O Black Friday já chegou na Poeme-se Produtos com até 50% off

Ver Oferta – Mês do Brack Friday na Poeme-se

Em 9 de Março de 2018, foi publicada na BBC Brasil uma entrevista com a escritora Conceição Evaristo. Nascida na favela Pendura Saia, em Belo Horizonte, hoje ela é saudada em todo evento literário de que participa. Mas esse sucesso — que, se comparado a escritores brancos, é bem menor — chegou tardiamente. Tanto que um trecho que ela disse nessa entrevista reverbera até hoje nas diversas publicações que tentam abordar o assunto da literatura negra no Brasil:

“Que regras são essas da sociedade brasileira para vermos uma mulher virar um expoente no campo da literatura só aos 71 anos? […] É preciso questionar essas regras e dinâmicas sociais, culturais e econômicas que tornam tudo muito mais difícil para as pessoas negras. ”

Ao mencionar tais regras, Conceição Evaristo está, na verdade, jogando no ventilador a existência de um sistema que limita e que oprime. Esse sistema é político, econômico, histórico, social e estético. Alfredo Bosi, no Dialética da Colonização, obra da década de 1990, expunha algo que nunca foi digerido completamente pela nossa sociedade: “Os possuidores de escravos foram os construidores de nossa nacionalidade”. Isso significa que uma visão de mundo preconceituosa e que tirava proveito da docilização e comercialização de corpos humanos provenientes de outra geografia e de outra cultura foi a mesma visão de mundo que moldou o país em que vivemos.

HIERARQUIA DE ETNIAS E VOZES

Daí, percebe-se que existe uma forte hierarquização étnica na sociedade. Isso, aliás, reflete em toda a cena cultural brasileira e é por isso que vemos nas prateleiras mais livros escritos por brancos do que por negros, tal como assistimos a mais atores de cor de pele branca na TV do que os de pele negra. Essa hierarquização pratica um sistema de silenciamento de vozes que tenta suprimir as falas e gritos de todos que estão à margem. Rodolfo Teixeira Alvez escreveu um texto em que levanta e analisa justamente a crescente produção literária negra. São diversos autores sendo publicados no mundo e, por consequência, no Brasil hoje.

Coleção Machado de Assis Poeme-se camiseta da coleção melanina literária

Ver Coleção – Machado de Assis

Esse cenário atual de crescimento no número de publicações de autores negros está longe de ser o ideal. Contudo, foi e é fruto de uma série de ações dentro de uma mesma luta: a luta pelo direito à voz na sociedade. Lembremos que escritores negros que se tornaram canônicos tiveram sua negritude apagada da História, vide o caso do embranquecimento da foto de Machado de Assis e a supressão da informação sobre a cor de pele de outros escritores, tais como Castro Alves e Cruz e Sousa. Muitos autores foram drasticamente suprimidos, como Luís Gama, que nem é citado em livros didáticos escolares.

A virada chegou com força nas décadas de 1960 e 1970. Primeiro, com o sucesso de Quarto de Despejo, da catadora de lixo Carolina de Jesus. Depois, com a fundação do Movimento Negro Unificado, em 1978, que eram um desdobramento da luta travada contra a Ditadura Militar. Resultou-se disso a fundação do movimento Quilombhoje, em 1980, por Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cuti e Abelardo Rodrigues. Esse movimento criou e editou a importantíssima revista Cadernos Negros, que não só resgatou poetas e autores negros apagados ao longo da história como deu voz aos autores contemporâneos. Para ficarmos com um exemplo que abriu este texto, o primeiro veículo a dar espaço para as poesias de Conceição Evaristo foi, precisamente, esses cadernos.

Coleção A cor purpura Poeme-se camiseta da coleção melanina literária

Ver Coleção –  Alice Walker

Nos dias atuais, as redes sociais marcam presença neste campo de batalha. Muitas outras revistas e jornais literários foram e continuam sendo criados. E são nelas também que muitos autores encontram a chance da autopublicação ou a chance do encontro com uma editora cuja linha editorial os contempla.

Além disso, temos outros suportes para a literatura negra. Nos bairros periféricos das grandes cidades, para onde historicamente os negros escravizados e suas proles foram jogados nos anos após a abolição da escravidão, surgiram os Slams. Slam é uma junção de música com poesia: há uma influência fortíssima do rap, com direito a muitas rimas internas e externas, e até batalhas entre poetas. Alguns desses Slams são exclusivos para mulheres — afinal, as mulheres negras sofrem preconceito duplamente: pelo racismo e pelo machismo. Temos no Blog uma entrevista bastante potente com Gênesis, do Slam das Minas do RJ, que aborda esse tema e muitos outros. Vale muito a pena dar uma lida.

Coleção Maria Firmina Poeme-se camiseta da coleção melanina literária

Ver Coleção –  Maria Firmina

COLEÇÃO MELANINA LITERÁRIA

Pensando nas gravíssimas lacunas que a história do racismo imprimiu no panorama da literatura brasileira, a Poeme-se criou uma coleção chamada Melanina Literária. Lá, encontram-se estampas sobretudo provocativas, como a Tá faltando preto na casa de Machado de Assis, que evidencia o fato de que foi um escritor negro quem fundou a Academia Brasileira de Letras e que, apesar disso, quase não houve escritores negros ocupando suas cadeiras.

O apagamento de escritores canônicos também se encontra na coleção, ao destacar o caso de Maria Firmina dos Reis. Ela foi a primeira romancista do Brasil. Era abolicionista e seu romance, Úrsula, tem como tema central a escravidão e seu sistema desumano.

Coleção Nelson Mandela Poeme-se camiseta da coleção melanina literária

Ver Coleção –  Nelson Mandela

Lima Barreto é outro autor canônico resgatado pela coleção. A estampa “Bruzundanga” faz menção ao livro Os Bruzundangas, que reunia textos jornalísticos escritos pelo autor, com forte pegada satírica e política. O escritor faz severas críticas à política provinciana e suas consequências para a desigualdade social da época. Tristemente, ao lermos esses textos hoje, percebemos que certas coisas não mudaram nada…

Além de escritores importantes para a história da nossa literatura, a coleção também traz autores internacionais, tais como a espetacular Alice Walker, do A Cor Púrpura. Esse romance expõe a brutalidade da escravidão, com enfoque na brutalização de emoções decorrente desses processos.

Há também espaço para personalidades negras, como Nelson Mandela; gênios de outras artes, como Nelson Pereira dos Santos; e, também, artistas contemporâneos. Destes, pode-se destacar a incrível Elisa Lucinda, com uma frase que dá sustento à esperança de que a luta deve continuar para que tempos melhores venham:

Coleção especial Melanina Literária

Ver Coleção –  Melanina Literária

“Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final. ”

A luta das vozes silenciadas pelo direito a lugares de fala ocorre nos mais variados cenários. Os campos de batalhas são múltiplos. É função da sociedade como um todo que todos os corpos sociais sejam ouvidos e tenham suas integridades protegidas. Para terminar, fiquemos com a frase que serve como mandamento para os dias atuais, do jovem poeta mineiro Tokinho Carvalho:

“Em terra de egos quem vê o outro é rei. ”


Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *