Posts tagged "poesia"

CAZUZA E A BALADA DE WALY SALOMÃO.

Cazuza e a balada de Waly Salomão.

“Balada de um Vagabundo” é uma canção do primeiro disco solo do Cazuza lançado em 1985 logo após sua saída do Barão Vermelho. Apesar de trazer alguns clássicos como “Exagerado” (que nomeia o disco) e “Só as mães são felizes”, a faixa “Balada de um Vagabundo” é a que mais me chama a atenção nesse álbum. O mais curioso é que a letra não é do Cazuza e sim do poeta Waly Salomão, compositor de alguns clássicos da música brasileira, como “Vapor Barato”. Ele ainda foi responsável pela produção do disco “Veneno AntiMonotonia” da Cassia Eller, álbum em homenagem a Cazuza. Em toda sua discografia Cazuza gravou poucas músicas em que não participava da composição. E está foi a primeira. “Escrevi Balada de um Vagabundo para ele [Cazuza]. Teci este poema como mentira sincera de uma suposta simbiose Helio Oiticica-Cazuza. Como se os cavalos de Oiticica e de Cazuza tivessem baixado em mim”, dizia Waly Salomão. Cazuza achava que a música o defina muito bem. Gostava, especialmente, do trecho que resumia sua personalidade: “Eu sou o beijo da boca do luxo na boca do lixo.” Para quem não conhece, vale a pena ouvir! (:

Mini Biografia de Zuza Zapata

Eu leio diversidade: 5 livros para além de uma temática LGBT

Eu leio diversidade: 5 livros para além de uma temática LGBT

Ser consumidor é também ser um agente de transformação e fazer com que a representatividade ganhe força e vez é sim papel de quem consome. É necessário disseminar, espalhar, conscientizar. Pensando em como representantes de minorias são calados por serem o que são, selecionamos 5 livros que vão muito além da temática LGBT e que vai te ajudar a refletir e te dar força para acreditar que sim, você pode ajudar a construir um mundo mais legal e mais tolerante. Dia 25 de março é dia de relembrar que todas as formas de amor importam, dia de relembrar que causas existem para que você também seja livre e possa falar o que pensa e que acima de tudo, é necessário resistir. Em tempos sombrios é fundamental não desistir e resistir. Sempre. #mariellepresente

1. A história de Júlia e sua sombra de menino – Christian Bruel

Questões sobre produção de gênero, identidade e o “ser diferente” tratado de forma sensível e divertida é o trunfo dessa obra. Refletir sobre imposições feitas pela sociedade e abrir espaço para que as pessoas sejam o que são é uma prática de cidadania que deve ser ensinada e discutida entre o cidadão em formação. Clássico de 1973, o livro traz um texto poético e considerações sobre o crescer, preconceitos e respeito entre pessoas.
Sinopse: Os pais de Júlia a criticam muito, sempre dizendo que ela se parece com um menino, no jeito, nas roupas etc. Numa manhã, a garota percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto, repetindo todos os seus gestos. Júlia se sente triste e acaba questionando sua própria identidade.

2. Olívia tem dois papais – Marcia Leite

Como não falar de diversidade sexual entre crianças? Que tabu é esse em pleno século XXI? Sim, devemos responder perguntas sobre sexualidade, trazer para pauta famílias homoafetivas, produzir livros onde não essas famílias não seja vistas apenas como “diferentes” e sim como mais uma possibilidade de construção familiar. Crianças não viram adultos intolerantes do nada, elas repetem comportamentos e pensamentos. Responder uma pergunta direta é matar o dragão direto no coração, é acabar com monstros debaixo da cama e dormir em tranquilidade. Acredite, criança não precisa de teorias mirabolantes para entender coisas simples. Esse livro é também uma possibilidade de se discutir gênero dentro de nossa sociedade.
Sinopse: Olívia é uma menina esperta, que sabe bem o que quer e tem plena noção de como usar algumas palavras para conseguir o que deseja. Quando tem de ficar sozinha enquanto os pais trabalham, ela diz que está muito “entediada”. Como não gosta de ver a filha “entediada”, papai Raul para imediatamente de trabalhar e, quando percebe, já está deitado no chão ao lado dela, brincando de filhinho e mamãe, ou cercado por um monte de bonecas.

