Posts tagged "Escritores"

Literatura e política não é só um flerte

Uma das coisas mais relevantes que transmito nas palestras e oficinas que ministro, principalmente para aspirantes a escritores, é o questionamento sobre representatividade. Pergunto: vocês podem ser considerados representantes do seu espaço e do seu tempo? É, obviamente, uma provocação.

Recentemente conheci escritores de literatura negra, de literatura LGBT, literatura de periferia, literatura feminina, entre outros. Há quem diga ser reducionismo, onda de mercado e etiqueta para sobrevivência em nichos. Não é isso que importa aqui. O mais relevante é ter sido um conhecimento recente. Os debates sempre existiram, mas não nessa potência justa. Racismo, homofobia, segregação social e questões de gênero existem desde que o mundo é mundo. Acontece que o que para os pessimistas é sinal de tempos ruins (dizem que nunca se viu tanto discurso de ódio), para os otimistas é o despertar para novos caminhos, uma nova configuração mais próxima do respeito e da justiça. Mesmo com os exageros, perdoem. Até quem está, em teoria, correto comete seus excessos. Estamos em reformas, diria a placa pendurada na porta do planeta.

É impossível separar o ser político do ser literário. É impossível separar o ser social do ser artístico. Os autores refletem seu contexto histórico independentemente do tipo de obra que realizam. Romeu e Julieta, por exemplo, não é Shakespeare falando sobre o amor romântico na Verona do século XVI. A época mesmo não foi tratada como uma peça sobre o amor puro. Seu viés é, originalmente, político. Retrata questões sobre ordem política e todo o contexto sobre a configuração familiar daquele período. Como tudo em Shakespeare, a realeza é a grande chave e alvo de debates.

A escola chamada de Realismo trouxe ainda mais marcante a característica do ser político em uma obra de ficção. Dom Casmurro oferece a visão sobre o Brasil Império, as relações entre as famílias e a religião católica, como casamentos eram forjados e o contexto do Rio de Janeiro do final do século XVIII. Há poucos meses li Contos Negreiros de Marcelino Freire, de 2005, e vi toda a realidade de negros pobres no Brasil desse século XXI.

Sobre a pergunta inicial do artigo, a maioria fornece um incômodo latente, muito pela responsabilidade de ser um representante do seu tempo e espaço. Devem se perguntar se são dignos disso. Explico sobre inerência do ato. Não conseguimos fugir do que somos, do que vivemos, do que enxergamos, do que sentimos. Tudo isso aparece em nossa literatura. Seja ela inclusiva ou exclusiva. Seja ela falando que foi golpe ou não. Seja ela retratando seu incômodo com a alta do dólar ou o preço dos ovos, aqueles que a galinha chorou. Quando dizem que Monteiro Lobato era racista, temos duas coisas a atentar: ele era representante de um tempo e espaço em que isso era natural (que pena, de verdade), principalmente por sua posição social; e temos de ser anacrônicos, afinal, é muito bom poder ter esse olhar mais apurado que continuar achando que esse tipo de coisa seja normal também hoje. Portanto, não diminui a obra. Santificar sempre foi mais nocivo mesmo.

Leon Tolstói retrata o período antes da Revolução Russa em Guerra e Paz. Jorge Amado fala abertamente sobre coronelismo e uma sociedade oligárquica em suas obras. O relacionamento entre literatura e política não é um flerte. É caso antigo, nada platônico e fadado a impossibilidade do divórcio. No final, é claro, me perguntam se sou coxinha ou mortadela. Caso não desperte o debate ao menos abre o paladar. Se você, leitor, também está perguntando isso peço que volte ao início do texto e releia mesmo, com carinho. É literatura, é política. Impossível separar um do outro.

Sobre fazer versos: o que é ser escritor no Brasil?

No dia 25 de julho comemoramos o dia do escritor e vamos dedicar o mês a essa persona que é força motriz de toda literatura. Buscando entender a vida de escritor, selecionamos 9 autores – exemplos de resistência e reinvenção – que nos contaram o que é ser escritor no Brasil.

 

1. Ana Paula Lisboa

Eu só percebi que estava “vivendo de escrever” quando eu já estava. Vá lá, ainda não paga todas as minhas contas, mas 60% no Brasil é tanta coisa… Para mim ser escritora no Brasil é depender de fatores externos e internos. Eu só posso falar mesmo por mim e falar de mim é dizer que sou uma mulher negra que escreve. Isso quer dizer também que na maioria das vezes o que escrevo é colocado para avaliação, o meu conhecimento sobre o tema é questionado antes mesmo das pessoas lerem o que escrevi. Outro ponto comum é o de muitas pessoas acharem que só sei – ou posso – falar sobre temas que tenham a ver com negritude, feminismo, favela… Todos esses são sim assuntos que perpassam a minha existência, mas que não me resumem. Por isso, apesar de estar nessa fase de escrever no jornal, eu prefiro a ficção, ainda que ela até pareça real. A ficção nos leva além.

Ana Paula Lisboa é autora de Olhos de azeviche, da editora Malê e colunista do jornal O globo.

2. Thiago Kuerques

É ser abraçado e levar um tapa, quase ao mesmo tempo. “Nossa, você é escritor!” – falam com admiração. Na sequência soltam “Tá, mas você trabalha com o quê?” Pesquisas recentes mostram que o brasileiro lê, em média, 4 livros por ano. É fácil entender por que não há valor, entender não ser visto como trabalho. O escritor pode desistir. Escolhi seguir em frente. Portanto, escrever no Brasil é plantar sementes e ficar contente com as poucas árvores que já estão dando frutos. Um dia seremos mais leitores. Enquanto isso, escrever no Brasil é, afinal, uma espécie de teimosia consciente.

 

Thiago Kuerques é autor de Território (Editora Chiado) e A Balada do Esquecido da Luva Editora.

3. Ana Cristina Mello

Viver num país de dimensões continentais deveria ser o bastante para suprir a imensa oferta de livros que editoras comerciais produzem, mas a realidade é bem diferente. Uma realidade que se divide em escritores popstars e escritores que comemoram cada leitor conquistado. De um lado, os escritores youtubers, escritores atores, escritores padres ou pastores, escritores autoajuda, entre outros. De outro lado, repousam os autores que buscam oferecer aos seus leitores textos que foram exaustivamente pensados e lapidados, que se propõem a oferecer uma obra na qual o leitor não saia do ponto final da mesma forma como era quando abriu a primeira página. Repousam autores que se envolvem com sua produção como se fosse um pedaço do próprio corpo, que ofertam o melhor que podem para seus leitores.

Hoje, ser escritor de literatura de ficção é produzir para os seus pares, para prêmios literários, ou seja, para reconhecimentos que não deixam de ser importantes, mas não deveriam ser o foco principal. Façam um teste. Entrevistem alguém que esteja lendo um desses livros da primeira categoria de escritores e questione se conhecem algum dos mais renomados autores contemporâneos de literatura infantil, juvenil e adulta. Não vale citar os cânones, vivos ou não. Cânones que algumas escolas ainda escolhem de forma exclusiva, preterindo toda a produção do século atual. Provavelmente responderão que nunca ouviram falar, independente da quantidade de prêmios que algum destes nomes tenham recebido.

Ser escritor hoje é resistir. É continuar plantando sementes em cada livro, cada palestra. É comemorar cada leitor que chega ao ponto final do seu texto e te escreve dizendo o quanto o livro fez diferença na vida dele. É resistir, sem perder o ideal de continuar acreditando no poder da literatura. Acreditando no poder que o leitor tem em mãos e, talvez, ainda não tenha descoberto.

 

Ana Cristina Melo é autora dos livros Dandi e a árvore palavreira e Delta: um comando para o tempo, além de liderar a editora Bambolê.

4. Tiago Germano

A perspectiva pode variar um pouco conforme a posição que o seu livro e a editora que o publicou ocupam no mercado, mas para a grande maioria de nós, ser escritor no Brasil, hoje, é ser constantemente subestimado por uma cultura pouco digna desse nome, em que qualquer atividade de pretensão artística atua sob o perpétuo estigma da mendicância ou da falta de responsabilidade. Não falo apenas do tratamento dispensado ao escritor por editoras, agentes, livrarias, revistas, prêmios conferidos por instituições literárias, críticos e resenhistas, ou até pelos próprios colegas escritores… Falo também do comportamento dos leitores, num país em que ler 55 páginas por dia parece uma excrescência até para um cidadão literalmente encarcerado, sem nada à sua volta além das grades de uma prisão e uma parede preenchida por meia dúzia de livros. Talvez fosse uma resposta desejável e bem mais agradável de se dar aquela que tentasse afastar a profissão de escritor dos mitos que costumam rondá-la, aproximando-a de outras profissões, com suas virtudes e desvirtudes, as contingências pontuais de qualquer atividade que envolva criação ou um capital intelectual cujo valor simbólico vai, inadvertidamente, transformar-se em capital monetário. Mas a grande verdade é que falar em profissão quando se trata de escrever é – e por muito tempo será, ainda – uma utopia contextual. Felizmente para nós, escritores, ainda não se conhece uma grande obra literária que não tenha brotado de uma mente que não se permite sonhar.

Tiago Germano é autor do livro Demônios Domésticos, publicado pela editora Le Chien e indicado ao Prêmio Açorianos de Literatura 2017.

