Quero iniciar este texto com alusão a um episódio que me marcou e antecedeu minha ida a Moçambique. Um mês antes da viagem, em julho de 2018, fui a um terreiro de candomblé que frequento para fazer um Ebó. Uma das considerações feitas pela mãe de santo foi que eu precisava pensar menos nas pessoas que se foram, pois elas precisavam descansar. Ela fez uma referência explícita aos meus amigos de infância, especialmente Matheus, mais conhecido como Zecão, e Huguinho. Amigos que perdi pela criminalidade, ambos brutalmente assassinados.

De fato, não havia um momento que não pensava neles. Em cada vitória e em cada derrota me passava um filme. E, junto a isso, de modo recorrente, me vinha frases soltas de músicas do disco que me formou, que moldou o meu caráter, “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais Mc’s. Dois versos que me marcam muito e que fazem referência a esta situação é:

“Aqui na área acontece muito disso
Inteligência e personalidade
Mofando atrás da porra de uma grade”

E

“E o que todas as senhoras tinham em comum
A roupa humilde, a pele escura
O rosto abatido pela vida dura
Colocando flores sobre a sepultura
(podia ser a minha mãe)
Que loucura”

A verdade é que nunca soube lidar com a morte deles. Acredito que a orientação e a mensagem da ialorixá foram neste sentido, por que precisava me cuidar para não colocar tanto peso em meus ombros. Assumo que inicialmente fiquei frustrado. De todo modo, segui às recomendações. Porém, ao chegar a Moçambique e me deparar com a forma que eles lidavam com a morte e a espiritualidade por meio do casamento, foi um conflito interno a todo tempo, um choque de cosmovisões e valores de um sujeito fragmentado que vivia entre o ser “diaspórico” e o ser “africano”. E, para não estragar surpresas e dar spoiler, deixarei vocês identificarem este conflito de modo mais profundo em meu livro.

Não pensem vocês que o conflito é negativo. Ao contrário, para mim, é a essência da constituição do ser social. O conflito é enriquecimento. Tentar negá-lo ou apagá-lo é rejeitar as contradições de nosso percurso existencial; é adentrar nos novos modus operandi do coach e da normatização e psicologização do ser. Infelizmente, uma tendência comum entre nós (modernos). Por essa experiência conflituosa, posso dizer que aprendi a lidar melhor com a morte e a vê-la de modo distinto; consegui encontrar uma forma de potencializá-la, mas não naturalizando as razões dela. Assim como, a raiva que sentia ao me lembrar dos acontecimentos com meus amigos. Não que antes isso não fosse possível, mas não era nítido, era impreciso.

Quero dizer que, a raiva, a meu ver, é a política da esperança, é o que faz as coisas acontecerem. A “raiva” está para mim como a “violência” estava para Frantz Fanon ao verificar o contexto colonial, um princípio libertador, o meio de elevação da nossa própria humanidade. O que consistiria, para o colonizado, em se transportar por força própria rumo a um lugar mais alto do que aquele que lhe foi consignado em função da raça ou em decorrência da sujeição.

Hoje, encaro a raiva como sinônimo de sobrevivência. Raiva não é tristeza, é potência. Inibir a raiva é aprisionar os nossos corpos, no sentido mais cartesiano possível, ainda mais se considerarmos que desde o período colonial brasileiro o corpo negro simbolizou tanto desejo quanto perigo, estando vinculado ora à repugnância, ora ao desejo carnal dos senhores de escravos. Mas, a raiva que me refiro, não é a forma euromericana que somos ensinados socialmente a sentir e partilhar. A raiva não é o sentimento que fala de eventos que frustram desejos individuais. A raiva euromericana associa-se a sentimentos de ofensa, injuria ou frustração que impedem uma pessoa de agir de maneira desejável. É uma espécie de violação do princípio moral da liberdade individual, princípio que os euroamericanos adoram, a questão do indivíduo como centro de direitos, o indivíduo acima de tudo. Na verdade, a raiva que faço referência como potência, seria um princípio coletivo de mudança estrutural. A raiva que nos serve é para condenar socialmente certos acontecimentos que ferem o princípio de nossa segurança ontológica e valores civilizatórios enquanto sujeitos negros.

