“Abri curiosa
O céu.
Assim, afastando de leve as cortinas. […]”

“Fagulha” (Trecho), de Ana Cristina Cesar, em A teus pés. São Paulo: Brasiliense, 1982

Na década de 1970, o Brasil vivia seus anos mais truculentos. O ato institucional de número 5, que consolidou a censura e dissolveu o poder legislativo, funcionou como o abrir da porteira para todo um aparato repressivo. Mesmo artistas e intelectuais famosos estavam sob o jugo da censura e da perseguição — motivo pelo qual quem tinha meios (financeiros, políticos e afetivos) para se exilar acabou indo mesmo para o exterior.

Em terras brasileiras, a produção literária mudou um pouco. A Tropicália já tinha vindo e já tinha se acabado. Foi um movimento rápido, tendo durado apenas de 1967 a 1969, entretanto bastante intenso. Suas formas debochadas de lidar com assuntos muito sérios, por um lado, tinham causado algumas rusgas e debates críticos, gerando certa oposição. Por outro lado, do choque veio a semente que frutificou em mentes tão jovens quanto as dos músicos tropicalistas.

Aliando o desbunde tropicalista à necessidade pungente de se fugir das forças repressoras, fossem dentro do governo, fossem dentro do mercado editorial, uma geração de poetas produziu uma literatura que chamava a atenção por um conjunto de motivos.

LITERATURA MARGINAL camiseta literária poesia marginal

Ver coleção – Poesia marginal Poeme-se

1. APARATO FÍSICO DIFERENCIADO

O nome “literatura marginal” se dá pelo fato de que essa literatura era produzida fora do mercado editorial. Era a poesia ligada à rua, no sentido de que seus poetas — Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Paulo Leminski, dentre outros — escreviam seus poemas, faziam cópias em mimeógrafo, encadernavam de maneiras artesanais e os vendiam entre colegas, amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos, fosse em casa, no bar, no café, numa livraria ou até em festas.

Ricardo de Carvalho Duarte, conhecido como Chacal, tinha 20 anos de idade em 1971, quando fez cem exemplares mimeografados de seu primeiro livro, Muito prazer, Ricardo. Para vende-los, levava alguns embaixo do braço. Hoje em dia, chamaríamos isso de “edição artesanal” e não é difícil encontrar editoras que estão produzindo livros com costura feita por mãos humanas ao invés de algum maquinário, o que demonstra que aquela geração dos anos 70 ditou regra.

2. VIVÊNCIA INSERIDA NA POESIA…

Esses poetas não iam até os lugares apenas para vender sua poesia. Essa geração aproveitou bastante a ampliação de espaços para as artes provocada pelos artistas dos anos de 1960, quando shows de música saíram dos espaços de quatro paredes em que tradicionalmente ocorriam e passaram a acontecer em parques e demais lugares “diferentes”.

Os poetas marginais viviam a vida nas ruas, aproveitando o que dela havia de melhor e de pior. Aliado a isso está o tema da festa, também muito difundido pela tropicália poucos anos antes. A festa era aquele acontecimento que integrava pessoas de diferentes estratos sociais e

econômicos em um mesmo lugar, que democratizava até certo ponto as relações interpessoais. A festa, contudo, saiu também do seu ambiente fechado e alçou voos maiores — tornando as próprias vida e arte formas de festas. Chacal imortalizou isso em seu curto poema “Rápido e rasteiro”:

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

3. ATÉ MESMO AS COISAS MAIS ÍNTIMAS

Se os lugares em que os poetas transitavam figuravam de alguma forma na poesia deles, o que dizer daquilo que acontecia no lugar mais importante de todos, o mais íntimo, aquele em que, nas palavras de Roland Barthes, o indivíduo não é uma imagem de si (ou seja, não é ou não está sendo visto por ninguém por um intervalo de tempo)?