5. Glau Kemp

Pra mim significa receber muito calor humano, o leitor brasileiro é apaixonado e adoro ter contato com eles seja em redes sociais ou pessoalmente. Mas ser escritor no Brasil é uma luta diária também. Todo o processo que acontece até o livro chegar nas mãos leitores é lento. Ser escritor é uma profissão e exige muito estudo e dedicação, mas é difícil um escritor conseguir se sustentar apenas escrevendo. Duas características são fundamentais para os novos escritores: persistência e paciência, é assim que se escreve livros no Brasil.

Glau Kemp é autora do livro Quando o mal tem um nome, sucesso na Amazon e que será publicado pela Verus Editora.

6. Lucas de Sousa

Ser escritor no Brasil é construir junto com outros parceiros de profissão um elo forte de incentivo à literatura brasileira. Não somente trabalhar a sensibilização para o gosto mágico da leitura, mas mostrar que há qualidade literária no Brasil. É desmistificar que o melhor sempre vem de fora, desmistificar que o Brasil é sim um país de leitores. Ser escritor no Brasil é lutar pelo seu espaço, ser acessível ao chamado dos leitores.

Lucas de Sousa é autor do livro O Encantador de Livros, publicado pela Ler Editorial.

7. Vivi Maurey

Acho que é tão difícil ser escritor no Brasil que eu tenho até medo de ser muito sincera e permitir que a resposta encontre lugares na minha mente que até agora tinham permanecido escondidos e alheios a esse fato. =P

Se a gente perguntar pros colegas autores de outros países, eles também vão dizer que é muito difícil, apesar de terem mais espaço, mais leitores, mais investimento e procura. Mas é um consenso: viver de arte é muito difícil onde quer que você esteja. Muitos ainda nem consideram profissão.

No Brasil, quando você fala que é escritor, as pessoas ficam esperando você terminar a frase e dizer sua verdadeira profissão, aquela que leva pão à mesa, como se a escrita fosse apenas um passatempo. Não à toa, já que as pesquisas nos dizem o quanto o brasileiro lê pouco e realmente parece que não existe muito mercado para nós. No entanto, esse quadro vem mudando. Com o aumento das vendas de livros focados na vida jovem adulta, o escritor, não apenas o que vende pra esse público, pode ter bem mais esperanças.

Por outro lado, por ser um mercado restrito e difícil, não basta apenas escrever um bom livro. O mercado está cada vez mais exigente. Você tem que ter redes sociais e engajamento, seguidores além de leitores, n talentos como gravar e editar vídeos, palestrar, dançar, cantar, nossa, daqui a pouco as editoras vão querer certificado de que já pisamos na Lua antes de aceitar publicar nosso livro.

É um problema isso porque tem muita gente talentosa que tá começando agora, que não tem privilégios básicos para conseguir trabalhar bem uma plataforma de leitores e não vive essa oportunidade de ter seu projeto publicado e divulgado. Além do mais, o mercado está exigindo uma maturidade e um desenvolvimento artístico de jovens iniciantes que não faz nem sentido. As editoras querem um produto pronto, pra não ter trabalho porque o tempo é escasso, mas ao mesmo tempo querem autores cada vez mais jovens para vender melhor para esse público que tá comprando. Isso, além de irreal, é uma pressão absurda em cima dessa galera que mal saiu da adolescência, e pode gerar frustração e depressão. Ter multitalentos e multitarefas pode vir naturalmente para alguns ou a custo de grande esforço para outros e funcionar, mas para muitos é uma grande barreira. Às vezes, a escrita, que devia ter o maior peso na hora de dar oportunidade para alguém ser publicado, não está nem na lista dos pré-requisitos das editoras, afinal, livro é produto, ele precisa ser vendido pra fazer o mercado acontecer e escrita nem sempre é uma exigência do público.

Eu escrevo porque preciso da escrita pra me entender e viver melhor, então fiz a escolha num belo dia de tentar viver disso, fazer da escrita minha profissão, mas não foi uma decisão tranquila. Não me arrependo e não quero mudar de profissão, mas confesso que ultimamente tem sido difícil convencer alguém novo de que é um bom caminho a se seguir. Hoje, quando me perguntam sobre ser autor no Brasil eu costumo dizer “Tem certeza mesmo de que é isso que você quer?”

Dito isso, acho que toda profissão tem suas dificuldades e quem realmente quer seguir a profissão, não existe outra forma sem ser passando pelo olho do furacão.

Vivi Maurey é autora de #Fui, publicado pela Globo Alt.

8. Moduan Matus

Ser escritor no Brasil é se encontrar em diversidades de objetivos e em tendências; ainda procurando um veio, tênue, de luz, de nobreza, rumo à eternidade universal.

