Você pode estar estranhando o título. Ele possui um tom solene, quase heroico. Ele é retirado de Bernardo Soares, uma das muitas vozes que povoavam a vida e a mente do nosso grande poeta Fernando Pessoa.

            Assim como ele, tanto no Brasil quanto em Portugal, muitos já cantaram sobre a “última flor do Lácio, inculta e bela”, como diria Olavo Bilac. Mas, dessa vez, vamos voltar mais ainda no tempo para redescobrir quem, de forma épica, usou a nossa língua para cantar as aventuras de um povo.

            Camões foi um verdadeiro pioneiro do Português e dos Portugueses. Soldado, inspirou-se para compor a verdadeira obra-prima que é a epopeia portuguesa por excelência, Os Lusíadas. Mas ele se inspirou longe para chegar a compor o seu texto. Essa inspiração veio das bases da língua portuguesa: o latim.

            Nosso idioma veio da junção do latim e das línguas celtas faladas na península ibérica, recebendo adições de povos subsequentes até chegar ao formato de hoje. E ela ainda está em fases de mais mudanças. Camões se inspirou no poeta latino Virgílio, que na sua Eneida, canta epicamente a fundação de Roma.

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Ver ColeçãoLuís de Camões

            A inspiração camoniana não foi algo gratuito, pois na época, a escola literária chamada Classicismo estimulava que se buscassem modelos na antiguidade clássica. Por isso, Virgílio diz: “As armas canto e o varão que, fugindo das plagas de Tróia por injunções do destino, instalou-se na Itália primeiro e de Lavínio nas praias.” Camões responde: “As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dante navegados, passaram além da Taprobana”. Não é 100% igual, mas é quase.

            Séculos mais tarde, quem também se inspiraria na antiguidade clássica para produzir seus poemas, é o poeta português Antônio de Castro Feijó. Não confundir com o nosso Regente Feijó. Ele foi da escola literária chamada Parnasianismo. Ao invés de escrever um grande épico, com dez cantos, como nosso primeiro grande poeta, Feijó preferia a simplicidade rigorosa de formas como o soneto e as quadras, com sua forma fixa e suas rimas ricas. Era um ourives da língua, colocando cada palavra em seu lugar como um atento joalheiro coloca um diamante em um anel.

A Águia Prisioneira

Aguia soberba a quem mão perversa d’escravo,
Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d’esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…
 
A aguia, aturdida e cega, a princípio esvoaçava
Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,
Sem saber d’onde vinha a dor que a lancinava,
Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
 
Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
Cobra o ânimo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,
Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,
Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
 
E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
Que de repente, não podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o coração no peito,
E veio aos pés do escravo exanime rolar…
 
Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
Quando julga atingir a suprema verdade,
No pó, d’onde partiu, cae outra vez de rojo!

A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA camiseta literária Fernando pessoa

Ver ColeçãoFernando Pessoa

            Nosso percurso termina no poeta Fernando Pessoa, que teve a sua produção mais arrojada no modernismo português. Fechamos assim um ciclo em que buscamos três dos maiores poetas lusos que a seu modo propagaram enriqueceram nosso idioma. Por um lado, se deixamos tantos outros de fora, temos Pessoa, que dentro de si carregava ao menos 72 outras pessoas. Seus heterônimos são figuras bastante peculiares. Falarei deles em breve.

            Pessoa cantou a língua com tanta paixão que brincou com sua noção de território. Portugal já não basta, agora a sua pátria é a própria língua portuguesa. Aquela que é a 6ª língua mais falada no mundo.

            A Minha Pátria é a Língua Portuguesa

            Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Que possamos nos unir com nossos irmãos de idioma, fortalecendo mais ainda a nossa comunidade de falantes espalhadas ao redor do mundo.

Até a próxima!

LÍNGUA PORTUGUESA  mini bio Mário Felix

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