Romper com os padrões cinematográficos de uma época não é apenas inovador, como que reverbera ao longo dos anos. Fugindo da linearidade, Cidadão Kane é uma crítica ao controle do conhecimento, onde a imprensa sensacionalista mostrada na tela domina a sociedade através de uma narrativa recheada de estratégias de poder. Você já assistiu esse clássico, morre de vontade de conhecer ou nunca ouviu falar? Muito além do tempo, qual a importância do filme Cidadão Kane na atualidade?

A evolução das técnicas do cinema

Ângulos nunca antes usados – Welles foi o primeiro a mostrar o teto do cenário em um filme hollywoodiano –, efeitos visuais que deixam o filme grandioso, direção de arte inovadora para a época como o uso de maquiagem para envelhecimento, utilização de foco profundo, colagem de depoimentos em edição super rápida, a fotografia e seu jogo de sombra e luz, transições de cena e sons para dar o tom são algumas das técnicas que são usadas até hoje e estudadas pelos amantes da sétima arte. Cidadão Kane marcou uma era e é atemporal porque além das inovações técnicas, sua narrativa é apresentada de forma não cronológica, começando pela morte do protagonista, deixando o espectador curioso pelos fatos que vão edificar o enredo. Esse clássico que foi super vilipendiado quando foi lançado é atualmente cultuado no mundo todo e considerado o melhor filme de todos os tempos.

O poder da imprensa sensacionalista

Ocorrências para controlar uma sociedade através de uma imprensa sensacionalista. Estamos falando da atualidade? Pode ser também, mas na década quando o filme foi lançado a sujeira por trás do sistema de jornalismo chocou o público e muitas pessoas abandonaram as salas de cinema revoltadas. Como assim um personagem egoísta e egocêntrico no meio de tanta gente galã dos anos 40? As críticas lançadas pelo filme são super atuais, quem nunca viu uma luta para que o ego continue no alto? Sujeira, corrupção, manipulação midiática é retrato tanto de ontem quanto de hoje. Isso nos faz questionar que caminhos estamos tomando e por que o filme deveria ser estudado por gerações mais novas, gerando discussões perante os problemas que ainda perduram na contemporaneidade.

A questão da memória

“Eu me recordo de absolutamente tudo, jovem. É a minha maldição. É uma das maiores maldições infligidas ao homem: a memória”. A frase de um personagem do filme retrata bem o que devemos refletir na atualidade: a memória.  Cidadão Kane lida diretamente com a perspectiva da memória, mediada pela imprensa, nosso olhar moldado pelo discurso jornalístico, pela observação e validação dos testemunhos e essa reflexão sobre o ponto de vista intrínseco ao ato da memória transcende o tempo e é hoje o problema que ainda estamos batalhando. O papel da memória é contraditório, pois a memória pode ser deturpada e manipulada. Todavia, ela também é representação. Ao tentar focar na memória, o filme não registra a memória em si, mas suas representações secundárias, como afirma David MacDougall no livro Transcultural cinema (1998). O resgate da memória é um exercício contínuo e Cidadão Kane é um objeto de estudo perfeito de como esse resgate (através das testemunhas que o repórter entrevista durante sua investigação sobre Charles Foster Kane) é intercalado com os sentimentos dos personagens e é afetado pelos relatos, comprometendo a veracidade dos fatos. O filme aborda não só uma reflexão sobre o papel da mídia e suas práticas de manipulação como também o papel da memória tanto em 1940 como nos dias atuais, fragilizando também nossa percepção e nos manipulando como espectadores. É um jogo de gato e rato complexo o que define a obra.

“As pessoas vão pensar o que eu disser para elas pensarem.” Será? O que você pensa sobre Cidadão Kane? Conta pra gente nos comentários. =)

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