O difícil é conseguir destaque estando em lugar-comum ou em constante ensimesmamento; ainda, alguns que conseguem tal projeção têm que passar pelo funil do mercado editorial e/ou adequar a(s) sua(s) obra(s) à realidade de massificação constante ou ao modismo de época, causando uma falsa originalidade.

Existem obras literárias fabricadas por midiatizações, para poderem cair no gosto comum ou viralizar, até porque as editoras visam o mercado promissor. Existem escritores marqueteiros que, de olho nos nichos, agem pela crista, criando uma literatura de fachada, de conteúdo duvidoso, servindo apenas à febre consumista dos leitores de superfície e ao entretenimento. E existe uma literatura objetiva, calcada no segmento cognitivo do cosmo literário e é neste veio que talvez se encontre o maior poder de criatividade, tornando a leitura viva, em movimento, ligando o maior número de possibilidades em absorções, desvendando fio a fio das meadas.

Ser escritor no Brasil não deve ser apenas modismo ou passatempo; é atrelar-se (ou engajar-se?) e se saber miscigenado de culturas, artes, dotado de ideias participativas, disposto às contextualizações e pertencimentos; escrevendo coisas consistentes que livrem do marasmo e da especulação literária e que atinem o raciocínio ao estranhamento; e que conduza a interpretação ao cerne da questão e promova mais e mais a libertação.

Moduan Matus é experimentalista em poética, escritor e historiador. Autor de As margaridas estão cada vez mais raras e História de Nova Iguaçu: recortes de uma cronologia ilustrada de 510 anos.

9. Juliana Daglio

Ser escritor no Brasil, antes de tudo, é um desafio. Não temos formação para isso em nossa educação, nem somos muito incentivados à leitura ou a escrita. Escrever é desafiar esse sistema. Procurar recursos para construir uma carreira, para aprender o ofício, divulgar, subindo degrau por degrau para chegar à realização desse sonho. E entender que não estamos sozinhos, que há muita gente que também está subindo esses degraus e que, juntos, podemos mudar o cenário para a melhor.

Juliana Daglio é autora de Uma Canção para a Libélula e seu livro de terror Lacrymosa será publicado pela Bertrand Brasil.

Gostaria de fazer alguma pergunta para nossos escritores de julho? Te aguardamos nos comentários =)

Hanny Saraiva

Rebeca Cavalcanti, blogueira literária, diagramadora e designer

Entrevista #2: Rebeca Cavalcanti, blogueira literária, diagramadora e designer

Uma época de cadernos de anotações e poesias. O gosto pela escrita surgiu dessa época, mas foi só com os blogs que Rebeca Cavalcanti começou a considerar a escrita sobre literatura uma interface para compartilhar opiniões, criar debates e estabelecer uma rede de contatos entre autores, leitores e blogueiros com motivações literárias afins.
A diagramadora, designer e fundadora do blog Papel Papel nos mostrou como a literatura está presente além dos livros e como a voz subjetiva das redes sociais literárias se espalha e se consolida.

– Qual o segredo para o Papel Papel ter tantos seguidores?

Em 2018, o Blog Papel Papel comemora três anos e acredito que nosso crescimento tenha se dado principalmente por conta das relações de amizade construídas através da página. Afinal, se não fosse o apoio e parceria de inúmeros autores e blogueiros, dificilmente conseguiríamos resistir a esse período inicial onde tateávamos formatos de postagem, conteúdo e demais estratégias de participação nas redes.
Hoje, o Papel Papel é formado por cinco colunistas (Regiane Medeiros, Mich Fraga, Jonatas Tosta, Bruno Fraga e eu) e conta com a publicação de resenhas de diversos parceiros literários. Nossa maior atuação hoje tem sido no Instagram, por ser uma plataforma ágil e que atende nossa dinâmica de postagens. O formato Blog permanece e temos sim interesse em realizar um calendário ainda maior de posts. No entanto, como esta atividade literária permanece paralela à rotina diária de trabalho e estudo de nossos integrantes, ainda não dispomos de tempo nem parcerias remuneradas para uma dedicação total ao projeto Papel Papel. Mas temos a esperança de que com o tempo esta vontade se concretize.

– Qual blog literário você indicaria para os leitores da Poeme-se?

Gosto muito do trabalho da Rafaela, do Undone Thoughts, pelo diferencial de compartilhar indicações de livros ainda não traduzidos no Brasil. A Maria, do Impressões de Maria também é uma das blogueiras que admiro, e o diferencial de seu trabalho é o foco na divulgação de autores nacionais e, principalmente, Literatura Negra. Para leitores mais jovens, ou jovens de todas as idades que tenham interesse por uma escrita mais intimista, em tom de diário, recomendo o trabalho da Luana, do Memorialices. Além de reflexões cotidianas, a Lu também compartilha resenhas, especialmente de títulos de Literatura Fantástica. Aos leitores mais acadêmicos, recomendo a Revista 7faces, editada pelos críticos Cesar Kiraly e Pedro Fernandes.

