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Se eu fosse Frida: Conheça um pouco mais da mente por trás!

Se eu fosse Frida: Conheça um pouco mais da mente por trás!

Juliane Garcia de Alencar. 27 anos. cearense. aquariana. psicóloga. ilustradora. feita de silêncios. não é todo mundo que consegue compreendê-los. feita pra quem sabe ver. pra quem sabe sentir. pra quem consegue decifrar. não é qualquer um que entende. escreve sua história a lápis. apaga, corrige, pula linhas e parágrafos. arranja e desarranja. usa cores. transforma o vazio em palavras, em desenhos. acredita que é possível acariciar as pessoas com a arte, por isso, se eu fosse Frida! enche o coração de lantejoulas e bolhas de sabão. tenta calar as dores. se a previsão for de chuva, tenta fazer um carnaval. mas às vezes para os batuques apenas para ouvir melhor o bater do coração.
Mais do que um coração batendo no mundo. Essa moça, idealizadora do projeto Se eu fosse Frida,  é aquela que transforma amor em cor. Com os olhos encantados por esse traço delicado e cheio de força, conversamos com a mente talentosa da Ju e ela nos contou um pouco sobre o processo de ilustrar e como vem se arriscando como ilustradora.

1. Como surgiu a ideia do Se eu fosse Frida? O que te influenciou a criar o projeto?

A ideia sempre rondou meus pensamentos. A ilustração sempre perpassou meus dias e todos os meus momentos. Sempre ilustrei como uma forma de libertar e dar voz ao meu coração selvagem, mas o projeto do “Se eu fosse Frida” só teve início em 2016.
Sou cearense e psicóloga e, nessa época, tinha me mudado para o Rio de Janeiro para fazer mestrado. Foi um momento bem turbulento, cheio de vivências inéditas e até doloridas – como o sair de casa, o distanciamento geográfico da família, o desbravamento de um novo território, além de uma dissertação a ser escrita, mas também foram tempos de (re)conhecimento, (re)descobertas e de fortalecimento de relações. A ilustração tornou-se quase uma terapia. Ilustrava para encurtar distâncias.
Como tudo acontecia muito rápido, o processo criativo estava a todo vapor. Ilustrava quase que diariamente. No entanto, digo que a criação de “Se eu fosse Frida” como projeto foi ao acaso. Criei um perfil numa rede social para organizar meus desenhos. Era uma forma de não perdê-los nesses tempos acelerados que vivemos. No começo era algo privado, quase um segredo mesmo. Contudo, fui ganhando confiança ao ouvir pessoas mais próximas e decidi compartilhar minhas cores por aí. Foi uma forma de espalhar cor e distribuir sentimentos para as pessoas.
A escolha do nome foi uma forma de homenagear Frida Kahlo, de quem sempre fui admiradora – pela artista e mulher que foi.

 2. Qual era a visão que você tinha do mundo da ilustração quando começou a ilustrar e a que você tem agora? O que mudou?

No começo o ato de ilustrar era algo individual. Era um mundo só meu. Criava apenas para mim. Muitas vezes sem uma explicação ou significado pensado. Fluía. Hoje ainda é muito assim, mas vejo o poder que as cores têm. Tento criar algo que afete o outro – seja um afetar que acaricie ou que problematize; que abrace ou que toque nas feridas.
Logo no início do projeto, costumava imprimir cópias de alguns desenhos, escrever mensagens com frases de livros ou trechos de músicas e “esquecer” por lugares, em praças, ônibus, shoppings… era uma forma de alcançar pessoas fora das redes digitais. De surpreendê-las!
Acho que a arte serve para isso: para nos afetar! A arte nos transforma e a gente transforma o mundo.

 3.  Suas ilustrações nos remetem ao mesmo tempo a uma sensação poética e musical, a música tem alguma contribuição específica para seus desenhos? O que você ouve enquanto desenha?

Com toda certeza! Sou uma pessoa bastante musical. Faço (quase) tudo ouvindo música, ilustrar não seria diferente. Para mim, é impossível ouvir Belchior e não fazer ao menos um rascunho. Suas canções são cheias de significados e potências. Ele é meu preferido no momento das criações, mas tenho uma playlist com mais de mil músicas que me ajudam nesse processo. Além dele, ouço muito Céu, Caetano, Chico, Bethânia, Elis, Marisa, Gal, Criolo… mas às vezes paro os batuques para ouvir melhor o bater do meu coração.

4. Qual foi o pedido de ilustração personalizada exclusiva que mais te marcou, que fez o coração bater mais forte e o olho brilhar?

