O ano de 2013 estava terminando. Era difícil imaginar que tudo fosse acontecer daquela maneira e que chegaríamos à realidade na qual estamos agora. Embalados, por um lado, pelo desenvolvimento do país, e, de outro, por uma indignação coletiva motivada pelo cenário político nacional, sentíamos que poderíamos ir além e modificar a pirâmide social brasileira. Ledo engano. De acordo com pesquisa da Síntese de Indicadores Sociais, divulgado em dezembro de 2018 pelo IBGE, 54,8 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, 1/4 da população nacional tem renda domiciliar por pessoa inferior a R$ 406 por mês, de acordo com os critérios adotados pelo Banco Mundial. Um crescimento de 33% com relação a 2013, período em que o Brasil havia alcançado índices positivos com relação a erradicação da pobreza. Eu estava lá, entre os populares, não os de camisa amarela, com a sensação de não estar sozinho, mas o buraco era muito mais embaixo. Como diz o jargão viral das periferias, “deu ruim”. Porém, aquela junção de pessoas se desdobraria, para além do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em algumas ações que mudaria o cotidiano dos territórios no país. Apesar desta ambientação, este não é um texto sobre as manifestações e o golpe que assolou o Brasil. O texto é sobre poesia, daquela inspirada em épocas não tão longínquas, como os tempos dos poetas da Geração Mimeógrafo envoltos em sua Nuvem Cigana, ou os anos em que se iniciavam os Cadernos Negros com a série de produções literárias afro-brasileiras. Mas sobretudo, esta é a primeira parte de um relato sobre a poesia realizada nos saraus poéticos do Rio de Janeiro, onde a sua grande maioria foi impulsionada pelas Jornadas de Junho de 2013, e que não está deslocada de todo movimento de poesia realizada no país em tempos anteriores. Havia marcado bem cedo com o Bartolomeu Junior na estação de trem de Senador Camará para irmos juntos ao centro da cidade. Bartô, como comumente era chamado, escrevia poemas, pintava quadros incríveis (a coleção O Negro na Cultura

Popular Brasileira foi uma das que ganhou visibilidade pelas dezenas de exposições realizadas pelo artista), administrava a primeira biblioteca comunitária do Complexo de Favelas de Senador Camará e Vila Aliança, na zona oeste da cidade do Rio, a “Quilombo dos Poetas”, e naquela ocasião estava buscando possibilidades de realizar mais uma edição do “Chá com Letras”, um evento de artes múltiplas mas com enfoque no recital de poemas, um sarau. Conheci Bartô em 2010, no Ponto de Cultura A História Que Eu Conto, onde era localizada a biblioteca. Eu coordenava o curso de teatro que acontecia no espaço e vira e mexe trocava umas ideias sobre poesia com o Bartô. Entre as prateleiras abarrotadas de livros e o entra e sai de crianças em busca de dicas de leitura, lembro-me que foi numa dessas ocasiões que ele me indicou os poemas de Carlos de Assumpção.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro, 44% da população brasileira não lê. As bibliotecas comunitárias, assim como os saraus, festas literárias e salas de leitura, convertem a leitura em experiência, ampliando o horizonte do público e fomentando o acesso ao livro. Essas ações são importantes instrumentos de formação de novos leitores e de democratização do acesso à literatura.             Pegamos o trem sentido à Central do Brasil, como era horário do rush, o vagão estava ainda mais cheio. Espremidos próximo a porta, seguimos viagem. No trajeto conversamos sobre os saraus de poesia já existentes e os que estavam surgindo em diversos territórios do Rio de Janeiro após junho daquele ano. Minha referência de uma dita cena de saraus, era o que estava acontecendo em São Paulo com a Cooperifa, Suburbano Convicto, Sarau do Binho, Sarau Elo da Corrente, dentre outros que surgiram no início dos anos 2000. Depois tomei conhecimento do movimento poético bem fortalecido em outras cidades do país, como Salvador, Recife, Belo Horizonte, Aracaju, Teresina e Natal. Sabia de alguns saraus em atividade no Rio, como o Sarau do Ameopoema, CEP 20.000, Ratos di Versos, Poeta Saia da Gaveta, Corujão da Poesia, Uma Noite na Taverna, mas não se compara a quantidade de saraus que teríamos dois anos mais tarde.

Chegando na Central do Brasil, rumamos para a Lapa, Bartô ficou pela Gomes Freire, onde fecharia uma data para a terceira edição do Chá com Letras, no bar Salsa e Cebolinha, em parceria com o ator e agitador cultural Marcondes Mesqueu. Segui para o Bar da Cachaça, na praça João Pessoa, e, junto de Michele Lima, Karine Drumond, Taty Maria e Alex Teixeira, participei da primeira reunião de produção do Sarau do Escritório que teria a sua estreia no mês de novembro de 2013.

            As manifestações foram ganhando uma nova roupagem com camisas da CBF predominando entre as ruas de Copacabana. Já os saraus, se fortaleceram criando conexões entre os bairros da região metropolitana e se transformando em um importante dispositivo de mediação de leitura e fomento a escrita. Passei 2014 tentando compreender o boom de saraus no Rio de Janeiro, acredito que até hoje há muito a se desvendar, é significativa a importância desse período para a cultura e para os movimentos artísticos de resistência que até hoje promovem ações de impacto nos territórios. Algumas coisas são nítidas, esse foi um período de muita produção e networking, eu particularmente circulei boa parte da região metropolitana por causa dos saraus e aumentei consideravelmente meu repertório de poesia adquirindo fanzines, cartoneras e livros que eram vendidos pelos poetas nesses espaços. Na tentativa de assimilar a cena de saraus que estava se formando, em 2015 lançamos, através do Sarau do Escritório, o Mapeamento dos Saraus do Rio. Os dados da pesquisa revelaram que havia 133 saraus em atividades na região metropolitana do Rio de Janeiro e que 100 saraus passaram a existir a partir de Junho de 2013, incluindo o Chá com Letras, do Bartô, e o Sarau do Escritório.

De 2015 para cá, muitas águas rolaram, e como a poesia sempre está em movimento, a cena foi se modificando com novos atores e desafios, mas como já vimos anteriormente, o presente tem resquícios do passado. Ainda há muitos relatos a serem ecoados por aí.

Referências bibliográficas:

Este texto é sobre poesia - mini-bio Luiz Fernando Pinto

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