3. Viagem solitária – João W. Nery

É necessário desmistificar o universo trans. João W. Nery, o primeiro homem transexual que realizou a cirurgia de redesignação sexual no Brasil em plena ditadura militar (1977) é um relato sobre a luta de viver 30 anos sem expor sua identidade trans. A obra narra as dores e coragem de uma pessoa que precisa se reinventar para encontrar seu lugar no mundo, uma ressignificação em busca de uma vida menos solitária. Leitura obrigatória.
Sinopse: ‘Viagem solitária’ conta a história de João W. Nery, transexual masculino. Na obra, ele narra a infância triste e confusa do menino tratado como menina, a adolescência transtornada, iniciada com a ‘monstruação’ e o crescimento dos seios, o processo de autoafirmação e a paternidade.

4. Azul é a cor mais quente – Julie Maroh

Uma história de amor e descoberta. A simples linguagem universal do amor. Apenas o desabrochar e toda poesia envolvida nisso.
Sinopse: Clementine é uma jovem de 15 anos que descobre o amor ao conhecer Emma, uma garota de cabelos azuis. Através de textos do diário de Clementine, o leitor acompanha o primeiro encontro das duas e caminha entre as descobertas, tristezas e maravilhas que essa relação pode trazer.

5. Onde andará Dulce Veiga? – Caio Fernando Abreu

Intimista, o texto desse livro passa por várias ambiguidades sexuais e revoluções comportamentais, uma busca por si. Poético e intenso, Caio Fernando Abreu é uma voz que se debate sobre a efemeridade da vida e este livro é um clássico para se entender como a homossexualidade/bissexualidade era vista e sentida em período de ditadura no Brasil.
Sinopse: Essa obra é a segunda incursão do autor pelo gênero romance. Tendo como coadjuvantes os universos da redação jornalística e da música popular dos anos 1980, esta ficção-verdade desvenda o desejo reprimido e o tesão liberado, a convivência com um mundo opressivo e a maneira de fugir dele.

 

Livros podem sim ser sua  melhor defesa para conversas não desejadas. Toda vez que você cruzar com alguém cheio de ódio contra minorias, com ranço para os pequenos holofotes que estamos conseguindo sobre a diversidade sexual ou com frases prontas e cheias de clichês/desconhecimento sobre o assunto você pode:
  1. citar uma frase de algum livro de nosso top 5;
  2. virar para o lado e colocar um desses livros sobre o rosto;
  3. dar um golpe ninja na cara dessa pessoa com o livro (brincadeira, somos contra violência);
  4. levantar e ir embora porque perder tempo com haters não leva a lugar algum;
  5. com paciência, debater abertamente sobre o assunto, tentando trazer à tona reflexões e consciência sobre tolerância, amor e cidadania.

Qual estratégia você mais usa? Tem alguma outra dica? Conta pra gente nos comentários! =)


Hanny Saraiva

A Metafísica de John Donne

A Metafísica de John Donne

John Donne foi um poeta jacobita inglês e pregador que viveu entre 1572 e 1631. É um dos maiores representantes dos poetas metafísicos de sua época. Em 1624 ele escreveu uma série de reflexões as quais foram publicadas em formato de livro com o título Devotions upon Emergent Occasions. E foi nesse livro que ele publicou um dos seus mais famosos textos: Meditação 17 que ficou conhecido por frases como “nenhum homem é uma ilha isolada” e “por quem os sinos dobram”. Tomei conhecimento dessa última frase anos atrás, sem saber quem era autoria, através do Raul Seixas que batizou o 9º álbum da carreira e uma das músicas com esse título. Antes do Raul, o escritor Ernest Heming­way, em 1940, publicou sua obra “Por quem os sinos dobram”. Assim que pude ler o texto que inspirou o disco do Raul e o livro de Hemingway fiquei encantado. Principalmente por John Donne ser um individuo que viveu num tempo tão distante do nosso. Sempre que leio esse texto fico fascinado com essa atemporalidade da arte, da poesia. Um homem que viveu entre o século 16 e 17 escreve um texto que vai tocar profundamente um homem do século 21. E isso faz com que eu pense em um outro texto de um outro escritor, Eduardo Galeano, publicado no seu O Livro dos Abraços, mas isso fica para uma outra hora. Por ora, fiquem com esse episódio de L.Í.R.I.C.O dedicado a John Donne:

Por que a cultura pop ama Edgar Allan Poe?

