Feita pelas e para as minas, o Slam das Minas “é um poetry slam organizado e disputado exclusivamente por mulheres em diferentes localidades do Brasil.” Espaço para mostrar representatividade, empoderar e dar voz e vez à qualquer expressão de literatura feminina. No Rio, essa rede de poesia – e também de resistência – também é “uma brincadeira lúdico poética para desenvolvimento da potência artística de mulheres (sejam héteras, bis, pans, lésbicas ou trans) e pessoas queer, agender, não bináries e trans.” Mas acima de tudo é sobre força, afeto e amor, sempre visceral. Nossa entrevistada especial é Gênesis, – escritora, poeta, slammer e contadora de histórias – uma moça cheia de brilho que faz parte do coletivo Slam das Minas RJ e que aponta a importância de termos mais visibilidade feminina na literatura.

1.     Fale um pouco sobre como começou a fazer parte do Slam das Minas RJ. O que você acha que mudou e que poderia melhorar desde que começou a fazer parte do grupo?

No início do ano de 2017 eu comecei a ouvir uns amigos falando de Slam mas não sabia do que se tratava, para mim era como um sarau. Eu já estava habituada a falar minhas poesias em Saraus e por isso não estava entendendo muito bem o alvoroço que estava rolando em torno do Slam. Até que no final do ano uma amiga, Lisa Castro, me convidou para assistir a uma batalha do Slam das Minas que iria acontecer na Casa de Cultura de Nova Iguaçu, ela disse pra levar minhas poesias para o caso de animar de falar e assim eu fiz. Mas ainda não sabia do que se tratava. Quando cheguei lá e me disseram que o Slam era uma competição de poesia eu congelei, na hora falei que não iria competir porque nunca gostei de competição. Mas no fim me inscrevi, vi como as outras meninas que iam falar estavam animadas e em nenhum momento senti clima de competição ou rivalidade. Nessa noite eu ganhei a batalha, foi a primeira vez que ganhei alguma coisa na vida e fiquei lá com cara de feliz demais sem entender o que estava acontecendo e me davam parabéns por eu ter conseguido vaga para final. Eu caí de paraquedas nessa coisa de Slam. Eu fui para final sem experiência nenhuma e sem poesia decorada, eu não cheguei a classificar, quem ganhou foi a Neide Vieira, a primeira vencedora do Slam das minas RJ.

A partir daí tudo que as meninas me chamavam eu ia, para fazer apresentações em escolas principalmente. Um dia me ofereci para fazer os zines, coloquei poemas, meus, da Carol Dall Farra e da Leticia Brito. Foi na mesma época da Flip, e lá fomos nós para Paraty vender zine e fazer uma batalha por lá. Desde então nunca mais nos separamos, Débora Ambrósia assumiu o posto como nossa produtora e a gente ia pra rua, ligava o megafone, gritando intervenção de emergência, falava poesia e ia embora. A viagem para Paraty foi nosso casamento.

Competi novamente em 2018 e fui a vencedora.

O que mudou é que nós nos tornamos uma família, não tem um dia que a gente não se fale ou esteja planejando coisas, a gente fala de trabalho 24h por dia se deixar, e bebe cerveja igual. Estamos aprendendo a nos organizar, as coisas começaram a acontecer rápido demais, somos chamadas para participar de eventos grandes e nunca imaginei que poderia acessar esses lugares com poesia. Estamos trabalhando agora para sermos mais organizadas nos planejamentos.

2.     Qual foi seu maior desafio quando começou a participar do Slam das Minas ?

O primeiro desafio que me deparei foi o da confiança na minha escrita, de reconhecer que o que eu escrevo tem valor não só pra mim, mas para o mundo. Minha escrita não tem muito a pegada de slam, minhas amigas costumam dizer que é difusa e eu tinha medo de falar uma poesia que só fizesse sentido pra mim, mas isso não aconteceu. Depois vem o desafio do tempo, você tem 3 minutos para passar sua mensagem e já perdi pontos por não estar decorada e ler o papel e me enrolar com o papel e passar do tempo. Me pegou também por um tempo a cobrança de escrever o que as pessoas querem ou precisam ouvir, isso acabou comigo e fiquei um bom tempo com bloqueio criativo. Mas hoje estou mais tranquila, respeitando o meu fluxo.

3. O que acreditam as Minas do Slam RJ?

O Slam das Minas RJ acredita na revolução pela palavra, na cura e libertação da voz de mulheres que foram tanto tempo silenciadas. Tentamos construir um lugar seguro para o desenvolvimento de nossas potências criativas, nossos afetos e sexualidade.

4. Pensando em sua trajetória, como podemos colocar a literatura em movimento? Como aumentar essa rede de poesia e resistência?