Não sei se sou capaz de escolher uma só. Mas confesso que minhas preferidas são as famílias: das tradicionais às mais inusitadas. Gosto de ilustrar todas as formas de amor!

5. Qual livro poderia representar Se eu fosse Frida?

Acho que um livro do García Marquez e seu realismo fantástico. Ou do Dostoiévski e sua profundidade subjetiva. Ou da Rupi Kaur e todo seu empoderamento. Ou da Clarice… ou da Vírginia Woolf… Enfim, um livro de força e surpreendente!

 6. Qual a maior dificuldade em ilustrar e divulgar seu trabalho sendo mulher?

Não sei se sinto isso por acompanhar principalmente o trabalho de mulheres, mas acredito que somos bem fortes no meio. Até hoje, por mais incrível que isso possa parecer, não vivenciei dificuldades por conta do meu gênero, falando apenas do mundo artístico, vale ressaltar.

7. O que podemos fazer para que mais mulheres possam ilustrar?

Acredito que isso vale não só para a ilustração, mas para a vida: devemos nos permitir. “Meter as caras”, como dizemos no Ceará. É essa coisa de chegar e fazer, sabe? Acho que a gente, enquanto mulher, tem que ter voz, vez e liberdade de ser o que quisermos ser. Carrego a palavra “Coragem” tatuada no peito e acho que ela deve nos guiar todo dia.

8. Quem é sua maior referência no mundo da ilustração? Se você pudesse tomar um café com sua ilustradora/seu ilustrador preferido, o que perguntaria?

Tem que ser só uma pessoa? Acompanho o trabalho de tanta gente massa! Poderia ser um grande encontro regado a muito café! Falando das brasileiras: Amanda Mol, Juliana Rabelo, – minha conterrânea – Malena Flores, Luiza Alcântara, Yasmin Hassegawa, Jana Magalhães, Carol Rossetti… tanta gente! Dos estrangeiros: alguns cartunistas como Ricardo Siri e Quino, além das ilustradoras Paula Bonet, Camille Shew… e mais um montão de outras supertalentosas.
Acho que por ser autodidata perguntaria sobre as técnicas e o processo criativo; além de querer ouvir muitas histórias de vida.

9. Qual ilustradora que tem um trabalho mega bacana, mas que ainda não foi reconhecida, você destacaria? Por quê?

Tenho um apreço muito grande pelas ilustrações da Jéssica Gabrielle Lima e da Mara Oliveira pelo afeto que transmitem.

10. Para terminar, existe algum ritual para seu trabalho como ilustradora? Como é seu dia a dia?

Como disse no início, a ilustração não é minha profissão, mas faz parte de mim. Atualmente sou residente em Psicologia Hospitalar e trabalho doze horas por dia com pacientes com câncer. Algo bem denso. A ilustração é meu refúgio.
Geralmente só tenho os fins de semana livres. Então, coloco um headphone com uma boa música, leio alguns textos curtos e logo o papel deixa de ser uma simples folha em branco.

 

O traço de Se eu fosse Frida invadiu a Poeme-se com a coleção especial pra mulheres porretas que une feminismo, literatura e muita cor. Já deu uma espiada nessa lindeza criada pela Ju?  https://www.poemese.com/colecoes/se-eu-fosse-frida

Aproveita e conta pra gente nos comentários: O que te faz florescer? ♥


Resenha literária com Guarnier: A Arte Pública

 

Saraus Como Alfabetizadores Artísticos: A Arte Pública

Sarau Rua

Sarau Rua

 

   Desde as manifestações de 2013,meros movimentos artísticos, coletivos, organizações que promovem a arte pública colocaram o bloco na rua, tudo como forma de continuidade e resistência para dar vazão ao sentimento de indignação coletiva por conta do cenário político que se apresentava.

