“O Poeta é aquele que tira de onde não tem e coloca aonde não cabe”

Pinto do Monteiro

Em 2018, eu co-apresentei o podcast oficial da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Uma das minhas tarefas para realizar essa cobertura era, evidentemente, passear pelos vários corredores daquela festa literária gigante, prestando atenção aos estandes e, de todos, havia um que parecia… diferente. Era um caminhão, mas a lateral da caçamba havia sido “cortada”, servindo de palco. No chão, várias cordas faziam o papel de varais, mas, ao invés de roupas, havia livretos coloridos pendurados nelas — os cordéis. Esse “estande-caminhão” jamais ficava vazio: a multidão parava, olhava e se encantava. Era o Espaço Cordel e Repente. E, como é de se esperar, eu também fui encantado pela magia desse tipo de arte tradicionalmente nordestina.

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O cordel é uma forma poética com linguagem bastante regional e popular. É bem frequente encontrarmos cordéis musicados — e, retomando o estande-caminhão de que falei, raras vezes um cordelista se apresentava sem acompanhamento instrumental. Aliás, a abertura do Espaço Cordel e Repente foi ninguém mais, ninguém menos que Moraes Moreira, lançando seu livro mais recente: a história dos Novos Baianos em cordel.

Há um elemento histórico crucial deste tipo de poesia. O cordel brasileiro se inspirou no lusitano, especialmente no nome: nas feiras, em Portugal, vendiam-se folhetos presos a cordas finas, isto é… cordéis. Além do nome, o ato de se declamar os versos junto a um instrumento musical também se manteve presente na produção brasileira — o exemplo do Moraes Moreira não nos deixa mentir.

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Ainda falando do músico baiano, percebemos outra característica comum aos cordéis: o de contar uma história — biografia de uma personalidade importante ou narração de um acontecimento singular — em versos metrificados, rimados e, muito frequentemente, humorísticos. Figuras relevantes para a cultura nordestina, como Lampião e Padre Cícero, já originaram incontáveis cordéis, assim como encontramos com facilidade cordéis sobre lendas, boatos, romances e até piadas. Abaixo, seis cordéis que eu adoro e que exemplificam tudo o que foi dito acima. Divirtam-se!

“Os nossos antepassados
Eram muito prevenidos
Diziam: Mato tem olhos
E paredes têm ouvidos
Os crimes são descobertos
Por mais que sejam escondidos”

O tom jornalístico entremeado de ficcionalidade conta uma história bárbara de um assassinato ocorrido no ano de 1806, na Bahia. Valdivino Amorim, filho de um fazendeiro, tenta namorar com uma das filhas de Sebastião de Oliveira, um ferreiro. Ao ser rechaçado, e cheio de ódio, arma uma emboscada, matando os três filhos de Sebastião: duas moças e um rapaz. Pode o cão, de nome Calar, que testemunhou o crime, fazer justiça às vítimas? Esta é a sinopse de um cordel que foi composto há mais de cem anos! De lá para cá, já vendeu mais de um milhão de exemplares. Seu autor é Leandro Gomes de Barros, que foi pioneiro na publicação dos seus poemas, em 1893. Abaixo, um trechinho da obra, que está digitalizada e disponibilizada gratuitamente na página da Fundação Casa de Rui Barbosa:

“O cão voltou para casa
Aonde o dono morava
Uivava e muito latia
Como que o crime narrava;
Coisa que qualquer pessoa
Vendo aquilo lamentava”

“Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse? ”

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Os versos acima pertencem a Zé da Luz, poeta paraibano, cuja produção se tornou tão famosa que se encontra mais comumente na boca do povo do que impressa em livros. Personificando o cheiro, a cor e o sabor do nordeste, ele compôs versos trágicos, humorados e safados. Prova de seu sucesso é que o cordel que abriu esta seção, “Ai Se Sesse”, foi musicado em 2001 pela banda Cordel do Fogo Encantado.

“Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!”

