Literatura negra, hoje

Literatura de reconhecimento

Este texto sobre Literatura Negra começou em 2017. De lá para cá, ele vem convivendo comigo como uma vontade constante. A ocasião foi um encontro fortuito, na Feira Literária Internacional de Paraty, quando no stand da Poeme-se, na Casa Santa Rita da Cássia, uma mulher negra, de uns 40 anos no máximo, mostrou-se surpresa ao falar de Scholastique Mukasonga e perceber o meu desconhecimento sobre a autora. Com os dois livros da escritora ruandesa nas mãos – Nossa senhora do ninho e A mulher de pés descalços (Editora NÓS) – aquela moça me disse, com a voz mansa para um conselho fraterno: “irmão, você precisa conhecer.” Assenti, complacente, com um modesto “vou procurar”. Não sabia o nome da moça que me falava, que me chamava de irmão; também não tinha coragem de pedir para que ela repetisse o nome da autora que me soava estranho e difícil. Mentalmente eu repetia a sonoridade, sem saber como se escrevia, com a esperança de que o Google me diria na primeira busca.

E não deu outra: Scholastique Mukasonga foi sucesso na FLIP de 2017. Vendeu tanto que nem o exemplar pessoal de Simone Paulino, fundadora da Editora NÓS, dando bobeira na mochila, sobrou para contar história. Naquela edição da FLIP, A mulher de pés descalços foi o segundo livro mais vendido, e Nossa senhora do ninho, o quinto. Desde então eu sempre folheio os livros de Scholastique quando entro na Livraria Da vinci ou na Livraria Travessa da Sete de Setembro, no Centro do Rio de Janeiro, com aquela breve conversa em mente. E com um estranho sentimento de dívida a comprir com alguém desconhecido.

E foi lá que este texto começou. A surpresa de meu desconhecimento de uma autora africana no cenário literário brasileiro tomou a ambos naquela conversa. Não que eu esteja super atento às novidades do mercado editorial; foi apenas um sentimento, uma vontade, e a certeza de que me atentar para a literatura negra seria uma experiência de reconhecimento e reencontros. De lá para cá, caro/a leitor/a, tento acompanhar as novidades que nosso mercado editorial nos oferece. Não para (ou só) literatura de africanos (qual África?), mas para Literatura Negra. Devo àquele momento atemporal de uma conversa breve, que atravessou o meu dia, numa casa Santa, onde entusiastas das letras discutiam e performavam considerações diversas, e estende-se como uma orientação de leituras literárias, atualmente.

Com essa breve introdução, que fala sobretudo de minhas experiências literárias, gostaria de propor este texto que, como falei, me acompanha desde 2017. E seu caráter processual obriga-o a ser aberto, em constante atualização. De forma coletiva, com dicas e conversas instigadoras. O título deste texto, por demais pretensioso, engana com o aparente objetivo que se propõe, no entanto. Isso porque o autor não pretende abranger a Literatura Negra, contemporânea, como um todo. Faltaria espaço de página hábil para tanto, além dos limites intelectuais que tal missão imporia. O objetivo é mais modesto: apenas apresentar algumas obras, de uma seleção muito pessoal, que venho acompanhando com entusiasmo entre as publicações literárias dos últimos anos.

Antes, é preciso entender o que chamo de Literatura Negra como o conjunto de obras literárias, de todos os gêneros, escritas por autores e autoras negras. Sobretudo obras que em seu conteúdo tratam de questões filosóficas, sociais e históricas da população negra – em literatura. A lista é longa; a qualidade, inquestionável! Doa a quem doer.

É uma literatura potente. Traz as vozes de jovens negros, de favelados, de jovens das periferias urbanas. E apresenta uma literatura do reconhecimento, para aqueles e aquelas que se veem nas narrativas. Penso, por exemplo, no primeiro conto de O Sol na Cabeça de Geovani Martins – Rolézim. Lembro de ter lido a caminho do IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, UFRJ), no 321 cheio, por volta das 8 horas da manhã. A Linha vermelha engarrafada, o calor do Rio de Janeiro, e os versos que abrem o conto: “Sem neurose, não era nem nove da manhã e a minha caxanga parecia que tava derretendo”.

Literatura negra hoje Coleção Melanina Literária

O livro de Geovani é símbolo disso. Me vi em muitas passagens dos treze contos. Só quem é tá ligado. Dei gargalhadas em muitos momentos; em outros, apenas assenti e compartilhei de um sentimento que parece rondar nossas cabeças, como o sol: é foda! Mas a vida segue. Vivão e Vivendo, como disse os Racionais Mc’s. Leio e releio O Sol na Cabeça convicto de que ali tem uma filosofia muito própria: a ideia correria. Ou perrengue. Filosofia porque isso performa o corpo, a fala e a escrita.

