Queen: Uma banda do universo do rock n´roll que dispensa maiores apresentações. Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon deixaram um legado de canções consagradíssimas, como “We are the champions”, “We will rock you”, “Love of my life”, “Bohemian Rhapsody”, dentre outras. Contudo, como ocorre com qualquer grupo musical, o Queen possui um repertório bastante vasto: Entre 1973 e 1991 foram lançados 13 discos de estúdio com composições autorais inéditas (isso sem mencionar o valoroso material lançado após a morte de Mercury). Logo, que tal darmos uma repassada no catálogo do Queen, indo além daqueles megassucessos executados nas rádios e incluídos nos Greatest Hits da vida? Vamos listar aqui cinco dessas faixas mais “obscuras” da banda, canções menos famosas que merecem mais atenção:

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1-“Flick of the wrist”

Quarta faixa do disco Sheer Heart Attack (1974), “Flick of the wrist” aborda a exploração que os membros da banda sofriam nas mãos de seus empresários. O título, traduzível como “Movimento do pulso”, faz alusão justamente ao movimento da mão no ato de assinatura de um contrato. Isso é corroborado logo no primeiro verso, em que é relatada a ameaça do empresário: “Deslocarei a sua coluna se você não assinar´, ele diz”. Sobre um instrumental tenso e coros elaboradíssimos, a letra constrói a descrição do patrão como uma figura monstruosa, alguém que “te hipnotiza quando está de bico calado/apenas com os olhos”, que lhe aplicará “uma cotovelada nas costelas e um chute na cabeça”. Vê-se aqui a descrição arquetípica de um chefe explorador de qualquer ramo, um empresário que incute na mente do trabalhador a ideologia capitalista mais cínica (que “Seduz você com sua máquina de fazer dinheiro”), garantindo ao empregado que dar o sangue pela empresa trará um lucro formidável, que ele é um “colaborador” da companhia, quando, em verdade, o empregado será explorado até a morte (“´Prostitua-se´, ele diz, (…) Sacrifique seus dias de lazer/Deixe-me espreme-lo até que você seque”).

2.“White man”

De A day at the races (1975), surge uma das músicas mais pesadas do Queen. “White man” fala sobre a invasão colonização europeia no continente americano. O eu lírico se identifica como um dos descendentes dos habitantes originais do continente americano: “Deste solo que meu povo veio/Neste solo permaneço(…)/ Mas o imigrante construiu rodovias/Sobre o nosso sangue e areia”. E o “Homem branco” que dá nome à canção é justamente o interlocutor desse indignado sujeito poético que vocifera as atrocidades cometidas pelo colonizador europeu em nome da “civilização”. Tem-se aqui uma representação de todas as populações indígenas que ainda sofrem as consequências históricas da opressão deste homem branco, que tomou suas terras e as destrói em nome do “progresso” (“Deixa meu solo em desgraça”), que tomou seus corpos, seja escravizando, estuprando ou assassinando (“Deixa meu corpo em vergonha”). Esse mesmo homem branco que ainda tem a desfaçatez de cometer tais crimes e evocar o deus de sua religião (“Sobre a Bíblia, você jura”). A letra enfatiza as falácias da sociedade eurocêntrica que se perpetuaram até então: “Homem branco/Luta suas batalhas com mentiras/Ainda mente”. Considerando que mesmo nos dias de hoje ainda ouvimos vozes que consideram as populações indígenas como “atrasadas”, que enxergam a ação do colonizador europeu como um “favor” ou que defendem a tomada de territórios indígenas em nome do “progresso”, vemos aqui uma composição ainda atual – e necessária. “Homem branco (…)/Nossa nação era verde/E todos os nossos rios corriam/Você veio com uma arma/E logo nossas crianças morreram/Você não dá a mínima/Para o sangue você derramou? ”

3. “Dead on time”