Por que a cultura pop ama Edgar Allan Poe?

Um homem que morreu supostamente louco e perdido nunca poderia imaginar que suas obras ganhariam uma imensidão de influências na contemporaneidade. Se Poe vivesse na atualidade, ele sobreviveria à cultura pop? Não sabemos, mas a cultura pop e Edgar Allan Poe andam de mãos dadas. Livros, séries, adaptações, ano após ano suas histórias são desmembradas e compartilhadas ao redor do mundo. Por que a cultura pop ama Edgar Allan Poe?

O medo e a ambiguidade de seus personagens

Ele está presente em nossas estantes, pois nunca parou de ser vendido. Sua narrativa não envelheceu, as histórias possuem a capacidade de se transmutarem para outras mídias, abrindo o leque de possibilidades e adaptações. Poe dominava a arte do mistério, pioneiro em usar medo, loucura, culpa e histeria como forma de identificação. Quem nunca sentiu o que o personagem sente em “O gato preto” ou o medo atravessar a espinha em “A máscara da morte escarlate”? Sua construção cuidadosa é como um espelho para nossos próprios medos e somos atraídos por essa atmosfera lúgubre, principalmente porque o autor lida com a morte o tempo todo e nos mexe e remexe com as probabilidades de não haver nada além do fim ou de haver muito mais do que conseguimos suportar. Ele nos brinda com o medo da perda, de não conseguirmos suportar ver quem amamos ir antes de nós, mas acima de tudo, ele nos faz testemunhas de crimes que poderíamos ter cometido. Seus personagens se deparam com  aquele momento onde a linha tênue entre sanidade e loucura se rompe, onde o elo entre ódio e reprimenda se finda, ele brinca com nossa racionalidade e nossos próprios demônios, tão inatos dentro de nós. Suas histórias são uma tentativa de fuga, de catarse. Seus personagens são ambíguos, não são bons ou maus, mas humanos. Poe levou o gênero de horror a um nível de aprimoramento, focando no terror psicológico ao invés de apenas descrever um cenário de assombração. Não só a ambiguidade e o medo são representantes presentes em suas narrativas, mas também há humor e esperança em suas histórias, uma forma de empatia para com aqueles que estão perdidos e que lutam para que seus sentimentos se acalmem e tudo passe. Nesse mundo violento, mas que tenta a todo custo mascarar nossos medos em busca de felicidades constantes, nada mais atual, hein?

O mestre das técnicas

Poe pode ser considerado o pai do conto, foi com ele que aprendemos que narrativas precisam ser lidas de uma sentada só, ou seja, precisam ser curtas e envolventes para que as histórias possam fluir e ser degustadas. A contemporaneidade vive um momento onde há necessidade de se chegar ao fim da notícia, de passar os olhos pelos títulos, de ser captado pelo momento. Poe é o mestre do momento. Ele não apenas escrevia, mas como analisava a arte literária. Foi o primeiro a criar a teoria do conto, dissecando sua poética e seus procedimentos de construção. Poe acreditava que a narrativa curta era a forma mais apropriada para expressar o talento de um artista e a brevidade um fator essencial para essa boa narrativa, indo contra a teoria tradicional da época que prezava o romance, virando hoje em dia ídolo de escritores que escrevem para a cultura pop. Avant-garde, certo? Sua teoria da unidade de efeito – onde o leitor deve ler a história de uma única vez, assim não se desconcentrando com as interferências externas durante a leitura – ainda é muito discutida e aplicada no meio acadêmico literário e por escritores. A beleza, para o autor, deveria ser peça fundamental do poema enquanto que a verdade a do conto. Seus poemas, por exemplo, são imagéticos, com muita aliteração e comparação, criando uma atmosfera sufocante, onde as palavras parecem nos engolir. Dentro de uma sociedade DIY, procuramos referências para que possamos construir nossa própria arca e nada mais atual do que procurar por aqueles que construíram os primeiros baús, né? Além disso, sua literatura está disponível para adaptação sem necessidade de pagamento de direitos autorais. 😉

