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Resenha literária com Guarnier: Greta Garbo

O Moralismo Que Salvou A Greta Garbo de Fernando Melo

Greta

    Em 2004, eu estava no início da minha carreira no Teatro e fui convidado pelo ator e lenda do Teatro de Revista no Brasil, Luiz Valentim, a interpretar Renato, um jovem rapaz que saído de Campos, desembarca no Rio de Janeiro para conhecer Mary, uma prostituta cleptomaníaca da Cinelândia e Pedro, enfermeiro, gay, morador de Irajá e fã da grande estrela Greta Garbo. O nome do texto? Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá, de Fernando Melo. Assim como Renato, eu também ainda engatinhava na malandragem dos palcos e fazer um “personagem escada” daqueles, parecia tarefa muitíssimo difícil para mim, de fato foi, mas consegui me virar por três anos. Na mesma época eu também cursava a faculdade de Letras e assim que chegou a temida escolha do tema para a monografia, eu pensei em quem? Em Greta Garbo, lógico! Queria enquadrá-la no período literário da Literatura Brasileira Contemporânea, por se encaixar em vários aspectos além da época em que foi escrita, pois falava de um gigolô viciado, uma prostituta ladra e um gay que trabalhava num hospital e sustentava o vício de seu marido na base dos calmantes que roubava no emprego. Era um tema perfeito para mim, então comecei minhas investigações.

    No início dos anos setenta, época em que Greta Garbo, Quem Diria Acabou No Irajá foi escrito, o Brasil vivia um dos piores períodos de sua história, uma ditadura sufocante e sangrenta que censurava e prendia artistas à mínima suspeita de subversão contra o Regime, pois ainda estávamos sob o chicote do Ato Institucional nº 5, a Luta Armada era a forma que as organizações tinham para libertarem os presos políticos, os meios de comunicação eram completamente manipulados – isso mudou pouco – e tinha que se tomar bastante cuidado com o que se falava, enfim, diante disso tudo, fui eu procurar registros de censura ao texto de Fernando Melo. Vasculhei tudo onde podia e, incrivelmente não achei nenhum. “Mas como isso é possível?”, perguntava eu à minha orientadora, Professora de Literatura Brasileira  Márcia Veiga. Ela também, num primeiro momento não entendeu muito bem, pois além de não haver censura sobre o texto, ele ainda foi montado e estreou no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro em 3 de julho de 1973, primeiramente com Nestor Montemar como Pedro, Mário Gomes como Renato e Arlete Sales como Mary, com direção de Léo Jusi e em 19 de março de 1974 no Teatro Itália, em São Paulo, com Raul Cortez interpretando Pedro, Nuno Leal Maia como Renato e Pepita Rodrigues como Mary com a mesma direção de Léo Jusi.
Depois de muito pensar e eu sem conseguir nenhum registro de censura sofrida pelo texto, passei a suspeitar justamente do elenco, pois eram figuras já conhecidas do meio artístico da época e não envolvidas com os artistas de esquerda, aqueles que frequentavam as manifestações, faziam músicas de protestos, eram perseguidos… Passei a achar que o elenco, justamente por transparecer apoio ao regime militar, tinha conseguido livrar o texto da censura, mas depois vi que isso seria improvável e abandonei a ideia. Retomei as leituras de Greta, mas agora não como ator, como investigador e lia e relia. Caramba, tem um momento no terceiro ato em que Renato, muito chapado, diz para Pedro tomar cuidado ao abrir a porta, pois a repressão entrava atirando, nem isso foi cortado, nada foi cortado. Isso me afligia demais e já queria saber quais ligações que Fernando Melo tinha com a Ditadura. Só tendo muita costas quentes para evitar uma censura sob a aba do quepe do AI-5.

O Moralismo e a Moral da História

    Na ditadura havia duas formas de se escapar da censura, a primeira era ser metafórico nível: “PAI, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE!” ou seja, desdobrando substantivos escritos em verbos escutados como Chico fez: Cálice = Cale-se. Logo seria “Pai, afasta de mim este cale-se!” ou sendo um reprodutor da moral e dos bons costumes naquilo que se escrevia, falava, cantava… e Fernando Melo se utilizou da segunda opção. Para demonstrar o que estou tentando dizer, vou ter que contar o final dessa estória, que também poderia ser escrita com “h”, não se chateiem comigo, por favor!

    Ao final de Greta Garbo, Quem Diria Acabou no Irajá, Após Mary aparecer na casa de Pedro atrás de Renato e fazer um puta dramalhão dizendo que tem um cara da Polícia trás dela, pois a mesma roubou a carteira de um meganha depois de um programa, a menina recebe um estrondoso esculacho de Pedro que a enxota do seu cafofo mesmo após ela dizer que vai se matar. Um barraco só! Assim que a prostituta sai pela porta, Renato, ainda muito doidão, diz que vai voltar para Campos abandonando Pedro que fica arrasada. Então o rapaz pega suas coisas, sai e deixa o velho sozinho fechando o texto com um jargão dramático repetido ao final de todos os três atos:

“Será que Greta Garbo teve uma vida tão desgraçada quanto a minha? Se teve, coitada dela, coitadinha!”


Entenderam? Ah, e o porquê de eu estar escrevendo sobre isso onze anos depois? Porque eu desisti de fazer a monografia sobre o texto de Fernando Melo achando que não teria tanto impacto quanto um texto que pudesse ter sido censurado, ou mesmo que tinha uma crítica mais explícita à Ditadura Militar, daí mudei o autor, fui falar de Vianinha que virou meu amigo e ídolo póstumo após eu ler, me emocionar e me deliciar com Rasga Coração. Tem mais um motivo pelo qual escrevo sobre Greta hoje, daqui a uma semana farei uma leitura dramatizada rememorando essa época de muito aprendizado nas “negras esquinas da badalação” que frequentei com todos os personagens escada que interpretei no Teatro de Revista. Hoje eu entendo que Fernando Melo não foi um covarde não deixando que Renato, Pedro e Mary vivessem um ménage a trois regado a whisky barato, pequenos furtos e calmantes, ele foi um astuto autor que não esmurrou a ponta da faca, deixou os três personagens acabarem na merda e assim narrou esplendidamente as vidas dos Pedros, Renatos e Marys da Cinelâncida dos anos setenta.

Estou num momento nostálgico, mas quem vive de Teatro é mesmo assim, vive um passado que não passa mais e que nega dizendo querer distância, anda em círculos eternos, mas em cima do palco, reclama do mesmo cheiro delicioso do mofo, toma umas cagadas de morcegos na cabeça, junta trocados pra cerveja após os ensaios – e antes também. Vida de Teatro é uma deliciosa lamentação, por vezes comemos sardinha e arrotamos o caviar, mas é essa a graça da coisa a gente gosta mesmo é do estrago! Merda para nós!

A quem se interessar pelo texto, pelo espetáculo e quiser assistir um pouquinho, aqui vai um trecho do primeiro ato. Abração e até próxima!

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Poesia

Você Gosta de Poesia?

Poesia

    Eu tenho certeza que todo professor de Literatura, todo poeta, escritor… enfim, todos que trabalham com a poesia ou são entusiastas dela já fizeram esta pergunta já sabendo da resposta. Pois é, o NÃO é quase certo por vários motivos ou desculpas esfarrapadas. Também tenho certeza que diante de tantas negativas, muitos já desenvolveram estratégias para convencer as pessoas de que SIM, elas gostam de poesia, talvez só não saibam disso. Então:

O Que É Poesia?

poesiasubstantivo feminino

  1. 1.
    lit arte de compor ou escrever versos.
  2. 2.
    lit composição em versos (livres e/ou providos de rima), ger. com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens.
  3. 3.
    lit composição poética de pequena extensão.
  4. 4.
    lit arte dos versos característica de um poeta, de um povo, de uma época.
    “p. romântica brasileira”
  5. 5.
    poder criativo; inspiração.
  6. 6.
    o que desperta emoção, enlevo, sentimento de beleza, apreciação estética.
    “a p. de uma pintura” 

Fonte  da pesquisa


    Pois é, conceitos são fáceis de encontrar. Definições acerca do nome. Respostas simples e etc. Tudo isso é necessário para que tenhamos respostas rápidas, porém não serão estas respostas que despertarão o interesse, nem tampouco convencerão pessoas de que elas gostam de poesia. Tenho um companheiro poeta chamado Ni Brisant, inclusive foi tema da nossa segunda coluna aqui no Marginália que compôs um poema curto sobre o que é poesia:

Poesia é o que a gente sente

o resto é Literatura

-Ni Brisant


Quem lê, ou escreve poesia sabe a verdade tamanha que este poema carrega dentro de si.