– Qual foi a mensagem mais inusitada que o Papel Papel já recebeu?

No inbox do Instagram acontece bastante, principalmente em caps lock, zero pontuação e direto ao ponto: “OI SOU AUTOR FAZ RESENHA TE DIVULGO NO FACE ABÇ”. Não sei nem o que comentar…

– Por que blogs podem fazer a diferença no mundo literário?  

Costumo dizer que o papel de um blog (bom, pelo menos o nosso papel, em nossa concepção de blog) é o de se apresentar como uma conversa entre amigos. Daí nossa decisão por uma escrita mais informal (e que nos difere de inúmeras páginas “especializadas”, acadêmicas) e que possibilite uma maior proximidade entre o leitor e o articulista. Afinal, acreditamos que a experiência da leitura e o incentivo à interpretação e à escrita devam ser os principais objetivos de plataformas como a nossa, e é por este caminho que pretendemos seguir no Papel Papel.

– Como foi a experiência do Papel Papel em participar do clube do livro Da Vinci? Vocês pensam em montar algum outro clube do livro?

O Clube do Livro em parceria com a Da Vinci surgiu de forma experimental e independente, sem vínculos específicos com editoras e demais apoiadores. Por ter sido uma primeira iniciativa (tanto por parte da Livraria como nossa, enquanto mediadores de eventos literários), os encontros foram uma espécie de laboratório para novos projetos. No caso, este formato Clube do Livro teve a duração de um semestre, em 2017, mas a Livraria mantém até hoje um calendário bem diversificado de atividades (palestras, lançamentos, cursos) que vale a pena conhecer. Em relação ao nosso grupo de mediadores, estamos todos em um período de trabalho e estudos um tanto intenso, daí ser preciso essa pausa. Mas, havendo novas propostas de parceria (seja com editoras, autores, livrarias…) que se alinhem com nosso projeto e perfil literário, podemos considerar um retorno sim!

– Em relação ao seu trabalho como diagramadora: como costuma ser um dia típico de trabalho para você? 

O trabalho com diagramação é ainda muito recente, embora eu atue há alguns bons anos com design gráfico em uma empresa privada do setor da educação e da cultural. Neste ambiente, tenho sim uma rotina semanal de criação de peças gráficas, inclusive pequenas publicações; em paralelo, realizo a manutenção do Blog Papel Papel (tanto seu template como demais artes para redes sociais) e participo da criação de projetos literários (ebooks) com minhas amigas autoras e blogueiras. Gosto muito de atuar neste segmento da criação gráfica e espero cada vez mais estar envolvida com o mercado e o mundo editorial.

– Qual foi o trabalho mais peculiar que você pegou?

Ainda não passei por situações assim “peculiares”, mas creio que para o designer e o diagramador o desafio surja quando o contratante tem no orçamento um valor sujeito a cortes e, em sua mente, um projeto de publicação que demandará um fornecedor gráfico especializado – e, consequentemente, um custo imprevisto. É difícil não desapontar o cliente quando precisamos dizer que dobras, vernizes, todas-as-páginas-com-ilustrações-em-cores e demais acabamentos não saem “baratinho”, risos. No mais, minha experiência no campo do design tem sido bem proveitosa. E que continue assim, por muito tempo!

– Como podemos conhecer mais seu trabalho como diagramadora?

Relacionados ao Blog Papel Papel estão a publicação independente e de distribuição gratuita de dois ebooks contendo crônicas de jovens autoras e blogueiras de nosso convívio. O primeiro trabalho chama-se Amor em Cartas e foi lançado no dia dos namorados de 2017; o segundo, Crônicas de um Recomeço, foi ao ar nesta virada de 2018. Ambos os livros podem ser baixados gratuitamente em nosso blog.

– Você já passou por alguma situação pontual por ser mulher e trabalhar como diagramadora?

Não, nunca passei por situações constrangedoras em meu ambiente de trabalho, tanto o formal como o freelancer. Aliás, a atuação como microempreendedora individual, em minha opinião, é a que ocasionalmente me expõe a situações de embaraço, especialmente no que diz respeito a negociação de prazos e valores de serviços. No caso, por atuar no segmento da cultura (falo de minha experiência, não desejo generalizar), o trabalho de designer é ainda visto como algo “de menor valor”, especialmente se o contratante é um produtor criativo. É claro que os custos de se produzir um objeto artístico ou uma obra literária podem chegar a faturas astronômicas; ainda assim, há que se valorizar o trabalho de todos os agentes desta cadeia de serviços, e entender que uma relação que se baseia no “ah, faz meu livro que eu divulgo seu trabalho no Instagram” é nada ética, e dificilmente trará boa fama e resultados.

