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Entrevista com Camila Cabete – do universo digital às colunas do PublishNews

Entrevista com Camila Cabete – do universo digital às colunas do PublishNews

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Buscando apresentar a dinâmica desse mundo literário, entrevistamos a colunista Camila Cabete, essa moça antenada e plugada que se destaca no mundo digital e editorial. Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo e colunista da PublishNews, ela vive pertinho do mar com dois gatos pretos, Lilica e Bilbo, e está sempre super conectada com as tendências do mundo do livro.

1.Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória no mercado editorial? O que você acha que melhorou e que deveria melhorar mais nesse mundo de livros?

Minha trajetória não é nova, afinal tenho 39 aninhos, né? Comecei a trabalhar no mercado de livros como revisora, sou formada em História. Dava aulas e amava, mas enchia o saco de um amigo meu, que trabalhava em editora, pra me mandar revisão. Queria muito trabalhar na área. Quando teve oportunidade, ele me indicou para uma editora, como assistente e comecei minha vida no meio de livros técnicos. Em 2009 surgiu o livro digital como pauta no mundo, fiquei fissurada no assunto e acabei sendo uma das primeiras editoras no Brasil a trabalhar com isso. Juntei meu hobby, que era tecnologia, com minha profissão e ofício. Daí fui convidada a entrar numa empresa 100% digital, que era livraria e distribuidora… Desde 2010 sou profissional do livro digital. Em 2012 entrei na Kobo, e é onde estou desde então.

2.Sendo uma das pioneiras do livro digital no Brasil, como foi adentrar nesse universo sendo mulher? Houve alguma peculiaridade?

Ser mulher é sempre uma questão. No meio do mundo digital também. Minha entrada na tecnologia foi muito tranquila, pois comecei numa startup, com muitos homens na parte robótica da coisa. Fiz grandes amigos, mas derrubei muitas barreiras também. Começando pelo salário, depois na convivência e por aí vai. Nas editoras vemos a maioria de mulheres na produção, mas na gerência e direção somente homens. E esta é realidade até hoje. Ainda sinto um desafio grande ao ter que lidar com alguns donos de editoras, que na negociação ainda não se acostumaram a falar com uma mulher. Muitos acham que não tenho autoridade bastante para isso. Vou te falar: ser mulher ainda será uma questão por muitos anos. Mas sigo feliz.

3.Você precisou brigar para conquistar espaços? Que situação você passou que gostaria que ninguém passasse?

Briguei sim. Quando você se destaca de alguma forma, você incomoda, perde amigos, sofre bullying… Na editora que trabalhei chegaram a me gravar trabalhando para mostrar ao meu chefe como eu ficava o tempo todo no computador… Hahahaha… juro! Sendo que meu trabalho era controlar projetos de livros… logo… Enfim, muita coisa ruim. Ouvia que tinha sido promovida porque dava pro chefe também, mas isso é um clássico, nem causa mais espanto. Me nego a deixar outras mulheres passarem o mesmo que eu. Sou sempre ativa nestas coisas e me coloco de forma bem clara em relação ao feminismo. É uma questão de sobrevivência o empoderamento das outras mulheres, no meu ponto de vista.

4.Você tem quinze anos de estrada no mercado editorial, né? Qual sua opinião sobre políticas públicas e leitura? Quais seriam as políticas públicas ideais para construirmos um país de mais leitores?

Tenho muito tempo de mercado, mas zero de experiências em políticas públicas, PNLD etc. Acho surreal uma empresa privada sobreviver de uma compra anual governamental. Acho que não é sustentável e não vai muito longe este modelo. Sobre incentivo a leitura na educação, acho tudo errado, ultrapassado e burocrático demais para ver luz no fim do túnel. Nossas políticas não acompanham as inovações tecnológicas, o que nos deixa de pés e mãos atados. Estou numa fase meio anárquica, e ando acreditando nas pequenas revoluções diárias e pessoais. Não vejo qualquer iniciativa que me deixe otimista quanto ao futuro da leitura no Brasil.