Vida trágica

Em uma sociedade onde ainda temos Big Brothers e teorias mirabolantes, Edgar Allan Poe parece ter virado personagem de sua própria construção literária. Sua trágica vida atrai muitos curiosos e especular sobre o que teria acontecido no seu dia a dia é pano certo para construir uma colcha de possibilidades. Quem não curte saber o que o artista poderia ter feito se tivesse mais tempo? O ser humano é atraído por tragédias e pagar para resolver mistérios nunca saiu de moda. O que ele fazia, como vivia, o que será que sentia? – questionamentos que continuam a passar pelas cabeças daqueles que começam a conhecer o autor ou que já destrincharam suas teorias antigas, em busca de novas. Perspectivas sobre uma vida de tragédia rende muitas adaptações e inspira artistas em todo o mundo. Mais atual, impossível.

Qual a melhor adaptação de Poe que a cultura pop produziu? Conta para gente nos comentários. =D


Camiseta literária Os Mistérios de Allan Poe

 

 

7 autores brasileiros para você se deliciar nesse verão

7 autores brasileiros para você se deliciar nesse verão

A estação mais quente do ano chegou e com ela suor, cerveja e praia? Para alguns sim, mas para aqueles de coração literário o verão também é uma época para colocar as leituras em dia, descobrir novos autores e finalmente ler algum clássico. 2018 será um ano de mudanças e que tal começar conhecendo 7 autores brasileiros que, com certeza, você pode te deliciar nesse verão?

1. Ana Paula Maia

Ana Paula Maia

Escritora e roteirista, nascida em Nova Iguaçu. Ex-evangélica, ex-punk rocker. A Folha de São Paulo diz que a autora de Assim na Terra como embaixo da terra “produz literatura violenta dentro de universo masculino”. Suas obras têm ganhado destaque internacional por tratar de ambientes predominantemente masculinos, brutais e com pinceladas distópicas, leitura obrigatória para quem aprecia narrativas com atmosferas ásperas.

2. Vivi Maurey

Viviane Maurei

A autora carioca publicada pela Globo Alt já foi editora da Rocco e hoje se dedica exclusivamente à carreira de escritora. #Fui é seu primeiro romance e conta a história de uma garota que vai fazer uma viagem de intercâmbio e se vê em uma encruzilhada, tendo que decidir entre 3 caminhos diferentes. O grande destaque de Maurey é sua capacidade de nos colocar dentro desse romance contemporâneo de forma leve e divertida, quase uma Bridget Jones brasileira.

3. Julián Fuks

Julián Fuks

Paulista, escritor e crítico literário. O vencedor do Prêmio Jabuti de 2016 não poderia ficar de fora dessa lista. A revista Granta o indicou para entrar em sua edição de “Os melhores jovens escritores brasileiros” e suas obras têm ganhado diversos prêmios. Fuks aborda temas como exílio e memória de maneira sensível e primorosa. Destaque para seus livros A resistência e Histórias de literatura e cegueira.

4. Daniel Galera

Daniel Galera
Escritor e tradutor, com várias adaptações para cinema, teatro e HQs, seu livro Mãos de Cavalo foi presença obrigatória na lista de leituras para o vestibular por 3 anos. Nosso destaque vai para Barba ensopada de sangue, pois se passa em um pequeno balneário de Santa Catarina e resgata temas como construção de identidade, afeto e violência. Ótima leitura para quem ama diálogos ágeis.

