Desafios da tradução literária: entrevista com Denise Schittine

“Mulheres têm uma grande sensibilidade com as palavras: somos sacerdotisas, afinal. E já estamos fazendo diferença, sempre fizemos.” – Denise Schittine é a nossa entrevistada especial em homenagem ao dia mundial do tradutor que acontece dia 30 de setembro. Mestre em Comunicação e Sistemas Simbólicos pela UFRJ e doutora em Literatura Brasileira PUC-Rio e UNR-Argentina, ela nos brinda com suas dicas, histórias sobre sua carreira e como é trabalhar com tradução no Brasil.

Conte-nos um pouco sobre sua trajetória como tradutora

Acabei seguindo um caminho editorial e acadêmico que me levou para a tradução. Mas, como tudo em minha vida, os acontecimentos foram se conjugando para criar o meu perfil como tradutora. A edição foi minha porta de entrada do Mercado Editorial, como assistente. Mas livros são um vício. Um excelente vício. Então, quando começamos a editar, logo queremos aprender mais sobre cada parte do processo. Tradução sempre me atraiu, mas eu tinha excesso de cuidado para me aventurar porque pensava, e ainda penso, que um tradutor precisa ter uma base cultural muito boa tanto na língua mãe como na língua que está sendo traduzida. É preciso conhecer os meandros, as inflexões, as armadilhas da língua original e equilibrar isso com um bom português e uma boa interpretação de texto.

Mas então fui fazer uma parte do meu doutorado na Argentina e precisei aprender, pesquisar, ler e escrever em espanhol. Melhorar consideravelmente a língua. Caso contrário, não havia forma de compreender com profundidade as aulas, participar de congressos e fazer a minha voz como acadêmica brasileira ecoar de alguma forma. Na Universidad Nacional de Rosário eu fiz amigos, assisti a excelentes aulas e me apaixonei completamente pelo espanhol. Chamo Rosário de minha Macondo, é a cidade mais realista e fantástica que existe na Argentina e onde está uma grande parte do meu coração.

O amor pela cidade, pelos amigos, pela língua e pelos textos me fez estudar mais espanhol e – por que não? – traduzir alguns textos que serviriam de material para minha tese. Começou assim, depois fui escrevendo os textos dos trabalhos que precisavam ser publicados em congressos. Publiquei produção acadêmica na Argentina, li Borges, Bioy Casares, Victoria Ocampo, José Clemente, María Esther Vázquéz até Alberto Manguel, meu autor de cabeceira, comecei a ler em espanhol. Nos passos de Borges fui parar no Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo e… Gabo, Gabriel García Marquez. Encomendaram para mim uma resenha em espanhol de Memória de mis putas tristes, eu fiz e foi muito bem aceita.

Ainda não me sentia totalmente pronta para ser tradutora, mas os amigos do mercado editorial sim. Então veio a primeira tradução, a segunda, mais uma e outra… até gerar em mim uma nova e particular paixão. A ideia é continuar estudando, perscrutando, aprendendo. Tenho feito viagens pela América Latina: a última foi para a Guatemala acompanhando um grupo de autores brasileiros na Feria del Libro da Guatemala. Foi um projeto lindo do Consulado do Brasil na Guatemala que eu ajudei a coordenar com a ajuda da equipe do consulado.

A cada viagem, trago mais de um livro de um autor contemporâneo local. A ideia é desenhar uma coleção com esses nomes. A pesquisa é feita pelas resenhas feitas nos países, – Chile, Colômbia, Guatemala, Argentina, Panamá – mas principalmente pela opinião dos livreiros da várias livrarias que visito.

É um projeto especial que pretendo ir fazendo com carinho: quero levar os brasileiros pelas veredas da América Latina. Não há melhor maneira de se fazer isso que pela literatura.

Como foi começar a carreira de tradutora sendo mulher, houve alguma particularidade?

Não acredito em questões de gênero para alguns trabalhos. Acho a tradução um deles. Já vi homens traduzirem com muita sensibilidade um livro de teor feminino. O que comanda a tradução é a vontade do tradutor de entrar o máximo na pele do autor e fazer com que o leitor tenha a experiência próxima da leitura do original.

Acho sim que o meu temperamento, os estudos que já fiz, minha trajetória de trabalho editorial e acadêmico e, talvez, meu senso de humor influencie um editor no momento de colocar um trabalho em minhas mãos. E acho que essas considerações valem para qualquer tradutor. Um editor escolhe o tradutor por sua qualidade (claro), capacidade de se concentrar e cumprir corretamente os prazos e perfil cultural: há tradutores que nasceram para traduzir contos, outros que se mostram mais à vontade com romances, outros ainda que se destacam traduzindo não ficção, ou distopia, ou infantojuvenil. Enfim, perfis qualificados para diferentes trabalhos.

Qual foi o livro mais difícil que você traduziu e por quê?

Todos os livros vêm com surpresinhas inéditas que fazem um tradutor virar noites em busca da mot juste. Eu sou muito cuidadosa em manter o ritmo do texto, o tom do autor e as vozes dos personagens. Acho que são preocupações básicas de qualquer tradutor. Claro que há vários fatores que complicam e tornam uma tradução mais difícil: quando o autor usa muitas referências cruzadas e implícitas a outros livros, quando há muita erudição, quando outras línguas aparecem (um espanhol arcaico ou um pouco de latim no meio do texto) e mais um monte de outras “armadilhas” que fazem com que nós arranquemos os cabelos.