-Mas, Guarnier, a Poesia não é Literatura?

É sim, respondo eu! Porém, nem toda Literatura é poesia. Vou além, Já li muitos poemas que me tocaram menos que um bilhete carinhoso ou um manifesto de luta. Talvez isso se deva às regras e técnicas impressas naquela composição que, de tão erudita tornou-se estéril sentimentalmente. Portanto, numa definição bem pessoal, poesia na minha visão é sentimento. É transbordo. É o que não cabe mais e que precisa ser exposto. Muito piegas minha opinião? Óbvio que sim! Agora, quem nunca foi piegas que atire o primeiro verso! Não canso de dizer: O professor de Literatura é da sala de aula pra dentro, a céu aberto, eu sou poeta. Mas… continuando, como poeta e professor, adotei uma boa estratégia quando me devolvem: esse negócio de poesia é muito chato! Sempre que ouço isso volto a perguntar, mas de forma diferente:  Você gosta de música? A resposta é sempre sim, pois só uma alma bem deteriorada não gostaria de ouvir música, inclusive, sempre circula um meme na internet com a célebre frase de Niet que diz: Sem a música a vida seria um erro! Sim, caro Friedrich Nietzsche. Então, se alguém gosta de música por conta de sua letra, obviamente gosta de música! Mas…

Letra de Música é Poesia?


“(…) De tanto ouvi-la acabo sempre pensando sobre ela. Se me perguntassem eu diria que não existe nenhuma diferença essencial; letra de música é poesia e poesia é letra de música. Rigorosamente, qualquer poema e mesmo qualquer texto em prosa pode ser colocado numa melodia (…) Mas se pensarmos dentro de critérios mais tradicionais, podemos pensar que existe algum grau de diferença entre poesia e letra de música, não o bastante para colocá-las em categorias distintas(…) Ninguém duvida que um soneto de Shakespeare e um poema concreto de Augusto de Campos sejam ambos poesia, porém cada um exige maneiras diferentes de leitura. (…) Fica claro, portanto, que diferentes categorias de poesia sobrevivem em diferentes suportes, mas nem por isso deixam de ser essencialmente a mesma matéria: poesia; e a letra de música é apenas mais um tipo de poesia cujo suporte é a melodia.”

    Encontrei o texto de onde fiz este recorte num site chamado Obvious, embora o assunto pareça uma obviedade, como sugere o nome do site, tomando as explicações que ele próprio apresenta, nem todos podem achar tão óbvio assim, pois aborda os Sonetos de Shakespeare e a Poesia Concreta de Augusto de Campos, traçando suas diferenças na estrutura e forma de leitura, apesar de ambas serem, essencialmente poesia, porém deixa claro que a estrutura diferente somente exige uma forma de leitura diferente e que, portanto, Poesia Concreta, Soneto, Letra de Música e outras estruturas são sim poesia. Então quem gosta de letra de música, gosta de poesia, porém a forma de absorção é diferente, tornando, agora sim, obviamente, a leitura diferente.
    Pronto! Digamos que você já convenceu alguém de que gosta sim de poesia e aí emendo uma outra pergunta para reflexão: Por que será que precisaríamos de tanto esforço para convencermos alguém de que poesia é uma das coisas essenciais para a vida e que ela está em tudo? Para isso tenho outra teoria e essa responsabiliza a escola e seu currículo engessado para o ensino da Literatura, e quando digo escola e currículo, não limito esta culpa somente às Escolas Públicas, este engessamento pode chegar à Universidade, em muitos casos.

A Didática no Ensino da Literatura

    Na maioria das unidades escolares o ensino da Literatura acompanha o mesmo currículo abordando os Movimentos Literários no Brasil pela ordem cronológica da História Mundial pouco antes de 1500, ou o chamado e superestimado “Ano do Descobrimento”. Então entregam aos alunos as Cartas de Caminha, a chamada Literatura de Viagem que não apresenta poesia neste período e após isso vem uma pedrada atrás da outra com os Sonetos do fantástico Gregório de Matos no Barroco, Gonçalves Dias na primeira fase do Romantismo e sua tentativa de reconstrução da Identidade Nacional com o Indianismo, ali a Canção do Exílio e seus versos melodiosos cantam nossa terra e natureza exuberantes. Na segunda fase conhecemos Álvares de Azevedo e seu pessimismo característico do Mal do Século, período apelidado assim por conta da tuberculose que assolava a época e que matou inclusive o referido autor. A terceira fase trás Castro Alves, caracterizando a poesia do período como Social tendo a temática abolicionista como protagonista. Estes são somente quatro poetas entre dois movimentos literários e seus desdobramentos, que em menos de um ano, são apresentados sem nenhuma prévia preparação. Convenhamos que, para um leitor estudante iniciante na Literatura Brasileira, a poesia apresentada nada tem de prazerosa e sedutora e sim de pesada e rebuscada. Prestem bem atenção, não estou aqui, absolutamente, dizendo que esses autores, bem como seus movimentos não devem ser estudados, mas questiono o modo, a forma e momento em que são apresentados. Por qual motivo questiono? Bem simples e são basicamente dois:
O primeiro é:: Fazemos o caminho inversamente didático, pois primeiro apresentam-se as pedras exacerbadamente rebuscadas e depois apresentam as plumas divertidas e deliciosamente irônicas da poesia brasileira. Por que temos que conhecer Gregório, Gonçalves, Álvarez, Alves, Anjos, Souza, Alphonsus e toda essa riqueza da nossa Literatura, antes de conhecer o Leminski, por exemplo? É como ensinar uma Equação do Segundo Grau, antes de ensinar as quatro operações básicas da Matemática. Não estou aqui minimizando a qualidade da poesia de Leminski, estou salientando seu poder de sedução através da extroversão e leveza. Querem ver na prática? Então vamos lá!
Imaginem-se adentrando à sala de aula e se deparando com o texto abaixo escrito no quadro:

ameixas
ame-as
ou deixe-as

Paulo Leminski
Você riu? Pois é, é bom abrir um sorriso, não é? Há referências Históricas nestas poucas palavras e aquele famigerado bigode só precisou de três versos para isso. Sensacional!
Vejam bem, não defendo aqui uma reviravolta completa da ementa, mas defendo uma melhor preparação para a introdução de autores tão importantes, para que estes não sejam os vilões que desencorajam pessoas a gostarem de poesia por conta da dificuldade de lê-los e entendê-los.
O segundo ponto é o seguinte: Por que a Literatura é posta como uma disciplina, muitas vezes somente utilizada como instrumento para o ensino da Gramática e não como o que verdadeiramente é: uma Arte? Basicamente, a primeira linguagem artística, na maioria das vezes a única, que ensinam na escola é a Literatura e não nos damos conta disso. A Arte narrada e influenciada pela História. O tempo real de cada época. Então há de se pensar e desenvolver estratégias mais eficazes e humanas para o Ensino da Literatura, por consequência, da Poesia, nosso assunto nesta coluna.

Antes Que Eu Me Perca

    Antes que eu extrapole os limites de coerência e coesão do tema e da coluna, vou finalizar com um pedido de reflexão e, se possível, uma resposta de vocês nos comentários. A proposta é refletir sobre como seria diferente a relação de cada um com a poesia, caso essa fosse apresentada como um prazer e não como um dever. Arte é leveza e um convite ao pensar, não uma opção entre certo e errado. Então, se você tem uma estratégia para a difusão da poesia, dentro ou fora da escola, pode mandar que eu quero ler e aprender. E como a gente sempre termina com uns versos, vamos de Leminski! Até a próxima!

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

 

Paulo Leminski

 

 

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Caldo de Cultura

Caldo de cultura

Caldo, Música, Poesia e Outras Delícias: Estação Marginal VI – Caldo de Cultura

 

Desde que chegamos à Baixada Fluminense, já falamos do Sarau RUA e do Sarau do M.E.R.D.A., ambos de Nilópolis e, seguindo a veia que corta nossa BF, vamos pela linha do trem até a cidade vizinha para apresentá-los nossa sexta Estação Marginal, então chega mais porque vem coisa boa. Aí vem um caldo delicioso com ingredientes muito especiais.