5. Vanessa Barbara

Vanessa Barbara

Jornalista, tradutora e escritora, colunista do New York Times e Folha de São Paulo. Também foi selecionada para a coletânea da revista Granta como melhor jovem escritora brasileira. Introvertida e talentosa, a autora de O livro amarelo do terminal e Noites de alface é indicação certa para quem adora livros que prezem pelo senso de humor e ironia.

6. Luisa Geisler

Luisa Geisler

Gaúcha, que aos 19 anos foi vencedora do Prêmio SESC de Literatura  com o livro Contos de Mentira, Geisler é uma autora que caminha entre o doce e o trágico, com uma narrativa ácida e um foco nas relações contemporâneas e no cotidiano. Se você procura uma leitura sobre a dor e a delícia de crescer, por exemplo, indicamos Luzes de emergência se acenderão automaticamente.

7. Carlos Drummond de Andrade

Nossa indicação de clássico para esse verão é o livro Contos Plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade. Por que Drummond? Por que esse livro? Contos Plausíveis é leve, breve e mostra como Drummond adorava contar histórias e “inventar causos”. Perfeito para o verão, não? Acreditamos que é uma ótima pedida caso queira ficar deitado na rede, com aquele céu azul sobre sua leitura e um sorriso constante no rosto. Coisa que só um mestre é capaz de nos proporcionar.

Camisetas de carlos Drummond de Andrade


Conhece algum outro autor brasileiro que não está nessa lista? Adoraríamos conhecer! Compartilha com a gente nos comentários.


Hanny Saraiva

O verão dos livros, com livros, para os livros!

O verão dos livros, com livros, para os livros!

É hora de ler, de vestir, de respirar literatura sem moderação. Vamos tirar a gravata, a saia. Vamos respirar o ar da praia e das páginas. Ler na piscina, na areia, na praça enquanto todo o dia passa. Vamos gelar o quarto e se comover com histórias, poemas, crimes sem solução. Dormir bem mais tarde, acordar em hogwarts ou num asteroide com um pequeno príncipe te dando a mão.
…e Quando chamarem nosso nome, quando bater aquela fome ou tiver desejo de abrir o telefone, já sabe: só mais uma página!

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Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros.

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros.

Difícil foi cada um da nossa equipe escolher seu poema preferido. São tantos textos geniais que é uma tarefa quase impossível escolher um poema apenas. Dessa forma, o que temos aqui são 10 poemas fundamentais para os colaboradores da Poeme-se.  Isso deixa margem, de propósito, para que você agregue o seu poema favorito nos comentários (ou os seus..rs)

1 – O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
-O livro sobre nada, Manoel de Barros.

2- Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
-Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros.

3- O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
-do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, publicado em 1999.

4- O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
-Memórias Inventadas – As Infâncias de de Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.

5- Obrar

Naquele outono, de tarde, ao pé da roseira de minha
avó, eu obrei.
Minha avó não ralhou nem.
Obrar não era construir casa ou fazer obra de arte.
Esse verbo tinha um dom diferente.
Obrar seria o mesmo que cacarar.
Sei que o verbo cacarar se aplica mais a passarinhos
Os passarinhos cacaram nas folhas nos postes nas pedras do rio
nas casas.
Eú só obrei no pé da roseira da minha avó.
Mas ela não ralhou nem.
Ela disse que as roseiras estavam carecendo de esterco orgânico.
E que as obras trazem força e beleza às flores.
Por isso, para ajudar, andei a fazer obra nos canteiros da horta.
Eu só queria dar força às beterrabas e aos tomates.
A vó então quis aproveitar o feito para ensinar que o cago não é uma
coisa desprezível.
Eu tinha vontade de rir porque a vó contrariava os
ensinos do pai.
Minha avó, ela era transgressora.
No propósito ela me disse que até as mariposas gostavam
de roçar nas obras verdes.
Entendi que obras verdes seriam aquelas feitas no dia.
Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas
desprezíveis
E nem os seres desprezados.
-Memórias Inventadas – As Infâncias de de Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.

6- Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio
― Manoel de Barros, Tratado Geral Das Grandezas Do Ínfimo

7-O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

8- Do livro Arranjos para assobio

VI.

