Na semana em que comemoramos o Dia do Professor, nada mais justo do que deixar a palavra aberta a eles. Ao refletir sobre o tema, nos deparamos com uma questão importante: quem são os nomes que levam a poesia para a sala de aula de uma forma leve e inovadora? Chegamos a dois professores que tem feito a diferença, mostrando que para colocar a poesia em movimento vale muita criatividade, bom humor e uma bela dose de arte. Conheça os professores Eduardo Santos e Renato Bressan que com recursos originais criaram novas formas de ensinar poesia em sala de aula.

Professor Eduardo Santos encena Capitu em sala de aula

“Nunca entrei em uma sala de aula de mau humor! Ser professor é um privilégio, por mais que muitas pessoas depreciem das mais diferentes formas minha profissão. Imagine estar exposto frequentemente a diversas pessoas com mentes diferentes e ideias próprias e aprender com cada uma delas. É simplesmente maravilhoso ter tudo isto!” – Professor Eduardo Santos 

dia-do-professorProfessor do Rio de Janeiro há 8 anos, Eduardo Martins da Silva Ozório leciona as disciplinas de Literatura, Língua Portuguesa e Produção Textual. Formado em Língua Portuguesa e Literatura, a paixão por livros veio de muito cedo. Ainda menino, conta que após uma enchente destruir sua casa e levar tudo, ganhou uma caixa de livros de uma amiga – fato que o faz definir os livros como um “amor para a vida inteira”.

Fã de clássicos como Nietzsche, Dostoievski, Tolstoi e das obras de Machado de Assis, ele tem uma opinião bem positiva e aponta reflexões interessantes sobre a tecnologia em sala de aula e sobre o panorama atual dos jovens leitores. Perguntamos ao professor o que ele acha da fala de muitos que dizem que os jovens da atualidade não possuem mais interesse na literatura clássica, ou quando possuem algum interesse, preferem ler romances internacionais ou os mais novos lançamentos dos jovens YouTubers que chegam às prateleiras do mercado.

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Eduardo encarna Capitu

“Acredito que vemos os jovens de forma incorreta. Defini-los assim, como um pacote de seres uniformes é bobagem. Existem muitos tipos de pessoas, sejam elas adultas, jovens ou idosas! Não concordo com um cenário essencialmente caótico, já que as redes sociais acabaram sendo um fator de reaproximação do jovem com o discurso escrito. O cinema também tem protagonizado muitas releituras de obras literárias das mais diferentes origens. A cobrança de redações em concursos públicos e a forte abordagem de questões interpretativas se tornou outro fator de estímulo. Acho que o jovem deve conhecer o clássico mas sem deixar de lado o novo. Faz parte de ser independente intelectualmente estar exposto a diferentes leituras, textos, obras artísticas e ter a partir deste conhecimento uma opinião embasada e sem engessamentos“, pondera Eduardo. 

novas-formas-de-ensinar-poesia-em-sala-de-aulaEm sala de aula, o professor já se vestiu de Capitu, Brás Cubas e Vasco da Gama, tudo para inserir o contexto das obras de forma lúdica e envolver ainda mais seus alunos.“Já propus avaliações utilizando o Twitter e o Facebook e tenho um projeto de realizar uma avaliação a partir da criação de ilustrações em grafite para ocupar os muros dos bairros dos alunos. É importante salientar que isto não fez com que eu aposentasse as folhas extras de exercícios, as apostilas e os cadernos, afinal, há espaço para tudo!”, contou. 

Como recompensa, o professor contabiliza mais proximidade com seus alunos e percebe mais interesse deles sobre os assuntos abordados na sala de aula:

“Nunca separei a sala de aula da minha vida pessoal. Todos os meus alunos têm acesso às minhas postagens nas redes sociais, meu número de celular e meu WhatsApp. Esta proximidade me faz acompanhar melhor o que eles esperam da sala de aula e do futuro e, em geral, as críticas são muito boas. Não me furto a ouvir os alunos, aquele papel de professor carrasco não combina comigo, mas isto não me deixa menos exigente! Normalmente eles chegam a assistir novamente minhas aulas no turno que não frequentam ou mesmo se escondem em minha sala para assistir as aulas de outras turmas!”

