Escrevo porque o instante existe.

Cecília Meireles

O dia 25 de Julho está marcado no calendário como o Dia Nacional do Escritor e esse fato me faz pensar na seguinte questão: o que faz de alguém um escritor? A distância entre ser um escritor e não o ser é uma linha bastante tênue. Se você lesse que Carlos Drummond de Andrade, aquele que você estudou no colégio, não se considerava um escritor, você com certeza ficaria com uma pulga atrás da orelha. Mas foi exatamente o que ele revelou, em 03 de Junho de 1984:

“Posso dizer sem exagero, sem fazer fita, que não sou propriamente um escritor. Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projetou no papel, fazendo uma espécie de psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mesmo porque não havia analista no meu tempo, em Minas. ”

Este depoimento se encontra no livro Por que escrevo?, de José Domingos de Brito, publicado pela primeira vez em 1999. Brito se inquietava com a mesma indagação que germinou a escrita desta coluna: por que escrever, qual o motivo de passar às vezes mais de 12 horas por dia, sentado, escrevendo, relendo e reescrevendo (em) folhas de papel? Em suma, o que leva alguém a se tornar, dentre todas as profissões do mundo, um escritor?

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Lembremos que poucas vezes na história do Ocidente as pessoas conseguiram viver da sua habilidade de escrita. Havia competições teatrais na Grécia Antiga, cujos prêmios davam condições aos vencedores de viver bem, mas a proporção entre os ganhadores e os perdedores era abissal. Durante a Idade Média, vivia bem o escritor que trabalhasse para ou em conjunto aos reis ou à Igreja, sendo menestrel, trovador, monge etc. Mas em ambos os casos, escrever se diferia bastante da nossa visão atual sobre trabalhos e remuneração. Quando os tempos mudaram, basicamente ao longo do século XX, escrever ainda atraía pouca remuneração na maior parte dos casos.

Para piorar, a escrita era um mar somente navegável por homens até bem pouco tempo atrás. Virginia Woolf, em Um teto todo seu, escancarou as leis sociais, oficiais e oficiosas, que impediam as mulheres de escrever profissionalmente, isto é, de ter tempo e espaço para escrever e, além disso, buscar editoras e, por fim, publicar seus escritos. Mary Shelley, a autora do clássico Frankenstein, precisou do apoio e da permissão do marido, o poeta Percy Shelley, para ter seu livro publicado, assim como Mary Ann Evans precisou usar um pseudônimo masculino, George Eliot, para publicar suas obras. Um parêntesis importante, aqui, é que muito pouco mudou de lá para cá, pois mesmo após a fama, J. K. Rowling, a criadora da série Harry Potter, necessitou de um pseudônimo masculino para ser levada a sério na escrita do gênero policial.

Sexismos à parte, parece que a pessoa, para ser considerada uma escritora, precisa vencer muitos obstáculos, a começar pela folha de papel em branco. Após preencher essa folha com (muita) tinta, a pessoa precisa se digladiar com o mundo da impressão: procurar ou não uma editora, custear ou não a edição, participar ou não de feiras, festas e bienais literárias, e daí por diante. Há o elemento social deste processo de consolidação da vida de escritor, que é quando os outros olham para você e te veem como escritor, e há o elemento individual, que tem a ver com entender a si mesmo e com identificar-se com esta profissão.

Por conta disso tudo, eu, que não sou um escritor, apenas um leitor compulsivo e um curioso com todos os assuntos que giram em torno desta minha obsessão, pedi ajuda a seis escritores recentes. Com “recentes”, não me refiro às idades deles, apesar de serem todos jovens, mas, sim, com a produção deles, que ainda não é tão extensa. O que me impulsionou foi a vontade de saber por que, em um cenário que parece mais tóxico do que agradável, os jovens continuam escrevendo. Cada vez há mais livros publicados e, felizmente, mais prêmios literários. Isso significa, pura e simplesmente, que a galera continua não só a escrever em folhas de papel ou laudas digitais, mas que continua desejando viver como um escritor. Se você acha que isso ocorre por conta de algum romantismo relacionado à figura do escritor, pode tirar os cavalos da chuva. Para muitos deles, escrever é como respirar. Com vocês, os depoimentos de Aline Bei, Bruna Meneguetti , José Almeida Jr., Marcos DeBrito, Mione Le Fay e Rodrigo Tavares.

Aline Bei

“Vida.” Esta única palavra, mas tão cheia de significados, foi a resposta que a vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 com o seu romance de estreia O Peso do Pássaro Morto me deu ao lhe perguntar o que significava escrever. Imediatamente, lembrei de Carolina Maria de Jesus, a qual nos ensinou que escrever é uma forma de existência, de vida. E quando a Aline Bei se deu conta de que era uma escritora?

“ah, para me considerar uma escritora… foi uma transição, na verdade, do teatro para a escrita. comecei a escrever antes de me perceber escritora, e quando o Pássaro nasceu, 10 anos depois, a escrita se materializou em um objeto que carrego comigo, logo nasce outro. e outro. sei que a estrada é longa.”

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Bruna Meneguetti

“Para mim, a escrita está em cada ação, pensamento, observação e conversa”, me disse a jornalista e escritora, que recém-lançou seu segundo romance histórico, O último tiro da Guanabara. “Escrever é também o impulso inicial de só querer escrever e nada mais”, isto é, “não há como parar, e nem quero.” Para ela, “Escrever é uma necessidade e não escrever é permitir que a tristeza bata à porta. Só sinto alívio quando coloco as ideias em texto, isso me dá uma felicidade gigante”. Bonito, não é? E para colocar as palavras no papel, tem que se vencer toda uma série de amarras: medos, ansiedade, desespero… então, quando perguntei quando ela se deu conta de que era uma escritora, ela assim me respondeu:

“Foi quando consegui pela primeira vez escrever e divulgar um texto sem essas amarras. Escrever é desgarrar desse medo e de tantos outros. Quando consegui, pensei: “acho que cheguei em algum lugar e desse ponto não tem mais volta”. Apesar disso, até hoje me pego olhando para o que já produzi e fico pensando: “Nossa, sou mesmo escritora!”. A ficha cai a todo o momento e em cada pequena ação essa frase inventa um novo jeito de se reafirmar”.

