Andriolli Costa

Se Câmara Cascudo é uma referência incontornável no campo dos estudos da cultura popular, no âmbito da narrativa, para o bem e para o mal, Monteiro Lobato é inevitável. O Dicionário do Folclore Brasileiro é uma obra prima, mas é feito para a consulta. E para saber, afinal, o que consultar, é preciso primeiramente ser iniciado. E para muitos foi Lobato que forneceu, pela adaptação da cultura popular, os primeiros convites para o universo fantástico do imaginário povo.

 coleção Câmara Cascudo

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Fato é que quando se fala em folclore brasileiro, não demora muito para cruzarmos mesmo que de passagem as porteiras que nos levam ao Sítio do Pica-pau Amarelo. Também pudera; foram gerações de “filhos de Lobato”, nascidos se não dos livros, ao menos de suas diversas adaptações televisivas. Obras que estabeleceram a visão das terras de Dona Benta como uma encruzilhada fantástica na qual sacis, cucas e mulas-sem-cabeça podiam se encontrar com seres da mitologia grega, dos contos de fada e até mesmo do cinema – como o cowboy Tom Mix e um suposto Gato Félix.

O folclore, até então renegado pelas artes enquanto objeto menor, restrito às camadas populares, se via livre para circular pelo imaginário universal tanto quanto qualquer outro personagem ou criatura que uma sociedade então profundamente eurocêntrica valorava. Por isso mesmo espanta que, diante de todos estes méritos, este artigo proponha de maneira categórico: se quisermos avançar na produção ficcional inspirada em folclore brasileiro, é preciso ir além do Pica-pau Amarelo.

coleção Monteiro Lobato

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Quase 100 anos depois da publicação de Reinações de Narizinho, lançado em 1921, ainda temos no Sítio do Pica-pau Amarelo uma referência e parâmetro para obras inspiradas no folclore nacional. E é interessante perceber como de tributo, Lobato acabou se tornando um espectro que permeava as publicações da área, especialmente nos últimos 20 anos – quando uma nova onda de ficção nacional redescobre a fantástica popular como inspiração para suas obras. Ou esta nossa ficção folclórica encontrava seu espaço ao seguir o cânone infanto-juvenil já estabelecido ou, em um claro movimento de resistência e provocação, seguia para o exato oposto. Na negação da infantilização do folclore, estes autores encontravam sua sombra no terror, na violência e nos relatos extremos. Por incrível que pareça, faces da mesma moeda.

Compreendo que um grande marco para a ficção folclórica brasileira foi o mês de janeiro de 2019, quando finalmente a obra lobatiana entrou em domínio público. Desde então vem surgindo uma série de obras que se permitem brincar com o cânone do Sítio, como a antologia O Lado Sombrio do Sítio (editora Lura), centrada no horror, a coletânea steampunk pós-apocalíptica em HQ ,Rancho do Corvo Dourado (em campanha no Catarse) e, claro, uma nova versão para cinema de O Saci (a anterior foi de 1951) – atualizando o cenário para os tempos atuais, que será dirigida por Fabrício Bittar (Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro, 2018). Com a liberação dos direitos e após uma já esperada explosão inicial de títulos inspirados, a presença impositiva do Sítio que tanto pautava o campo tende a arrefecer.

coleção infantil Monteiro Lobato

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Isso nos oferecerá a oportunidade perfeita para repensar a ficção inspirada em folclore para além do Sítio. Dando conta em nossas narrativas dos desafios do contemporâneo – racismo, misoginia, intolerância; entendendo quais tradições queremos alimentar e quais podem seguir o rumo da história; reconstruir os afetos do leitor com a cultura popular; redescobrir o Brasil profundo, os povos originários e as narrativas que se perderam.

Os espaços estão sendo conquistados aos poucos. Christopher Kastensmidt está num bem-sucedido caminho de expandir sua série literária A Bandeira do Elefante e da Arara para o RPG; a Netflix tem duas séries inspiradas em folclore nacional engatilhadas – Cidades Invisíveis, dirigida por Carlos Saldanha (O Touro Ferdinando, 2017), e Spectros, por Douglas Petrie (Demolidor, 2018); os sites de financiamento coletivo tem visto cada vez mais projetos inspirados nos nossos mitos e lendas.

Em breve chegaremos a um momento no qual a produção de ficção folclórica chegará à maturidade de não precisar se limitar entre o infantil ou o extremo oposto; se folclore nos atravessa, ele pode inspirar qualquer tipo de obra, independente do gênero. Mais do que isso, o mérito não será o de simplesmente falar sobre folclore, mas o modo como aborda o tema. Enquanto esse momento não chega, seguimos tentando.


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