Até hoje a minha tradução mais complicada foi a do livro Amando Pablo, odiando Escobar, da editora Globo. Talvez porque tenha sido uma das primeiras. Não é que tenha sido difícil, mas eu precisei fazer uma pesquisa da época e da situação política na Colômbia, das gírias relativas a drogas e grupos de extermínio, dos nomes e vidas dos sicários que cercavam Pablo Escobar e sobre a Virginia Vallejo, a jornalista que escreveu a biografia e que ainda está viva. Então foram alguns meses tentando entender os anos 1990 na Colômbia com toda questão do tráfico e do passado do país. A autora é jornalista, então ela é muito meticulosa nos detalhes e principalmente no ambiente político no qual o país vivia na época. Saí dessa tradução fascinada. Inclusive pelas dificuldades porque elas me obrigavam a estudar: coisa que adoro.

Que conselho daria para quem está começando na carreira?

Vivemos num mundo cheio de distrações, muitas delas tão inseridas em nossa vida que nem reparamos o quanto perdemos tempo com elas. Um tradutor precisa ser muito concentrado e trabalhar com o relógio do lado. Qualquer distração entre uma frase e outra, um parágrafo e outro, pode fazer você perder o ritmo do texto e o fio da meada. Tradução é um fio de Ariadne: quando puxamos direito e seguimos o novelo, chegamos ao centro do labirinto. Então, tenha concentração, pesquise, se esforce, converse com pessoas próximas, busque o melhor sinônimo, se necessário entre em grupos de discussão e faça perguntas. O trabalho é muito isolado, conversar sobre soluções para as suas dúvidas de tradução pode te levar a caminhos que talvez muito sozinho você não consiga.

Que conselho daria para quem está há anos na carreira?

Bem, aqui só posso dar um conselho como editora, não estou há tantos anos assim traduzindo (embora a ideia seja essa). Quando traduzimos um livro estamos representando um autor: sua voz, seu ritmo, seu tom, suas opiniões. Temos que incorporar o autor. Muitas vezes quando estamos há muito tempo traduzindo já somos praticamente autores também. O desafio é não deixar o autor que existe em nós contaminar o tradutor que somos.

Qual o maior desafio em traduzir livros no Brasil?

Ainda temos poucos espaços que façam uma boa formação de tradutores, embora tenhamos excelentes tradutores autodidatas ou que foram fazendo pós-graduação ou cursos livres e melhorando o seu trabalho cada vez mais. O mercado de tradução no Brasil foi ampliado para muitos lados: já temos um núcleo excelente de estudantes de russo na USP que estão se formando tradutores, o Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul faz um trabalho excelente de formação de tradutores. Várias universidades no Rio de Janeiro têm pós-graduação em tradução.

É um desafio mesmo juntar o ambiente acadêmico ao editorial, mas tenho certeza que a conexão entre os dois sempre vai resultar em ótimos trabalhos. Foi a partir dessa ideia que o Nespe (Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais) decidiu criar este curso de Tradução em Língua Inglesa para o Mercado Editorial: é uma forma de juntar a contribuição dos estudos acadêmicos com a prática dos profissionais do mercado editorial e dar uma direção a tantos bons alunos que gostariam de começar a fazer uma tradução.

O maior desafio ainda é um bom reconhecimento do trabalho de tradução. Prêmios de tradução, bolsas de estudo, projetos junto com as editoras são algumas ações que já vêm sendo feitas e que estimulam o trabalho de tradução.

Há editoras que convidam tradutores para coordenarem coleções ou compêndios da obra de algum autor. Essas iniciativas são excelentes. Se pudéssemos ter mais programas de tradução que contemplassem brasileiros no esforço de traduzir obras clássicas e contemporâneas seria ideal. E acho que, em muitos pontos, estamos caminhando para avançar com iniciativas novas. É um percurso longo de pequenas conquistas que nós tradutores precisamos lutar para conseguir. Pode ser frustrante, mas é um desenho de um caminho.

Como acreditamos no movimento “mais mulheres na literatura” e que mais mulheres devem ser lidas, visto nosso cenário editorial atual, qual autora você adoraria traduzir e por quê?

Estou estudando a melancolia nos textos literários e na construção de personagens. É o meu novo desafio acadêmico. Eu já li Virgínia Woolf algumas vezes, agora estou entrando mais a fundo na vida dela e não paro de me surpreender com seus silêncios, suas reflexões, suas verdades literárias. É uma caixa de surpresas facetada, única e complexa. Uma mulher muito inteligente e com opiniões particulares interessantíssimas. Há oito anos me deparei com um livro belíssimo de Woolf O leitor comum, da editora Graphia. É uma leitura tão saborosa e espetacular: Virgínia faz ensaios sobre leitores, leitura e autores. Passeamos com ela por Joseph Conrad, Montaigne, Defoe, Robinson Crusoé e um ensaio específico “Jane Austen”, no qual ela mostra uma Austen irônica, genial e vanguardista que me encantou e me marcou. Virgínia Woolf é uma ensaísta de primeira linha e eu gostaria de traduzir mais ensaios inéditos dela. Seria uma honra levar para o leitor as palavras dessa mulher tão incomum quanto admirável.

Também há duas escritoras contemporâneas mexicanas que são excepcionais e que eu adoraria traduzir: Fernanda Melchor e Bibiana Camacho. São autoras fortes, viscerais e também muito boas cronistas. A literatura contemporânea mexicana está em enorme ebulição e essas são duas vozes femininas de muita potência. Penso que, cada vez mais, os leitores brasileiros precisam ler nossos vizinhos: há um diálogo entre as nossas culturas e algo de sagrado e poderoso que sempre podemos compartilhar.

Gostaria de saber mais sobre tradução literária? Se sim, deixa um comentário no blog sobre o que gostaria de conhecer mais.

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