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco; ao ponto de
ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las pro chão,
corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco,
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.
– livro Arranjos para assobio, Manoel de Barros.

9-Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, 
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de 
uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”, Rio de Janeiro: Record, 2000.

10-Um songo

Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.
– Manoel de Barros, em “A biblioteca de Manoel de Barros”. São Paulo: Editora Leya, 2013.

 

10 camisetas para poetizar seu amigo oculto

10 camisetas para poetizar seu amigo oculto

Então o fim do ano chegou. Com ele, vem aquela sensação de retrospectiva, de experiências vividas – válidas ou não – e o habitual momento de brincar de amigo secreto, amigo oculto, amigo X ou amigo invisível. Não importa a nomenclatura, vem dezembro e com a tradição aquela dúvida anual: o que dar para esse nome no papelzinho? Separamos 10 camisetas especiais para deixar seu amigo feliz. Como escolher? Fácil, analise a pessoa: ela tem cheiro de qual poeta?
Feita especialmente para aqueles que curtem uma boa conversa de bar, filosofia, um cigarrinho acompanhado de uma boa cerveja. Para aqueles que pensam como Neruda, “Poderão cortar todas as flores, mas não poderão deter a primavera”.

2. Fernando Pessoa

É uma camiseta para aquele amigo sábio, que adora contemplar a vida e tem frases certas para aqueles momentos desesperados. Otimista, pode muito bem repetir a frase do poeta que você poderia até pensar que é dele: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.”

3. Mano Melo

Essa camisa é perfeita para aquele amigo “cidadão do mundo”, que procura “trocar amor com quem também ame”. Aquele amigo que adora declamar sobre paixão, liberdade, política, humor e crítica social.

4. José Saramago

Sabe aquele amigo que muitas vezes está calado no canto, apenas observando a cena e que do nada vem com a solução do problema? Ele tem uma alma Saramago, não apenas vê e sim repara, conserta aquilo que precisa ser mudado, um mestre da linguagem e das palavras-chaves.

5. Anaïs Nin

Livre, inquieta, sem rótulos. Essa camiseta é perfeita para a pessoa que aprecia histórias de libertação e superação, que acredita na igualdade de sexos e é aberta à novas experiências sexuais e emocionais. Já dizia Nin, “a única anormalidade é a incapacidade de amar.”

6. Cecília Meireles

Sabe aquele amigo que quando chega no ambiente, nossos olhos estreitam e a palavra “fofura” paira no ar? A frase “Nem alegre, nem triste. Poeta” define a personalidade dessa pessoa que tem no sangue uma eterna asa ritmada.

7. João do Rio

Sempre haverá a rua e um bar para afogar as mágoas e brindar às alegrias. João do Rio é a representação do boêmio, flâneur e contista que vê nas ruas sua casa. Temos certeza que aquele amigo que sempre chama para um chopinho vai amar essa camiseta! Afinal, é sempre ele que tem uma história na ponta da língua para relembrar os casos que aconteceram no bar.

8. Lygia Bojunga

Seu amigo oculto vive com um livro debaixo do braço e sabe todas as novidades literárias do mercado? Ele tem a essência da frase da poeta gaúcha “pra mim livro é vida”. 100% algodão, 100% poesia. Bingo, você encontrou o presente perfeito.

9. Shakespeare

Camiseta essencial para aquele amigo tradicional, que adora a elegância dos clássicos e que tem uma queda pelo bardo inglês. Ao ler a frase “Embora sejas mau, velho tempo, e apesar de teus erros, meu amor permanecerá jovem em meus versos” temos certeza que o coração dessa pessoa bate mais forte.

10. Seleção de poetas

Para aquele amigo apaixonado por futebol e poesia brasileira, aquele que sabe de cor qual era o time de 1970 e quais os maiores monstros da literatura brasileira. Para esse amigo, Brasil é sinônimo de versos e uma boa bola.

Lembre-se, a camiseta é pro seu amigo. Pense nele em primeiro lugar porque o maior erro ao presentear alguém é pensar na gente. Porém, se o desejo for muito, muito intenso, que mal tem em ter uma camiseta poética para si também, né? Poeme-se