Com seu riff frenético e andamento veloz, temos aqui uma música que combina bastante com sua letra. Do disco Jazz (1978), “Dead on time” aborda a eterna pressa do homem contemporâneo. A letra dialoga com o ouvinte, chamando-o de um “Tolo”, que está “Sempre pulando/Nunca feliz onde pousa”, sempre correndo (“Rápido!Rápido!Rápido!”), para trabalhar o máximo possível e enriquecer (“Você tem que ficar rico/Saia no horário!”). É a descrição do homem hodierno, sob pressão, em incurável desespero: “Batendo no teto/Dando marteladas nas paredes/Tenho que sair! ”. O eu lírico ordena sucessivas vezes para que se “Saia no horário” (“Leave on time”), até que, finalmente, é trocado o verbo “leave” pelo adjetivo “dead” – E “saia no horário” se torne “Morto no horário”. Um retumbante “Você está morto! ” encerra a canção de súbito, seguido de um som de trovão, exibindo, assim, o resultado de se viver uma vida correndo contra o tempo, sempre com a sensação de eterno atraso, vivendo atrás de um insaciável ideal de sucesso imposto pela sociedade.

4.“Put out the fire”

O título já diz tudo: “Apague o fogo”, sendo este ´fogo´ as armas de fogo. A sexta faixa do álbum Hot Space (1982) do Queen é um típico “rockão” vibrante que se destaca em um controverso disco com influências eletrônicas. Trata-se de um manifesto contra o mito de que a população deve andar armada. A letra descreve atiradores, explicitando seus “motivos” para usar as armas e suas consequências, seguidos da crítica no refrão: “Apague o fogo/Você precisa de uma arma tanto quanto de um buraco na cabeça”. O eu lírico é bem explícito, dialogando com seu ouvinte: “Você sabe, armas nunca mataram ninguém/Você pode perguntar a qualquer um/Pessoas são baleadas por pessoas/Pessoas com armas”. Esse trecho faz uma crítica à ideologia das armas que ainda ronda a sociedade contemporânea, a cultura punitivista da violência perpetuada por aqueles que acreditam que a vida pode ser um grande faroeste onde o “cidadão de bem” deve portar armas pois tem o “direito de se defender”. “Put out the fire”, trazendo à tona a cultura da violência ainda presente em muitas sociedades ditas “civilizadas”, ainda encontra espaço para criticar o feminicídio, ao ilustrar uma (tristemente) verossímil situação em que um homem flagra a esposa cometendo adultério e encontra no revólver a “grande solução” para seu problema matrimonial: “Ela era a minha amada/Uma pena que ela morreu/Mas a constituição está do meu lado/Porque eu flagrei minha amada/Na cama do vizinho/Eu tive a vingança/Enchi os dois de chumbo”.

5. “Machines (or ´Back to humans´)”

A mecanização do mundo, o ser humano cada vez mais ciborguizado e dependente de máquinas. Essa é “Machines (or ´Back to humans´)”, do disco The Works (1984) do Queen. Coincidentemente, lançada no mesmo ano que dá título ao célebre romance de George Orwell, que ilustra um futuro distópico onde todo indivíduo é vigiado por tele-telas. Algo similar ao nosso presente, nessa era do algoritmo, dos smartphones, da eterna vigilância que impomos a nós mesmos e aos demais. Essa música é uma daquelas várias alarmantes obras que abordam o tema do homem controlado pela tecnologia e a desumanização causada pelo culto ao maquinário. A letra expressa bem o desespero da vida dominada pelas máquinas, e a inevitabilidade desse processo de: “É software, é hardware/É batimento cardíaco, é partilha de tempo/A vida sexual é quantizada/É auto-perpétua, parahumanoidizada”. Uma voz metalizada/robótica faz o contraponto, apregoando o ideal de perfeição do mundo maquínico: “Não temos doenças, nem problemas mentais/(…)Nós nunca choramos, nós nunca fugimos/Nós não temos nenhuma concepção do amor ou derrota”. O refrão, “De volta a humanos”, torna-se assim um desesperado apelo para os ouvintes nessa bela e dramática composição

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