O sábado 07/09/2019 foi um dia histórico para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. O Tribunal de Justiça do Rio, no meio da tarde, autorizou a ação de recolhimento de livros com teor LGBT por agentes da prefeitura. O que estava evidente é que uma interpretação leviana das leis estava sendo utilizada para censurar conteúdo supostamente “improprio”. Ainda havia uma última parte a ser distribuída dos 14 MIL livros que Felipe Neto comprara no dia anterior. A solução? Distribuí-los antes da hora. Foi uma distribuição pacífica, em que a galera gritava junta e batia palmas: censura nunca mais.

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Horas depois dos livros terem acabado, a guarda municipal chegou ao Riocentro, junto a oficiais de Justiça. A Direção da Bienal, por sua vez, com muita garra e jogo de cintura, atrasou a ação deles o quanto pôde. Quando eles estavam para entrar na Bienal, do outro extremo, irrompeu uma ação: com os livros “proibidos” na mão, milhares de pessoas gritavam palavras de ordem contra essa arbitrariedade por parte da prefeitura. Eram os livros contra a ação da (des)justiça.

Eles poderiam até ter voltado no domingo, mas a ação de sábado foi emblemática e nos fez lembrar de um livro: Chamadas, da Glac Edições. Chamadas são, grosso modo, manifestos. Este livro reúne 4 deles e no mais antigo (o italiano “ai ferri corti”, anônimo, de 1998), lemos que resistir ao poder e à ordem vigente, quando eles são autoritários e limitadores, é o que há de atraente e revolucionário nas ações políticas. “(…) nenhum poder pode manter-se sem a servidão voluntária de quem o tolera.”

O que ocorreu naquele sábado foi voluntário. Ninguém se conhecia. Não houve uma convocação. Foi espontâneo. Nós, leitores, livreiros e editores, estamos junto contra essa tentativa de censura (e as próximas). O recado foi dado.

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Quanto a isso, discutir o acontecido na Bienal apenas usando argumentos pró e contra a esquerda é, no fundo, um esvaziamento do debate. Na Ditadura Militar, o Chico Buarque, sempre alinhado à esquerda, foi censurado repetidas vezes, mas muitos artistas de direita também o foram. Músicas como “Tiro Ao Álvaro”, samba clássico de Adoniran Barbosa, foi censurada, por exemplo. De acordo com os censores, essa música era de mau gosto – o que evidencia o preconceito linguístico que envolvia o tal “bom gosto” do censor.

Para ficarmos com um último exemplo sobre a Ditadura Militar, resgatemos a figura de Carlos Zéfiro, artista que desenhava quadrinhos pornográficos, de baixa qualidade de impressão e que vendia em bancas de jornais clandestinas a míseros trocados. O mesmo “bom gosto” arbitrário da época que vociferava contra Chico Buarque também atacava esses artistas.

A História da humanidade pode ser descrita como uma sucessão de silenciamentos. Séculos atrás, cabe mencionar, livros contrários à Igreja Católica eram censurados frequentemente. Dante foi perseguido e exilado por conta de sua Comédia; Boccaccio chocou sua sociedade com o erotismo e a ética carnal e sexual de seu Decameron, e até o Leviatã do Thomas Hobbes.

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A arte também tem a função social de provocar os valores de sua época. No século XIX, quem não foi censurado? Talvez te cause estranheza, caro leitor, saber que Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi proibido, Primo Basílio, do Eça de Queiróz, idem, e muitos outros livros que hoje lemos na escola ou na faculdade como clássicos.

Pensando nisso, nós aqui na Poeme-se, que sempre nos posicionamos quanto a qualquer tipo de censura literária, estamos lançando uma linha de estampas para que nunca nos esqueçamos de toda a ruindade que emana quando se quer perseguir a arte.

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