A irreverência tropicalista ganhou novos formatos sob a escrita dos poetas do mimeógrafo. Com isso, temas de foro íntimo chegaram à folha de papel e, por consequência, aos olhos dos leitores. Em “Arpejos”, Ana C. escancara o seu universo de uma maneira quase inédita nas letras brasileiras. Seu poema não trata apenas da vagina, mas de uma vagina real, pulsante e, igualmente, sofredora de moléstias mil. Abaixo, a parte 1 do poema:

Acordei com coceira no hímen.

No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

4. POESIA E PROSA SÃO DIFERENTES UMA DA OUTRA? NÃO MESMO!

O fragmento do poema “Arpejos”, citado acima, já deixa claro este outro ponto importante. Os poetas marginais não estavam apenas à margem do mercado editorial, eles estavam à margem da própria intelectualidade. Se os grandes críticos defendiam uma coisa, eles faziam o oposto. Mais do que ânsia por provocar, eles buscavam tirar a poesia-em-papel do seu lugar-comum e das regrinhas não ditas que a circunscreviam.

Uma das formas que conseguiram fazer isso foi diminuindo ou, no caso de Ana Cristina César, apagando as fronteiras que separavam poesia de prosa. Seguindo alguns poetas anteriores a eles, inseriram em suas criações os outros pontos mencionados nesta coluna, produzindo, portanto, um produto original, provocativo e inovador. O poema abaixo, “Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”, também da Ana C., se situa naquele limiar entre a poesia, o aforismo e, por que não? O diário:

Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse… Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.

5. A RELAÇÃO ENTRE A LITERATURA E AS OUTRAS ARTES

Ao ouvir os álbuns que os músicos tropicalistas lançaram após o exílio, percebemos a força que vem da junção das diferentes artes. Para eles, a música não estava separada das outras produções artísticas. Caetano Veloso, para citarmos um exemplo, musicou um poema do poeta brasileiro Souzândrade em seu disco Araçá Azul, de 1973.

A geração do mimeógrafo, por sua vez, inseriu na sua poesia diversas menções e elementos provenientes de outras artes. Em “este livro”, poema de Ana C., o eu lírico fala da produção de um livro de poesia fazendo associações à prosa, em primeiro lugar, e à música, logo depois.

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, chameur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

6. IRREVERÊNCIA ATÉ QUANDO TRATA DOS CLÁSSICOS

Viver à margem significa olhar para trás e, ao invés de bater continência, fazer troça. A geração de 1970 não fugia ao respeito apenas com as autoridades política e intelectual. Pelo contrário: tudo aquilo que tinha sido, de alguma maneira, consagrado, acaba se tornando objeto de escárnio. A poesia desses jovens era uma poesia que pulsava pelas ruas, que tinha palavreado de rua, então, além de lidar com os muitos falares populares, eles “atualizavam” temas, motivos e usos da língua portuguesa consolidados pelos séculos. Em “Jogos Florais”, Cacaso pega o tema do exílio — importantíssimo em uma época de grande repressão —, cantado lá no século XIX por Gonçalves Dias e o reformula totalmente:

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
 
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.
 
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

Caminhar pelos poemas produzidos pelos poetas citados acima faz com que nos incomodemos com formas inusitadas de poesia. Sua produção foi vibrante e voraz, causando impacto naqueles tempos e ainda hoje, o que demonstra a força inovadora que fez com que eles, como um liquidificador cultural, misturassem as criações culturais dos anos imediatamente anteriores com as tensões política, comportamental e filosófica causadas pelo final da década de 1960. Essa geração de poetas mostrou que a poesia pode ser, sempre que quiserem, despojada, portanto fiquemos por fim com este poema curto de Paulo Leminski, sem título:

rio do mistério
o que seria de mim
se me levassem a sério?

4 Replies to “SEIS PASSEIOS PELA LITERATURA MARGINAL DA GERAÇÃO MIMEÓGRAFO

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