A Academia Brasileira de Letras, ao longo de seus mais de 120 anos, reúne mais polêmicas do que elogios. Também pudera: uma instituição que possui “somente” 40 lugares, dos quais apenas um punhado é ocupado por profissionais da escrita ficcional, só pode, mesmo, angariar, na sua história, uma quantidade imensa de pedidos de ingresso frustrados.

Fundada em 20 de Julho de 1897, a instituição teve como molde a Academia Francesa de Letras, ecoando, dentre outras coisas, o propósito de acolher, entre suas paredes em estilo neoclássico, pessoas que, ao menos em teoria, tenham contribuído para a vida intelectual do país em suas respectivas áreas.

Além disso, a única obrigatoriedade para se realizar uma candidatura é a de ter publicado pelo menos um livro. Com isso, conseguimos facilmente explicar a profusão de políticos e de pessoas que não possuem ligação alguma com as áreas das artes e da cultura do Brasil, ao lermos a relação dos nomes dos imortais, que é como nos referimos aos membros dessa entidade privada.

O Brasil é um país assolado pela desigualdade social há mais tempo do que a da existência da ABL e, somando-se a isso, temos o fato de que, para convencer os futuros colegas a aceitar o seu pedido de ingresso à casa, o proponente deve realizar um jogo social que inclui dar festas e jantares para os imortais. Toda essa confluência de fatores resulta na escassez de pessoas provenientes das classes socioeconômicas mais baixas — incluindo-se, aí, negros, gays e demais membros da comunidade LGBTQI+, desde sempre marginalizados pela sociedade.

Tudo isso veio à tona em 2018, quando a escritora Conceição Evaristo se candidatou a uma vaga na ABL e foi sumariamente esnobada, entrando para um time de escritores invejável, ao lado de Clarice Lispector, Lima Barreto e, pasme!, Mário Quintana (que tentou, e foi negado, 3 vezes). Falemos, então, de seis autores que deveriam ter entrado para a ABL!

Júlia Lopes de Almeida a Conceição Evaristo: 6 autores esnobados pela ABL que você precisa conhecer Camiseta Negros Imortais

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1 – JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

Se mesmo hoje, no século XXI, é difícil que alguém pague suas contas apenas com a venda de livros, imagine uma pessoa que conseguiu viver dos seus escritos lá no século XIX! Mais ainda: que era uma mulher! Se seu queixo continua no lugar, saiba também que Júlia Lopes de Almeida participou ativamente das reuniões que antecederam a fundação da Academia Brasileira de Letras. Porém, uma das características da Academia Francesa que a nossa ABL copiou era a de que somente homens poderiam fazer parte dela — regra que só foi quebrada em 1977, com o aceite da candidatura de Rachel de Queiroz.

Ter sido esnobada pela Academia Brasileira de Letras foi apenas o início de uma longa sucessão de apagamentos: seu nome não consta da História Concisa da Literatura Brasileira, do Alfredo Bosi, nem dos clássicos assinados por Massaud Moisés, Afrânio Coutinho e José Aderaldo Castello. A pesquisadora Lúcia Miguel Pereira, em História da literatura brasileira — prosa de ficção — de 1870 a 1920, por sua vez, evoca a obra de Júlia de Almeida, afirmando que ela é “a maior figura entre as mulheres escritoras de sua época, não só pela extensão da obra, pela continuidade do esforço, pela longa vida literária de mais de quarenta anos, como pelo êxito que conseguiu, com os críticos e com o público”. Aproveite a reedição, neste ano de 2019, do romance A falecida, pela Penguin/Companhia das Letras, e se encante por esta grande escritora!

2 – CRUZ E SOUZA

João da Cruz e Sousa é mais um esnobado que era escritor consagrado na época da fundação da ABL. Cotado para integrar a entidade logo em seu marco zero, o poeta negro teve seu nome cortado para que fosse colocado, em seu lugar, talvez, Graça Aranha — diplomata, branco e… até então sem livro algum escrito. Para arrematar a vaga, o diplomata, dizem, jurou que estava escrevendo um romance. Quanto ao poeta negro, além dos versos simbolistas sobre vozes veladas, busque a sua grande produção de poemas contra a escravidão. Cruz e Souza era uma das vozes mais ferrenhas a denunciar os absurdos do sistema escravocrata, como neste poema, “Crianças Negras”, tirado da obra O livro derradeiro:

“[…]

Das crianças que vêm da negra noite,
Dum leite de venenos e de treva,
Dentre os dantescos círculos do açoite,
Filhas malditas da desgraça de Eva.