 

“Elas inauguram linhagens, fundam reinos e são fantásticas com a caneta na mão.” Só viemos relembrar que representatividade importa, viu? =D

 


Conhece alguma mana que está abrindo caminhos por aí? Conta pra gente nos comentários, adoraríamos conhecê-la.


 Hanny Saraiva

 

 

 

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Mulheres na literatura #1 Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome”

Uma autora brasileira ficou em primeiro lugar no ranking de livros de suspense sobrenatural na Amazon? Sim, é verdade! A moça ultrapassou – na semana de lançamento de seu ebook – nada mais nada menos que Stephen King e desde que seu livro foi lançado vive voltando para o top 5. Talento e sorte? Não, talento e determinação. Glau Kemp, autora de “Quando o mal tem um nome” nos deu uma pequena palha de como é ser uma escritora nacional, dicas muito bacanas sobre outras escritoras e curiosidades sobre sua jornada.

A paixão pela escrita surgiu quando ela ainda estava estudando e queria cursar Medicina Veterinária. Para se distrair e sair um pouco da pressão dos estudos técnicos, ela escrevia. E começou a escrever tanto que entrou para o curso, largou a faculdade e hoje se dedica integralmente à arte da escrita. Quando decidiu abraçar a carreira de escritora, a moça foi em eventos para autores e editoras para descobrir como é que se trilhava o caminho. Cursos, perguntas, um contrato com a agência Increasy e muitas horas de treino para aprimorar suas técnicas até surgir “Quando o mal tem um nome”, uma história que acontece na Aparecida dos anos 70, uma cidade erguida no centro de um milagre e entrelaçada com a vida de Marta e sua filha Clara. Dentro desta terra de fé, a “malignidade cresce no coração de uma mãe devota. As orações que a padroeira não atende são feitas agora para anjos caídos. Um demônio atende a prece da mãe e a abominação despertada é tão grande que todos vão pagar pelo seu pecado. O mal só precisava que alguém o chamasse pelo nome e agora está entre nós.” Preparado para entender um pouco mais sobre o que se passa na mente de Glau Kemp?

1.Como foi chegar ao primeiro lugar na Amazon?

Assim que “Quando o mal tem um nome” foi lançado eu tava muito “Cara, esse livro tem que acontecer”. Meu livro é uma mistura de dois livros “Carrie, a estranha” e “O bebê de Rosemary”, aí minha tática foi “Vou lá no Skoob ver quem leu esse livro e  gostou e vou mandar pelo menos 10 mensagens por dia e falar com essas pessoas sobre meu livro. Fiz isso uns 20 dias, mais ou menos 200 pessoas. Pensei: “Se pelo menos 10% disso for ler e comentar na Amazon já tô feita.” Bastante gente foi lá e respondeu e foi isso que colocou o livro em evidência logo no lançamento.

2.Por que escrever literatura de terror/suspense? O que te encanta?

Acho que terror, em especial, não precisa explicar muito as coisas: se você tem poderes, você tem poderes. Eu acho mais fácil fazer a pessoa sentir medo do que ser engraçada. É mais fácil provocar medo. É um lugar comum para mim porque já tive muitas experiências. O terror me deixa mais confortável.

3.O gênero terror pode ser considerado uma literatura de resistência?

Pode ser. Talvez tenham escritores que sejam assim. Mas eu só escrevo para contar uma história.

4.No início desse ano nasceu a Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst), quais suas expectativas em relação à associação?

Vai ser muito importante porque será um grande meio de comunicação, com blogs sérios, maiores, outras mídias, referências para outros escritores, organização de eventos. Uma forma de ter acesso a outros profissionais, importante para essa união.
Estávamos muito soltos e achávamos que éramos menores. A associação te dá essa oportunidade de estar ligado ao que está acontecendo.

5.O que mudou na sua vida depois que escreveu “Quando o mal tem um nome”?

Eu me sinto com mais medo. Eu era mais corajosa. Não medo de coisas sobrenaturais, mas medo de coisas mais reais. Por exemplo, eu sempre fiquei muito tempo sozinha em casa, mas hoje eu tenho mais medo de ficar sozinha em casa. Minha audição aumentou e fiquei mais atenta às coisas que me rodeiam.

6.Que tipo de livro de escrita criativa você considera um ótimo caminho para quem está começando?