5.Temos visto um movimento de bibliotecas comunitárias integradas e articuladas no Brasil, como A Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, que ações – que não dependam do governo – podem ser pensadas para que mais pessoas possam ter acesso a livros digitais?

É muito louco saber que a quantidade de smartphone por pessoa no Brasil é uma das maiores do mundo. Quando percebermos que dentro do smartphone temos livrarias 24 horas, todos os dias da semana abertas; e trabalharmos curadoria, com educadores e membros das próprias comunidades, aí sim, faremos algo grandioso. Falo de coisas que custariam muito menos e alcançariam muito mais. Mas infelizmente, no Brasil, algo que custa menos não agrada nem atrai o interesse de governantes.

6.Como é o dia a dia de uma Publisher Relations manager?

Cuido do conteúdo da Kobo junto ao mercado brasileiro. Trabalho de casa, de Camboinhas, uma região há 40 minutos do Rio. Tenho uma baita conexão com a internet e vários backups, caso algo dê errado. Cuido do relacionamento com as editoras, dos pagamentos junto ao nosso financeiro. De operações com nosso operacional… todo o meu apoio e suporte fica em Toronto. Tudo o que as editoras do Brasil precisam, eu intermedio e cuido. Faço videochamadas com nossa equipe, que está situada em mais de 5 países, para sabermos o que se passa no mundo do livros, em todos os territórios. Viajo muito a SP, onde me reúno também com nossa parceira, Livraria Cultura. Cuido também de uma parte da divulgação e redes sociais, além de nossa plataforma KWL para autopublicação. Uma vida calma e agitada digitalmente. Acaba que tenho uma rotina como todo mundo: hora pra acordar, almoçar e fechar o laptop. Só que da minha casa, com meus gatos <3

7.Como o livro digital poderia ajudar profissionais do livro como tradutores e revisores?

Se os editores editassem mais coisas voltadas para o digital, talvez pudessem investir mais no processo de edição e se preocupar menos com a distribuição, impressão etc. Nesse caso, os serviços editoriais seriam o fundamental da empresa.

8.Além de trabalhar na Kobo, você é colunista da PublishNews, você acredita que colunistas podem fazer diferença no mundo literário? Houve alguma situação que te deixou com o olho brilhando por lá?

Ser colunista da Publishnews é uma das coisas que mais me orgulho em minha carreira. Foi lá que pude ter meu trabalho reconhecido. Que pude falar e reclamar das coisas que não faziam/fazem sentido no mercado. Tenho um carinho enorme e sigo como colunista até que eles não me queiram mais. Tudo nesta empresa me faz os olhos brilharem: a liberdade que temos para escrever é raridade no mundo.

9.Nós, da Poeme-se, acreditamos no movimento “mais mulheres na literatura”. Como uma apaixonada por literatura, o que você recomendaria para os leitores e leitoras de nosso blog? Qual autora você acredita que deveria ganhar mais destaque no mercado editorial atual?

Eu também acredito nisso e tenho lido mais mulheres desde então. Descobri ano passado Elena Ferrante com a tetralogia Napolitana. Surtei de tão bom que achei. No Brasil amo as obras da Aline Valek que escreve ficção científica e Socorro Acioli que escreve realidade fantástica <3

10.Se você pudesse sentar um dia com um autor/autora (de qualquer época e lugar) e tomar um café, quem você escolheria? Por quê?

Clarice Lispector, sem dúvida. Ela é a mulher que eu adoraria conhecer e ouvir. Principalmente sobre a visão de mundo que ela tinha. As obras dela marcaram muito a minha vida. A cada vez que releio algo, é outra forma de entender o que ela dizia… é louco e lindo.

 


Camila é uma das moças que acredita que representatividade importa sim: por mais mulheres na literatura! E você, conhece alguma mulher porreta que está desbravando os mares da literatura? Conta pra gente nos comentários.


 

Hanny Saraiva