 

    O que vocês acham de chegar num sarau onde rola música, Teatro, Poesia, Performance, Debates e ainda por cima saborear um delicioso caldo de graça assistindo a isso tudo? Pois é, este é o Sarau Caldo de Cultura que rola na praça Praça João Luiz do Nascimento, mas conhecida como “Praça da Telemar”, no centro de Mesquita, na estação ferroviária da cidade. Já lancei livro lá, mais precisamente o meu segundo, o Paiol e fui muitíssimo bem recebido, participei de debate e falei do processo de criação. Fui “entrevistado” pelo Ewerson Cláudio, figura icônica na militância artística e política de Mesquita e na Baixada e lembro que recebi um cachê delicioso: Dois litros de um vinho que, àquela altura com o tamanho do carinho que recebi, desceu uma maravilha acompanhado do caldo que é servido no sarau. Fundado em 2014, num ano que considero icônico para a cultura baixadense, pois foi de fato um período em que grande parte dos artistas pararam de migrar para capital e passaram divulgar seus trabalhos na sua região de origem. Durante muitos anos a Baixada exportou artistas para fora dela por não ter espaços onde os mesmos pudessem se apresentar, ganhar um cachê, vender seus cds, livros, passar seus chapéus, venderem seus artesanatos… enfim, a efervescência cultural da Baixada finalmente acontecia na própria Baixada. Um marco, como disse, mas retomando sobre o Caldo, sua primeira edição aconteceu no dia 14 de fevereiro deste belo ano. Rolando sempre na segunda sexta-feira de cada mês desde então.

“O objetivo é possibilitar o intercâmbio de diversas linguagens artísticas e da cultura em geral presente no caldeirão da Baixada Fluminense. A atividade conta com a presença de artistas plásticos, poetas, músicos, autores de livros etc.”

 

Nesta descrição do objetivo do evento, fica clara a vontade de oferecer um espaço onde os artistas possam se conectar com seu público, bem como ampliá-lo.

A Arte e a Praça Públicas

 

“Realizar o evento em praça pública foi proposital para interagir com o público que frequenta o local: jovens, crianças, adultos, a galera que organiza eventos na rampa de skate, hip hop, funk etc., além de vendedores das inúmeras barracas de alimentação (o que já é uma mostra da cultura da região)…”

 

A Praça em que o Caldo acontece é palco em que a vida se mostra de forma espontânea. Imaginem aquelas praças de 1980, em que as pessoas andam de bicicletas duplas, o pipoqueiro tem fila grande, a molecada joga um futebol e a criançada come algodão doce enquanto espera a vez nos brinquedos do parquinho. Os casais circulam e tem um clima de azaração típico da adolescência, mais as barraquinhas de cachorro-quente com super molho verde misterioso num clima bem amistoso e convidativo, pois então, além de tudo isso, numa sexta-feira por mês, ainda tem o Sarau rolando, quadros expostos, fanzines, varais, brechó, música, poesia, Teatro, Dança…

Diversidade e Pluralidade

“A pluralidade é um dos elementos conceituais do Caldo: misturar linguagens, ritmos, estilos, gerações, patrimônio imaterial – a mistura de elementos criando um meio propício, um caldo de cultura, para o surgimento de ideias e ações.”

 

    Neste trecho eu me identifico bastante, pois quando escrevi um projeto sobre o Sarau RUA e estava tratando sobre o que é a Baixada Fluminense, lembro que a denominei como “Um grande caldeirão com tudo dentro” para ilustrar sua diversidade, o Caldo é uma dessas maquetes que os saraus são para a BF: Um caldeirão com tudo dentro!

Quem mexe esse caldo?

“Durante dois anos e meio o Caldo realizou 25 edições na praça e parcerias com a Biblioteca Comunitária Oscar Romero, a Escola de Artes Técnicas Luiz Carlos Ripper e o IFRJ.

 

O Caldo de Cultura é independente e autônomo, fruto da miltância cidadã e coletiva pela resistência cultural na Baixada Fluminense, interagindo com várias iniciativas culturais da região. A equipe organizadora conta com a participação de Ane Alves, Cleia Cunha, Meire Oliveira, Eduardo França, Ewerson Cláudio, Genário de Moura, Hélida Mascarenhas, Irany Miranda e Ivan Machado.”

 

    Essa foi a nossa sexta Estação Marginal e décima coluna aqui no Marginália e também no blog dos nossos parceiros da Poeme-se. Como sempre terminamos com poesia, selecionei duas entre muitas de poetas que presenciei lá no caldo. Até a próxima!

Se por amor… Vago, valso, verso…
Se por amor… Invento, intento, imenso…
Se por amor… Ensaio, estréio, estrelo…
Se for amor… Repagino, respiro, renasço,…
Se for amor… Esbravo, escarno, esvaio…
Se não … nem Sou! A.A

-Ane Alves

Mudas As palavras mudas lhe diziam:
Bora com essa poesia!
Desfaz a cara, engole o choro
O grito calado constrói a mágoa.
Vai pra onde o céu possa alcançar,
E quando ninguém mais te esperar, chegue sorrateira,
Surpreenda a farsa,
Deixe se ir com o poema!
Seu universo lotado de si
Te aguarda pra brincar no seu jardim!

-Ane Alves

 

Enquanto isso…

Enquanto te espero…
Curo antigas feridas
Espanto grilos falantes
Dou faxinas constantes

Enquanto te espero…
Me encaro de frente
Me faço forte
Me dou um Norte

Enquanto te espero…
Percorro teus cantos
Ouço teus cânticos
Vejo teus encantos
Enquanto te espero…
Me guardo
Me trato
Me amo
Me basto!

-Ane Alves

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Trupe do M.E.R.D.A

Trupo do M.E.R.D.A

A Arte do Encontro: V Estação Marginal – Sarau do M.E.R.D.A.

 

    A quinta nossa quinta Estação Marginal fica em no bairro de Olinda, em Nilópolis, porque vamos passar uns bons meses na poderosa BF. Já escrevi na descrição deste blog, entre outras coisas, que esta é uma coluna passional e parcial. Colocar-se a parte para fingir não ter sentimento sobre aquilo que se escreve soa bem “acadêmico-leite com pera” a meu ver e, não escondo a aversão que tenho sobre esse ser. Como vou alimentar meu ideal de transformação social pela Arte, se não enxergar o primordial ingrediente que move essa minha utopia nos movimentos que pesquiso, escrevo e divulgo aqui? Pois bem, então vou falar de poesia, luta e afeto. Pois é isso que sinto quando vou no Sarau do M.E.R.D.A., sigla que significa: “Movimento Em Razão Da Arte” e essa galera toda vem do Teatro, onde desejar “Muita Merda” ao seu colega de trabalho, é o mesmo que lhe dizer: Muito Sucesso! Querem saber o porquê? Vamos à Wikipédia:
” (…) A expressão nasceu da língua francesa, merde, provavelmente no século XIX ou século XX, pelo fato de o público ter acesso à casa teatral por meio de carruagens a cavalos que, muitas vezes, amontoavam fezes em suas entradas; com ironia, a expressão correlacionava o fato de haver “muita merda” na entrada do teatro ao desejo de se ter também “muita sorte” em cena.

 

Entenderam? Ah! E outro dado importante é que “merda” não se agradece, portanto se alguém lhe desejar “merda”, ou “Muita Merda”, deseje de volta, mas não agradeça. Óbvio que numa sociedade puritana e pudica como a nossa, há quem se incomode com a sonoridade do termo, antes mesmo de procurar saber do motivo dele, como indica o relato feito pelo grupo:

 

“(…)É engraçada a reação das pessoas ao nome do evento e do coletivo. Inclusive, sermos impedidos de pronunciar a sigla em eventos ou de usar a camisa do coletivo ocasionalmente acontece.”

 

Dá pra acreditar nisso? Pois é!

