Feminismo literário – 6 motivos para você assistir A Cor Púrpura

A Cor Púrpura é uma história de racismo, opressão e os meandros da violência contra a mulher. O livro de Alice Walker é escrito em formato de cartas que a personagem central (Celie) escreve para Deus contando seu dia a dia: “… o Deus para quem eu rezo e para quem eu escrevo é homem. E age igualzinho ao outro homem queu conheço. Trapaceiro, isquecido e ordinário. Ela falou, Dona Celie, é melhor você falar baixo. Deus pode escutar você. Deixa ele escutar, eu falei. Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir.”

Muitas vezes a adaptação fílmica de A Cor Púrpura me faz lembrar de outro filme com protagonismo negro, O ódio que você semeia, também baseado num livro, escrito por Angie Thomas. Aqui temos vozes caladas que ao longo da narrativa se impõem e tentam fazer com que sejam ouvidas. E de uma forma ou outra, são ouvidas, porém em meio a dor e grito. Mas acima de tudo, essas vozes nos mostram mais uma vez como representatividade importa. Mulheres como figuras poderosas que podem dar esperanças a outras mulheres.

O filme A Cor Púrpura recebeu 11 indicações ao Oscar e colocou sobre os holofotes atrizes negras como Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey e Margaret Avery, em um protagonismo cheio de carisma e talento. Por que ver um filme feito lá nos anos 80? Eis aqui 6 motivos para você assistir A Cor Púrpura – seja para rever ou conhecer.

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1. Relações de ódio e poder

É preciso lembrar sempre sobre a fragilidade e mesquinhez humana e isso é retrato nas relações de ódio e poder vividas numa sociedade americana marcada por desigualdade de gênero e classes sociais, além de preconceito contra etnias. Em um universo misógino, tanto o livro quanto o filme não apenas representam a primeira metade do século XX, mas o que acontece naquela época ainda está presente hoje. O ódio que se semeava naquela época ainda é o ódio que se semeia hoje, com camadas algumas vezes sutis, outras explícitas. Como mudar esse cenário? Falando, lendo e vendo sobre ele, desmistificando, quebrando paradigmas.

2. Violência contra a mulher

A comunidade onde a protagonista Celie mora é marcada por violências. Para os homens locais, só há respeito se as mulheres apanharem. O marido de Celie replica para o filho: “Mulher é feito criança. Mostra quem é que manda. Nada melhor que uma boa surra”. Não só as mulheres toleram a violência, mas os homens crescem ouvindo que a violência deve ser estimulada como uma forma de controle perante o comportamento feminino. Acontece violência física e psicológica porque até as mulheres aconselham violência quando há indícios de mulheres que fogem à regra local. A reprodução desse ciclo só consegue ser quebrada quando o fator amor entra em cena, mas não vamos dar spoilers da narrativa, ok?

3. Liberdade feminina x luta por sobrevivência

Outra questão que é abordada com veemência na narrativa é a liberdade feminina, representada por algumas mulheres, como a cunhada da protagonista, Sophia. Grande, forte, independente, não se submete a homem, mas sofre nas mãos de brancos, tornando-se símbolo de opressão racial. As mulheres no livro também lutam por sobrevivência Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.” Como ser livre se estamos preocupadas apenas em sobreviver? O autoconhecimento e a desconstrução, representados pela alegoria da cor púrpura, nos mostra como essas questões ainda são urgentes.

4. A força da representatividade

A força da representatividade da narrativa voltou aos holofotes quando Lupita Nyong’o ganhou Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2013 e discursou sobre o filme e a importância da autoestima e do empoderamento de pessoas negras. “A primeira vez que pensei que poderia ser atriz foi quando vi A Cor púrpura. Whoopi Goldberg se parecia comigo, ela tinha o cabelo como o meu, ela era escura como eu. Eu tinha estado carente de imagens de mim mesma. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro trabalho seria tão poderoso e que me tornaria uma imagem de esperança, da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura foram para mim.” Precisa falar que mais histórias assim precisam ser contadas?

5. Feminismo literário

Os males vivenciados pelas mulheres da narrativa são bastante atuais, tornando a narrativa atemporal, apesar de estarmos situados em uma espaço-tempo. As personagens Celie, Nettie, Sophia, Shuga, Mary Agnes, tão diferentes, mas tão marcadas pela sororidade, criam laços e com esses laços se apoiam e se amam. São exemplos de como nossa rede de afeto nos salva, nos impulsiona, nos emancipa. O feminismo literário transportado para a tela é uma forma de conexão e é através da conexão que nos libertamos e somos ouvidas.

6. O papel da escrita

As cartas são como ponto de reconexão, uma forma de autoconhecimento, de dizer que a mulher está ali, presente, pulsando, escrevendo. É através da escrita que temos a localização e a posição desses personagens no mundo, é através de sua história que Celie luta contra a violência e o poder. A escrita é resistência.

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Se estivesse vivendo em um local de opressão, para quem escreveria uma carta? Conta pra gente nos comentários. =)

Hanny Saraiva

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