
para ler desdenhoso alguns poemas Nelson
vou arrancar dos bolsos uns trocados e comprar um folhetim
oferecer um cigarro caro do meu e fumar junto fingindo rir pensando:
“Queria ser poeta, mas não igual a esses daqui.”
Depois me despedir com um aperto de mão semi-sincero
entrar para ver uma exposição que não entendo,
mas fazer cara de semi-inteligente
olhar em volta atrás de uma universitária semi-bonita
fingir um interesse, me sentir semi-centro das atenções por uns minutos
e tomar um café semi-tranquilo
pensando que eu queria ser isso, mas sou aquilo
ir embora sozinho, porque é chique ser introspectivo
andar a pé por uns metros para ser visto
esvaziar os bolsos cheios de papéis de bala e de bobo
entrar no meu carro
esperando que minha arrogância saia num arroto
acelerar sem sair do lugar
só para me olharem
sair em disparada na contramão para de mim falarem:
“viu aquele sujeito num carrão?”
dirigir semi-satisfeito
me sentindo o próprio presidente semi-eleito
“Temer, eu sei o que é ser semi-querido, quer me ligar, amigo?”
Homem de bem este senhor!
no caminho, num muro pichado
fotografo no meu Iphone
“Mais amor por favor”
ponho na minha foto de capa e
assisto completamente satisfeito um bombardeio na Síria certo de que a justiça está sendo feita por homens de bem como Temer, Trump e eu
Semi-honestos
Semi-bons
Semi-deus
#guarnier

Guarnier

página do Sarau RUA no facebook: https://www.facebook.com/SarauRUA/

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: A Arte Pública

 

Saraus Como Alfabetizadores Artísticos: A Arte Pública

Sarau Rua

Sarau Rua

 

   Desde as manifestações de 2013,meros movimentos artísticos, coletivos, organizações que promovem a arte pública colocaram o bloco na rua, tudo como forma de continuidade e resistência para dar vazão ao sentimento de indignação coletiva por conta do cenário político que se apresentava.

   A ressignificação dos espaços públicos pela Arte fez surgir um Sarau em cada canto e o território foi discutido. De quem é a cidade? De quem são as Ruas? Do estado ou da poesia, da Dança, da Música, do pensamento? Desde então começou-se a ter notícia de nomes como “Sarau V” (NI), “Sarau do Escritório” (RJ), “Corra que a Polícia Vem Aí” (Campo Grande – RJ), “Poetas Compulsivos” (Morro Agudo-NI), “Poesia de Esquina” (CDD-RJ), “Caldo de Cultura” (Mesquita), “Sarau RUA” (Nilópolis), “Fulanas de Tal” (NI), “Sarau do M.E.R.D.A.” (Nilópolis), dentre outros… muitos outros. Observe-se que todos estes em periferias, mesmo o Escritório que é no Centro da Capital do RJ, acontece na Lapa, berço da marginalidade e boemia cariocas. Esses espaços deram oportunidade e visibilidade a muitos artistas entregando-lhes microfones, palcos e público como se falassem: É a sua voz que queremos ouvir e é a sua Arte que queremos comprar. Com isso muito poeta esvaziou sua gaveta, muito músico resgatou seu instrumento, muito cantor soltou sua voz e, inspirados por estes anônimos, todos aqueles que tinham vontade de tocar um instrumento começaram a tocar, muitos que tinham vontade de escrever, arriscaram seus versos e assim estas simplórias, e na maioria das vezes, até precárias estruturas, tornaram-se as centelhas que faltavam para muitos novos artistas, por isso, podemos chamar estes espaços de “Alfabetizadores Artísticos”.

Sarau V

Sarau V

O que é um sarau?


Segundo a Wikipédia: um sarau pode envolver dança, poesia, leitura de livros, música acústica e também outras formas de arte como pintura, teatro e comidas típicas. Evento bastante comum no século XIX que vem sendo redescoberto por seu caráter de inovação, descontração e satisfação.


   Quem já esteve presente num sarau, sabe da multiplicidade de linguagens que ele abriga. Sem falar no ineditismo e originalidade sempre presentes em cada edição de cada sarau. Já na programação você se depara com um nome que nunca ouviu falar como poeta convidado, e que na parte musical outro desconhecido se apresentará lançando seu último trabalho. Então a moça que trabalha no sinal da avenida principal todos os dias fazendo malabares, também está relacionada entre as atrações. Ali mesmo, durante o período do “microfone aberto”, dois ou três poetas leem seus poemas e te encantam. Eles não têm livros lançados, nem se sabe se almejam um dia publicarem um. Então você descobre que uma folha de papel A4 dobrada, ou não, tem muitas poesias daquele autor que você acabou de conhecer e ele está oferecendo aquele papel por dois reais, daí você descobre que o nome daquela folha com poesias e ilustrações é Zine. Tudo isso na esquina, ou na praça, ou no calçadão da sua cidade, de graça. Você compra um artesanato, come um lanche, toma uma cerveja a preços honestíssimos. Senta-se no chão e troca uma ideia com alguém bem bacana. Sai dali satisfeito e promete-se retornar na próxima data. Digamos que você nunca se interessou muito por Arte porque sempre achou que Arte só ficava nas galerias caras, que poesia era só Fernando Pessoa e Drummond. Que só Clarice Lispector era capaz daqueles interlúdios mágicos que teus amigos compartilham no facebook e agora você acaba de ler, ouvir e ver coisas incríveis de pessoas completamente desconhecidas e então lembra que lá na adolescência aprendeu uns acordes no violão, que escrevia umas cartas, era louco para fazer parte do Teatro da escola e nunca teve coragem, mas diz para si, despretensiosamente: Um dia… um dia.

Multiplique seu exemplo pelo número de pessoas que ali passaram e pararam por dez minutos para ver o que estava acontecendo e se sentiram bem, ficaram mais dez minutos para ouvir a música bacana do cantor desconhecido e depois adiaram mais um pouco a partida para assistirem o grupo do Teatro e a performance de Dança. Aprenderam o que é um sarau, aprenderam que poeta na maioria das vezes não tem livro lançado, aprenderam que Dança e Teatro não precisam de palco para se apresentarem e aprenderam que tem infinitamente mais artistas fora da televisão, dos livros e do rádio do que dentro deles, portanto, aprenderam uma série de coisas que não sabiam. Foram alfabetizados!

mosaico

   Nossa cultura nos disse a vida inteira que estudo e aprendizado só são ensinados nos ambientes vernaculares das escolas. Somente dentro dos domínios daquela estrutura engessada por métodos e estratégias óbvias é capaz de se aprender, por isso, qualquer aula que aconteça num ambiente que não seja a sala de aula não é considerada aula pela maioria dos alunos.

-Filho, como foi a aula hoje?

-hoje não teve aula, assistimos um filme no pátio!

Esse comportamento arraigado em nós, faz com que desconsideremos os ensinamentos que recebemos no cotidiano e acabamos reproduzindo esse discurso, desconsiderando todas as demais inúmeras salas de aula e professores que vão muito além dos muros das escolas e universidades, são ações e lições num campo a céu aberto chamado Rua.

Guarnier