Olha, tem um livro bem curtinho do Felipe Colbert, escritor também, e editor da Novo Conceito: “Escreva seu livro agora!” Ele é bem direto, dá a formulazinha de como fazer uma escaleta igual se faz em um roteiro, separando tudo. Eu não sou uma pessoa organizada, não consigo trabalhar assim. Mas as dicas que ele dá são certeiras. A maioria desses livros sobre escrita são de autores de língua inglesa que já dominam a técnica, que vêm da escola já sabendo escrever profissionalmente, já o Felipe dá as dicas para quem escreve em português. Normalmente eu pego também dicas de livros com novos escritores. O último que eu li foi o da própria Cláudia Lemes “Santa Adrenalina”, lançado pela editora Lendary, um manual de como escrever um thriller, dá dicas bem diretas, livro bem fininho.

7.Qual a maior dificuldade em escrever e divulgar esse gênero sendo mulher?

Acho que a maior dificuldade é na hora que você está nos eventos: você vai divulgar seu trabalho e sua aparência é muito mais importante do que seu trabalho. Se eu for postar uma foto com o livro as pessoas vão falar de mim. Eu entendo que são elogios e recebo de coração aberto, é claro, mas é sempre “Linda”, “Você é uma fofa”. Não estão falando sobre o livro, eu estou falando sobre o livro, mas as pessoas estão falando sobre mim. Uma das coisas que mais me fez colocar o livro na Amazon foi isso: as pessoas me conheciam, mas não conheciam o que eu escrevo. Então eu falei: “Cara, eu preciso colocar um livro para as pessoas lerem, porque elas estão falando sobre mim.” O escritor é um tipo de artista que não quer aparecer, eu não quero aparecer, eu quero que meu livro apareça, quero que as pessoas comentem sobre o livro. É impressionante: eu vou num evento e as pessoas vão comentar sobre minha roupa. Sei que é uma forma de carinho dos leitores se interessar sobre outras coisas do meu universo, mas como quero ser uma escritora profissional eu preciso que eles se interessem pelo livro em primeiro lugar. E sendo mulher isso é muito difícil. A primeira coisa que eles percebem é você como figura. E não é só comigo que isso acontece, mas com todas as escritoras. É um desafio que vai continuar para sempre.

8.O que podemos fazer para que mais pessoas possam ler mulheres?

Divulgar. Eu acho que é um pouco também missão de quem já tá aí um tempinho. É você dar oportunidade de ir lá e falar quando gosta, às vezes você não tem noção do poder que tem em atingir pessoas. Às vezes fazendo um comentário, uma foto, você pode dar 50 leitores para aquela escritora. Tenho como preceito falar sobre autoras que li. Acho que faz parte. Você deve isso. Porque alguém já fez isso por você. Acho que todo tipo de ajuda é bem-vinda.

9.Como estamos falando de mulheres na literatura, quem você destacaria nesse universo?

A primeira mulher que vem à minha mente é a Karen Alvarez. Quando decidi escrever um livro de terror eu entrei na Amazon e pensei “Quem é que tá fazendo sucesso?” A primeira pessoa que apareceu foi ela,  que produziu bastante coisa de terror. Tem outras escritoras que admiro muito como a Claudia Lemes, li recentemente “Cartas no corredor da morte”, que é um livro que fiquei embasbacada,  fiquei assim: “Como esse livro não é conhecido?” Tem também a Juliana Dagle, além de ser muito talentosa, ela produz em velocidade inacreditável, boas histórias, livros densos e em pouco tempo. Tem muita mulher trabalhando para o lado do suspense, terror. Acho que 2018 vem muita coisa boa aí.

10.Se você pudesse ser um livro, qual seria?

Eu seria um livro que tá na moda agora, eu seria IT – a coisa, que é um livro grande e foi meu concorrente direto durante um bom tempo, pelo menos nesse início de lançamento, porque sucesso é muito passageiro. IT – a coisa é um dos livros preferidos, é uma história tão completa e complexa, fico imaginando o que estava passando na cabeça de Stephen King quando estava escrevendo. Talvez seja um clássico daqui a algumas décadas, sempre vai dividir opiniões. Eu gosto dos detalhes nesse livro, nos outros não.

11.Qual sua maior referência literária? Se pudesse um dia sentar com essa pessoa numa noite sombria, o que perguntaria?

Eu demorei muito tempo para ler Frankenstein de Mary Shelley. Ele é muito atual e fico pensando como foi para essa mulher escrever esse livro naquela época. Eu perguntaria se o livro mudou a vida dela de alguma forma, a forma como ela pensa, sabe? Porque em todo livro que eu escrevo, sinto que aconteceu alguma coisa diferente comigo quando ele termina.

12.Como costuma ser um dia típico de trabalho – como escritora – para você?

Eu escrevo diariamente e mensalmente escrevo muitos contos. Acordo umas 8h, tomo café, assisto jornal, vou para redes sociais, checo meu livro, se tem comentário novo, é um vício. 9h já tô escrevendo, se estiver muito intenso vou embora, às vezes nem almoço. Não sou uma pessoa organizada, mas eu tenho esse sonho de ser uma pessoa organizada, ter um horário certinho.