“Apreciem, meus leitores,
Uma forte discussão,
Que tive com Zé Pretinho,
Um cantador do sertão,
O qual, no tanger do verso,
Vencia qualquer questão. ”

Ah, as tretas! Quer dizer, vamos falar de tretas reais e ficcionais. Um tema comum dos cordéis é o das pelejas. Dois cordelistas se atacam em versos e fazem uma batalha — qualquer semelhança com as batalhas de rimas no rap, nos slams e nos vídeos de YouTube não é mera coincidência, não. Os versos acima foram compostos por Firmino Teixeira do Amaral, um dos mais famosos cordelistas do Piauí. Os personagens são dois outros poetas conhecidos da época: Cedo Aderaldo, nascido em 1878, no Ceará, e Zé Pretinho, nascido no Piauí. Esses dois de fato travaram uma batalha de rimas, no ano de 1914, que se tornou tema do agressivo, mas também cômico cordel “Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho”, que foi gravada, décadas depois, por Nara Leão e João do Vale.

“Cego, creio que tu és
Da raça do sapo sunga
Cego não adora a Deus
O Deus de cego é calunga
Aonde os homens conversam
O cego chega e resmunga. ”

“O retrato de Lampião
Eu descrevo com capricho:
Não brigando, era simpático,
Dentro da luta era um bicho,
Com o seu terno de mescla
E alpargata de rabicho…”

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Cego Aderaldo, personagem da peleja recém-comentada, viveu quase até os 90 anos. Ficou tão famoso que virou um mito, no Nordeste. Nunca casou, mas adotou e criou 26 crianças. Seus versos influenciaram a música popular e as artes brasileiras das décadas de 1950 e 1960. Perdeu a visão em um acidente, mas descobriu que podia rimar e com isso passeou por diversos temas. O cordel selecionado trata de Lampião, uma das personalidades nordestinas mais retratadas. Um tanto jornalístico, mas muito pessoal e lírico, o poema se chama “Como vejo Lampião”, que tem esta belíssima estrofe descritiva:

“Ostentava na cabeça
Um grande chapéu de couro,
O seu pescoço era ornado
Com um lindo colar de ouro.
Se lia no rosto dele:
“Não suporto desaforo. ”

“Para quem não compreende
Me disponho a explicar
O problema do racismo
Que a tudo quer mudar
O cabelo é o primeiro
E também o derradeiro
Que o racismo quer barrar. ”

Se o cordel iniciou com hegemonia masculina, é importante trazer à baila uma das maiores cordelistas contemporâneas: Jarid Arraes. Nas primeiras décadas, muito cordel tinha tom jornalístico, no sentido de contar uma notícia. O motivo? O alto analfabetismo da população. Os cordelistas, então, serviam como poeta-repórter. O ato de dar notícias é, também, um ato político. Portanto, não espanta que Jarid Arraes traga a política para o centro de seus poemas. Em 2017, a autora publicou o livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, que fez imediato sucesso e canta a biografia de mulheres negras silenciadas ao longo da história. Além disso, ela já compôs mais de 60 cordéis no formato tradicional desse gênero poético. O cordel que abre esta seção se chama “Quem tem crespo é rainha” e afirma a força da estética negra valendo-se do cabelo como tema. Uma de suas mais fortes estrofes segue abaixo:

“Tem uma tal de escova
Que eu chamo “regressiva”
Que estica o cacheado
Na maior forma agressiva
E a peste custa caro
É por isso que eu falo
Que essa praga é invasiva. ”

“Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito. ”

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A política está entremeada nos versos dos cordelistas. Seja falando da seca do sertão, do suicídio de Getúlio Vargas ou de mulheres apagadas ao longo da história, o poeta precisa ter a mesma quantidade de veneno em seus ataques quanto tem de lirismo em seus versos elogiosos. Patativa do Assaré, nascido em 1909, na cidade cearense que lhe deu o nome artístico, era mestre em ambos os estilos. Frequentou a escola por muito pouco tempo. Aos 16 anos, comprou uma viola e cantou a vida e o mundo. Enamorava-se com a mesma força com que se inquietava com as coisas ao redor. Ao ver sua cidade abandonada pelo prefeito, compôs “Prefeitura Sem Prefeito”, que tem uma outra estrofe incrível:

“Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito. ”

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