Professor Renato Bressan ensina literatura em ritmo musical 

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O professor Renato Bressan é de Ubá, Minas Gerais, e leciona a disciplina de Literatura e Arte, no colégio Pilar, além de dar aulas no cursinho Universitário e no cursinho Lunos CAD. Graduado em Comunicação e em Letras, Renato conta que seu autor favorito é Fernando Pessoa. Porém, na hora de indicar um livro de leitura obrigatória para os jovens, ele é cuidadoso: “Não acho que a Literatura deva ser obrigatória. Se começou a pensar assim, já está errado. Mas, leiam de tudo, escutem de tudo, criem seus próprios textos, é assim que se aprende a ter prazer com a Literatura enquanto Arte da Palavra. Busque prazer nas leituras, já está ótimo.

Antes de ser professor de Literatura, Renato participou de alguns projetos como o “Convergências Poéticas: de Murilo Mendes ao Twitter” (twitter.com/murilograma) e o projeto Re Ching (www.reching.tumblr.com), ambos na área da literatura e poesia. Depois, em contato com seu professor do Ensino Médio, foi contratado para ministrar aulas no Ensino Médio em 2014.

No início, tive muita dificuldade, por não estar familiarizado com o ambiente do Ensino Médio (mesmo após dar aulas durante o estágio docência, no mestrado). Era um desafio chamar a atenção dos jovens, por conta de muitos terem dificuldade de concentração, preconceito com a disciplina e acesso a dispositivos conectados à internet; além, é claro, de ser meu início de carreira como professor de educação básica. Aos poucos, fui me soltando e aprendendo a lidar com os estudantes. Ainda tenho que aprender muito. Lecionar é um desafio diário, não dá pra saber se o planejamento vai funcionar ou não”, conta Renato. 

Em suas aulas, um dos recursos que o professor utiliza é o “Paródias Literárias”, no qual ele transforma as músicas populares em letras que ajudam a fixar o conteúdo da matéria. No repertório ele inclui nomes como Wesley Safadão para falar do Parnasianismo, por exemplo. Um dos sucessos da sua aula é “Barrocamente”, inspirada no hit do funk, “Malandramente”, confira:

“Levo a música e a poesia para qualquer lugar, não tem jeito. A ideia é criar paródias de músicas conhecidas para falar de estéticas literárias e temas que envolvam a disciplina de Literatura. É uma forma que encontrei para tornar as aulas mais divertidas, sem deixar o conteúdo de lado”, ressalta o professor. 

Veja outros vídeos em seu canal do YouTube aqui.
Além desse projeto, Renato expande essa originalidade aos trabalhos propostos em sala, como adaptações livres de poemas e livros, criação de programas para debate de obras, videoclipes, dinâmicas etc.

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“Gosto muito de explorar a linguagem audiovisual e as redes sociais online. Vejo que os jovens desenvolvem um maior interesse pela disciplina e trabalham competências importantes para o mercado atual, como trabalho em equipe, domínio de ferramentas para edição e publicação online, além, é claro de ocorrer uma maior proximidade da disciplina com o cotidiano deles. Assim, o conteúdo dado em sala deixa de ser algo distante de suas vidas. Fico muito satisfeito em ver como os jovens se envolvem com a Literatura e admiro as maneiras de apropriação do texto literário que eles criam. Aprendo junto e vou me atualizando”, explica. 

poesia-em-sala-de-aulaRenato também trouxe para a gente uma visão interessante sobre o panorama do jovem leitor brasileiro, apontando um caminho para que esse público se interesse cada vez mais em explorar a literatura para além das salas de aula:


“Acho importante que a Literatura não seja ensinada apenas do ponto de vista Lógico, Histórico ou Ético, mas que o seu lado Estético seja privilegiado. Literatura = Arte. Arte tem a ver com sensações, prazer, sensibilidade, fazer pensar, criar perplexidade etc. É isso que falta: colocar “tesão” na Literatura e atualizar o diálogo da contemporaneidade com as obras literárias que são cobradas nos exames, criando conexões entre a Literatura e a vida do aluno”, pontua o professor. 

Você conhece outros professores que inovam na didática na hora de expor os conteúdos em sala de aula sobre Poesia e Literatura? Divida com a gente nos comentários!

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