 

Apesar de trilhar seu caminho pelo terror, Glau Kemp está trabalhando em uma nova obra voltada para o público de chick lit: “O clube dos amigos imaginários”. Guarda esse nome. Mulheres na literatura que adoram desafios, quem não curte?

Para conhecer mais sobre o livro de terror da autora é só clicar aqui.

Hanny Saraiva

8 Instagrams literários que amamos

8 Instagrams literários que amamos

Imagens e literatura? Sim e sim! \o/Muito além de capturar e compartilhar momentos do mundo, testemunhamos a cada novo dia que os meandros da literatura contemporânea se reinventam. Pensando nessas descobertas, gostaríamos de dividir com você 8 Instagrams literários que amamos e que vale muito a pena seguir (além do nosso, é claro), não só pela beleza das imagens, mas pela força da ideia de cada perfil.

Papel Papel

A imagem mostra o Head do instagran do Blog Papel Papel, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

“Criado em julho de 2015, o Blog Papel Papel surgiu como um espaço literário de prosa informal e reflexões cotidianas, uma conversa entre amigos.” Perfeito para leitores de clássicos, best sellers, HQs e folhetins. A versão para o Instagram ganhou força e hoje conta com mais de 12 mil seguidores. A equipe divulga lançamentos e eventos literários (principalmente no Rio de Janeiro), além de resenhas e situações com livros.

Jornal Rascunho

A imagem mostra o Head do instagran do Jornal Rascunho, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

Um dos últimos cadernos literários, funcionando desde os anos 2000, o perfil do Jornal Rascunho é tão cuidadoso quanto o próprio jornal. Livros em situações ambientes, – em locais internos e externos – fragmentos do jornal, indicações de livros e figuras célebres do meio literário fazem parte de seu dia a dia.

Literatura policial

A literatura de nicho tem ganhado destaque em cenário brasileiro e em especial a linha policial/mistério tem se sobressaído em nossas terrinhas. O perfil do blog nos traz imagens que nos remetem a ambientações de livros de crime, suspense e mistério, além de trazer dicas quentes desse gênero e novidades literárias, tanto no Brasil quanto no mundo.

Serendipity

A imagem mostra o Head do instagran da Melina Souza, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

O instagram de Melina Souza é fruto de seu blog Serendipity, que a princípio abordava sua visão fofa de menina que tinha muitos sonhos e que adorava frio de Curitiba, uma paixão por livros e que possuía muitas fotos poéticas.  Hoje, seu Instagram não é apenas literário, focando também em viagens pessoais e novos hobbies, mas suas resenhas e fotos com livros continuam adoráveis.

Our shared shelf

A imagem mostra o Head do instagran Our Shared Shelf, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

Este é um instagram de um clube de livro feminista, com o objetivo de compartilhar e aprender mais sobre igualdade de gênero, criado e organizado pela atriz Emma Watson. A cada mês um livro é selecionado, lido e discutido e esse perfil mostra fotos de leitores com o livro do mês em seus lares, trechos sublinhados e todo um movimento que preza por essa leitura de gênero. Qualquer pessoa pode participar.

Drop and give me nerdy

A imagem mostra o Head do instagran Drop and give me nerdy, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

Instagram literário feito por uma mãe nerd, com imagens descontraídas de seu dia a dia e de sua filha, imersa em fotos com livros, desde sempre influenciada pelo universo literário.  Quem é fangirl e Potterhead vai amar.

Subway book review

A imagem mostra o Head do instagran Subway Book Review, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

Pequenas resenhas feitas por estranhos em metrôs e trens de Nova Iorque, Londres e México. Esse perfil poderia instigar um movimento no Brasil assim também, né? Otimize seu tempo e leia mais em transporte, dependendo do seu trajeto você pode ter certeza que sua meta de leitura triplica.

Grifei num livro

A imagem mostra o Head do instagran Grifei num livro, o numero de inscritos, seguidores e a bio.

 

Sabe aquela pessoa que odeia que alguém escreva em livros? Se você é essa pessoa, não chegue perto desse perfil. Mas se você é aquele leitor que ama sublinhar e fazer anotações em seus pequenos companheiros literários, vai amar Grifei num livro. Aqui o que importa é aquela frase que te comoveu, que mudou seu mundo, que fica tão forte dentro da alma que você precisa destacar e compartilhar com todo mundo.

 

 

Mas se você acha que, independente do que façam com o livro, livro é vida, vai amar nossa camiseta literária da Lygia Bojunga

 


Tem alguma dica de Instagram pra gente? Adoraríamos ler seu comentário! =)


Hanny Saraiva