 

Como surgiu o Sarau

Trupo do M.E.R.D.A

“O M.E.R.D.A. (Movimento Em Razão Da Arte) nasceu em uma barraquinha de batata frita, logo depois daquela passada de chapéu ao fim de um espetáculo. Quase todos os integrantes da formação inicial estavam presentes. Entre comer, zoar e já compartilhar certa nostalgia porque a temporada estava chegando ao fim, falávamos sobre a possibilidade de dividir o futuro. E concordamos que arriscar seria não só corajoso, mas uma loucura daquelas bem gostosas, que nos fazem acreditar que falar em utopia é um termo usado para esconder a preguiça do que está logo ali. Ignorando as hipérboles do primeiro estágio do sonho, este foi o primeiro passo. Era dia 28 de março de 2015. Daí até o primeiro sarau demorou apenas quatro meses.”

As referências

“Tínhamos como referência o “fazer cultural” que vinha do nosso quintal, e que sabíamos, teríamos que trabalhar muito para chegar perto do que eles haviam construído até então e representam, pois eram e/ou são bons para caralho! (perdão pela expressão, mas não consigo uma definição melhor). À época, os integrantes da trupe(Abigail Cristina, Camila Kasmin, Higor Maxado, Jessica Sodré, Joyce Fernandes, Maiana Santos, Rita Valentim e Yuri Monteiro)moravam todos entre cidades da Baixada e Anchieta. Além disso, quando anunciamos o grupo, fomos convidados pelas produções de saraus e eventos semelhantes para apresentarmos. Assim, percorremos o sarau RUA, o sarau Donana, o sarau de gênero Fulanas de Tal, o Caldo de Cultura, o sarau Jardim Poético. Ir a um evento promovido na rua, em uma ocupação de um aparelho cultural público ou em um espaço independente não era só ir para atender o convite de um amigo ou para levar um número, mas porque cada um, com sua especificidade, cativa, provoca, agita, dá esperança, faz reverberar, chacoalhar. E era a essa inquietação sentida que queríamos dar continuidade. Para somar, para ajudar a construir juntos. Um episódio que recordo é que, assim que surgiu a ideia de montar o sarau, a querida Ivone Landim  nos procurou para conversamos sobre as possibilidades de datas para não coincidir com outros eventos. Pessoas dos diversos coletivos nos orientavam, falavam sobre as dificuldades, alertavam. São pequenos gestos que constroem e que nos fez perceber como a galera da Baixada se abraça e se mobiliza.”
    Importante grifar que, chegando à Baixada Fluminense, no que diz respeito aos saraus e movimentos poéticos, alguns personagens vão se repetir frequentemente nas histórias desses coletivos e suas formações, quem leu a última coluna sobre o Sarau RUA, já identificou o nome da Poeta – chamo poeta mesmo, substantivo de dois gêneros para mim: Ele poeta. Ela poeta – professora, fanzineira e ativista cultural da Baixada Fluminense, Ivone Landim, que ainda terá seu nome citado inúmeras vezes neste canal. sigamos.

 

Os objetivos

Trupo do M.E.R.D.A

 

“(…) Sabíamos que queríamos não só que as pessoas fossem para prestigiar os artistas, mas para se jogarem mesmo. Queríamos debates em forma de bate-papo, sem aquela pressão de estar em um meio acadêmico, mas para que todos contribuíssem com algum conhecimento ou opinião sobre o tema proposto; queríamos aquela sensação de ser criança e brincar junto com a gente, se jogar sem receio de estar pagando um mico; promover encontros, conversas, parcerias; abrir a porta de todos os armários em que a rotineiramente somos trancados, sem qualquer repressão; deixar a galera à vontade para subir ao palco e mostrar a sua arte – principalmente àqueles que não compartilhavam seus talentos por vergonha; oferecer um ambiente acolhedor e de qualidade para quem se dispusesse a doar o seu tempo e o seu trabalho para fazer o sarau acontecer. Queríamos mobilização política e social, representatividade, e, sobretudo, ajudar a Baixada a sair do limbo da região dormitório e berço da violência.”

 

A primeira edição do Sarau do M.E.R.D.A.

 

“A primeira edição lotou. Uma das nossas preocupações era a duração do sarau. Sabemos que, depois de certo horário, se deslocar pela Baixada fica ainda mais complicado, já que não há mais transporte público disponível e, como qualquer outro lugar, a possibilidade de ser assaltado, entre outros perigos, é maior. A previsão era acabar às 23h30. Passamos da 1h da madruga. No final, cansados, felizes e imensamente gratos, limpávamos o galpão e conversávamos sobre cada momento da noite, cada pessoa que havia nos abraçado, incrédulos de que havia sido real. No outro dia, o “boom” na página confirmava. E já perguntavam pelo próximo, que loucura!”

 

O que move o coletivo

 

“Não poderia deixar de ser confessado aqui que, por vezes, muitas vezes, um de cada vez ou todos ao mesmo tempo, cansados, abatidos, esgotados, quase abandonamos o barco, porém, a cada edição, somos contagiados, reenergizados e imersos em carinho. É aquele momento em que alguém está tocando e sobem outros artistas no palco e começam a tocar juntos e uma banda se forma, instantaneamente; o preciso instante em que alguém expressa sua dor em um poema, se declara com uma música; o dia em que uma pessoa resolve finalmente cantar, tirar do bloco de notas do celular os seus escritos; é o curto espaço de tempo de uma roda de conversa que se percebe o quanto os jovens estão empoderados e engajados; o átimo em que você se dá conta que alguém saiu de casa para curtir sem precisar sair da Baixada e que aquela pessoa sente que está aproveitando um sábado à noite. E tudo isso parece ser maximizado em nós que, observando tudo aquilo, ainda parecemos não entender como essa “mágica” acontece. E somos gratos, porque não cabemos em nós com tanto que recebemos. É a pulsação que encontramos em tantos outros movimentos e que tem nos movido até aqui. Em junho, antecipando-nos um pouco, faremos a edição de aniversário de 2 anos do sarau, sentindo que muitos encontros ainda estão por vir.”

 

Alerta de alto grau de ironia e sarcasmo:

    Coisa de desocupado esse negócio de fazer sarau. Vejam só esse monte de jovens, reunidos para tratarem de temas delicados, ouvindo lados de moedas que muitas vezes nem são do seu contexto social, só atingem outros. Fico imaginando quais foram as referências e os meios sociais que foram inseridos para, em vez de estarem em casa, ou estudando, ou trabalhando, ficarem arrumando ideia de promover eventos onde as pessoas se divertem, falam de sua região, desinibem-se e vão até o palco para falarem seus poemas, pegam no microfone para cantarem suas músicas, mostrarem sua Arte. Fico matutando qual motivo leva pessoas promissoras a organizarem encontros onde as demais pessoas podem se abraçar livremente, onde elas se amam sem limites, sorriem sem vergonha. Eu sei que, com esse meu pensamento infestado de opiniões que eu não formulei, mas que adoro reproduzir, jamais vou entender o porquê dessa gente agir assim, então melhor ficar aqui no meu canto, assistir o Jornal Nacional e deixar o Willian Bonner pensar por mim. Bem menos cansativo.
    O Sarau do M.E.R.D.A. rola no Galpão 252 em Olinda – Nilópolis, pertinho da estação ferroviária e como sempre terminamos com poesia, aí vão poemas de alguns dos integrantes da Trupe do M.E.R.D.A. e como sou de Teatro, desejo muita merda pra essa gente linda que venho acompanhando desde que surgiram no imaginário nilopolitano e baixadense. Viva a Arte do Encontro! Vida longa ao M.E.R.D.A.!

Amigo tempo

O tempo é um menino levado
Que está sempre à contra gosto
Passa depressa ao querermos desfrutá-lo
E simplesmente para ao desejarmos que ele se apresse.

Colocam-no como senhor da verdade
Curandeiro de corações
Empecilho de amores
Mas ele é somente o tempo
Que nos dá o ar da graça
Com sua correria ou sua calma.

É engraçado vê-lo fluir
Brincar com seu passar
Aproveitá-lo com um sorriso
E ver como parece não ter fim
Como um amigo com quem
Vivemos a nos divertir.

Ah tempo, é bom sentir o teu início.
Mas é ruim percebermos
O fim de algo por falta de ti
Por isso meu bom amigo tempo
Assim como eu te observo
Observa-me
E avisa-me quando for partir
E deixar-me a sentir a tua falta.

