Como parte da essência da nossa sociedade contemporânea, o patriarcado continua seguindo historicamente seu rumo. Há formas de compreendê-lo e conhecê-lo, ao estudar a sua evolução. Há modos de combater equívocos – que não são poucos – e analisar como conceitos tão ultrapassados puderam chegar tão longe. Mas há uma forma diferente, porém, muito mais entranhável, de compreendê-lo: conhecendo e lendo literatura feminina!

Literatura feminina não é feminista. Também pode ser, mas isso não é uma obrigação. Suspeito não ser uma espécie facilmente rotulável, e me arrisco a sugeri-la com todos os danos colaterais que me podem ser apontados. Sendo mais preciso, há de se compreender e sentir urgentemente a literatura contemporânea escrita por mulheres. É escrita com ovários, com úteros ou simplesmente com a percepção do feminino que, muitas vezes foi excluída também da literatura. Na literatura contemporânea brasileira há muita literatura feminina de muita qualidade, recomendada para mulheres e fundamental para homens.

É a literatura feita por escritoras como a ao mesmo tempo mágica e reveladora Aline Bei, a poética Carla Madeira e a cortantemente talentosa Carol Rodrigues. E antes que me acusem de deslocamento de lugar de fala, não esqueçam que estou no mero lugar de leitor.

Aline, além de escritora em ascensão sem previsão de retorno, é professora de mão cheia nas oficinas de conduz, dirige e pinça maravilhas dos alunos, extrai tudo o que há de melhor em cada um. Ao autografar um exemplar da escultura que é O peso do pássaro morto escreveu: “que nunca mais uma mulher se cale.” Posso estar reformulando a frase de algum modo, mas o texto contundente e poético da Aline é sempre poesia espalhada em prosa.

Aline é precisa no decalque das sensações, o que faz ser necessário ler o Pássaro – apelido carinhoso do seu primeiro romance, em voz alta:

“ ... chorei de saudade da
Carla minha menina
intacta que sempre soube fazer do medo
um pó
de risada nossa.”

Seria um misto de atrevimento com desvio de caráter não ler Aline. Ela vai voltar outros vezes aqui, nesse espaço, seguramente. E sua escrita nos faz sol e chuva ao mesmo tempo, chorando e rindo num mesma página, uma jóia da literatura contemporânea em língua portuguesa.

Numa mesma linha de escancaro da visão lírica feminina segue Carla Madeira. Seu Tudo é Rio é de uma beleza tão constante que os rabiscos à lápis, tradição desavisada que adquiri ao longo dos anos, praticamente marcam o livro inteiro. Melhor suspender a marcação e ler o livro inteiro outra vez.

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Se Aline escreve num formato que pode, reparem no verbo – ser considerado romance em verso, Carla procura a prosa, para o seu romance que, recheado de poesia, volta a confundir as formas literárias. Também suspeito que refunde os olhares vistos como exatos por aí, os reconfigurando sob o feminino, justamente para quem não ocupa o espaço feminino: “Para as putas, basta a Deus um coração puro, outras partes podem ser lambuzadas. Para as beatas, qualquer lambança no corpo contamina o coração. Uma guerra santa e encorpada.”

Carol Rodrigues vem em contos e romance, mas aqui me atenho ao livro de magníficos contos chamado Sem Vista para o Mar, que é de fazer palpitar acelerado, cafeína no sangue entranhada pelas letras: “O menino sofria muito obrigado e do olho do Nestor um brilho do filho que nunca teve se esvaía como ideia.” Sua poética é de se chegar em qualquer hora do dia, tem tema diurno, tem tema noturno, sempre elegante, sem sobras.

Aline, Carla e Carol são contemporâneas, da mesma geração, de um mesmo país, todas talentosíssimas. São um bilhete antecipando a perenidade do feminino que está por vir como forma maior de olhar o mundo. Resta saber quem pretenderá ser tocado pelo seu brilho. Quem as ler, será.

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