Posts tagged "Brasileiro"

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Uma autora brasileira ficou em primeiro lugar no ranking de livros de suspense sobrenatural na Amazon? Sim, é verdade! A moça ultrapassou – na semana de lançamento de seu ebook – nada mais nada menos que Stephen King e desde que seu livro foi lançado vive voltando para o top 5. Talento e sorte? Não, talento e determinação. Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome” nos deu uma pequena palha de como é ser uma escritora nacional, dicas muito bacanas sobre outras escritoras e curiosidades sobre sua jornada.

A paixão pela escrita surgiu quando ela ainda estava estudando e queria cursar Medicina Veterinária. Para se distrair e sair um pouco da pressão dos estudos técnicos, ela escrevia. E começou a escrever tanto que entrou para o curso, largou a faculdade e hoje se dedica integralmente à arte da escrita. Quando decidiu abraçar a carreira de escritora, a moça foi em eventos para autores e editoras para descobrir como é que se trilhava o caminho. Cursos, perguntas, um contrato com a agência Increasy e muitas horas de treino para aprimorar suas técnicas até surgir “Quando o mal tem um nome”, uma história que acontece na Aparecida dos anos 70, uma cidade erguida no centro de um milagre e entrelaçada com a vida de Marta e sua filha Clara. Dentro desta terra de fé, a “malignidade cresce no coração de uma mãe devota. As orações que a padroeira não atende são feitas agora para anjos caídos. Um demônio atende a prece da mãe e a abominação despertada é tão grande que todos vão pagar pelo seu pecado. O mal só precisava que alguém o chamasse pelo nome e agora está entre nós.” Preparado para entender um pouco mais sobre o que se passa na mente de Glau Kemp?

1.Como foi chegar ao primeiro lugar na Amazon?

Assim que “Quando o mal tem um nome” foi lançado eu tava muito “Cara, esse livro tem que acontecer”. Meu livro é uma mistura de dois livros “Carrie, a estranha” e “O bebê de Rosemary”, aí minha tática foi “Vou lá no Skoob ver quem leu esse livro e  gostou e vou mandar pelo menos 10 mensagens por dia e falar com essas pessoas sobre meu livro. Fiz isso uns 20 dias, mais ou menos 200 pessoas. Pensei: “Se pelo menos 10% disso for ler e comentar na Amazon já tô feita.” Bastante gente foi lá e respondeu e foi isso que colocou o livro em evidência logo no lançamento.

2.Por que escrever literatura de terror/suspense? O que te encanta?

Acho que terror, em especial, não precisa explicar muito as coisas: se você tem poderes, você tem poderes. Eu acho mais fácil fazer a pessoa sentir medo do que ser engraçada. É mais fácil provocar medo. É um lugar comum para mim porque já tive muitas experiências. O terror me deixa mais confortável.

3.O gênero terror pode ser considerado uma literatura de resistência?

Pode ser. Talvez tenham escritores que sejam assim. Mas eu só escrevo para contar uma história.

4.No início desse ano nasceu a Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst), quais suas expectativas em relação à associação?

Vai ser muito importante porque será um grande meio de comunicação, com blogs sérios, maiores, outras mídias, referências para outros escritores, organização de eventos. Uma forma de ter acesso a outros profissionais, importante para essa união.
Estávamos muito soltos e achávamos que éramos menores. A associação te dá essa oportunidade de estar ligado ao que está acontecendo.

5.O que mudou na sua vida depois que escreveu “Quando o mal tem um nome”?

Eu me sinto com mais medo. Eu era mais corajosa. Não medo de coisas sobrenaturais, mas medo de coisas mais reais. Por exemplo, eu sempre fiquei muito tempo sozinha em casa, mas hoje eu tenho mais medo de ficar sozinha em casa. Minha audição aumentou e fiquei mais atenta às coisas que me rodeiam.

6.Que tipo de livro de escrita criativa você considera um ótimo caminho para quem está começando?

