Lá no meu perfil de divulgação literária, elrafa.lit, muitos me pedem para opinar sobre adaptações literárias. Minha resposta costuma ser polêmica: nem sempre o livro é melhor do que o filme! Até concordo que na maior parte das vezes, as versões em papel superam a audiovisual, pois o livro, por ter mais páginas, consegue dar conta de mais elementos, sentimentos e pensamentos — e nem sempre o cinema entrega um resultado psicológico dos personagens satisfatório.

No entanto, uma coisa é certa: cinema e livro são mídias diferentes. Isso significa que eles possuem características diversas. O livro, por exemplo, pode se utilizar de páginas e mais páginas para descrever uma sequência quase irreal de pensamentos. Por outro lado, o cinema tem o poder de construir imagens que muitas vezes superam até a nossa imaginação. E não vamos nos enganar aqui: a nossa imaginação constitui a base do livro. Somos nós, leitores, que imaginamos aparências, ambientes, locais e detalhes que muitas vezes não estão descritas em palavras. Somos, portanto, aliados do autor.

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Parte da frustração com algumas adaptações cinematográficas provêm da nossa expectativa de leitores. Enquanto lemos a obra, imaginamos tudo aquilo que nos é entregue e voamos para além daquelas linhas. Por isso, quando entramos na sala de cinema, nós queremos ver na tela algo que se assemelhe ao que já havíamos imaginado em detalhes mentalmente. Curioso é que sabemos que os diretores de cinema não são telepatas e, mesmo assim, ficamos frustrados por ver imagens que diferem do que tínhamos imaginado.

Para curtir verdadeiramente uma adaptação cinematográfica, precisamos lembrar sempre da diferença entre o filme e o livro. Aceitar essa diferença nos leva a aceitar, também, que elas possuem limitações e vantagens. Enquanto há certos limites em uma, há potências na outra mídia — e vice-versa. Uma não é melhor do que a outra: elas são diferentes, então não há motivo para hierarquizá-las.

Como a narrativa do cinema difere da narrativa do livro, personagens da versão em papel precisam sumir ou ser fundidos a outros personagens na versão fílmica. O mesmo acontece com cenários, que podem desaparecer, e com momentos-chave, cujas ações podem se dar em outros momentos do enredo. O filme obedece a um outro tempo, aliás: se você pode pausar uma leitura, o filme no cinema não pode ser pausado. Os serviços de streaming estão mudando essa questão aos poucos, mas os filmes ainda são pensados dentro de uma unidade de tempo específica.

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Falei tudo isso e pode parecer que estou fugindo do meu próprio título, mas não. Apenas coloquei uma explicação que embasa o critério que eu uso para julgar as adaptações cinematográficas. Lembremos que não adianta uma adaptação cinematográfica ser muito fiel a uma obra se ela não resultar em um bom filme. Ela precisa, em primeiro lugar, ser um filme bacana de se assistir. Portanto, vamos a CINCO excelentes adaptações cinematográficas — tão boas que talvez sejam até melhores do que os livros que lhes deram origem!

1. Stanley Kubrick, “O Iluminado” (Stephen King, “O Iluminado”)

Comecemos com um clássico do ano de 1980. A premissa nem parece diferente entre as duas mídias. O protagonista, Jack Torrance, é um escritor e precisa se isolar do mundo para vencer um bloqueio de escrita. Ele vai com esposa e filho pequeno a um hotel que fica numa região gélida. Esse lugar ficará fechado por meses, devido ao inverno, e Jack foi contratado para cuidar do lugar. Lá, o isolamento vai perturbando a mente do nosso pai de família… Bom, no livro do Stephen King há outras explicações para a loucura do Jack, mas Kubrick fez as suas mudanças. Com isso, ele criou um filme emblemático: o que aconteceu com Jack não é sobrenatural, é algo que pode acontecer com todos nós. Isso nos causa tanto medo quanto as páginas do livro. Portanto, sucesso! Adaptação de respeito, mesmo mudando elementos da obra. 😊

2. Michelangelo Antonioni, “Blow Up” (Julio Cortázar, “As Babas do Diabo”)

Cortázar, mestre da literatura fantástica latino-americana, em seu livro “As Armas Secretas”, de 1959, presenteou os leitores com um conto ímpar. Antonioni, em 1966, inspirou-se nele para criar o seu espetacular Blow Up. Um fotógrafo registra uma cena que parece romântica. Contudo, na revelação daquela fotografia no quarto escuro, ele percebe um detalhe que não havia visto ao vivo. Com isso, ele resolve investigar o caso. Essa premissa foi utilizada fartamente por Hollywood depois, em filmes como Todos os Homens do Presidente ou Blow Out. Antonioni captura com perfeição a atmosfera desconfortável e estranha do conto do escritor argentino. Como resultado, temos uma obra-prima.

3. Andrei Tarkovski, “Stalker” (Arkady e Boris Strugatsky, “Piquenique na Estrada”)

Tarkovski tem, na verdade, duas adaptações que poderiam entrar nesta lista: Stalker e Solaris. As obras que deram origem a ambas foram publicadas no Brasil recentemente pela editora Aleph. No caso do Stalker, o filme supera incrivelmente o original: ele é poético de uma forma que incrível. A poesia flui do filme e nos encanta. O protagonista é um stalker, isso é, um indivíduo que sofreu a radiação causada pelo impacto de um objeto alienígena que não deve ser explicado. Com isso, ele tem sentidos mais apurados do que os de humanos comuns. Além disso, ele pode servir de guia para pessoas incautas que querem andar pelo lugar onde ocorreu tal impacto — e que está cheio de radiação. No filme, as pessoas querem que ele as leve até um quarto onde, reza a lenda, o desejo mais íntimo da pessoa será realizado. Mais do que isso não se pode ser dito — só assista!

4. Ethan e Joel Cohen, “Onde os Fracos Não Têm Vez” (Cormac McCarthy, “Onde os Velhos Não Têm Vez”)

Cormac McCarthy talvez seja um dos maiores escritores contemporâneos em língua inglesa. Suas obras possuem momentos de lirismo que se equilibram à violência franca de muitas cenas. Quem lê seus livros não sai ileso — o impacto é certo. É isso que ocorre na brilhante filmagem dos irmãos Cohen. Na história, Llewyn Moss rouba dinheiro de um ponto de venda de drogas. O assassino Anton Chigurh começa a caçá-lo, assim como o xerife, o qual está prestes a se aposentar.

5. Francis Ford Coppola, “Apocalypse Now” (Joseph Conrad, “Coração das Trevas”)

Francis Ford Coppola não é nenhum desconhecido quando o assunto é adaptação cinematográfica. Lembremos que ele adaptou o livro O Poderoso Chefão de Mario Puzo de forma exemplar em dois filmes ganhadores de Oscar de Melhor Filme. Em Apocalypse Now, filme de 1979, uma mudança foi imprescindível. Se no livro, o cenário é o Congo, no filme, temos o Vietnã. Ambos os lugares foram palcos de atrocidades inenarráveis e de enlouquecimentos tocantes. Na história, o capitão Willard faz uma viagem rio acima em busca do coronel Kurtz, que ficou louco. O filme tem cenas que nos impactam ainda hoje, como a famosa chegada dos helicópteros norte-americanos a uma remota vila vietnamita, ao som de “Cavalgada das Valquírias”, do compositor Richard Wagner. Já o livro é um clássico do cânone da literatura em língua inglesa e recentemente ganhou uma belíssima edição, com ilustrações, pela editora Ubu

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