   A ressignificação dos espaços públicos pela Arte fez surgir um Sarau em cada canto e o território foi discutido. De quem é a cidade? De quem são as Ruas? Do estado ou da poesia, da Dança, da Música, do pensamento? Desde então começou-se a ter notícia de nomes como “Sarau V” (NI), “Sarau do Escritório” (RJ), “Corra que a Polícia Vem Aí” (Campo Grande – RJ), “Poetas Compulsivos” (Morro Agudo-NI), “Poesia de Esquina” (CDD-RJ), “Caldo de Cultura” (Mesquita), “Sarau RUA” (Nilópolis), “Fulanas de Tal” (NI), “Sarau do M.E.R.D.A.” (Nilópolis), dentre outros… muitos outros. Observe-se que todos estes em periferias, mesmo o Escritório que é no Centro da Capital do RJ, acontece na Lapa, berço da marginalidade e boemia cariocas. Esses espaços deram oportunidade e visibilidade a muitos artistas entregando-lhes microfones, palcos e público como se falassem: É a sua voz que queremos ouvir e é a sua Arte que queremos comprar. Com isso muito poeta esvaziou sua gaveta, muito músico resgatou seu instrumento, muito cantor soltou sua voz e, inspirados por estes anônimos, todos aqueles que tinham vontade de tocar um instrumento começaram a tocar, muitos que tinham vontade de escrever, arriscaram seus versos e assim estas simplórias, e na maioria das vezes, até precárias estruturas, tornaram-se as centelhas que faltavam para muitos novos artistas, por isso, podemos chamar estes espaços de “Alfabetizadores Artísticos”.

Sarau V

Sarau V

O que é um sarau?


Segundo a Wikipédia: um sarau pode envolver dança, poesia, leitura de livros, música acústica e também outras formas de arte como pintura, teatro e comidas típicas. Evento bastante comum no século XIX que vem sendo redescoberto por seu caráter de inovação, descontração e satisfação.


   Quem já esteve presente num sarau, sabe da multiplicidade de linguagens que ele abriga. Sem falar no ineditismo e originalidade sempre presentes em cada edição de cada sarau. Já na programação você se depara com um nome que nunca ouviu falar como poeta convidado, e que na parte musical outro desconhecido se apresentará lançando seu último trabalho. Então a moça que trabalha no sinal da avenida principal todos os dias fazendo malabares, também está relacionada entre as atrações. Ali mesmo, durante o período do “microfone aberto”, dois ou três poetas leem seus poemas e te encantam. Eles não têm livros lançados, nem se sabe se almejam um dia publicarem um. Então você descobre que uma folha de papel A4 dobrada, ou não, tem muitas poesias daquele autor que você acabou de conhecer e ele está oferecendo aquele papel por dois reais, daí você descobre que o nome daquela folha com poesias e ilustrações é Zine. Tudo isso na esquina, ou na praça, ou no calçadão da sua cidade, de graça. Você compra um artesanato, come um lanche, toma uma cerveja a preços honestíssimos. Senta-se no chão e troca uma ideia com alguém bem bacana. Sai dali satisfeito e promete-se retornar na próxima data. Digamos que você nunca se interessou muito por Arte porque sempre achou que Arte só ficava nas galerias caras, que poesia era só Fernando Pessoa e Drummond. Que só Clarice Lispector era capaz daqueles interlúdios mágicos que teus amigos compartilham no facebook e agora você acaba de ler, ouvir e ver coisas incríveis de pessoas completamente desconhecidas e então lembra que lá na adolescência aprendeu uns acordes no violão, que escrevia umas cartas, era louco para fazer parte do Teatro da escola e nunca teve coragem, mas diz para si, despretensiosamente: Um dia… um dia.

Multiplique seu exemplo pelo número de pessoas que ali passaram e pararam por dez minutos para ver o que estava acontecendo e se sentiram bem, ficaram mais dez minutos para ouvir a música bacana do cantor desconhecido e depois adiaram mais um pouco a partida para assistirem o grupo do Teatro e a performance de Dança. Aprenderam o que é um sarau, aprenderam que poeta na maioria das vezes não tem livro lançado, aprenderam que Dança e Teatro não precisam de palco para se apresentarem e aprenderam que tem infinitamente mais artistas fora da televisão, dos livros e do rádio do que dentro deles, portanto, aprenderam uma série de coisas que não sabiam. Foram alfabetizados!

mosaico

   Nossa cultura nos disse a vida inteira que estudo e aprendizado só são ensinados nos ambientes vernaculares das escolas. Somente dentro dos domínios daquela estrutura engessada por métodos e estratégias óbvias é capaz de se aprender, por isso, qualquer aula que aconteça num ambiente que não seja a sala de aula não é considerada aula pela maioria dos alunos.

-Filho, como foi a aula hoje?

-hoje não teve aula, assistimos um filme no pátio!

Esse comportamento arraigado em nós, faz com que desconsideremos os ensinamentos que recebemos no cotidiano e acabamos reproduzindo esse discurso, desconsiderando todas as demais inúmeras salas de aula e professores que vão muito além dos muros das escolas e universidades, são ações e lições num campo a céu aberto chamado Rua.

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