Geovani passa pelos trilhos do trem, distribui panfletos no centro, passa no Jacaré, está em Bangu e sai com os amigos de rolézim para praia. São jovens que, com pouco ou sem dinheiro, resolvem ir à praia a fim de passar o tempo e amenizar o calor da cidade. A narrativa apresenta um grupo de amigos transitando em um espaço urbano hostil, que é necessário, enquanto jovens favelados, performar seus corpos em cada situação sempre com muito cuidado. A violência está presente, mesmo às vezes banhada de ironia. Está presente também a moral e respeito pela mãe, que é o limitador desse jovem nas ruas. A lembrança do irmão injustiçado. Tem a solidariedade entre amigos, ou de um rasta que cede uma seda e alerta para os perigos da praia naquele dia. Tem na narrativa de Geovani um olhar sobre o outro e sobre si mesmo, que está em constante diálogo em seus contos. Seguindo minha formação acadêmica, estou inclinado a chamar isso de antropologia. Sobretudo em rolézim, que foi um conto que me marcou do começo ao fim, por apresentar uma descrição completa do cotidiano do personagem; e como Geovani narra um corpo periférico que dissimula sua presença em um lugar hostil como a praia da Zona Sul carioca, e apresenta, com um toque de humor, a alteridade ao falar dos playboys. Rolézim é sobre as experiências de Geovani, mas, também, apresenta questões sociais como pano de fundo – e o nome do conto não é nenhum mero acaso.

A experiência como elemento narrativo oferece a possibilidade, como eu disse, do reconhecimento naquela história que se desenvolve linha após linha, parágrafo após parágrafo. Atualmente tenho me visto nas histórias de vida narradas pela maravilhosa Yaa Gyasi, a jovem escritora ganesa que apresenta de uma maneira muito rica as estruturas escravocratas em África, e das vidas diaspóricas nos Estados Unidos, em O Caminho de Casa. O nome é lindo. Aqui, temos uma dimensão da experiência histórica da diáspora, da circulação de africanos no mundo a partir do tráfico negreiro. Embora o livro transite entre África e EUA, é possível perceber elementos culturais que nos constituíram enquanto sociedade. É reconhecimento, que inclusive é um tema que constitui a obra. Yaa Gyasi ganhou o prêmio PEN/Hemingway de melhor romance de estréia. Nem terminei O caminho de casa e já estou esperando outro livro da autora.

Outras autoras que estão na minha lista são Mel Duarte e Rayne Leão. Versos como “O mundo tem medo de mulheres extraordinárias” (Rayne Leão) ou “Mulher bonita é a que vai à luta” (Mel Duarte), chamam a atenção para essas autoras na cena da poesia contemporânea, que apresentam temas fundamentais para discussão. São vozes que participam e organizam slams, circulam pela cidade mostrando seus trabalhos, ocupando espaços públicos com voz potente. Penso agora enquanto escrevo nos versos de Kimani, que tive o prazer de ouvir na FLUP de 2017, no Vidigal.

A lista é longa e necessária para quem se interessa por literatura, para quem quer se manter atualizado das novidades das letras. E esse movimento tem sido importante porque faz circular por aqui, em português, autores e autoras estrangeiras como Scholastique Mukasonga, Ngugi Wa Thiong’o (Um grão de trigo, Alfaguara, 2015), Futhi Ntshingila (Sem Gentileza, Dublinense, 2016), Paulina Chiziane (O Alegre canto da Perdiz, Dublinense, 2018), Maya Angelou (Eu sei por que o pássaro canta na Gaiola, Astral Cultural, 2018), Chimamanda Ngozi Adichie (Meio Sol Amarelo, Cia. das Letras, 2017), Buchi Emecheta (Cidadã de Segunda Classe, Dublinense, 2018), Colson Whitehead (The Underground Railroad – os caminhos para liberdade, Harper Collins, 2017). Entre autoras e autores de língua portuguesa, destacam-se Ondjaki (Os transparentes, Cia. das Letras, 2013), Conceição Evaristo (Becos da Memória, Pallas, 2017), Djamila Ribeiro (O Que é Lugar de Fala?, Letramento, 2017), Racionais Mc’s (Sobrevivendo no Inferno, Cia. da Letras, 2018), Eliana Alves Cruz (Crime no cais do valongo, Malê, 2018), Giulia Maria Reis (Móveis fora do lugar: noções de casa e a gaveta remexida, Urutau, 2018). Essa lista segue em constante atualização…

A literatura enquanto um campo artístico está em disputa constante, de onde emergem narrativas pessoais dentro de um processo histórico que é fundamentalmente coletivo. É reconhecimento por conta disso, uma vez que transcende o tempo e espaço e encontra semelhança nos temas, nos gestos, na poesia, nas razões que orientam o cotidiano, como um encontro inesperado, mas necessário, entre irmãos e irmãs.

Colaborador Rodolfo Teixeira Alves

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