-Maiana Santos

Maiana Santos trupe do merda– Das minhas vontade essa tarde

Me dá um beijo?
Mas tem que ser um daqueles!
Que embaçam meus óculos,…
Me tremem as pernas
E me fazem suar.
Daqueles que alteram a respiração
E fazem você pedir pra eu me acalmar.
Um beijo daqueles, que pelo tempo que dura
Podia ser três, ou cinco, ou mais.
Vem e me dá
Um beijo
E mais.
Eu quero sempre mais.
Mas quem pode me culpar?

-Jéssica Sodré

Jéssica Sodré trupe do merda

 

 

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Sarau Rua

 

   Nas páginas policiais, quem nunca ouviu falar da Baixada Fluminense? Uma periferia estigmatizada por sua histórica violência recorrentemente explorada pelo sensacionalismo jornalístico, tornando-a uma das mais temíveis regiões do estado, a Baixada iniciava seu histórico de violência e depreciação lá no início da colonização, quando era habitada pelos índios tamoios que receberam apoio dos franceses contra a invasão portuguesa, mas que foram derrotados nas aldeias das terras baixadenses, terras que, após isso, foram chamadas pelo padre José de Anchieta de “a nação dos derrotados. Todo esse histórico corroborou, logicamente, para a discriminação dos habitantes daqui, pois aquele que é morador da região sabe, que quando se fala “Moro na Baixada”, quem não a conhece, já lança olhares que denotam expressões como: “ai meu Deus, é bandido!” à “Coitadinho, mora muito mal!”. Como morador, afirmo: a violência e a infra-estrutura não são nem piores e nem melhores do que a da maioria das demais cidades do estado, inclusive de grande parte da capital. Que fique claro e, para que essa coluna não vire um “tratado sobre tudo de ruim na Baixada Fluminense”, falaremos sobre a grande efervescência cultural e artística baixadense.
   Não seria exagero afirmar que a baixada foi habitada por pessoas vindas de muitas partes do mundo, porém, para andar num terreno mais seguro, podemos certificar que aqui tem gente nascida desde o Oiapoque até o Chuí. A bem da verdade, a Baixada é um caldeirão. Sim, um caldeirão com um emaranhado de tudo e todos dentro, e essa mistura de culturas, consequentemente, beneficia a produção das Artes, por exemplo, pois acaba se tornando um processo antropofágico de produção de Arte que nos proporciona variadíssimas e originais manifestações artísticas em todas as suas linguagens existentes. Do Funk à erudição dos concertos clássicos. Do Passinho ao ballet. Dos Sonetos de Camões, aos versos mais rasteiros dos poetas que brotam a cada dia mais afiados nos saraus dos bares, praças e Ruas baixadenses. O início e o fim se encontram aqui. Somos “O coração que bate fora do peito-capital…”. Somos a Baixada Fluminense. Como artista baixadense há 15 anos, sempre a percebi como uma “mola encolhida” em relação ao seu potencial total artístico. Subjugada pela capital e exportadora de seus artistas pouco valorizados aqui dentro, a Baixada conhecia uma pequena parte do que produzia artisticamente, a representação artística ficava limitada às “escolas” de Samba e alguns medalhões regionais que, esporadicamente, ocupavam páginas de jornais, pequenas participações na TV e reality shows. Essa pouca valorização também é uma conseqüência do que se entende e se reconhece por Arte dentre os moradores da BF, pois o “artista” não é posto como um trabalhador comum – especialmente comum – e sim uma celebridade, ou até mesmo divindade, que obrigatoriamente deve aparecer na televisão e tocar no rádio. Às vezes, diante de algumas falas que ouço, penso que a figura do que é ser artista aqui, para a grande maioria, ainda é um quadro do Tarcísio Meira com a Glória Menezes na estante da sala, e um vinil do Roberto Carlos à lá Jhon Travolta num canto, porque o toca discos não funciona mais. Um exagero? Talvez!
   Porém, após as grandes manifestações de 2013, comecei a ter notícias de um sarau em Nova Iguaçu, e até por ignorância eu chamava de “Sarau Cinco”, pois não entendia o porquê do “V” e interpretava como um algarismo romano, posteriormente soube que significava “Viral”. Ainda sim só fui ter contato com o “V” em agosto de 2014 e uma necessidade se instalou: “Nilópolis precisa de um espaço artístico independente.” Eu balbuciava pensamentos e reclamações altas e conversava com Elizabeth Gomes sobre a falta de apoio aos movimentos artísticos, pois nessa edição do Sarau V o tema foi “Ação no Território”, e houve muitas reclamações de coletivos sobre perseguição policial, política e falta de apoio público, então num dado momento, um senhor morador de Rua pediu a vez no microfone aberto e cantou a música “O Menino da Porteira”. Resumo: O cara teve sua casa invadida, sua sala desarrumada e ainda recebeu a todos com o melhor que poderia dar. Ali nasceu o verso lema do Sarau RUA “O Amor que a RUA dá, só quem vive a RUA sente” e com ele, também nascia o Sarau RUA.

Sarau RUA, o nascimento. 

   Após dias de conversas com o poeta Victor Escobar, falando da necessidade de um movimento artístico independente em Nilópolis, e sobre os moldes de como fazer isso, apresentei a ele, via whatsapp, um nome: RUA. Simples, direto e que contemplasse tanto as dificuldades, quanto as benesses de uma ressignificação do espaço público. Em princípio achamos que já haveria algum movimento artístico com o mesmo nome, mas na época só existia o “Coletivo RUA” dos militantes do PSOL, uma proposta político-partidária e isso não nos limitava. Foi então que sugeri nos reunirmos com mais lideranças em busca de apoio e criei um grupo no whatsapp que contava com o Cineclube Buraco do Getúlio (Diego Bion e Luana Pinheiro), Coletivo Poesia Segunda Pele (Camila Senna), Pó de Poesia, Sarau de Gênero Fulanas de Tal e Centro Cultural Donana (estes três representados na figura da poeta Ivone Landim), Sarau do Escritório (Alex Teixeira e Rebeca Brandão) e Sarau V (Mateus Carvalho e Janaína Tavares), mais a poeta Elizabeth Gomes, produtora da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu e o poeta Victor Escobar. Já nas conversas virtuais apresentei a logomarca e recolhi alguns poemas para a composição do primeiro fanzine do RUA que seria feito à mão, com caneta e papel – o Rua foi pensado para ser produzido com os mínimos recursos disponíveis, por isso o fanzine feito à mão com caneta e papel e a utilização do megafone para a amplificação das vozes. O encontro aconteceu no Bar Amarelinho de Nilópolis e ali, Elizabeth Gomes e Victor Escobar se juntaram a mim para formarmos o núcleo duro do Sarau Rua que já aconteceria dali a dez dias, dia 20 de dezembro de 2014, às 19 horas, sob as câmeras da Central de Monitoramento da “Cidade mais monitorada do Brasil” – título ostentado com orgulho pela gestão municipal- na Praça dos Estudantes, Centro de Nilópolis.

   Desde então o Sarau RUA ocupou a 18 vezes a Praça dos Estudantes e agora migrou para a Praça Antônio Flores em Nova Iguaçu e continua impactando o imaginário e o espaço público da nossa riquíssima Baixada Fluminense.

   Além da Elizabeth Gomes, Victor Escobar e eu que somos fundadores, além de todos os artistas que se reuniram no bar Amarelinho há mais de dois anos atrás, o RUA também contou em sua produção com outros artistas e produtores da BF que foram, e são, parte da História do Sarau. São eles: Luiza Bastos, Rennan Cantuária, João Léllis, Catu Gabriela Rizo, Ivone Landim e Mariana Belize.

Agora vamos de Poesia!?

Ganga Zumba
chora sozinho
lágrimas salgadas
nas madrugadas
de lua cheia
em frente à praia
de Cruz das Almas

Virgulino
o paladino
botava medo
até mesmo
sem cabeça
na república
açucareira

a esperança
vem e vai embora
mais depressa
que o sol
de Massayó

será que a
antropofagia
conseguiria
salvar a alma
de alguém
hoje em dia?