Pegando um pequeno gancho nesta narrativa, no que se refere ao desenvolvimento de potencialidade(s), permitam-me fazer uma digressão a alguns aspectos de minha trajetória escolar.

Bem, antes de tudo, assumo que é difícil comentar sobre minha infância e adolescência no que se refere ao ambiente escolar. Apesar dos momentos de felicidade que tinha, não acreditava que poderia alcançar alguma expressão, algum traço potencial por intermédio do que era me ofertado, a não ser um diploma. Não considerava o aprendizado, nem os professores, nem os funcionários. Na realidade, tinha muita angústia em permanecer naquele lugar a não ser para jogar bola e me divertir com os amigos, minha motivação maior. Fui tirado, por vezes, como um estudante problemático e com déficit de atenção, assim como meus pares. Chamavam minha mãe de modo recorrente e falavam que eu necessitava de alguns cuidados, ao ponto de minha responsável se sentir culpada pelo meu péssimo desempenho escolar.

Desde daquele período, eu entendia que eles tinham dificuldade de lidar com minha postura, que apesar de “bagunceira”, era crítica. Não me contentava com a naturalização daquele ambiente e de suas relações. Hoje, portanto, entendo que eles, não conseguem lidar com genialidade quando a cor da pele do aluno é preta ou parda (negros). Encontram outras razões, argumenta-se: “tem problemas psicológicos”, acabando por eliminar sonhos e desperdiçar potenciais. Mas, se esse estudante é tão problemático, e a escola, não poderia ajudá-lo? Não, a melhor forma de auxiliá-lo é excluí-lo, culpando os seus familiares pelos seus resultados. Porém, a verdade é que me reergui de modo surpreendente e me dediquei aos estudos.

Com isso, comecei a não naturalizar o ambiente contínuo de pobreza e violência em que vivia. Perguntava-me por quais razões, até então, era o único a estudar. Geralmente, as pessoas fazem o movimento contrário, me tirando como exemplo para justificar o enunciado: “É só querer que consegue”. A pergunta mais correta não seria: “Por que muitos não querem e por que poucos conseguem”? O fato é que de onde venho estudos nunca foram saída ou solução para os obstáculos sociais. Nesse sentido, fazer faculdade acaba sendo sinônimo de tempo de investimento.

A título de exemplo, na série Atlanta, criada e estrelada por Donald Glover, que interpreta o personagem Earnest Earn Marks, podemos observar uma discussão, no quarto episódio, que se refere a pensar o tempo e sua relação com a pobreza. Ele argumenta: “Eu sou pobre e pessoas pobres não têm tempo para investimentos, pois estamos muito ocupados tentando não ser pobres”. Este enunciado lembrou-me de um discurso que o rapper MV Bill realizou em 2008, no programa “Altas Horas”, da Rede Globo. Bill, ao ser perguntado sobre cotas para negros em universidades, destacou que nem todos estão concorrendo em igualdade, era injusto realizar esta interpretação. Uma vez que boa parte da população negra, desde o ensino fundamental, tem que dividir e conciliar estudo e trabalho.

Para fundamentar o seu argumento, ele mencionou sua própria experiência, em que sua mãe esboçava um sorriso muito maior com o dinheiro que ele conseguia em trabalhos subalternos, como vender frutas na feira, tomar conta de carro e vender jornal, do que quando ele mostrava seu boletim com boas notas. Isto, segundo Bill, por conta do histórico dela, de não conhecer nenhum outro parente e nenhuma outra pessoa daquele meio e com seu biotipo que tivesse tido ascenção por intermédio dos estudos. Deste modo, a mãe dele preferia muito mais vê-lo com a carteira assinada do que com o boletim com boas notas, pois com a carteira assinada ele ajudava com a despesa da família.

