Posts tagged "Clarice Lispector"

Desconstruindo Maca-béa – quem?

Desconstruindo Maca-béa – quem?

Imigrante. Subalterna. Invisível. Quem é mesmo Macabéa?
Ela é a representação de uma sociedade de imigrantes. Em um mundo contemporâneo onde Trump afirma livremente que a fronteira utilizada pelos mexicanos é “um aspirador, levando as drogas e a morte diretamente aos EUA”, tocar na questão de imigrantes parece atemporal. Escrita em 1977, A hora da estrela, de Clarice Lispector nos presenteia com Macabéa, uma personagem jovem que passa pelo processo de invisibilidade e emudecimento. Sua vida é narrada através do fictício Rodrigo S.M. Órfã, ela vai para o Rio de Janeiro morar em uma pensão – após a morte de uma tia que a humilhava – e trabalhar como datilógrafa e continuar submissa – agora em relação ao chefe e às relações sociais/amorosas que se envolve.
Parece a história da sua vizinha? Pois bem…
Para os imigrantes têm-se os piores trabalhos e perseguições que podem causar riscos até de perda de vida. No documentário de Denise Garcia Bergt sobre refugiados na Alemanha, vemos por exemplo que o país abriga sim refugiados, mas os deixa confinados em espaços que não são públicos, limitando a liberdade de ir e vir. Macabéa é livre? Está integrada à sociedade?
Afinal, Macabéa é quem?

Ela é “inocência pisada, de uma miséria anônima.”

Macabéa apenas existia, sem desejos, sonhos, perspectivas de mudança. Excluída como muitos brasileiros que saem de suas cidades para outras, ela é fruto de uma desigualdade social que a aliena. Vai de um estado à outro, se locomove, mas continua invisível e ingênua, sem poder falar, sem saber como se expressar. Carrega junto de si sua miséria, que não tem rosto, mas está presente em seu corpo e coloca em questão a situação de vários brasileiros que andam conforme a massa, perdidos.

Ela é aquela que “Precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos redondos vácuos que havia nela”.

Macabéa é símbolo de uma sociedade que copia a moda do Instagram, que compartilha correntes porque um grupo a enviou, que repete movimentos, gestos e selfies do outro para tentar fazer parte de um todo. Ela é uma tentativa de desabrochar, tentando a todo custo se inserir para que não tenha que ser diferente.  Mais de quarenta anos se passaram e ainda cruzamos com muitas Macabéas por aí.
Ela é aquela que sabia que “Pois que vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”.
Macabéa é uma peça no maquinário, onde o patrão é Deus e o funcionário um reles contribuidor funcional, descartável. Esse botão só será aceso quando ela descobrir sua identidade. Quando a construir. Como está excluída e marginal, só através do encontro com o EU SOU é que encontrará o botão de acender. Você já se perguntou quem é você hoje? Como anda a construção de sua identidade? Ao revelar o abandono e a violência vivenciada por Macabéa, Clarice Lispector nos mostra a sensação de desajuste e nos faz pensar sobre os direitos básicos individuais, no valor da cidadania, na importância de cada um, em como se constrói identidades.

Ela é aquela que não percebe que “Porque há direito ao grito.Então eu grito” mas que nos deixa, como leitores, com vontade de gritar por ela.

Gritamos.

gif de frito


Pensando na importância da personagem dentro da literatura brasileira, a camiseta “Maca-béa” é uma homenagem a todas as Macabéas que resistem à dureza da vida e que esperamos que possam gritar bem alto sua Hora da estrela.


Hanny Saraiva

7 poemas para matar a saudade de quem tá longe

7 poemas para matar a saudade de quem tá longe

30 de janeiro. Dia da saudade, palavra só nossa, mas sentimento conhecido por todos. Para matar a saudade de quem tá longe e que sentimos falta para caramba, separamos sete poemas que sempre nos emocionam e que se eu fosse você enviava para aquela pessoa especial, relembrando-a que apesar da distância, o carinho é eterno.

1. Sentimento urgente – Clarice Lispector

Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

2. Presença – Mario Quintana

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato
e que, apenas,
levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar,
a trevo machucado,
as folhas de alecrim
desde há muito guardadas
não se sabe por quem
nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também,
que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho que fechar meus olhos para ver-te!

3. Saudade – Pablo Neruda

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

4.  Chega de saudade – Vinicius de Moraes

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser.
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer.
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz.
Não há beleza,
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim.
Não sai de mim,
Não sai.
Mas, se ela voltar
Se ela voltar, que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca.
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços.
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim.
Não quero mais esse negócio
De você viver assim.
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim…
 

5. A um ausente – Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

6. Saudade – Candeia

Saudade dos chorinhos e os chorões
Que entre prismas e bordões
Embriagavam de harmonia os corações.
Toda noite era de festa
E se ouviam as serestas pelas ruas
Sob o clarão da Lua.
Saudades do famoso Zé com Fome,
Um sambista de renome
Que o meu povo não esquece.

Saudades de Paulo da Portela,
Esta melodia singela,
É meu samba, é minha prece.

Saudade…

7. Tanta saudade – Chico Buarque

Era tanta saudade,

É, pra matar.
Eu fiquei até doente, eu fiquei até doente, menina.
Se eu não mato a saudade,

É, deixa estar.
Saudade mata a gente, saudade mata a gente, menina.
Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem,
Fui até o centro da Terra e é mais além,
Procurei uma saída e amor não tem.
Estava ficando louco, louco de querer bem.
Quis chegar até o limite de uma paixão,
Baldear o oceano com a minha mão,
Encontrar o sal da vida e a solidão,
Esgotar o apetite, todo o apetite do coração.
Mas voltou a saudade,
É, pra ficar,

Aí eu encarei de frente.
Aí eu encarei de frente, menina.
Se eu ficar na saudade,

É, deixa estar.
Saudade engole a gente, saudade engole a gente, menina.
Quis saber o que é… apetite do coração.
Ai amor, miragem minha, minha linha do horizonte.
É monte atrás de monte, é monte.
A fonte nunca mais que seca, ai saudade, ainda sou moço.
Aquele poço não tem fundo, é um mundo dentro um mundo.


Para matar a saudade, deixamos aqui nosso setlist pro dia. Balança o coração, mas segue em frente, viu?