É muito bacana quando a curadoria da Poeme-se começa: lemos muito sobre o autor, seu significado no tempo, o significado de seus textos,  de sua obra… Depois de nos sentir íntimos o suficiente, começamos a colher fragmentos e mais fragmentos de seus escritos. Depois, na hora derradeira, a escolha final é sempre cercada de amor e dúvidas. Costumamos dizer que é um parto cada curadoria. Confira agora os poemas que deram origem a algumas de nossas camisetas mais incríveis.

Quadras da Minha Vida (fragmento)
 Houve tempo, em que possível
Eu julguei no mundo achar
Dois amigos extremosos,
Dois irmãos do meu pensar:
Amigos que compr’endessem
Meu prazer e minha dor,
Dos meus lábios o sorriso,
Da minha alma o dissabor;
Amigos, cuja existência
Vivesse eu co’o meu viver:
Unidos sempre na vida,
Unidos – té no morrer.
Amizade! – união, virtude, encanto –
Consórcio do querer, de força e d’alma –
Dos grandes sentimentos cá da terra
Talvez o mais recíproco, o mais fundo!
Quem há que diga: Eu sou feliz! – se acaso
Um amigo lhe falta? – um doce amigo,
Que sinta o seu prazer como ele o sente,
Que sofra a sua dor como ele a sofre?
Quando a ventura lhe sorri na vida,
Um a par doutro – ei-los lá vão felizes;
Quando um sente aflição, nos braços do outro
A aflição, que é só dum, carpindo juntos,
Encontra doce alívio o desditoso
No tesouro que encerra um peito amigo.
Cândido par de cisnes, vão roçando
A face azul do mar co’as níveas asas
Em deleite amoroso; – acalentados
Pelo sereno espreguiçar das ondas,
Aspirando perfumes mal sentidos,
Por vesperina aragem bafejados,
É jogo o seu viver; – porém se o vento
No frondoso arvoredo ruge ao longe,
Se o mar, batendo irado as ermas praias,
Cruzadas vagas em novelo enrola,
Com grito de terror o par candente
Sacode as níveas asas, bate-as, – fogem.

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Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Poema retirado do livro “Sonetos” de Luís Vaz de Camões.

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 Amigo! O campo é o ninho do poeta…
Deus fala, quando a turba está quieta,
As campinas em flor.
—  Noivo —  Ele espera que os convivas saiam…
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura —  amor —

Vem comigo cismar risonho e grave…
A poesia— é uma luz… e a alma— uma ave…
Querem —  trevas e ar.

A andorinha, que é a alma —  pede o campo.
A poesia quer sombra— é o pirilampo…
P’ra voar… p’ra brilhar.

Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas…
Que perfume nas doces maravilhas,
Onde o vento gemeu!…
Que flores d’ouro pelas veigas belas!…
Foi um anjo co’a mão cheia de estrelas
Que na terra as perdeu.

Aqui o éter puro se adelgaça…
Não sobe esta blasfêmia de fumaça
Das cidades p’ra o céu
E a Terra é como o inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento.
Cujo cálix pendeu!
Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas
Leva a concha dourada… e traz das plagas
Corais em turbilhão,
A mente leva a prece a Deus — por pérolas
E traz, volvendo após das praias cérulas,
—  Um brilhante —  o perdão!

 A alma fica melhor no descampado…
O pensamento indômito, arrojado
Galopa no sertão,

Qual nos estepes o corcel fogoso
Relincha e parte turbulento, estoso,
Solta a crina ao tufão.

 Vem! Nós iremos na floresta densa,
Onde na arcada gótica e suspensa
Reza o vento fetal.
Enorme sombra cai da enorme rama…
É o Pagode fantástico de Brama
Ou velha catedral.

 Irei contigo pelos ermos — lento —
Cismando, ao pôr do sol, num pensamento
Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!…
Para ter por planeta a humanidade,
Deus num cerro o fixou.

 Ao longe, na quebrada da colina,
Enlaça a trepadeira purpurina
O negro mangueira!! . . .
Como no Dante a pálida Francesca
Mostra o sorriso rubro e a face fresca
Na estrofe sepulcral.

 O povo das formosas amarílis
Embala-se nas balsas, como as Willis
Que o Norte imaginou.
O antro — fala… o ninho s’estremece…
A dríade entre as folhas aparece…
Pã na flauta soprou!…

 Mundo estranho e bizarro da quimera,
A fantasia desvairada gera
Um paganismo aqui.
Melhor eu compreendo então Virgílio…
E vendo os Faunos lhe dançar no idílio,
Murmuro crente: — eu vi! —

 Quando penetro na floresta triste,
Qual pela ogiva gótica o antiste,
Que procura o Senhor,
Como bebem as aves peregrinas
Nas ânforas de orvalho das boninas,
Eu bebo crença e amor!…

 E à tarde, quando o sol —  condor sangrento —
No ocidente se aninha sonolento,
Como a abelha na flor…
E a luz da estrela trêmula se irmana

 Co’a fogueira noturna da cabana,
Que acendera o pastor,

 A lua —  traz um raio para os mares…
A abelha — traz o mel… um treno aos lares
Traz a rola a carpir…
Também deixa o poeta a selva escura
E traz alguma estrofe, que fulgura,
P’ra legar ao porvir!…

 Vem! Do mundo leremos o problema
Nas folhas da floresta, ou do poema,
Nas trevas ou na luz…
Não vês?… Do céu a cúpula azulada,
Como uma taça sobre nós voltada,
Lança a poesia a flux!…

Poema retirado do livro “Espumas Flutuantes”. 

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Primaveras

A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o
lago Da brisa louca aos amorosos frisos.
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.
Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.
Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: —Como é linda a veiga!
Responde a rosa: — Como é doce o orvalho!

Poema retirado do livro “As Primaveras” de Casimiro de Abreu.

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