José Almeida Jr.

Para o autor do recém-saído do forno O homem que odiava Machado de Assis, seu segundo romance, não deve haver glamourização do ato da escrita, não. “Escrever para mim é acima de tudo trabalho, dedicação e concentração”, afirma. Muitas vezes, o trabalho da escrita é penoso — como os trabalhos de todos nós, cidadãos comuns, correto? Mas há muito prazer ali, confirma José Almeida Jr.: “Um capítulo bem construído, uma ideia a respeito de um personagem, ou uma pequena cena de humor. Tudo isso faz a atividade de escritor valer a pena”. Seu primeiro romance, Última Hora, venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2017 e nem isso facilitou que ele se visse como escritor:

“Eu comecei a escrever no ano de 2012. Mas o meu primeiro livro só foi publicado em 2017, quando fui vencedor do Prêmio Sesc de Literatura com Última Hora. Como eu tenho outra profissão, foi difícil de me reconhecer como escritor. Acho que isso só aconteceu quando eu comecei a fazer o circuito literário do Sesc, com participação de festivais, feiras e bienais do livro. A partir daí, comecei a colocar escritor no campo “profissão” das fichas dos hotéis”.

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Marcos DeBrito

“Acredito que eu seja um contador de histórias”, disse o autor de Casa dos Pesadelos, seu quarto romance. Faz sentido: Marcos DeBrito, além de literatura, também é escritor de roteiros cinematográficos e cineasta. Ele continuou a explanação, afirmando: “no cinema ou na literatura, encontrei um meio de expressão no qual eu consigo expor um pouco das minhas dúvidas”. Por um lado, ao escrever, há um pouco de “libertar meus desejos reprimidos, exorcizar meus próprios demônios”, mas, para ele, escrever significa “compartilhar traumas e impressões de mundo, com a expectativa de encontrar outras pessoas que tenham os mesmos dilemas que eu”. E quanto ao momento em que se percebeu como um escritor?

“Tenho um conhecido que diz que uma pessoa precisa ter ao menos dois livros publicados pra ser chamada de escritor, senão ele é só mais um sujeito que escreveu um livro. Não sei se concordo totalmente, mas também não discordo dessa teoria. A verdade é que para ser “escritor” basta escrever. No entanto, comercialmente falando, para ser chamado de “autor”, acredito que é preciso, sim, ter uma constância na produção e saber se movimentar no mercado editorial. A escrita precisa ser encarada como profissão, e acredito que comecei a me considerar um autor de verdade só depois do meu terceiro livro, quando comecei a ser chamado pra participar de feiras e começou uma cobrança da editora por entregas anuais de novos originais. Mas a veia criativa sempre esteve em mim. Tanto que me formei em cinema e atuo como roteirista e diretor nesse mercado desde 2001.”

Mione Le Fay

Quando a escrita se mostra primordial para o ato de se expressar e de se conectar com os outros, só podemos concordar com a autora de A Corte Fae, quando ela afirma: “Escrever é viver”. Ela se explica: “De verdade, eu tenho mais facilidade de me expressar pela escrita do que de qualquer outra forma”. Em suma, para ela, “escrever é tão importante quanto respirar” — e esta parece ser uma opinião popular, a julgar pelos escritores entrevistados nesta coluna. Quanto ao momento em que passou a se ver como uma escritora, Mione Le Fay relevou o seguinte:

“Eu sempre gostei muito de escrever, poesias, roteiros, crônicas… Mas acho que a ficha de ser escritora só caiu mesmo quando eu publiquei meu primeiro romance, quando eu vi o livro na mão de uma aluna minha, foi ali que eu descobri que era realmente uma escritora”.

Rodrigo Tavares

“Escrever para mim é como respirar”, sentenciou o autor de Andarilhos, romance que vem fazendo sucesso no meio dos booktubers e bookinstagramers — que são os nomes dados àqueles que, como eu, divulgam literatura nas redes sociais. Ao perguntar a ele se conseguia se imaginar sem a escrita, foi taxativo: “Simplesmente não me vejo sem fazer isso”. Além de escritor, Rodrigo Tavares tem outra profissão — tal como a vasta maioria dos entrevistados para esta coluna. A relação entre os dois trabalhos e a identificação com a profissão de escritor são explicadas no seu depoimento, abaixo: “A vontade de ser escritor existe desde a adolescência. Sempre fui um leitor ávido e nada mais natural que querer escrever histórias. Publiquei em 2007 um conto chamado O andarilho e em 2008 uma novela chamada Noite Escura. Dali em diante, a vida real me atropelou e me contentei em ficar só lendo. Quando me falavam que eu era escritor, ficava constrangido. Em 2016, não consegui mais segurar a necessidade e realmente me aceitei escritor, nesse país que pouco lê e pouco valoriza seus artistas. Acredito que em 2017 os outros também passaram a me enxergar assim.”

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2 Replies to “SOU EU UM ESCRITOR? — SEIS AUTORXS EM BUSCA DA RESPOSTA (A ESTA PERGUNTA)

    1. É sempre muito bom ter os amantes de leitura aqui por perto, Simone. Volte sempre.

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