-Victor Escobar

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Eu poderia largar o cigarro
e em passos largos
me largar de cabeça
no teu peito

Eu poderia
em vilas gaivotas
acidentadas
ou portos brancos,
velhos
a(r)mados
fodidos
e usados
Abrir a janela ao lado
pro vidro corrente de ar
e quebrar com um só impulso
no pulso-coração
o cunho da estrada
voando baixo
nas linhas brancas
ou me arrastando
pelas sujas de bordô e carmim

Eu poderia até mesmo
te cobrir
com meu já empoeirado
manto carmesim

Poderia
em toda via
secar o viável viés
de naufragar o desejo
de morar aos teus pés

Poderia quiçá
no todo do ódio
que te corrompe o sutil codinome
Morrer de desejo
de pavor
de terror
na ira da angústia
de suprir tua fome

Quebrar os limites
e também a gaiola
sufocar com as correntes quebradas
o todo do mal que te apetece

Eu poderia tudo isso

Se com sorte
algum dia
com teu andar-vôo
nas minhas linhas-letras-tortas-poesia

Você também me pudesse.

– três (1/36)
– Elizabeth Gomes

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Quero passear
Quero num domingo de outono, passear pela cidade
andar pelos becos sujos do centro
e descrever em poesias suas igrejas lotadas de fiéis do aos domingos
quero pular as pernas do mendigos …
e negar-lhes esmola
Quero fechar o vidro do carro
com medo de ser roubado pela criança negra do sinal,
mas fazer uma oração semi-sincera pedindo que alguém tenha mais coragem que eu e compre suas balas
quero chutar as garrafas com restos de cola de sapateiro
com meu sapato de trezentos reais e agradecer a Deus por tudo que tenho
Quero exibir minha carteira Louise vitton
quero que faça frio para estrear minha jaqueta Levis
eu quero pisar na lama com minha bota cara
e quero sentar na calçada do CCBB
para ler desdenhoso alguns poemas Nelson
vou arrancar dos bolsos uns trocados e comprar um folhetim
oferecer um cigarro caro do meu e fumar junto fingindo rir pensando:
“Queria ser poeta, mas não igual a esses daqui.”
Depois me despedir com um aperto de mão semi-sincero
entrar para ver uma exposição que não entendo,
mas fazer cara de semi-inteligente
olhar em volta atrás de uma universitária semi-bonita
fingir um interesse, me sentir semi-centro das atenções por uns minutos
e tomar um café semi-tranquilo
pensando que eu queria ser isso, mas sou aquilo
ir embora sozinho, porque é chique ser introspectivo
andar a pé por uns metros para ser visto
esvaziar os bolsos cheios de papéis de bala e de bobo
entrar no meu carro
esperando que minha arrogância saia num arroto
acelerar sem sair do lugar
só para me olharem
sair em disparada na contramão para de mim falarem:
“viu aquele sujeito num carrão?”
dirigir semi-satisfeito
me sentindo o próprio presidente semi-eleito
“Temer, eu sei o que é ser semi-querido, quer me ligar, amigo?”
Homem de bem este senhor!
no caminho, num muro pichado
fotografo no meu Iphone
“Mais amor por favor”
ponho na minha foto de capa e
assisto completamente satisfeito um bombardeio na Síria certo de que a justiça está sendo feita por homens de bem como Temer, Trump e eu
Semi-honestos
Semi-bons
Semi-deus
#guarnier

Guarnier

página do Sarau RUA no facebook: https://www.facebook.com/SarauRUA/

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Multi-sensorial

A poesia ativa o sétimo sentido: Leitura Multi-sensorial


“Cara, parece aquelas escrituras antigas… uma outra língua, sei lá”


Fiz um vídeo para explicar o processo de composição desse zine que gosto muito e que fiz há dois anos e distribuí por onde passei e para quem comprava o “Pacotão Poético” que reunia o livro Paiol-Ninho e outros livretos e zines meus. A intenção era fazer com que as poesias se modificassem e fossem se formando em outras a partir das dobras que o leitor fizesse no papel e para isso tive que compô-las no momento da criação do zine, tornando-o então, parte da própria poesia e estrutura.

Geralmente, na leitura de um zine, carta, livro, literatura num geral, dizemos que somente o sentido da visão é explorado, assim como somente a competência da leitura, digamos, tradicional, aquela que usamos para interpretar os sinais gráficos e a união dos mesmos para formar palavras, frases, textos e etc, porém não há como ler um rótulo de desinfetante e uma poesia igualmente. Um envolve a informação somente, outro envolve, além da informação, se for o caso, também a interpretação, o estado emocional, sentimentos. Para isso nossos sentidos são ativados além do que achamos. na maioria das vezes um leitor quer “entender” o que o autor quis dizer naqueles versos, pior erro de um leitor, a menos que seja um aspirante à vidência.
Se um poema já é lido de forma diferente de um rótulo por envolver além do sentido da visão, também tato, audição, olfato e paladar, um poema concreto, ou que envolva uma estruturação não convencional quando pensamos num poema, ou seja, versos lineares e estrofes, também é lido de forma diferente de um soneto, por exemplo, que é formado de dois quartetos e dois tercetos e rimas. Tudo oferece um gosto, um jeito, um elemento diferenciado para que a experiência seja diversa e é a própria experiência que marcará o leitor, pro bem ou pro mal, porém marcará. Vamos à leitura do zine:

 

A imagem de cima é a parte de trás do zine e a imagem da parte de baixo é a frente. a palavra “Meditar” faz parte da parte interna, mas cumpre seu papel também na poesia da frente que é:

“não é que eu demore pra falar

eu só espero

o coração meditar”


Agora vamos visualizar o interior do zine:

Eis esse emaranhado de letras grandes e pequenas, de formatos variados, onde se lê algumas palavras, mas nenhuma tem conexão com a outra e não têm coerência se postas num mesmo verso e, em tempo, não digo com isso que poesia tenha que ter coerência, mas acredito que me fiz entender. Agora vamos ver as dobraduras que formam as poesias presentes nesta folha:

lado esquerdo:

O QUE ME/LEVOU A TI/FORAM/OS/PASSOS/QUE/NÃO/MEDI

Lado direito:

VEJO/MEU VERSO/E FALO/NA TUA BOCA/QUE NÃO PARA/DE ME CITAR

Agora o lado esquerdo desdobrado totalmente:

O QUE ME/LEVOU A TI/FORAM/OS/JATOS/DE/REBELDIA/NA SUA/POESIA

Lado direito totalmente desdobrado:

VEJO/MEU VERSO/E FALO/NA TUA BOCA/QUE NÃO PARA/MAIS/DE/CLAMAR/DIA/E NOITE/ESSE AÇOITE.

Todas as partes reveladas, espero que a experiência seja provocadora e que desperte uma leitura multisensorial em quem tem posse do zine. Vou deixar o vídeo que fiz falando do processo de criação e espero que gostem da proposta de diversificar nas possibilidades que a tecnologia nos oferece e introduzir estes recursos aqui na coluna. No entanto não esqueçamos que a criatividade é nossa maior tecnologia, somos sofisticados a ponto de nem queremos sê-lo. Quem quiser o zine, pode entrar em contato comigo por aqui, ou pela minha páginafacebook.com/poetaguarnier. Que a arte seja provocadora e instigante sempre. Grande abraço!

Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Ni Brisant

 

Ni Brisant

Foto por: Luciana Faria.

 

Se um dia viver um grande amor,
Não cobrarei fidelidade, carícias loucas nem declarações engenhosas.
Direi apenas: fica comigo aos domingos. Fica?
-Ni Brisant

 A poesia é um estado da alma e ela nem sempre busca um sentido linear para as coisas que quer exprimir. Poesia é o Id despistando a todo o tempo os superegos literários que tentam regrar aquilo que é essencialmente livre e bandido. Escrevi certa vez num dos meus poemas que a poesia é “uma criança correndo pelada pela casa depois do banho” e a gente fica ali gritando: “Cuidado!”, “Vai cair!”, “Volta aqui!”, mas ela continua rindo e debochando da nossa cara. Por isso o poeta é esse desregrado que para o que está fazendo para escrever. Fica preso num poema e admite isso publicamente simplesmente com um: “Desculpa o atraso, tive um contratempo!” O poeta fala mal das coisas, dos livros, dos cafés fracos, dos amores fortes. O poeta se sente um semideus e continua debochando das próprias palavras, das horas, dos dias e acha graça da própria desgraça fazendo do seu calvário a piada do momento. O poeta é isso tudo, mas nunca vai admitir. Estampa um sorriso no rosto e continua a fingir… fingir e fugir.