Há, nessas circunstancias, uma idade produtiva que o capital começa a desejar, em que a família faz exigências por autossuficiência e, no fim, algumas coisas vão condicionando mais do que outras e isso se relaciona também com o tráfico de drogas. Um ponto que chama atenção é que a infância de muitos jovens negros é limitada devido ao alto grau de responsabilidade que eles têm que assumir prematuramente. A entrada no mercado de trabalho é precária e quase que uma obrigação, por conta da situação familiar e, desta forma, os estudos ficam flagelados, como foi também o meu caso.

Há um conceito, que particularmente gosto muito nos estudos de desigualdade e estratificação social: “economia das trocas simbólicas”, que tem a ver com os recursos que indivíduos possuem a partir de um determinado ponto da estrutura que o permite navegar na sociedade, isto é, um instrumento que promove a mobilidade ascendente e a participação dele em um grupo hegemônico de modo mais efetivo. Alguns autores definem como Capital Cultural, que pode ser entendido como o conjunto de referências pelo qual permite uma pessoa ler o mapa de possibilidades e promoção de escolhas.

Nessa direção, a pergunta que fica é por quais aspectos estas pessoas não são informadas sobre o que é uma universidade e como acessá-la? O radar, infelizmente, é restrito e pouco convidativo e isto tem a ver com o nosso sistema escolar, que legitima às desigualdades sociais e as conserva. Visto que, visões ingênuas e mesmo idealistas pairam sobre a instituição escolar pelos mitos da igualdade social e oportunidades para todos, tratando da mesma forma aos que ela tem acesso.

Assim, a escola não assume responsabilidade pelos fracassos escolares de seus estudantes, por exemplo, o grande número de repetências e evasões passa a ser explicado como responsabilidade dos alunos e suas famílias. Logo, aparecem argumentos de inferioridade e marginalidade desses alunos que, de um modo geral, são negros e pertencem às classes mais populares. Assim, as práticas de exclusão existentes no interior da escola passam despercebidas e há uma maioria que, se não sair da Escola, seguirá cursos mais curtos e menos valorizados socialmente. Ou então, como nos meus exemplos no início deste texto, morrerão ou serão presos envolvidos com o crime, apesar da inteligência e da personalidade.

Ao perceber parte desses fatores ainda no pré-vestibular, optei pelo curso de ciências sociais, já que meu espírito “problematizador” buscava conhecer as causas dos conflitos sociais, dos fenômenos, as estruturas e as relações que caracterizam a nossa sociedade. Ao observar essa fase particular de minha vida, identifico que comecei a desenvolver uma “imaginação sociológica”. O que consiste na compreensão do desenvolvimento histórico da sociedade e como ocasiona impactos diretos nas subjetividades, em que a vida dos indivíduos só pode ser compreendida se houver o entendimento das mudanças estruturais. É uma qualidade crítica que ajuda a desenvolver a razão com o objetivo de perceber o que ocorre no mundo, é a compreensão do cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima dos indivíduos. Em síntese, a imaginação sociológica me permitiu compreender a relação entre biografias e trajetórias à medida que a história se desenvolve na sociedade.

A partir disso, busquei junto aos meus pares mecanismos capazes de alertar outros jovens da precariedade de nossa existência, como a fundação de uma Organização Comunitária com diversos projetos geridos por pessoas negras. Por que sei que meus irmãos já não voltam mais, mas são eles que me lembram que ainda estou vivo. Por isso, o título deste texto é “das potências do mundo invisível à desnaturalização das desigualdades”. Uma vez que, a melhor forma de canalizar nossas dores, daqueles que se foram, é trazendo um retorno propositivo e coletivo para pessoas que passaram e ainda passam por processos similares aos nossos.

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Das potências do mundo invisível à desnaturalização das desigualdades por Rhuann Fernandes

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