Olha, tem um livro bem curtinho do Felipe Colbert, escritor também, e editor da Novo Conceito: “Escreva seu livro agora!” Ele é bem direto, dá a formulazinha de como fazer uma escaleta igual se faz em um roteiro, separando tudo. Eu não sou uma pessoa organizada, não consigo trabalhar assim. Mas as dicas que ele dá são certeiras. A maioria desses livros sobre escrita são de autores de língua inglesa que já dominam a técnica, que vêm da escola já sabendo escrever profissionalmente, já o Felipe dá as dicas para quem escreve em português. Normalmente eu pego também dicas de livros com novos escritores. O último que eu li foi o da própria Cláudia Lemes “Santa Adrenalina”, lançado pela editora Lendary, um manual de como escrever um thriller, dá dicas bem diretas, livro bem fininho.

7.Qual a maior dificuldade em escrever e divulgar esse gênero sendo mulher?

Acho que a maior dificuldade é na hora que você está nos eventos: você vai divulgar seu trabalho e sua aparência é muito mais importante do que seu trabalho. Se eu for postar uma foto com o livro as pessoas vão falar de mim. Eu entendo que são elogios e recebo de coração aberto, é claro, mas é sempre “Linda”, “Você é uma fofa”. Não estão falando sobre o livro, eu estou falando sobre o livro, mas as pessoas estão falando sobre mim. Uma das coisas que mais me fez colocar o livro na Amazon foi isso: as pessoas me conheciam, mas não conheciam o que eu escrevo. Então eu falei: “Cara, eu preciso colocar um livro para as pessoas lerem, porque elas estão falando sobre mim.” O escritor é um tipo de artista que não quer aparecer, eu não quero aparecer, eu quero que meu livro apareça, quero que as pessoas comentem sobre o livro. É impressionante: eu vou num evento e as pessoas vão comentar sobre minha roupa. Sei que é uma forma de carinho dos leitores se interessar sobre outras coisas do meu universo, mas como quero ser uma escritora profissional eu preciso que eles se interessem pelo livro em primeiro lugar. E sendo mulher isso é muito difícil. A primeira coisa que eles percebem é você como figura. E não é só comigo que isso acontece, mas com todas as escritoras. É um desafio que vai continuar para sempre.

8.O que podemos fazer para que mais pessoas possam ler mulheres?

Divulgar. Eu acho que é um pouco também missão de quem já tá aí um tempinho. É você dar oportunidade de ir lá e falar quando gosta, às vezes você não tem noção do poder que tem em atingir pessoas. Às vezes fazendo um comentário, uma foto, você pode dar 50 leitores para aquela escritora. Tenho como preceito falar sobre autoras que li. Acho que faz parte. Você deve isso. Porque alguém já fez isso por você. Acho que todo tipo de ajuda é bem-vinda.

9.Como estamos falando de mulheres na literatura, quem você destacaria nesse universo?

A primeira mulher que vem à minha mente é a Karen Alvarez. Quando decidi escrever um livro de terror eu entrei na Amazon e pensei “Quem é que tá fazendo sucesso?” A primeira pessoa que apareceu foi ela,  que produziu bastante coisa de terror. Tem outras escritoras que admiro muito como a Claudia Lemes, li recentemente “Cartas no corredor da morte”, que é um livro que fiquei embasbacada,  fiquei assim: “Como esse livro não é conhecido?” Tem também a Juliana Dagle, além de ser muito talentosa, ela produz em velocidade inacreditável, boas histórias, livros densos e em pouco tempo. Tem muita mulher trabalhando para o lado do suspense, terror. Acho que 2018 vem muita coisa boa aí.

10.Se você pudesse ser um livro, qual seria?

Eu seria um livro que tá na moda agora, eu seria IT – a coisa, que é um livro grande e foi meu concorrente direto durante um bom tempo, pelo menos nesse início de lançamento, porque sucesso é muito passageiro. IT – a coisa é um dos livros preferidos, é uma história tão completa e complexa, fico imaginando o que estava passando na cabeça de Stephen King quando estava escrevendo. Talvez seja um clássico daqui a algumas décadas, sempre vai dividir opiniões. Eu gosto dos detalhes nesse livro, nos outros não.

