Pensando sobre a imigração japonesa e seu desenrolar, que adicionou mais tempero ao Brasil já miscigenado e integrado com diversas culturas, me veio à mente o famoso Kasato Maru, que em 1908 trouxe os primeiros 781 imigrantes ao Brasil, mais especificamente ao Porto de Santos. É um misto de sensações que me levam de volta ao Período Edo e ao mestre Bashô, o grande mestre do Haikai.

Bashô viveu exatamente 50 anos, entre 1644 e 1694. O Período Edo, também conhecido como Tokugawa, compreendeu os anos entre 1603 e 1868. Ele ficou conhecido como Idade da Paz Ininterrupta. Era um Ronin, um samurai sem mestre. Não, ele não foi um rebelde, mas seu amo havia falecido e não conseguiu se filiar a outro. Então, como todo guerreiro disciplinado da época, dedicou-se às artes e elevou-se a tão alto patamar, que ficou conhecido como mestre ainda em vida.

Quem primeiro me ensinou sobre o grande mestre não foi nenhum oriental, mas um poeta marginal brasileiro que viveuentre 1944 e 1989: Paulo Leminski. Um rapaz filho de pai imigrante polonês e mãe de ascendência negra e indígena, e que foi diretamente afetado pela cultura oriental que veio naquele mesmo Kasato Maru que falei anteriormente. Nosso poeta foi um multiculturalista, uma verdadeira salada que tinha de tudo um pouco dentro de si. Foi Leminski que, na sua biografia sobre o mestre Bashô, escreveu de acordo com a sua sensibilidade:

“Tabi (viagem) é uma das palavras prediletas de Bashô (a outra é yumê, sonho). Assim viajou Bashô, a pé, em sua vida errante, por todo um Japão agreste e agrário, atrás de luas, lagos, templos dentro de florestas, buscando o vaga-lume do haikai.”

Como essa vida não foi a dos próprios imigrantes japoneses, que buscavam as mesmas situações em uma São Paulo agreste e num Paraná agrário? Trabalhando originalmente nas lavouras de café, sem falar o idioma ao qual estavam expostos agora, conservavam suas tradições, buscando escrever suas próprias histórias. Tanto que o Brasil tem a maior comunidade japonesa fora do Japão.

Quem sabe não teriam pensado no mestre, quando em plena primavera, zarparam de porto de Kobe. Talvez alguém tenha declamado um haikai:

PRIMAVERA (entre 1684 e 1694)

蝶鳥の浮つき立つや花の雲

chō tori no / uwatsuki tatsu ya / hana no kumo

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

E também ao desembarcar em Santos, em pleno verão de dezembro nos trópicos, a verdadeira inspiração deva ter sido este outro:

Bashô era um Viajante camiseta literária basho poeme-se

Ver coleçãoBashô

VERÃO (entre 1681 e 1683)

ほととぎす今は俳諧師なき世哉

hototogisu / ima wa haikaishi / naki yo kana

Vozes das aves.
Nessas horas, um poeta
não tem mais mundo.

Às vezes me pego pensando em todos os desafios enfrentados, todos os desejos e necessidades encontrados por todas essas personalidades. Uns buscavam exprimir suas observações e seus espíritos, outros procuravam inspiração nesses mestres e viajantes para dar esse salto de fé rumo ao desconhecido.

Sigamos como o mestre Bashô, ambulando sem rumo para ver as belezas do mundo.

Até a próxima.

Bashô era um Viajante mini bio Mario Felix

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