Dia 1º de Maio é o Dia do Trabalho e, falando nisso, em “Bartleby, o Escriturário”, temos uma boa visão do ambiente insalubre dos trabalhadores de escritórios na Wall Street do século XIX. Descreve-se um ambiente abafado, de proporções menores do que o esperado, com pilhas infinitas de arquivos, colegas de trabalho que em nada dão suporte e, acima de tudo, um chefe sem empatia alguma. 

Essa novela foi publicada originalmente em 1853. Melville poderia ter escrito um tratado sobre o corpo do trabalhador obediente que é moído pela engrenagem do trabalho anterior à conquista dos direitos legais, mas nosso personagem escriturário emblematicamente se posiciona contra o sistema. Sua luta se dá através de três palavras, pronunciadas repetidas vezes como resposta às ordens do chefe: “Eu preferiria não”. 

Com isso, a Literatura se coloca como uma voz que não se conforma perante os abusos que ocorrem ao nosso redor. Desta maneira, em homenagem ao Dia do Trabalhador, entendido aqui como um dia em que se luta por mais direitos e em que se denunciam ambientes insalubres de trabalho, vamos listar CINCO outras obras provocativas e que preferem dizer não, de uma forma ou de outra, ao sistema. 

1. “O Capote”, de Nikolai Gógol.

Da mesma forma que observamos, horrorizados, o local de trabalho do Bartleby, neste conto longo do Gógol também vemos um trabalhador infeliz, que gasta mais tempo no trabalho do que fora dele e lidando o tempo todo com a falta de empatia. Ele deseja (e consegue) juntar dinheiro para comprar um capote, isto é, um tipo de capa ou casaco que o protegerá melhor do clima chuvoso e friorento. A partir daí se desenrola a história, com os colegas invejosos que trabalham no mesmo local.

2. “Vidas Secas”, Graciliano Ramos.

Aqui, acompanhamos a saga familiar de trabalhadores braçais, tentando sobreviver ao Sertão e, também, aos homens. A falta de acesso à educação tem como consequência trabalhadores que não têm como contestar sequer as contas matemáticas do patrão, que sempre deixam o nosso personagem Fabiano com menos dinheiro no bolso. Este romance mostra de forma crua um ambiente onde, ainda hoje, as leis trabalhistas não chegam… 

3. “Stoner”, de John Williams.

A vida do professor universitário de literatura descortina a fogueira das vaidades que existe no núcleo dos departamentos acadêmicos. Stoner é o nome do personagem principal, que só queria ter uma vida simples e sem muitos problemas, mas que tem que lidar com um desafeto seu que vira chefe do departamento. Com isso, seguem-se diversos abusos morais.

4. “Olhos D’água”, de Conceição Evaristo.

Não seria possível falar de apenas um dos contos aqui presentes, então vai o livro inteiro. Ele é repleto de personagens trabalhadores, muitos dos quais informais e que não são protegidos por lei trabalhista alguma. Vemos, também, o outro lado: o do desemprego, na figura de um morador de rua, cujo quarto de dormir é embaixo de uma marquise, justamente num centro comercial, repleto de trabalhadores. Isso cria um forte contraste poético… 

5. “Um teto todo seu”, de Virgínia Woolf.

Este livro é fruto de duas palestras que Woolf ministrou e que a própria preparação ocasionou diversas problematizações necessárias. A autora, já famosa, por exemplo, não podia sequer entrar na Biblioteca da universidade sem estar acompanhada de um homem ou sem a autorização expressa do Reitor. Mais do que isso, Woolf defende algo emblemático: para se tornar uma escritora, para se desenvolver essa função, a mulher precisa de um teto todo seu, isto é, de um lugar onde possa escrever. Não se pode esquecer que a mulher também precisava ter o poder legal de administrar os próprios bens.

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Trabalho 5 obras literárias sobre as relações trabalhistas perfil do autor Rafael Ottati.

6 Replies to “5 obras literárias sobre as relações trabalhistas

  1. Parabéns meu amigo Rafa!!! Sensacional! E nessa lista podemos incluir tantas outras obras com a mesma visão! O que falar do personagem “Calixto” do romance do escritor Ferréz… Que sem que ele queira, tudo começa a não fazer mais sentido… ?!?!

  2. Excelente análise, obras representativas de seu tempo e que se conectam com nosso atual mundo do trabalho.
    Recomendo “O Capote” que chega a ser assustador de tão semelhante ao “nosso tempo”.
    Conhecer para refletir e intervir nas realidades que desejamos mudar, é isso o que a leitura nos proporciona..
    Parabéns pelo artigo!
    Já estou no aguardo dos próximos!

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