Afirmar que José de Cruz e Sousa foi um dos nossos maiores poetas é chover no molhado. No entanto, a tradição escolar somente nos apresenta o escritor simbolista, criador do longo e genial “Violões Que Choram”. No entanto, o Cisne Negro foi muito além dessa escola literária. Façamos, então, um passeio curto sobre a vida e a obra desse importante poeta.

De início, falemos sobre seu nascimento. Foi na cidade que atualmente se chama Florianópolis, mas que na época tinha como nome Desterro, em Santa Catarina. O dia? 24 de novembro de 1861. Filho de dois escravos alforriados, Cruz e Sousa foi apadrinhado pelo ex-patrão de seus pais, o que lhe possibilitou estudar ao longo da infância e em parte da adolescência. De seu padrinho, adotou o sobrenome “Sousa”. Mesmo com boa instrução formal, sua vida não foi fácil, como escreveu, quase que de maneira autobiográfica, no poema “Vida Obscura”, o qual foi publicado apenas após a sua morte, no volume Últimos Sonetos:

“Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, Ó ser humilde entre os humildes seres. Embriagado, tonto dos prazeres, O mundo para ti foi negro e duro. […]”

A Revolução Francesa e o Abolicionismo

Ainda na adolescência, seu protetor faleceu. Com isso, Cruz e Sousa abandonou a escola, pois não tinha como bancar os estudos, e começou a trabalhar em jornais. Escreveu, usando pseudônimos, diversas crônicas ao longo da juventude muitas das quais só vão ser publicadas em livro postumamente. Como descendente direto de escravos, sua vida e seu corpo foram marcados pelos grilhões escravocratas e racistas do nosso Brasil. Cisne Negro defendia a abolição e propagava o máximo que podia suas ideias abolicionistas. Por ter tido uma educação formal e por ter gosto pela leitura, seus argumentos sempre almejavam a liberdade prenunciada pela Revolução Francesa e pela extensa tradição humanista. O trecho abaixo, extraído da crônica  “Abolicionismo”, de 1887, encontrada em Dispersos: Poesia e Prosa, comprova:

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“[…] A Abolição, a grande obra do progresso, é uma torrente que se despenca; não há mais por-lhe embaraços à sua carreira vertiginosa.

As consciências compenetram-se dos seus altos deveres e caminham pela vereda da luz, pela vereda da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, essa trilogia enorme, pregada pelo filósofo do Cristianismo e ampliada pelo autor dos — Châtiments, — o velho Hugo.

Já é tempo, cidadãos, de empunharmos o archote incendiário das revoluções da ideia, e lançarmos a luz onde houver treva, o riso onde houver pranto, e abundância onde houver fome. […]”

A temática dos escravos se mostrou presente em diversos poemas seus, também, confundindo-se com as imagens sonoras, olfativas e cromáticas da sua criação poética simbolista. Quanto a isso, Cruz e Sousa fundou o Simbolismo no Brasil, junto a alguns companheiros, como Bernardino Lopes e Oscar Rosas. Esta escola literária opunha-se ao pensamento lógico-científico que o positivismo espalhou pelo mundo, invocando temas (e usando metáforas) nebulosos, taciturnos, subjetivos e místicos. Buscava-se a musicalidade dos sons, por isso havia uma preocupação com as rimas (ao final dos versos ou no meio deles) e com os sons das vogais. Seu poema mais famoso, “Violões que Choram”, exemplifica isso tudo:

“[…] Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa E vibra e se contorce no ar, convulso… Tudo na noite, tudo clama e voa Sob a febril agitação de um pulso. […]”

Bebendo com Baudelaire

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Se Cruz e Sousa é o pai do nosso Simbolismo, isso se deu por suas leituras de um importantíssimo poeta francês, de muito sucesso entre os “malditos” do Ocidente: Charles Baudelaire. Revoltando-se contra a produção poética de sua época, Baudelaire distribuiu farpas tanto contra o Romantismo — ao atacar a idealização do amor e ao criar textos protagonizados por aqueles que eram marginalizados na sociedade, como prostitutas, anões, mendigos, lésbicas etc. — quanto contra o Realismo e o Naturalismo — ao buscar a subjetividade, em oposição à Razão. Nosso Cisne Negro era leitor assíduo e tradutor de Baudelaire. Alguns temas se repetem nos seus versos e, além disso, ele se aproveitou do gênero “poesia em prosa”, consolidado pelo francês, para tratar das dificuldades da vida e dos absurdos da sociedade. Pertence a esse gênero o tocante e brutal “Emparedado”, escrito já próximo a sua morte, quando o poeta “baudelairemente” se volta contra todas as instituições e estratos da sociedade branca rascista que negou a ele, e continua negando constantemente a negros, cargos, direitos e lugares:

“Era uma politicazinha engenhosa de medíocres, de estreitos, de tacanhos, de perfeitos imbecilizados ou cínicos, que faziam da Arte um jogo capcioso, maneiroso, para arranjar relações e prestígio no meio, de jeito a não ofender, a não fazer corar o diletantismo das suas idéias.”

Marcas invisíveis do Racismo

Ao ser negada sua indicação para o cargo de Promotor Público única e exclusivamente por causa de sua cor de pele, o poeta mudou-se para o Rio de Janeiro. Ali, foi arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e colaborador de alguns jornais, sempre ganhando menos dinheiro do que o suficiente para sobreviver com dignidade. Ao fim da década de 1890, sofrendo de tuberculose em estágio avançado, foi levado por amigos para uma região mais rural, com ar mais agradável. Não conseguiu se curar e acabou falecendo em 1898. Pelo menos, publicou quatro obras em vida. Mas deixou muita coisa escrita. Ainda no livro póstumo Dispersos, encontramos seu poema “Arte”, na versão original e em uma versão variante. Na última estrofe, como que a equilibrar a dureza da vida, testemunhamos a força que a poesia em específico e a literatura em geral podem conceder ao poeta e a seus leitores:

“Faz estrofes assim, de asas de rima, Depois de fecundá-las e acendê-las De amor, de luz – põe lágrimas em cima, Como as eflorescências das estrelas.”


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2 Replies to “O canto do Cisne Negro: um breve passeio pela vida e obra de Cruz e Sousa

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