11.Qual sua maior referência literária? Se pudesse um dia sentar com essa pessoa numa noite sombria, o que perguntaria?

Eu demorei muito tempo para ler Frankenstein de Mary Shelley. Ele é muito atual e fico pensando como foi para essa mulher escrever esse livro naquela época. Eu perguntaria se o livro mudou a vida dela de alguma forma, a forma como ela pensa, sabe? Porque em todo livro que eu escrevo, sinto que aconteceu alguma coisa diferente comigo quando ele termina.

12.Como costuma ser um dia típico de trabalho – como escritora – para você?

Eu escrevo diariamente e mensalmente escrevo muitos contos. Acordo umas 8h, tomo café, assisto jornal, vou para redes sociais, checo meu livro, se tem comentário novo, é um vício. 9h já tô escrevendo, se estiver muito intenso vou embora, às vezes nem almoço. Não sou uma pessoa organizada, mas eu tenho esse sonho de ser uma pessoa organizada, ter um horário certinho.

 

Apesar de trilhar seu caminho pelo terror, Glau Kemp está trabalhando em uma nova obra voltada para o público de chick lit: “O clube dos amigos imaginários”. Guarda esse nome. Mulheres na literatura que adoram desafios, quem não curte?

Para conhecer mais sobre o livro de terror da autora é só clicar aqui.

Hanny Saraiva

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros.

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros.

Difícil foi cada um da nossa equipe escolher seu poema preferido. São tantos textos geniais que é uma tarefa quase impossível escolher um poema apenas. Dessa forma, o que temos aqui são 10 poemas fundamentais para os colaboradores da Poeme-se.  Isso deixa margem, de propósito, para que você agregue o seu poema favorito nos comentários (ou os seus..rs)

1 – O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
-O livro sobre nada, Manoel de Barros.

2- Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
-Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros.

3- O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
-do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, publicado em 1999.

4- O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
-Memórias Inventadas – As Infâncias de de Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.

5- Obrar

Naquele outono, de tarde, ao pé da roseira de minha
avó, eu obrei.
Minha avó não ralhou nem.
Obrar não era construir casa ou fazer obra de arte.
Esse verbo tinha um dom diferente.
Obrar seria o mesmo que cacarar.
Sei que o verbo cacarar se aplica mais a passarinhos
Os passarinhos cacaram nas folhas nos postes nas pedras do rio
nas casas.
Eú só obrei no pé da roseira da minha avó.
Mas ela não ralhou nem.
Ela disse que as roseiras estavam carecendo de esterco orgânico.
E que as obras trazem força e beleza às flores.
Por isso, para ajudar, andei a fazer obra nos canteiros da horta.
Eu só queria dar força às beterrabas e aos tomates.
A vó então quis aproveitar o feito para ensinar que o cago não é uma
coisa desprezível.
Eu tinha vontade de rir porque a vó contrariava os
ensinos do pai.
Minha avó, ela era transgressora.
No propósito ela me disse que até as mariposas gostavam
de roçar nas obras verdes.
Entendi que obras verdes seriam aquelas feitas no dia.
Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas
desprezíveis
E nem os seres desprezados.
-Memórias Inventadas – As Infâncias de de Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.

6- Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio
― Manoel de Barros, Tratado Geral Das Grandezas Do Ínfimo

7-O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

8- Do livro Arranjos para assobio

VI.

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco; ao ponto de
ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las pro chão,
corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco,
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.
– livro Arranjos para assobio, Manoel de Barros.

9-Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, 
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de 
uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”, Rio de Janeiro: Record, 2000.

10-Um songo

Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.
– Manoel de Barros, em “A biblioteca de Manoel de Barros”. São Paulo: Editora Leya, 2013.