[…]

As pequeninas, tristes criaturas
Ei-las, caminham por desertos vagos,
Sob o aguilhão de todas as torturas,
Na sede atroz de todos os afagos. […]”

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3 – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Ok, ok. Você já conhece o Drummond, sabe que ele tem um poema sobre uma pedra no meio de um caminho e tudo o mais. Mas vamos deixar de lado aquilo que você aprendeu na escola e focar em algo diferente: busque as crônicas dele. Seja você alguém que devora poesia ou não, o olhar aguçado desse homem e sua escrita fluída irão te cativar. No livro Contos plausíveis, tem uma crônica deliciosa chamada “Furto de Flor” que exemplifica o que foi dito há pouco:

“Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem. […]”

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4 – LÚCIO CARDOSO

Nascido em 1912 e falecido em 1968, Lúcio Cardoso foi dramaturgo, poeta e romancista. Além de escritor, também era produtor e lançou peças, além de produções para a nascente TV e, por fim, para o cinema. A escrita, porém, não lhe era suficiente, de forma que também se dedicou à pintura e ao desenho, através dos quais criava plasticamente os cenários de suas peças, suas personagens e os locais em que se desenrolava a ação dos romances. Sua obra mais famosa é Crônica da casa assassinada, de 1959, em que a derrocada de uma família entristecida por diversas razões é narrada por uma pluralidade de vozes, emoções e símbolos.

“Resta-nos, como essas ervas desesperadas que se agarram às paredes em ruínas, a nostalgia do que poderia ter sido. Não, Nina, não pense que a estou acusando, que ainda a culpo como de um crime, por tudo o que aconteceu. Há muito que desapareceu este meu rigor de antigamente. Acredito hoje que somos culpados em comum por tudo o que não soubemos levar avante – e se construímos a culpa, também fomos as vítimas. ”

5 – CAROLINA MARIA DE JESUS

Em 17 de Julho de 1961, Clarice Lispector se encontra com Carolina de Jesus, autora negra, que, quando criança, trabalhou na lavoura no interior de Minas Gerais e, anos depois, como catadora de lixo, enquanto morava na favela do Canindé, em São Paulo. Se você imaginou que o encontro se deu por algum lançamento de livro de Lispector, enganou-se: foi Clarice quem foi pedir um autógrafo. Na data desse encontro, o livro Quarto de Despejo já havia vendido mais de 80 mil cópias. A dedicatória que Carolina escreveu para Clarice dizia o seguinte: “À ilustrada e culta escritora Clarice Lispector. Desejo-te felicidade na vida. ” Ao lermos os adjetivos “ilustrada” e “culta”, parece até que Carolina não se considerava como uma igual, sentindo-se distante social, política e economicamente da outra escritora. A ABL, nestes casos, é apenas uma de muitas ferramentas de exclusão.

Contra a exclusão, há a escrita, ou melhor, o escrever como forma de existência, de vida, de continuar pulsando. Os temas abordados nos textos dessa escritora tratam do cotidiano difícil dos personagens em contextos sociais próximos aos dela, testemunhas de preconceitos e atrocidades mil. Fiquemos com um trecho do poema “O colono e o fazendeiro”, da obra Antologia Pessoal:

“Diz o brasileiro
Que acabou a escravidão
Mas o colono sua o ano inteiro
E nunca tem um tostão.

Se o colono está doente
É preciso trabalhar
Luta o pobre no sol quente
E nada tem para guardar. […]”

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6 – CONCEIÇÃO EVARISTO

Com o falecimento do cineasta Nelson Pereira dos Santos, ficou vaga, em 2018, a cadeira de número 7 da ABL. Dentre os proponentes, estava Conceição Evaristo. Era urgente que uma escritora negra ocupasse, finalmente, uma vaga ali dentro. Contudo, isso não ocorreu — e a vaga foi preenchida pelo também cineasta Cacá Diegues.

A candidatura de Conceição Evaristo foi um marco, todavia, por conta do amplo apoio popular que recebeu, o que demonstra que sua obra tem se tornado mais conhecida, embora menos do que o merecido. Nascida e criada na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, por anos, a autora conciliou os estudos com a atividade de doméstica. Começou a publicar poemas em 1990 na série Cadernos Negros, do Quilombhoje. Recomendo a leitura do seu livro de contos Olhos D’Água, com personagens excluídos de nossa sociedade, tais como prostitutas, traficantes e meninos de rua, que, independente da dureza de suas vidas, encontram formas singelas e singulares de amar…

Salinda vigiou os passos cambaleantes da moça tentando se aprumar sobre um tão fino e quase imperceptível fio. Ela sabia que, qualquer passo em falso, a mulher estaria chamando a morte. Por um momento pediu para que tudo se rompesse. E, como equilibrista, ela mesma sentiu um gosto de morte na boca, mas logo se recuperou mordendo novamente o sabor da vida. ”


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