Um dos grandes poderes que o poeta tem é criar eufemismos para amenizar a própria dor e minimizar a derrocada dizendo que:

Tudo vale a pena

 se não vira amor

vira poema

(Juliana Motter)

É Mentira, mas é lindo!

Como poeta eu tento colher minhas impressões através do que leio dos outros poetas. Se consigo me enxergar nas palavras deles e quando vejo técnica demais naquilo, bato  palmas, mas nada sinto. Ainda prefiro o intenso, eu sou mais a inspiração, do que a transpiração e que Drummond me perdoe, pra mim a poesia é ter o primeiro sol em escorpião e “quando o segundo sol chegar…” também.

Um dos caras que mais me apedrejam a alma na hora da leitura é um baiano de Acajutiba que tive o prazer de conhecer pessoalmente num encontro regional de poetas, em Minas Gerais. Morador de SP, pai da Flora e do Bento vive num pé de vento mundo a fora colando lambe – lambes de poesia como se colasse pétalas nos troncos de concreto das cidades. Ni Brisant é um passarinho que faz ninho ao contrário, desfazendo o seu por saber que um mundo inteiro não caberia nele, daí parece que o cara vai atrás de mais e mais coisas, ruas, saraus. Parece que segue e só estaciona na criptonita enfraquecedora que um super-poeta encontra no dia mais mais ou menos que existe: o domingo! O primeiro dia da semana, mas que tem moral tão baixa que chamam de último. Domingo não é descanso, domingo é espera. Toda tarde de domingo é uma quarta – feira de cinzas. Nivaldo dos Santos Brito, o Ni, é Autor dos livros “Para Brisa”, “Tratado sobre o Coração das Coisas Ditas”, “Se eu Tivesse Meu Próprio Dicionário”, “Algodão de Fogo” e está lançando seu primeiro livro de contos, intitulado “A Revolução dos Feios”. Professor em SP, idealizador e fundador do sarau Sobrenome Liberdade e um declamador nato. Ni é o terror dos domingos e a recíproca é verdadeira, então deixarei que essa relação fale por ela através da sua Literatura. Boa leitura e como costuma dizer nosso amigo poeta da coluna de hoje: CORAGEM!

Ni Brisant

Foto por: Lucas Monsuelo

Dia fraco

Chega o dia. O sol sobe mais cedo. Fim de semana renova cansaços. Leio camisetas e revistas e só encontro marcas. Roda gigante sem eixo.

Angústia indigna de vômito, escuridão pálida. Desmaio de olhos abertos. Espelho = autorretrato oco. Sem vontade de.

Sem necessidade de consultar calendário. A gente sente quando chega o dia. Dormir não arruma a exaustão. Alucinógenos não dão asas nem esquecimento. Olhar adiante faz ver retrovisor.
Aos domingos a gente não liga ou marca encontro com qualquer pessoa. Existe um pacto soberano de intimidade. Resguardo absoluto de novas aventuras. Domingo é dia de visita. Não de ficar.

Domingo é um picolé, que veio num palito de fósforo.

Convite para o maior espetáculo do mundo – sem destinatário.

O começo do domingo tem cara de feriado, amenidades, lazer. Mas ele avança. E se instala depois do almoço e da depressão pós prato. Aí sim. Âncora nos ombros!

O domingo me ensinou que não existe canção capaz de nos proteger deste presente silêncio que nos tornamos. E eu só quero atravessá-lo.

Chega um certo momento que o domingo ganha formato de fim de ano: a vida fecha pra balanço, considerações, encontros funcionais seguidos de remorsos e comidas familiares.

Para um náufrago, água é a grade da ilha. Domingo é igual. Paradoxo de si mesmo. Casa mal assombrada sem fantasmas. Ocasião sagrada, que renova o musgo do exílio que somos. Domingo é gangorra de um banco só. Ressaca mista de água benta e ácido na veia do terceiro mamilo. Última ceia do artista da fome. Macarronada para uma colher – apenas. Extensão de lutas ancestrais – disputando cada poro do couro cabeludo até a calvície genital – capaz de remodelar ossos. Não memórias.

Bukowski < Álcool

Poetas < Fome

Tempo > Saudade

Salário < Ração

Socorro < Pedido

Eu < domingo

Precisão de seis noites com 24h de madrugada na porta da frente. Rebelião consagrada à nossa babel interior, que não podemos dar cabo.

Às vezes o domingo não passa de jeito nenhum. Encontra uma gruta entre as varizes e uma situação qualquer e fica passeando a semana toda; tramando covas em cada hora vaga.

A visita acaba e só cabe que uma pessoa fique. Domingo imita a vida.

-Ni Brisant

Domingo

Pense. Alguém tentando pôr o Cristo Redentor dentro da capela Cistina.
Estar apaixonado é quase assim, esse descabimento.

Pense. Alguém que dormiu por 28 anos ininterruptos. Estar apaixonado é o primeiro som que esse alguém dança antes de levantar.
Apaixonar-se é tomar orvalho ao meio dia quando se tem sede de cachoeira.

Pense. Alguém tentando vencer o exército de Napoleão com uma navalha. Estar apaixonado é ser a própria lâmina.

Tal qual uma dona de casa quando acaba o gás enquanto cozinha o almoço de domingo e, com o apetite aberto, consulta o bolso, onde vazio é costume profundo. Tivesse um tição, tacava fogo no inferno, incendiaria o corpo do bombeiro. Enfim, eu lhe peço fiado pra ser feliz.

O que me aprisiona? Seu tchau.

Quando você saiu da minha vida, eu não fiquei vazio. Não larguei a droga do meu emprego. Nem morri. Eu fiquei o tempo inteiro com você – só que do lado de fora.

Repare. A fotografia não gosta de quem muda. Ainda q’eu perdesse os 7 quilos, que herdei dos últimos tempos, já não seria eu naquele corpo.

Se, de algum modo mágico, os nossos dedos pudessem se abraçar novamente; seria aperto, não laços o desenho que eles formariam.

Se eu mostrasse os dentes assim, ó, igual no retrato; seria só riso, não felicidade.

Eu estive em silêncio. E no silêncio tinha você.

Aqui. O olho é só a superfície do meu coração, mas você não consegue ver, né?

Meu dente sangra sem a sua carne. E eu lhe quero, bem.

Mais poética que uma diarreia na noite de núpcias, você trovejou: Eu poderia acabar com você a qualquer hora, mas eu nunca gostei de finais felizes. Eu tentando te levar a sério e você numa crise de riso… Nervosa.

Pense. Alguém tentando contar as estrelas do céu nos dedos de uma mão. Viver um amor é ser o ano luz que se demora para virar sol.

Pra você é piegas, mas tem quem chame de poemas essas minhas partes íntimas grudadas no papel. Cem anos de solidão e nenhuma página virada.

Assim como para o sutiã teus ombros são cabides, para meus lábios: ex posição. E eram suas as cópias que amei. Todas as vezes que multipliquei meu prazer, foi por tu. Silêncio é o segredo. Sinceridade é o outro segredo. A bolha nasce quando explode. E a morte só é um espetáculo atraente porque acontece apenas uma vez.

Nem toda cicatriz é marca de luta. Nem todo mundo que pede socorro ajuda. Nem todo suicídio é em legítima defesa.

Tal qual uma uva, meu derradeiro útero foi esmagado pelos teus pés a troco de um copo de liberdade, dizem.

E eu queria ser o raio, que cai duas vezes da mesma nuvem. Ser o assassino que volta a cena no filme. O erro repetido duas ou mais vezes até tornar-se coisa de berro, burro… Queria ser gêmeos, o 14 bis, o retorno de saturno, a própria tecla repeat. Ser uma onomatopeia dessas que tocam nas FMs dia após dia. Queria ser tudo, capaz de deter o último segundo da primeira vez que fomos adeus para sempre.

Trocaria a eternidade por uma vida inteira. E largo meu time e viro ateu. Mudo de bicho no horóscopo chinês. E aposto toda a minha saúde, que ainda existe esperança em um travesseiro de alguma meretriz da Sé.

Não faça mais simpatias nem use aquele seu vestido de fulô perto de mim – quando não estiver comigo.

