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Que poema de Quintana te representa?

Já dizia o poeta, “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente… e não a gente a ele! Para homenagear o mestre da simplicidade (que ironicamente não gostava de homenagens), separamos cinco poemas que adoramos e te desafiamos a escolher um. Que poema de Mário Quintana te representa?

1. Amor é síntese

Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor.

2. Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E – ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
– Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

3. Olho as minhas mãos

Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar…
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: “existo”.
Porque apenas existem…
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar…
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz – em mim – esta interrogação?

4. Alma errada

Há coisas que a minha alma, já mortificada não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há… e quem é que hoje faz questão de virgindades…
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até
que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…

5. Poeminha do contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Sabedoria literária, compreensão sobre a vida – o imaginário de Quintana vai além de seu tempo e nos toca com o sublime e singelo sopro da existência. Que poema te representa? Já deu uma olhada em nossas camisetas literárias? Clique aqui.

7 poemas para matar a saudade de quem tá longe

7 poemas para matar a saudade de quem tá longe

30 de janeiro. Dia da saudade, palavra só nossa, mas sentimento conhecido por todos. Para matar a saudade de quem tá longe e que sentimos falta para caramba, separamos sete poemas que sempre nos emocionam e que se eu fosse você enviava para aquela pessoa especial, relembrando-a que apesar da distância, o carinho é eterno.

1. Sentimento urgente – Clarice Lispector

Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

2. Presença – Mario Quintana

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato
e que, apenas,
levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar,
a trevo machucado,
as folhas de alecrim
desde há muito guardadas
não se sabe por quem
nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também,
que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho que fechar meus olhos para ver-te!

3. Saudade – Pablo Neruda

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

4.  Chega de saudade – Vinicius de Moraes

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser.
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer.
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz.
Não há beleza,
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim.
Não sai de mim,
Não sai.
Mas, se ela voltar
Se ela voltar, que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca.
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços.
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim.
Não quero mais esse negócio
De você viver assim.
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim…
 

5. A um ausente – Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

6. Saudade – Candeia

Saudade dos chorinhos e os chorões
Que entre prismas e bordões
Embriagavam de harmonia os corações.
Toda noite era de festa
E se ouviam as serestas pelas ruas
Sob o clarão da Lua.
Saudades do famoso Zé com Fome,
Um sambista de renome
Que o meu povo não esquece.

Saudades de Paulo da Portela,
Esta melodia singela,
É meu samba, é minha prece.

Saudade…

7. Tanta saudade – Chico Buarque

Era tanta saudade,

É, pra matar.
Eu fiquei até doente, eu fiquei até doente, menina.
Se eu não mato a saudade,

É, deixa estar.
Saudade mata a gente, saudade mata a gente, menina.
Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem,
Fui até o centro da Terra e é mais além,
Procurei uma saída e amor não tem.
Estava ficando louco, louco de querer bem.
Quis chegar até o limite de uma paixão,
Baldear o oceano com a minha mão,
Encontrar o sal da vida e a solidão,
Esgotar o apetite, todo o apetite do coração.
Mas voltou a saudade,
É, pra ficar,

Aí eu encarei de frente.
Aí eu encarei de frente, menina.
Se eu ficar na saudade,

É, deixa estar.
Saudade engole a gente, saudade engole a gente, menina.
Quis saber o que é… apetite do coração.
Ai amor, miragem minha, minha linha do horizonte.
É monte atrás de monte, é monte.
A fonte nunca mais que seca, ai saudade, ainda sou moço.
Aquele poço não tem fundo, é um mundo dentro um mundo.


Para matar a saudade, deixamos aqui nosso setlist pro dia. Balança o coração, mas segue em frente, viu?