“Ler é cuidar-se, rompendo com a grades do isolamento.
É evadir-se com o outro sem, contudo, perder-se nas várias faces da palavra.
E mais, ler é encantar-se com as diferenças. Ler é deixar o coração no varal”.

(Bartolomeu Campos de Queirós)

Começo esse texto lembrando o meu primeiro contato como leitora da obra de Lygia Bojunga. Conheci sua escrita a partir de seu único livro de contos, Tchau. Nele, li primeiramente o conto “A troca e a tarefa”. Como não se emocionar com a história da menina que se torna escritora e que morre com “a ponta do lápis fincada na paixão”?

Lygia Bojunga vive intensamente a paixão pelos livros: “Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida”. Sua paixão pelos livros, os livros que leu e escreveu, além da necessidade do contato direto com o seu leitor, fez a escritora criar a seção “Pra você que me lê” em seus livros, que passa a ser escrita quando sua obra começa a ser editada pela Casa Lygia Bojunga. Nessa seção, Lygia conversa com seus leitores, expõe algumas escolhas estéticas para as suas narrativas, mas acredito que muito mais que isso, Lygia mostra o sentimento pulsante de humanidade com o qual cria cada uma de suas histórias.

Destinados ao público infantil e juvenil, a princípio, seus livros – até o momento 23 livros publicados, sendo o primeiro Os colegas de 1972 e o último Intramuros de 2016 – trazem temas como morte, medo, solidão, abandono.

Camiseta Infantil Lygia Bojunga

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A maioria desses temas abordados por Lygia em suas narrativas são considerados temas-tabus, ou seja, aquilo que a sociedade não quer falar sobre e que acaba escondendo, principalmente, das crianças e jovens e jogando para debaixo do tapete como se não existissem; Bojunga, então, faz o contrário, levanta o tapete, espana a poeira e traz para o centro de suas narrativas os sentimentos que marcam e significam a nossa humanidade.

É com sensibilidade singular e trabalho estético potente que Lygia Bojunga realiza um percurso magistral ao apresentar os temas-tabus aos seus leitores, sendo que esse trabalho é feito a partir de um dos caminhos que considero o mais importante quando falamos acerca da literatura infantil e juvenil: a imaginação.

Considerada como uma das herdeiras de Lobato, Lygia contribuiu significativamente para a produção destinada às crianças e jovens no Brasil a partir dos anos de 1970, pois assim como Monteiro Lobato, Bojunga excluiu de suas narrativas o caráter utilitário, ou seja, obras que têm apenas o intuito de ensinar as crianças e jovens algum modelo de conduta ou aspecto pragmático. A literatura de Bojunga, assim como a de Lobato, não gera certezas absolutas; é uma literatura marcada pela linguagem artística, valorização da fantasia, do sonho e da emoção.

Caneca Lygia Bojunga

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Ganhadora do prêmio mais importante da Literatura infantil e juvenil mundial – o Prêmio Hans Christian Andersen – Lygia Bojunga não nega, portanto, o caráter imaginoso e não despreza a importância das crianças e jovens em suas narrativas. Ao contrário, dá a eles vez e voz, em um engenhoso entrelaçamento entre o mundo real e o mundo da imaginação.

Em suas narrativas, o fantástico irrompe no meio das cenas cotidianas; logo, é possível encontrarmos animais falantes, vivendo situações particularmente humanas: dúvidas, receios, medo. Além disso, Lygia Bojunga insere a imaginação como via para que suas personagens e seus leitores – crianças, jovens e adultos – possam, de alguma forma, lidar com a realidade às vezes um tanto quanto inóspita.

Uma outra particularidade da obra de Lygia Bojunga é como, na maioria de seus livros, a autora traz a arte com grande destaque em suas tramas. Com isso, as personagens encontram a si mesmas por meio da arte, seja circense, teatral ou a própria literatura, o processo de escrita. O que notamos é que para a Bojunga, a arte, a leitura não é somente uma fuga da realidade; é o elemento primordial para compreendermos as diferenças e as respeitarmos; é o modo como nos conectamos conosco e com as outras pessoas; é como conseguimos lutar por um mundo mais justo e mais cheio de imaginação.

Para finalizar esse texto, lembro-me de uma das primeiras falas do personagem Porco no livro Angélica, de 1975, quando ele reflete sobre como é entrar na vida: “Como é que a gente entra na vida, hem? Tem porta pra bater? E batendo… eles abrem?”.

Pois bem, às vezes, não sabemos como entramos na vida, nessa vida que estamos vivendo; mas é possível saber como entramos na vida de um livro e a vivemos. Pegue o livro na prateleira, seja da sua casa, da biblioteca, da livraria; abra-o e deixe que o convite de leitura se abra em sua mente e em seu coração. Assim, nesse minuto, estendo o convite de Lygia a você que me lê: leia o mundo da imaginação criado por Lygia Bojunga e faça desse mundo o seu mundo também. Quem sabe, em uma dessas páginas viradas, a gente se encontre mais uma vez nos caminhos abertos pela escritora.


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