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Ainda que o terror use signos demoníacos que fazem qualquer devoto sentar pra rezar um Pai Nosso, ou serial killers mascarados com mais carisma do que os protagonistas adolescentes que só aparecem pra fazer escolha burra e morrer, o verdadeiro horror que reside no pensamento de um escritor de gênero é: “Será que alguém vai ler esse troço?”.

Nós gostamos de escrever sobre aquilo que fica nas sombras te esperando dormir. Sonhamos em criar pesadelos. Mas o pior deles é enfrentar um mercado que não enxerga o desespero de uma criança aterrorizada por um fantasma vingativo com o mesmo carinho que olha o jovem sofrido que rima suas desventuras através de metáforas no sertão.

Mesmo depois de cinco romances de gênero publicados, e a caminho do meu terceiro longa-metragem de terror, todo novo trabalho que consigo lançar é comemorado com sacrifícios humanos. Mas não basta apenas ter uma editora ou distribuidora que, como nós, curtam um ritual à meia-noite. Atingir o público é que é a principal barreira a ser quebrada. E quando isso acontece, jogo uma gota do meu sangue na fogueira, abraço o Diabo e agradeço pela graça alcançada.

TERROR: LITERATURA DE CONFRONTO

Mas se é tão difícil assim espalhar a palavra de Satanás às novas gerações, por que insistir no horror? O que nos leva a uma vida no Abismo editorial, sem oportunidades nos grandes prêmios, e com um alcance de público tão ínfimo quanto o número de fiéis que um mórmon consegue numa feira gótica?

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Eu afirmo, com a certeza de quem não saberia fazer outra coisa, que é a paixão pelo bizarro nas letras, ao macabro nas telas e à violência gráfica sem amarras com a realidade. No terror podemos explorar as mazelas do mundo de forma indireta, mais criativa e metafórica, com nosso ódio e crítica à flor da pele. É uma literatura de confronto. De querer mudar o que está errado através de uma terapia de choque, apresentando o pior cenário possível.

É difícil dar certo no mercado com obras destinadas a causar incômodo? Claro que é. Mas se fizer o pacto certo, sua recompensa virá. Assuma um compromisso com a caneta, escreva do fundo do seu coração endurecido, amargo e desolado, e encontrará outras pessoas com os mesmos medos e desejo de superação.

Um autor que escreve porque quer tirar algo profundo de si não escolhe seu gênero. Ele já nasce assim. Vem de fábrica. Não é a sociedade que o faz experimentar coisas novas pra entrar na moda. Obviamente existe quem faz isso, mas se o mercado já é cruel com quem sabe dialogar com o demônio que ele está conjurando, jogue um Youtuber que só fala de relacionamentos amorosos pra escrever uma cena de esquartejamento e a chance de ele falhar miseravelmente será tão alta quanto sua inaptidão pela sevícia.

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EMPATIA ATRAVÉS DO HORROR

Quando alguém me questiona o motivo de eu escrever terror, hoje rebato com um sonoro “E por quê não?”. Já passei pela fase clássica de responder que “o terror é uma forma de sentirmos medo em segurança”… oudo clichê de parafrasear Lovecraft, falando que “o medo é a emoção mais antiga e mais forte da humanidade”. Repeti por muito tempo jargões de mestres do gênero por achar que a minha resposta não era o que esperavam ouvir de um sujeito que tira foto apoiado em uma pilha de crânios, que tem cabeças decepadas em jarros enfeitando a sala de casa, ou que assusta os filhos correndo atrás deles com uma máscara assustadora do capeta.

Porém, a verdade é que na minha paleta de emoções, o medo, o amor, a vida e a morte interligam-se a favor de uma história sobre a minha própria vida, sobre quem eu sou. Todos os elementos, todos os personagens, todas as situações, refletem escolhas que já fiz ou que tenho medo de ter que fazer algum dia. E pra perfurar o coração de um leitor, você precisa compartilhar algo íntimo seu e vê-lo assumir os seus traumas. O que busco é causar empatia através da transferência sincera de sentimento. É assim que deve ser a escrita: sem a obrigação de trazer algo além da sua própria verdade.

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Enquanto alguns veem poesia no beijo, outros, como eu, veem poesia na morte. E grande parte da culpa por isso foram as influências literárias e cinematográficas que consumi desde cedo, escapando da cama pra assistir A Noite dos Mortos Vivos no Corujão ou Freddy Krueger na Sessão das 10. Apesar de o terror ser o gênero que eu produzo no cinema, minhas principais referências como profissional da sétima arte vão de Tarantino a Nolan, passando por Lynch e Gaspar Noé, com igual idolatria ao Coppola e Aronofsky. E como muitos que caminham pela vereda soturna das letras, meu estilo foi forjado nas principais referências do Romantismo sombrio, como Poe, Byron e Shelley. No entanto — nacionalista orgulhoso da nossa cultura que sou — coloco Álvares de Azevedo em primeiro no meu altar de adoração.

O medo sempre está conosco, derrotando a coragem quando suas garras nos puxam para o seu mundo de pavores. Acessar esse monstro interior e psicografá-lo é libertador (e muito mais barato do que qualquer terapia). O profeta Anton Lavey disse que “o homem tem uma besta que precisa ser exercida, não exorcizada”. Cada um tem a sua, e eu optei por exercer a minha no mundo das letras e do audiovisual.


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