Acredito que o fato de falar poesia, especialmente na rua, é o grande potencial do movimento. Ocupar esses espaços com nossos corpos que são políticos por natureza, construindo nossas próprias narrativas sobre os mesmos fatos já contatos traz luz e força nesse momento crucial da história. Fazemos muitas apresentações em escolas públicas e é o que eu mais gosto de fazer hoje em dia, contar minha história como mulher negra para outras adolescentes e ver o brilho nos olhos dos alunos me enche de expectativas. É preciso que não se tenha medo de ser quem se é, se assumir como referencial, isso não significa que eu não posso me mostrar frágil, mas saber que não estamos mais sozinhas na luta.

5. Você já passou por alguma experiência pontual por ser mulher e declamar poesia?

Eu tenho uma poesia que fala sobre violência doméstica e todas as vezes que eu falo essa poesia eu gosto de olhar nos olhos das mulheres e sempre vejo muitas chorando, procuro o olhar também dos homens e percebo alguns que não conseguem me olhar nos olhos enquanto estou falando. Recebo muitas mensagens e pedidos de ajuda depois que falo essa poesia. Me sinto muito grata quando alguma mulher vem me abraçar, é quase um pacto de força e coragem que trocamos em segredo.

6. Qual mulher você destacaria no meio poético e que vale indicar pras nossas leitoras e leitores do blog conhecerem?

São tantas, que pensar em uma me parece uma injustiça. Mas gostaria de destacar as poetas dos Slam das Minas de outros estados, se puderem pesquisar vídeos no YouTube ou Instagram tem o Slam das Minas SP, BA, PE, AC, RS. Tem outros slam que são só de mulheres e homens trans como o Slam Marginália (SP), o Slam Camélia (MS), Slam Dandaras do Norte (PA), Slam Luana Barbosa (SP), Chicas da Silva (RJ), Slam das Mulé (BA), Slam das Manas (RJ, MG).

Esse mês competi no torneio nacional Singulares, organizado pelo Slam das Minas SP onde pude conhecer mulheres maravilhosas desses estados que estão escrevendo, produzindo e fazendo a cena acontecer, vale dar um pesquisada e curtir o trabalho dessas manas.

7. Quem é sua maior referência em poesia e por quê?

Olha, eu ando conhecendo tanta mulher foda que fica difícil essas perguntas. Mas posso citar aqui a escritora, poeta, cantora, editora, educadora Tati Nascimento. Ela é de Brasília. Publiquei meu primeiro livro de poesia pela editora dela, a Padê editorial, ela tem um livro que se chama Lundu. Eu amo essa mulher porque ela me inspira a ser livre na minha escrita, a ser frágil quando preciso e não ter medo disso, a falar o que eu penso como quero porque eu quero. E vejo nela que eu posso ser muitas coisas, que não preciso me limitar ao que esperam que eu seja. Eu tenho vontade de decorar todas as suas poesias, mas amo mais que tudo ouvir ela recitando porque tem uma cadência que é só dela.

8. Se você pudesse ser uma poesia, qual seria?

Acho que eu sou uma poesia da minha amiga Ryane Leão.

identidade

Foi uma mulher negra e escritora
de pele e alma como a minha
que me ensinou
sobre os vulcões e as rédeas e os freios
sobre os tumultos dentro do peito
e sobre a importância de ser protagonista
nunca segundo plano

se você encostar a mão entre os seios
vai sentir os rastros de nossas ancestrais
somos continuidade
das que vieram antes de nós.

9. Se você pudesse sentar um dia com um(a) poeta (de qualquer época e lugar) e tomar um café, quem você escolheria? Por quê?

Tem duas mulheres que eu voltaria no tempo para conhecer. Stela do Patrocínio e Carolina de Jesus, não sei se conseguiria tomar um café, mas me confortaria apenas de poder escutar o falatório de Stela e de ler os escritos de Carolina. São duas mulheres pretas atravessadas por condições que poderiam ser as minhas. A saúde mental da mulher negra me preocupa muito, a invisibilidade de nós escritoras pobres, que temos que nos validar o tempo todo nessa sociedade elitista nos adoece e eu luto para que no futuro meninas pretas também vejam em mim um referencial.

10. Onde podemos encontrar seus trabalhos autorais?

Tenho um livro infantil chamado Cadê Martin?, publicado em 2015 pela Chiado Editora, está à venda nas livrarias da Cultura, Travessa e pelo site da editora. Em 2018 lancei meu primeiro livro de poesia pela Padê Editorial Delírio de (re)existência, são fragmentos de 30 delírios. Pode ser encontrado também no site da editora. E tenho meu zine O poema sai enquanto você entra. Os vídeos das poesias estão disponíveis no canal do Youtube do Slam das Minas RJ e na página do Facebook. Tenho minha página no Instagram>> @genesis_poeta e @olivrodagenesis, onde posto versículos diários da criação.

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Já participou ou viu algum Slam? Conta pra gente como foi nos comentários! =)

Hanny Saraiva

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