Teu coração é um escudo em forma de arma. E todo dia é uma dor maior, sem suas crises de ciúmes e riso.

Tanto amor no coração e a gente aqui, assim, domingo.

Não cobrarei fidelidade, carícias loucas nem declarações engenhosas. Só fica.

Amor é esse espaço que existe entre os dedos. É preciso abrir as mãos para compreender. Amor não é posse. É pertencer.

Enfim, eu lhe peço fiado pra ser feliz.

-Ni Brisant

 

Página do poeta no Facebook: https://www.facebook.com/nibrisant

Livros de Ni Brisant: http://literarua.commercesuite.com.br/loja/busca.php?loja=427793&palavra_busca=ni%20brisant

 

Guarnier

Perfil de Guarnier

Resenha literária com Guarnier: Poesia Marginal

O que você anda lendo? Gosta de Poesia? Vou além… você sabe o que é Poesia Marginal? Sabia que o grande cenário poético atual não figura nas grandes editoras, não está nas prateleiras das grandes livrarias e você pode ter acesso a esse material riquíssimo nos perfis e páginas das mídias sociais, saraus, bares, esquinas e que o Fanzine, ou, mais precisamente o Zine, na maioria das vezes, é a primeira publicação desses poetas e poetisas? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Calma! Se você já sabe de tudo isso, sei que tem lido muita coisa boa, já você que não sabe, agora vai ficar sabendo e te garanto que vai curtir a coluna, pois um dos meus propósitos aqui no Beco Literário é tratar sobre a Literatura Marginal e seus agentes mais contemporâneos e atuantes, portanto já que vamos tratar de poesias e zines, adianto que esta publicação artesanal perde o prefixo “fan” quando não há objetivo de homenagear um determinado “ídolo” e passa a ser uma publicação autoral, ou que trate de um tema que não tem a ver com homenagem a uma determinada figura pública, por isso, aqui trataremos dos Zines.

A Literatura Marginal foi assim conceituada na década de 70 e tem como principais autores dessa época, Leminski, Torquato Neto, Chacal entre outros. Óbvio que muitos não chegaram sequer a serem conhecidos publicamente, digamos que para cada poeta que tem seu trabalho reconhecido, dez moleques saem da várzea para o Futebol profissional, uma estatística exagerada que criei aqui para dar a dimensão da enrascada que era/é se meter a escrever objetivando algum lucro nisso, por menor que seja. No meu caso de maior sucesso, já recebi umas cervejas em troca de um, ou outro livro meu e não há demérito nisso, que fique claro, e voltando ao nosso assunto, a Literatura Marginal influenciou toda uma geração de artistas no Brasil, não só na própria Literatura, mas também na Música, Dança, Artes Plásticas e demais linguagens artísticas, porém como nosso enfoque aqui são os zines de poesia, vamos dizer que estes são netos dos livretos produzidos artesanalmente pela “Geração do Mimeógrafo”, que ficou assim conhecida por conta dos livros produzidos e reproduzidos naquele trambolho em que na década de 70, 80 e 90 rodavam as provas escolares da galera da minha geração e gerações anteriores. No média – metragem “A Lira Pau – Brasília: A Geração do Mimeógrafo e os Poetas Marginais de Brasília na Ditadura Militar”, Nicolas Behr diz que “ A Geração do Mimeógrafo tirou o terno e a gravata da poesia”, talvez eu não tenha ouvido, ou sequer imaginado uma definição melhor para a poesia marginal, e para você que não sabe do que é,  pergunte aos seus pais o que era esse tal “mimeógrafo” que eles, certamente, vão dar uma risadinha dizendo: “É… na minha época blá… blá… blá.” Eu confesso que quando tive contato com um, cheirei tanto álcool que rolou uma onda, sem exagero.

Como são feitos e o que são os Zines?

São diversas as possibilidades de confeccionar Zines. Podem ser manuscritos, digitados, impressos e xerocados. Há uma série de técnicas para estilizar cada livreto, ou folheto, o autor “zineiro”, escolhe como prefere, enfim. Eu conheci o Zine e fiz o meu primeiro no ano de 2007, quando estudava no Centro do Rio de Janeiro e lá mesmo dobrava uma folha de papel A4, escrevia uns poemas e xerocava para vender, ou mesmo trocar pelo que rolasse, geralmente aceitava uma contribuição espontânea só para pagar a xerox mesmo. Hoje, dez anos depois, as coisas mudaram um pouco, porém a essência continua a mesma e cada vez mais os zines vão ganhando modelos, materiais e formatos diferentes, os mais comuns são de poesias, mas também se encontra com contos, quadrinhos e outros gêneros literários e uma das galeras mais resistentes desse cenário é o pessoal do “AmeopoemA”, que tem ponto entre a porta do Centro Cultural Banco do Brasil  e Cinelândia. Nelson Neto, Shaina, Dy Eiterer, David, Paulinho, Rômulo Ferreira, Luiz Silva e outras figurinhas fáceis por ali já ofereceram suas poesias para milhares de pessoas naquele local. Segundo Rômulo Ferreira, o AmeopoemA é:

Grupo de leitura e proliferação poética e artística!

Criado em junho de 2010, a partir de uma forma física que era o  ZINE AMEOPOEMA, veioa vida  este grupo que tem a intenção de facilitar a proposta de ser lido e divulgar os trabalhos de amigos e desafetos!

Temos três formas de espalhar poesia pela cidade:

1-    Zine mensal impresso AMEOPOEMA, que está em sua 47 edição.

2-    Sarau AMEOPOEMA, rede de leitura e troca de ideias em praças públicas de todo o território nacional.

3-    Página em rede social, onde todo autor e leitor podem interagir de forma mais direta.

Criado por Rômulo Ferreira e Bárbara Barroso. O AMEOPOEMA, vem atuando de forma independente e sem ajuda de custos de lei alguma, vivemos basicamente da colaboração de amigos e alguns passantes de onde os eventos acontecem.”

Eu, Guarnier, este humilde poeta, já considero parte do imaginário poético daquele canto da cidade e um dos patrimônios do Centro do Rio e você que vier dar uns roles por aqui, tem que passar lá, comprar seu zine e beber dessa poesia, para você que nem pretende pisar estas terras, mas que gostaria de conhecer o trampo, é só dar uma conferida na página do Facebook deles que deixarei no final da coluna. E pra deixar um gostinho do tempero desses poetas nada melhor que  Poesia! Então: “Gosta de poesia, Senhor? Gosta de poesia, Senhora?” Com vocês: AmeopoemA!

 

(Rômulo Ferreira)

Hoje o sol nasceu vermelho
escondido nas ideias que tive
sobre inventar verdades
sobre a esperança

sobra a sorte
de ter
ou não ter fe na vida

vem cá,
olha em meus olhos
diga que veio pra sempre.

diga que estávamos errados.

estou aqui

me avermelhando nesse sol
esperando
e fumando o resto do cigarro
que a gente arrumou
naquela transação dos infernos…

maldito dia aquele
maldito sono

acordamos cedo

e ainda nem acabou a noite

–Rômulo Ferreira

(Dy Eiterer)

Naufrágio II

Abandonando o cais,

Lanço-me no sem fim azul

Como um navio que escorrega no mar.

Ele percebe a beleza, a força,

Mas não pode prever a profundidade.

Por isso só segue nas horizontais.

Porque não saberia lidar

Com o que desconhece.

Talvez seja medo.

Talvez despreparo.

Um quê de insegurança.

Um muito de vontades aplacadas

Pelo sussurro do vento

Que dá calmaria, mas alerta:

Seu naufrágio é necessário

-Dy Eiterer

(Nelson Neto)

ACHO QUE ESTAREI SALVO

ENQUANTO TIVER DIAS DE MÁXIMA EUFORIA

POR QUALQUER COISA QUE ME ABSTRAIA!

ACHO QUE GANHO TEMPO

AO ME ENFRENTAR NO ESPELHO

SEM NEM AO MENOS SABER QUAL FOI À PERGUNTA DE UM MILHÃO!

ACHO QUE DESESPERO ATOA

QUANDO NÃO CONSIGO TER ESPERANÇA APARENTE OU MEDO QUE O VALHA!

FUJO MAS NÃO COM TEMOR,

SÓ POR NÃO TER NADA PRA FAZER POR LÁ.

-Nelson Neto

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